Capítulo 12 - Água


     Numa noite tempestuosa, tudo estava quieto no Palácio Ministerial. Durante o dia ainda dava para ouvir o caminhar rítmico dos soldados e as vozes dos funcionários comprados de Leonard através das grossas paredes do cativeiro luxuoso, mas era durante a escuridão que os prisioneiros se sentiam ainda mais abandonados, excluídos de tudo.

     Emily e Alexander dormiam juntos no sofá circular, abraçados fisicamente e na ilusão de serem livres de novo. Emily já planejava uma fuga, era incapaz de aceitar ter sido capturada pelo inimigo, mas Alexander havia se conformado, tinha medo de se arriscar depois de tudo o que passou e ainda não estava completamente recuperado. Lá no fundo, um só queria proteger o outro.

     Lollipop dormia no chão, esparramada sobre os tapetes, inerte no mesmo lugar, alheia ao mundo sem olhar em volta. Ela não comia, não falava, não reagia a qualquer interação de seus companheiros de cárcere, apenas esperava seu amado Leonard vir lhe resgatar, acreditando em seu íntimo que ele a amava de verdade e tudo não passou de um mal entendido. Porém, ela sabia que era um desejo impossível, e isso havia lhe destruído, fazendo-a ser reclusa de si mesma e esperar definhar num fim lento e doloroso. Natasha ainda se importava com ela, e passava seus dias ao lado da garota. Aos poucos ela conseguiu alcançar Lollipop em seu isolamento, mas apenas o suficiente para receber negativas quando lhe oferecia água ou comida.

     Lollipop havia adormecido no tapete, com a solidão lhe rendendo uma fisionomia adoecida. Preocupada, Natasha lhe cobria com um cobertor quando percebeu Ernest levantar de seu leito e caminhar rumo às janelas gradeadas, observando os pingos de chuva atingirem o vidro como pequenos meteoros sem peso.

     — Também está sem sono? — Natasha se aproximou dele — Estou preocupada com ela, coitadinha. Tão nova e já sofrendo tanto.

     — Estou preocupado com a July — Havia tristeza na voz de Ernest, uma tristeza sufocada pela impotência — O que será que houve com ela?

     — Também estou preocupada, mas eu tenho fé que ela está bem — Natasha se tornou curiosa — Chegou a conhecer um rapaz chamado Edmond? A July me falava muito dele.

     — Sim, nos encontramos em algumas ocasiões. Sempre me pareceu um bom rapaz, não acredito que ele tenha assassinato o próprio tio — Ernest respondeu com seriedade — Parece que ele sumiu também.

     — Minha intuição diz que ele vai aparecer alguma hora, ele e a July, e eles vão salvar a gente — Natasha foi tomada pelo respiro da esperança.

     — Eu não quero parecer indelicado, mas o Max Williams também está envolvido nisso tudo — Ernest suspirou — Se o Leonard cair, ele cai junto. Maldito Max Williams! — Ernest apoiou seu peso no vidro da janela com o braço estendido — Queria ter acreditado na minha filha quando ela falava aquelas coisas absurdas sobre ele! Agora eu sei que era tudo verdade, mas já é tarde demais. Me desculpa...

     — Não precisa se preocupar — Natasha tocou seu ombro, o confortando — Max é meu filho sim, mas ele escolheu o caminho errado, igualzinho ao pai. Quero que ele pague pelos seus crimes de uma forma justa, mas acima de tudo quero ver você e July bem. Eu tenho fé que logo vamos estar todos juntos de novo. É essa fé que me faz suportar esse pesadelo.

     — Sabe... — Ernest a encarou com um sorriso no rosto — Você fala umas coisas muito bonitas para uma louca.

     — Eu não sou louca — Então eles riram juntos nas sombras do cativeiro ao perceberem que foram enganados de novo pela mesma pessoa — Max Williams!

***

     Um imenso monstro marítimo vindo em sua direção nas profundezas do oceano cinzento, era disso que Ed se lembrava antes de tudo escurecer. Agora ele se encontrava num lugar que ele sabia onde era, mas que não conhecia. Ele estava em mais uma cela, trancado como um canário numa gaiola. E como um bom passarinho ele cantava.

     — Il fut un temps où j'étais comme vous — Ed cantarolava com seu francês perfeito, deitado no banco áspero que lhe serviria de acomodação — Malgré toutes mes galères je reste un homme debout.

     Uma porta foi aberta nas grades da cela, permitindo a entrada de um garota negra com cabelos lisos da cor azul vibrante que caíam sobre seus ombros. Ela devia ter uns dezoito anos, usava um macacão azul esfarrapado e trazia outro em mãos, junto a um par de tênis simples.

     — Ei forasteiro! — A garota largou o macacão e os tênis diante de Ed, que encarava a forma como os cabelos dela se alinhavam como se estivessem sempre molhados. Algo naquela garota lhe lembrava o oceano, não o do novo mundo, turvo e agressivo, e sim o oceano do antigo mundo, intenso, belo e misterioso — Vista-se! Vamos dar um passeio.

     A garota saiu da cela e retornou instantes depois quando Ed havia trocado suas roupas estragadas pelas novas vestimentas. O macacão não era perfeitamente confortável, mas era prático.

     — Não sabia que os yarianos deixavam seus prisioneiros terem a companhia de meninas bonitas — Ed comentou com ironia, seguindo a garota para fora da cela através de um corredor largo e vazio.

     — Muita gentileza de sua parte, mas você não é um prisioneiro, tecnicamente você é um cativo — A garota explicou — Os prisioneiros ficam restritos às suas celas, enquanto os cativos podem se reintegrar a nossa sociedade, mas não podem ir embora — Após o esclarecimento, Ed percebeu o que a palavra "cativo" costurada nas costas de seu macacão e abaixo de seu nome significava. Enquanto isso, a garota não sabia ainda o quanto Ed precisava justamente fazer aquilo que ele não podia fazer ali, ir embora — A propósito, meu nome é Tétis. Eu já sei o seu nome, mas se quiser se apresentar...

     — Todo mundo me chama de Ed.

     — Tá bom, Ed — Ela ressaltou o ênfase no nome do garoto — Eu vou ser sua guia pela cidade — Eles haviam chegado num corredor descomunal, provavelmente indo de uma ponta a outra da cidade submarina, tão grande que faria o Capitão Nemo se envergonhar de seu humilde Nautilus. O corredor era extremamente iluminado, possuía paredes curvas recobertas por placas de vidro e uma movimentação moderada de veículos de carga e trabalhadores, todos usando os mesmos macacões azuis e sem personalidade. Tudo ali era esterilizado e uniforme, muito prático, mas parecia deveras solitário — Yara funciona como um gigantesco submarino em forma de barracuda, desbravando o fundo dos mares, de onde retira todos os seus recursos — Tétis explicava enquanto caminhavam em direção a um dos veículos de carga, de modelo branco, uma versão mais robusta de um carrinho de golfe.

     — Essa parte eu já sei. Vocês escolheram viver no oceano, o mais longe possível das cidades flutuantes. Mesmo mantendo relações comerciais e seguindo a os tratados da nova sociedade vocês preferiram estabelecer uma economia própria e autossustentável baseada na energia absorvida dos sais minerais presentes nessa água saturada — Ed a interrompeu, e percebeu o olhar de julgamento de Tétis por ele ter atrapalhado seu momento — O que foi? Eu sou filho de diplomatas.

     — Tudo bem — Tétis riu, desconcertada — Já que o bonitão sabe de tudo então eu vou me limitar a demonstrar o meu trabalho e resumir nossas políticas de convivência.

     — Fechado — Eles embarcaram no carrinho e Tétis deu a partida. Por um momento, Ed observou o vidro. Em meio a escuridão do fundo do mar, vez ou outra era possível ver a silhueta de algum peixe, ou a variação monstruosa do que algum dia já foi um deles — Agora eles não parecem nem um pouco amigáveis.

     — Aqui em Yara cada cidadão recebe uma missão, que é definida pelo teste de aptidão que todo mundo faz no último ano do colegial — Tétis dirigia pelo corredor numa velocidade cautelosa, controlando seu íntimo desejo de acelerar muito mais do que o permitido — O objetivo desse teste é perceber os talentos naturais de cada um e os encaminhar para o setor de trabalho melhor apropriado. Eu sempre fui uma boa motorista, então acabei caindo no setor de distribuição. Meu trabalho é percorrer esse lugar, o corredor secundário, e levar essas tralhas para os diferentes setores de trabalho — Ela apontou para a carreta acoplada na traseira do veículo — Aí tem peças de maquinário para o setor de engenharia, correspondência, marmitas, etc. e etc.

     — Apesar de rudimentar, é um modelo bem interessante — Ed comentou fingindo interesse.

     — É satisfatório. A gente tem toque de recolher e muitas restrições, mas enquanto estivermos trabalhando e cumprindo com nossa missão o governo central nos fornece tudo que precisamos. Comida, moradia — Ela analisou o macacão que vestia com desgosto — Vestuário... Enfim, Yara não aceita indivíduos supérfluos, todo mundo tem que contribuir. Continuando, a gente começa na escola básica, depois você vai para o colegial e faz seu teste de aptidão, onde descobre sua missão. Então você começa num estágio obrigatório no seu setor enquanto faz o médio e fica nisso por uns dois anos até a formatura. Depois disso você entra no setor efetivado e começa a trabalhar para o resto da vida. Não é divertido!? — Tétis perguntou cheia de sarcasmo.

     — Muito! Deve ser ótimo! — Ed retribui com ironia, surpreso — É o sonho de qualquer pessoa se matar de tanto trabalhar.

     — Dependendo do seu desempenho você pode subir de cargo, o mais alto é o sindicato, onde você ganha caráter de importância próximo ao governo central. Funciona como uma administração de intermédio entre patrões e funcionários, você cobra os superiores sobre os recursos em falta, negocia aumentos no orçamento e afins. E dependendo do seu desempenho no sindicato você consegue concorrer nas eleições para governador de seu setor. E por fim, dependendo da sua performance como governador você pode concorrer ao cargo de almirante, mas nesse caso nós já temos um no poder faz tempo e até agora ninguém conseguiu desbancar ele.

     — Tryton Maquinaquam — Ed comentou com interesse, aquele nome não lhe era estranho, talvez já tenha ouvido seu pai falando ele muito tempo atrás — Esse eu não cheguei a conhecer, mas ouvi falar sobre o governo dele como almirante de Yara.

     — Ele é bem reservado para assuntos exteriores, legal você saber pelo menos o nome dele — Tétis encarou Ed, ela já conhecia de cor aquele trajeto, nem se importou em prestar atenção no caminho por onde passava — Mas eu não tenho nada do que reclamar sobre o Tryton, ele é bem competente. Se Yara funciona é graças a ele — Ela parou o carro numa interseção cruzada — Aqui a esquerda são é um caminho para os dormitórios, você vai receber o seu mais tarde e é do lado do meu, então qualquer coisa pode me procurar. Não precisa se preocupar em se perder aqui dentro, todos os dormitórios tem passagens para o corredor principal, onde você pode pegar os comboios rumo a todos os setores de trabalho. — Tétis virou para o lado contrário — Ali são os salões de refeição e mais a frente o setor de higiene, como aqui é tudo compartilhado nem se atreva a demorar no banho.

     Tétis continuou sua rota, parando nos diversos setores para descarregar pacotes enquanto continuava esclarecendo aspectos da convivência na sociedade yariana. Uma sirene geral acordava todos as seis da manhã, e eles tinham exatamente uma hora para se aprontarem e se apresentarem nos postos de trabalho. As refeições eram oferecidas nos salões em seus horários específicos, sem atrasos, adiantamentos ou direito a repetições e porções extras. A rotina de trabalho acabava às seis da tarde, e às nove da noite soava a última sirene, marcando o toque de recolher. Os únicos que tinham permissão para estar nos corredores após o toque de recolher eram os guardas e alguns membros do sindicato. Tudo ali era extremamente cronometrado e pragmático, sem faltas ou excessos. Outro detalhe interessante era o fato de que os horários de Yara eram sem sincronia com os das outras cidades, as noções de passagem do tempo eram diferentes embaixo d'água e em movimento, o que fazia Yara ser imune às mudanças de fuso horário.

     A conversa entre Tétis e Ed fluiu naturalmente enquanto eles percorrem quase toda a extensão do submarino, passando por salas de comando, decks de observação, fábricas, enfermarias, escolas e diversos outros locais de trabalho. O conhecimento prévio de Ed poupou Tétis de repetir a maioria das coisas que ela já estava cansada de explicar para os novatos na cidade, e Ed se impressionou com o senso de humor da garota, por vezes muito mais ácido do que aquelas águas turbulentas por onde a barracuda metálica serpenteava. No setor alimentício, Ed pulou do veículo e se ofereceu para ajudar a descarregar caixas repletas de leguminosas para um grande galpão. Essa ação fez Tétis o julgar como um exibido, mas era divertido ver alguém não habituado ao restrito sistema de trabalho tentar ajudar a sua própria maneira. Yara carecia de novidades.

     Quase no final do corredor secundário o ambiente mudou. As paredes de vidro foram substituídas por placas robustas e cinzentas, como se eles tivessem entrado num bunker. Agora não havia mais intercessões ou cruzamentos, e as salas eram protegidas por grandes portas trancadas e protegidas por guardas.

     — Esse é o setor do governo central, onde funcionam os sindicatos de cada setor e outros postos importantes, como esse aqui — Eles pararam diante de uma porta trancada, com a figura de um telefone brilhando numa placa vermelha — Esse é o posto de comunicação.

     — Posto de comunicação? — Ed mudou de expressão, tornando-se sério como se planejasse algo sombrio — Então daria para enviar uma mensagem daqui para as outras cidades.

     — Até daria, mas ninguém tem acesso a esses postos — Tétis respondeu — Dificilmente o governo central autoriza o uso de seus equipamentos por um trabalhador médio. E nem pense em fugir ou tentar invadir, tem câmeras por toda parte — Tétis apontou para o sistema de monitoramento instalado ao longo do corredor.

     — Entendo... — Ed respondeu, guardando seus planos para si. O carrinho deu uma volta e se afastou daquele espaço sombrio.

     Ed foi deixado no seu dormitório, um quarto monocromático apertado com tudo muito simples, e recebeu o privilégio de ter o resto do dia livre para se acomodar melhor em seus novos aposentos. Na parede havia um calendário digital que se atualizava diariamente com sua rotina. Ali, Ed percebeu que na manhã seguinte teria que fazer a prova de aptidão que Tétis havia mencionado, mas ele já tinha outros planos.

     Ao afastar a cama, Ed encontrou aquilo que tanto procurava, uma chance camuflada de tubo de ventilação.

     Como ninguém havia lhe dito que ele, necessariamente, precisava permanecer em seu dormitório, Ed decidiu sair e dar mais uma volta no corredor secundário. Enquanto observava o nado apressado das criaturas abissais, Ed percebeu que, diferente de Tétis, ninguém parecia ter interesse nele. Assim, ele pensou em duas possibilidades. Ou Tétis era uma tagarela intrometida, ou os yarianos eram muito precisos em seus prazos e horários, evitando qualquer tipo de distração supérflua.

     Em certo ponto de sua caminhada distraída, Ed esbarrou numa garota carregando uma caixa de ferramentas, derrubando-a e espalhando os utensílios pelo piso. Ed a ajudou a se levantar e a recolher as ferramentas, recebendo um agradecimento tímido em troca. Ele deu mais algumas voltas pelo cenário antes de retornar ao seu dormitório, nessa hora talvez a garota já tenha percebido que faltava uma peça em seu conjunto, e ela, uma chave de fenda, estava escondida na manga do macacão de Ed.

***

     Foi fácil para Ed desparafusar a grade do tubo de ventilação e se enfiar ali dentro, ele só teve que esperar até a hora do toque de recolher e aguardar até que a movimentação nos corredores diminuísse. Os tubos de ventilação formavam um verdadeiro labirinto apertado por onde Ed teve que rastejar cauteloso para não chamar atenção desnecessária. Apesar de ser impossível não fazer barulho ali dentro, Ed não se preocupou com esse fato, acreditando que os yarianos estariam acostumados a barulhos estranhos naquela instalação submarina. Ele só não esperava que o tubo fosse tão empoeirado e arranca-se um espirro seu, fazendo seu corpo gelar de apreensão logo acima do corredor principal. Os guardas dali ouviram o barulho e olharam em volta, mas seguiram com suas atividades quando o silêncio tomou conta do submarino novamente. Ed seguiu em frente, agora mais rápido antes que mais um espirro denunciasse de vez a sua presença.

     Após alguns minutos naquele caminho alternativo, passando por cima de dormitórios e dos corredores cheios de guardas, Ed conseguiu localizar o posto de comunicação, indo parar bem acima dele. Através das grades ele pode ver que o local estava vazio e escuro, e certificou-se que seu caminho estava realmente limpo antes de derrubar uma grade e sair do seu atalho claustrofóbico. Agora ele estava num local cheio de monitores diante de um balcão repleto de botões, microfones e alto-falantes. Com um comando, Ed conseguiu ativar as comunicações, e se apressou sabendo que seria pego a qualquer momento devido as câmeras espalhadas por todo lugar. Através de um botão deslizante Ed modificou a frequência pré-programada para outra que ele conhecia bem, a frequência de sua linha privada com o comunicador de Cornelius. Ele apertou o botão de gravar e se inclinou ao microfone.

     — Alô, Cornelius, você me escuta? Aqui quem fala é o Ed, Edmond Roberts, falando diretamente daqui debaixo. Eu não estou morto, fui resgatado por Yara e estou voltando de alguma maneira. Se você estiver em Newdawn e estiver ouvindo essa mensagem você está correndo um grave perigo. Foi o Leonard, ele conseguiu, mas isso não vai acabar assim, eu prometo voltar e resolver tudo, mas até lá você precisa se esconder. Repito, aqui quem fala é o Ed e eu estou em Yara.

     Assim que terminou de gravar e enviar sua mensagem, as luzes se acenderam e Ed foi rendido pelos guardas que adentraram na sala.

***

     Enquanto isso, em Newdawn, numa sala de comunicações muito parecida com aquela mas estabelecida nos túneis subterrâneos do Palácio Ministerial, os agentes de Leonard conseguem interceptar a frequência da mensagem de Edmond.

     — Acho que isso vai lhe interessar — Max disse, o acompanhando para dentro da sala. Após ouvirem a gravação, eles chegaram a uma conclusão — É do Ed, com certeza é do Ed.

     — Que inferno! — Leonard praguejou — Eu jurava que a torre ia dar conta dele.

     — Acha que ele volta para cá? — Max indagou.

     — Tanto faz se voltar, já é tarde demais pra ele — Leonard respondeu tomado por um excesso de confiança — Vai ser um contra um exército, sem chance nenhuma.

     — Senhor ministro — Um dos operadores da sala de comunicação o chamou — Desculpa interromper, mas acho que ele não vai tá sozinho.

     Max e Leonard se aproximaram do monitor que o operador observava, e lá viram o lançamento da nave Tubarão.

     — Ativem a Torre de Comando! — Leonard ordenou.

     A verdade é que a Torre de Comando nunca foi um artefato de vigilância ou monitoramento urbano, e sim a maior arma que Newdawn já possuiu, uma defesa antiaérea que localiza automaticamente qualquer veículo voador não autorizado num raio que se estende alguns quilômetros além dos limites da cidade. Quando ativada, a torre concentra um tiro de pura energia destrutiva disparado diretamente contra um alvo específico. O raio é disparado com uma porcentagem mínima de erro, incinerando tudo em seu caminho. Em pouco mais de cinco minutos a Torre se recarrega e possibilita um novo disparo.

     Às ordens de Leonard, a energia flui desde a base até o topo da torre, onde se concentra na forma de uma esfera luminosa esverdeada e pulsante, gerando ondas sonoras brutais que ressoaram pela vizinhança, chamando a atenção dos populares e assustando-os com suas vibrações potentes. Um feixe poderoso da mesma cor é disparado da esfera, atravessando o ar em alta velocidade e acertando o Tubarão por trás, lhe derrubando, promovendo a pane de seus sistemas e deixando uma nuvem grosseira de fumaça preta no céu enquanto a nave despenca rumo ao desconhecido.

     Ver as esperanças de Ed caindo do céu novamente ao serem atacadas por seu brinquedinho secreto e mortal criou um sorriso diabólico no rosto de Leonard. Com a Torre de Comando, Leonard era invencível.

***

     O tempo passou, e Ed amanheceu novamente na mesma cela de antes. Novamente trancado, longe de qualquer possibilidade de reverter a situação ao seu favor. A quanto tempo ele estava ali? Dois ou três dias? Pouco importa o tempo para um cativo rebaixado para prisioneiro. Agora a cela era tudo que Ed via e conhecia, e seus pensamentos se tornaram um refúgio para afastar a solidão. No conforto de sua imaginação, Ed podia ver July, Cornelius... Todo mundo que ele já considerou amigo um dia. Todos juntos, são e salvos no mundinho imaginário onde Leonard nunca existiu e Ed nunca foi obrigado a ser o herdeiro do ministério.

     Um estranho som de batidas o arrancou do devaneio, chamando sua atenção para uma movimentação estranha no corredor. O guarda que lhe vigiava, e que até então estava acomodado num banco, cochilando, se levantou cauteloso. Logo, Tétis apareceu, carregando um bastão metálico da sua altura e com semblante furioso.

     — Tétis, você não... — O guarda tentou se aproximar.

     — Sai da minha frente! — Com um movimento rápido de sua arma, Tétis derrubou o guarda e pegou as chaves. Ela abriu caminho até Ed com seu bastão e começou a bater nele repetidas vezes — Você estragou tudo! — Ed ria do aborrecimento de Tétis e tentava se defender das pancadas, em instantes eles estavam correndo um atrás do outro dentro da cela como num jogo de gato e rato — Que inferno! Você só tinha que seguir o protocolo!

     — Desculpa falar mas os seus protocolos são um lixo — Ed respondeu em meio a uma risada quando eles pararam de correr — E eu preciso mesmo voltar para casa.

     — Eu sei! Por isso nós vamos embora! — Tétis bateu na porta gradeada com seu bastão. Ed a encarou com incredulidade — O quê que foi!? Aconteceu uma coisa!

***

     Em todos os seus anos residindo em Yara, Tétis nunca havia passado nem perto do setor do governo central que não fosse pelo corredor secundário, e muito menos imaginou que um dia adentraria no restrito salão do almirante. Seu coração disparou num espasmo de nervosismo quando ela soube que Tryton Maquinaquam desejava vê-la pessoalmente. Enquanto caminhava por aquele alojamento desconhecido da barracuda, Tétis tentava esvaziar a mente, se preparando para a terrível bronca que levaria, mas a fúria que ela sentia por Ed naquele momento falava mais alto, o que a deixava visivelmente histérica.

     Tétis entrou numa grande sala semelhante a um museu de biologia marinha, cheia de fósseis e livros sobre os diferentes animais que residiam no fundo dos mares temerosos do novo mundo. Ao fundo da sala, diante de uma vidraça panorâmica e acomodado numa poltrona marrom, estava o almirante Tryton Maquinaquam. Ele se virou e levantou-se quando a viu, denunciando sua altura avantajada. Seus olhos eram sombrios como um maremoto furioso, usava um casaco azul turquesa digno de um rei dos oceanos ou de um marinheiro deveras experiente, e em seu rosto descansava uma barba mais branca do que a espuma das ondas, pontuda e agressiva. Porém, o que realmente impressionou Tétis foi o fato de pessoalmente ele não aparentar ser tão velho quanto parecia nos pronunciamentos televisionados pelo setor de comunicação.

     — Tétis Aurora Ponto — Tryton disse com sua voz grave enquanto se aproximava da garota. Ele estava de pé sobre uma plataforma elevada que o deixava ainda mais assustadoramente soberano — Gerente júnior do setor de distribuição.

     — Sim, senhor — Foi tudo que ela conseguiu dizer, consumida por aquela presença de autoridade.

     — Um de seus protegidos, o cativo Edmond Roberts, foi pego cometendo um grave delito — Tryton prosseguiu — Ele foi detido invadindo o posto de comunicação e enviando mensagens não autorizadas para um correspondente desconhecido. Você consegue imaginar o quanto isso poderia ter sido perigoso para nossa sociedade? Consegue imaginar que uma simples mensagem como essa poderia desencadear um ataque externo à nossa residência?

     — Não, senhor — Tétis engoliu em seco, sentindo-se oprimida pela pressão das palavras de Tryton.

     — Pois bem, Edmond já foi rebaixado à categoria de prisioneiro, e a partir de hoje ficará detido no setor de segurança — Tétis concordou balançando a cabeça — Quanto a você, senhorita Tétis, durante os próximos seis meses terá seus privilégios como servidora pública reduzidos pela metade, incluindo suas refeições e a manutenção de seus equipamentos de trabalho. Também terá que entregar doze horas extras além da sua carga horária habitual.

     — O que!? Mais doze horas!? Eu já trabalho o dobro do que qualquer um do meu setor! — Tétis questionou, chocada com o veredito de Tryton. Aquele castigo desarmou completamente a postura submissa que ela havia construído diante do principal governante de Yara e despertou novamente a sua histeria anterior. Agora ela estava boquiaberta, com os olhos arregalados e os punhos cerrados — Isso não é justo! Eu não tive nada haver com isso!

     — Você era a responsável pela orientação de Edmond Roberts na inclusão em nossa sociedade — Tryton prosseguiu sem se importar com os protestos de Tétis — Seja mais convincente da próxima vez. Pode se retirar.

     Raivosa, Tétis deu as costas para Tryton e saiu apressada, esbravejando internamente tudo que ela não podia dizer naquele momento. Assim que ela saiu, dois garotos entraram na sala, e Tétis os reconheceu como integrantes do setor de exploração, o único a ter contato com o mundo fora do mar.

     — Senhor almirante — Ela espiou um dos meninos dizer — Recebemos um comunicado do posto terreno número sete. Tem uns forasteiros lá exigindo vê-lo, eles dizem serem conhecidos de Edmond Roberts.

     Isso foi o suficiente para fazer Tétis sair correndo.

***

     — Então minha mensagem já foi rastreada — Ed comentou consigo mesmo num sussurro — Não dá pra sair assim, pode ser uma armadilha do Leonard...

     — Eu realmente não sei quem diabos é Leonard! — Tétis o interrompeu, sendo interrompida em seguida.

     — Meu irmão maluco que tentou me matar e agora dominou nossa cidade. Eu preciso voltar para impedir que ele faça uma loucura, comece uma guerra ou algo do tipo.

     — Legal — Tétis respondeu, atônita — Independente de ser ele ou não, essa é a única chance que você vai ter de fugir. Um chamado de um posto terreno nunca foi negado antes, é um dos raros momentos onde a barracuda atraca em terra firme, você não pode desperdiçar isso — Ela arrancou o boné que o guarda derrubado estava usando e o enfiou na cabeça de Ed, abaixando a aba para esconder seu rosto — Então se você quer mesmo voltar e salvar o dia, me faz um favor. Entra no carro e cala a boca!

     Assim, escoltado por Tétis, Ed caminhou rumo ao carrinho de carga da garota, passando por um corredor repleto de guardas derrotados pelos ataques de Tétis com o bastão.

     — Por que você tá me ajudando? — Ed perguntou quando eles entraram no carro, escondendo o rosto para evitar ser reconhecido — Eu não ferrei com a sua vida aqui?

     — Eu não tô te ajudando — Tétis respondeu — Vou te deixar no setor de embarque, lá você se vira!

***

     Apesar de residir nas profundezas do oceano, Yara ainda mantém conexões com o mundo da superfície através dos postos terrenos, uma série de instalações militares ao redor do mundo com o intuito de monitorar a movimentação das cidades flutuantes, uma linha de defesa contra algum possível ataque ou invasão. Os postos eram montados em pequenos prédios semelhantes a faróis esverdeados, da mesma cor da carcaça da barracuda.

     O Tubarão amanheceu num desses postos, um farol situado numa planície costeira. Dois yarianos funcionários do posto levaram July, Gaia, Wes e Cornelius até a praia, onde instantes depois a gigantesca barracuda metálica surgiu entre as ondas como um titã marítimo, uma verdadeira fera mitológica. O submarino seguiu a maré até a areia, onde sua boca se abriu configurando-se numa rampa retrátil. Tryton Maquinaquam surgiu logo depois, saindo de dentro de sua cidade móvel e caminhando pela areia.

     — Almirante Tryton Maquinaquam — Wes tomou a frente de seu grupo — Me chamo Wes Jeffords, aventureiro de Newdawn, e esses são meu companheiros — Ele apontou para seus amigos, logo atrás dele, acenando timidamente — Nós viemos em paz.

     — A que devo a honra desse contato? — Tryton perguntou seriamente, com seus braços cruzados.

     — Viemos em busca de Edmond Roberts, recebemos informações de que ele estaria em sua cidade.

     — Edmond Roberts é meu prisioneiro — Tryton respondeu irredutível, sem expressar qualquer tipo de hesitação em sua voz — Ele não tem autorização para deixar Yara.

     — Olha, senhor almirante — Wes prosseguiu, investindo numa negociação na tentativa de convencer Tryton a cooperar — O senhor recebeu notícias de Newdawn recentemente? O antigo ministro principal Solomon Roberts morreu, foi assassinado, e seu sobrinho Leonard Roberts assumiu o cargo. Mesmo tendo pouco tempo de mandato ele já vem tomando algumas atitudes questionáveis que podem gerar uma forte instabilidade diplomática entre as cidades flutuantes. Edmond Roberts é o herdeiro legítimo, ele precisa voltar e resolver tudo antes que seja tarde.

     — Se vocês fossem mais espertos não cederiam a um regime governamental de linhagem familiar fadado ao fracasso — Tryton rebateu com ironia — Cabe ao povo decidir o que é melhor para sua cidade.

     — Mas como o povo poderia decidir entre um e outro se um deles não estiver lá? — July deu alguns passos e se posicionou ao lado de Wes, desafiando o almirante e arrancando suspiros receosos de Cornelius e Gaia, logo atrás.

     — Exato, não existe escolha na política de vocês. Com licença.

     Tryton virou as costas e se preparou para adentrar novamente na barracuda, mas parou surpreso ao ver Edmond Roberts se aproximando pela rampa. Ele vinha despreocupado, inabalável aos olhares furiosos de Tryton. Ed olhou em volta, seu coração se encheu de alegria quando viu o grande Wes, o peculiar Cornelius, uma menina desconhecida e a adorável July Harmond vestida com as roupas mais estranhas que ele já viu na vida, o que a deixava com uma aparência engraçada. Um sorriso tímido formou-se nos lábios de ambos quando seus olhares se encontraram. Enquanto isso, Tryton estava visivelmente perturbado com a presença do garoto, mostrando como as coisas poderiam facilmente fugir do seu controle, algo que ele sempre evitou. Ele enfiou as mãos nos bolsos do casaco para esconder a rigidez de seus punhos, e ao olhar mais fundo na garganta da barracuda pôde ver a responsável por aquela ofensa. Tétis acenou para ele antes de subir novamente em seu carrinho e sumir no interior do submarino.

     — Acho que você ainda não entendeu a gravidade da situação — Ed voltou-se para Tryton, tirando o boné — Meu irmão Leonard é um sociopata com fome de poder, falta isso aqui para ele começar uma guerra — Ele pressionou o polegar com o indicador como se apertasse uma coisa minúscula — O oceano não pode te proteger para sempre.

     — Vai embora e faz o que é certo — Mesmo relutante, Tryton abaixou a cabeça e apontou para a nave Tubarão, gerando comemorações dos newdianos — Não traga mais problemas para Yara.

     — Muito obrigado almirante Tryton. Você não vai se arrepender de sua decisão — Ed agradeceu — Caso queira nos ajudar tenho certeza que juntos nós...

     — Meu povo nunca vai se envolver nos problemas do céu. Deixem o oceano fora disso — Tryton o interrompeu — Vocês já destruíram o mundo uma vez, não façam isso de novo. A natureza não merece o castigo da arrogância dos homens.

     Temendo que o almirante mudasse de ideia, Ed e seus amigos ignoraram os cumprimentos do reencontro e partiram rumo ao interior da nave Tubarão. Lá dentro, com um sorriso no rosto e sentindo-se imensamente feliz e gratificado, Ed agradeceu Wes pelo resgate e cumprimentou a recém conhecida Gaia, com a qual logo simpatizou. Por fim ele abraçou July, o abraço acolhedor que eles tanto sentiram falta naqueles dias separados. Cornelius até foi puxado para junto daquele ato aconchegante.

     — Que saudade de vocês! — Em seguida, a tripulação do Tubarão recebeu um novo integrante. Tétis entrou correndo na nave, trazendo uma caixa de papelão com alguns macacões de Yara, esses sem a identificação costurada nas costas. Ed alegrou-se ao vê-la novamente — Tétis, você vai vir conosco?

     — Assim, quando eu vi essas duas eu percebi que vocês iam precisar da minha ajuda. Essas são peças descartadas do setor de costura, geralmente não são usadas por algum defeito bobo na produção, alguma costura mal feita ou algo assim. São bons disfarces, e não dar pra reconquistar uma cidade vestida igual uma palhaça — Ela encarou os trajes peculiares que July e Gaia vestiam, deixando-as irritadas e desconfortáveis — E foi o único jeito que eu achei para desviar isso aqui — Tétis largou a caixa no chão e tirou os macacões, revelando que por baixo deles havia um conjunto de armas variadas, indo desde pistolas até disparadores em modelos avançados.

     — Gostei dessa menina — Wes comentou em meio a uma risada, pelo menos ele estava se divertindo.

     — Precisamos nos apressar, ainda temos muito o que fazer — Ed disse assumindo sua posição de liderança naquela empreitada rebelde — Eu conheço algumas pessoas em Manifesto que podem nos ajudar...

     — Mas, Ed... — Cornelius o interrompeu com seriedade e tristeza — Manifesto não existe mais.

     Uma confusão mental momentânea tomou conta de Ed quando as palavras de Cornelius o atingiram. Sua reação imediata após esse choque foi chorar em silêncio e socar a parede mais próxima o mais forte possível com seu braço mecânico.

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