Capítulo 1 - A Menina do Calçadão



     — Você precisa se arrumar, querida — A empregada dizia com o máximo de simpatia possível. July Harmond, na maior parte do tempo, também era amigável com os funcionários do seu pai, mas hoje ela estava verdadeiramente farta da aristocracia de Newdawn — O maquiador já está lhe esperando.

     — Eu sei Clementine, só preciso buscar uma presilha no meu quarto — July vira-se e anda apressada pelos corredores do casarão, por vezes olhando para trás, certificando-se de não está sendo seguida ou vigiada.

     Já no quarto, ela corre para o closet, onde troca o sofisticado vestido rosa por um traje comum e menos chamativo, do tipo que via os civis utilizando durante suas fugas. Em qualquer pessoa seria um traje normal, mas nela, e no seu corpo atlético forjado nas aulas de balé clássico e no auge dos seus dezessete anos, a combinação de cabelo repartido em duas "marias-chiquinhas" com botas de couro, a simples blusa branca de algodão, o colete cinza listrado combinando com a saia e o chapéu estilizado pareciam mais uma fantasia. Uma pobre menina rica fantasiada de uma rica menina pobre. Mas aquele disfarce sempre lhe caía muito bem.

     Ela abre a janela, observando o movimento da rua, nada fora do comum já que as vizinhanças ricas eram normalmente silenciosas de um jeito fantasmagórico. Ao erguer a vista, observa a Torre de Comando da cidade flutuante projetando-se algumas ruas atrás. Uma construção que sempre despertou sua curiosidade, não só por causa do design esquisito, muito mais altas do que qualquer outro prédio e com longas cordas metálicas saindo de seu entorno e passando por cima da vizinhança até o ponto mais extremo do lado leste da cidade como uma forma metafórica de mostrar que aquela área era protegida pelo governo, mas também pelo fato de, mesmo com a considerável importância social da família Harmond advinha das atividades bancárias de seu pai, July nunca recebeu autorização para visitar seu interior. Nenhum oficial também nunca havia reclamado dela utilizar as cordas para fugir de casa.

     Como uma das cordas passava a poucos metros da janela lateral do seu closet, no terceiro andar do casarão, July podia se agarrar a corda metálica com facilidade e, pendurada, percorrer alguns metros até a rua de trás, por onde usava um poste para deslizar até a calçada. A corda era grosseira e sua textura era áspera e um pouco desconfortável devido às pequenas protuberâncias que saiam de suas amarras e eram afiadas como agulhas de injeção, mas a garota ainda conseguia se segurar nela com a mão quase fechada, e ainda aproveitar o momento arriscado para avistar melhor o céu azulado por trás das grades de segurança. Ela sempre se perguntava como os antigos se sentiam ao ver a abóbada celeste se estender infinitamente por cima deles, enquanto ela tinha o mesmo firmamento se estendendo em todas as direções. Enquanto isso, por trás dela, a empregada via novamente sua façanha por uma das janelas traseiras do casarão.

     — Seu pai não vai gostar nada disso! — Clementine a repreendeu com tom de desaprovação.

     — Desculpa, mas ele sabe onde me encontrar — Nisso, July começou sua caminhada.

     Diferente da rua de trás, marcada pelas casas burguesas que formavam uma vizinhança tranquila e sem graça, aquela por onde July caminhava era popularmente conhecida como Calçadão, um lugar alegre e movimentado, perfeito para fazer exercícios, ou apenas bater perna. O asfalto dava lugar a paralelepípedos cinzentos e áreas verdes circuladas por bancos de madeira e quiosques. De um lado havia as lojas chiques, alguns restaurantes e todo tipo de empreendimento para satisfazer os desejos de consumo, e realização profissional, dos habitantes de Newdawn, do outro lado apenas a imensidão azul. Suspensos no ar, balões com alto-falantes proclamavam as notícias do dia. Além disso, o local era constantemente tomado por uma brisa fresca e um dos poucos pontos da cidade onde os habitantes podiam entrar em contato direto com nuvens, quando elas passavam pela grade de segurança e desapareciam aos poucos ao longo do pavimento, deixando pequenas poças por onde passavam.

     Os frequentadores do local, sejam eles comerciantes, consumidores, civis, adultos e crianças de todas as idades, ou servidores públicos, também manifestavam tamanha simpatia ao cumprimentarem July enquanto ela caminhava e sumia ao dobrar à esquerda três esquinas após sua casa. Isso tornava o cotidiano descontraído e cativante mesmo nos raros tempos de maior dificuldade.

     — Ei menina! Cuidado onde pisa! — Um encanador disse ao surgir de um bueiro ao lado de July enquanto ela atravessa a rua. July se assustou com a brincadeira e ambos sorriem em meio a uma sonora gargalhada. Em seguida, a fugitiva teve que acelerar o passo para não perder o bonde na próxima rua.

***

     Já dentro do veículo, July novamente vê-se a contemplar a estranheza do seu lar, e se perde em meio a história do seu mundo, que não é o mesmo daquele que lia nos seus velhos livros da escola. Os professores falavam sobre uma guerra sem motivo e uma bomba que devastou a Terra, reduziu continentes inteiros em carvão e transformou os oceanos em ácido, permitindo a sobrevivência de poucas espécies através da adaptação forçada e de um inesperado salto evolutivo. Também diziam que a antiga humanidade só conseguiu sobreviver através do protótipo de um foguete experimental, a ideia era lançar um terço da população mundial no espaço e retornar após pouco mais de três meses. Foi uma aposta arriscada, muitos consideraram uma verdadeira loucura, mas a maioria chegou a uma conclusão e aceitaram participar do experimento, também foi pura sorte retornar em segurança e encontrar, apesar de tudo, o ar puro e algumas poucas regiões com a biodiversidade original preservada.

     Assim surgiu a ideia de construírem as cidades flutuantes, já que viver no ar parecia ser mais seguro do que viver no solo, e grande parte da tecnologia avançada sobreviveu a guerra ao ser reclusa em bunkers. A maior parte das cidades flutuantes comercializam tecnologia umas das outras, mas algumas se destacavam pelo fato de inovarem a partir de diferentes fontes de energia alternativa, além da tradicional eletricidade, como termoquímica, energia solar, engenharia genética, e até mesmo magia. Newdawn se reergueu aos moldes da antiga Europa e América, criando uma cidade que misturava várias outras, e utilizando a grande quantidade de carvão da superfície para basear sua tecnologia no que a antiga literatura retrofuturista chamava de steampunk. A população pegou a mesma influência para compor sua estética visual, criando uma inusitada mistura do moderno e do clássico. Mas não era raro encontrar tecnologias mais avançadas provindas das outras cidades, essa dinâmica de trocas e avanços fazia o mundo permanecer numa nova era de paz.

     Apesar de estudiosa e empenhada, toda essa história parecia confusa para July Harmond. Mesmo assim ela ainda se fascinava ao imaginar o quanto o planeta havia mudado em apenas oitenta e cinco anos, e o quanto as pessoas, pelo menos, pareciam ter mudado junto.

     Os devaneios acabam quando July desce do bonde em outra região da cidade, dessa vez mais ao centro. Uma região mais pobre e sem as fachadas coloridas do Calçadão, com casas mais simples, mas ainda elegantes. Dali já era possível ver a área industrial de Newdawn, onde o carvão coletado da superfície era processado em fábricas para gerar energia e manter tudo funcionando perfeitamente. Consequentemente, ali o céu já não era tão azul, e nuvens negras de fumaça subiam do asfalto sempre que algum veículo passava rápido o suficiente, e a temperatura era um pouco mais quente do que o habitual no limiar comercial da cidade.

     — Era isso que os antigos chamavam de classe média? — Ela se perguntava enquanto caminhava para a casa de seu amigo Cornelius, uma casa que seria de estrutura simples, se não fosse pela estranha ponta azulada que saia do teto. Ao chegar ao local, July bate à porta e é atendida por uma moça ruiva com estranhos olhos amarelos — Olá Roza, o Cornelius e o Ed estão em casa?

     — Oi July, que bom te ver, claro que estão. O Cornelius não sai mais de casa por nada depois que decidiu consertar aquela coisa lá... — Roza pensa por um momento, passando uma das mãos nas madeixas ruivas que caem aos seus ombros — Computador, alguma coisa assim. E o Ed tá na horta — ela faz um gesto convidando July para entrar — Vem, pode ficar a vontade, eu vou fazer um lanche, vai querer também?

     — Obrigada, mas dessa vez não. Quero conversar com o Ed antes do meu pai aparecer aqui — July respondeu ao entrar na casa enquanto Roza fecha a porta atrás delas.

     A residência de Cornelius e Roza era relativamente espaçosa, mas lá dentro tinha muita coisa entulhada, fazendo o local parecer bem menor do que devia ser. A maior parte das coisas presentes na casa, além da mobília básica, eram caixas com peças metálicas e ferramentas, além de objetos que chamavam a atenção de July, como pilhas de livros, carrinhos de brinquedo do mundo pré-guerra em prateleiras, paredes repletas de relógios de diferentes modelos, formas e tamanhos, e até insetos mecânicos que funcionavam a base de engrenagens e voavam pela casa espalhando seus ruídos pelo ambiente, e muitas outras quinquilharias. Cornelius Albert Dumont era o que podia ser considerado um inventor, do tipo que monta engenhocas com material reciclado e usa elas para facilitar suas tarefas cotidianas, e isso refletia na própria aparência.

     July anda em linha reta pela hall principal até chegar na sala, onde uma velha televisão dividia um dos poucos espaços organizados do recinto com aparelhos de rádios, gravadores e uma prateleira de estojos e bolsas. Lá, ela observa a figura alta, esguia e desajeitada, debruçada atrás de uma mesa com algumas ferramentas em cima, e chama o seu nome. Cornelius se vira para a visitante, ainda com a coluna levemente curvada, e abre seu melhor sorriso amarelado enquanto tira os goggles, óculos estilizados num modelo retrô, de trabalho dos olhos e os deposita no topo da cabeça, sobre os cabelos grisalhos espetados.

     — Oi July! Que bom que você veio! Queria mesmo te mostrar uma coisa — Cornelius diz enquanto se aproxima da amiga e coloca seus óculos comuns, dos quais sem eles não conseguia enxergar nem um palmo à sua frente. O inventor não chegava a ser tão velho, só tinha vinte e seis anos, e sua aparência enganava bastante a quem o visse. Era um pouco mais alto que July, e a tentativa de simular um jaleco com um casaco velho e cinzento denunciava a textura surrada sobreposta ao corpo magrelo e desengonçado.

     — O tal computador que a Roza me disse? — July perguntou curiosa.

     — Não, algo muito melhor, vindo diretamente de Cypher — July ficou ainda mais animada ao ouvir o amigo citar a cidade mais futurista entre todas as outras cidades flutuantes. Cornelius pegou algo que parecia um estojo metálico preto de cima do sofá da sala, posicionou o objeto na mesa e lhe abriu, puxando dois ganchos das laterais. As placas escuras se separaram e se afastaram, criando um holograma azulado entre elas, e gerando uma onda de êxtase quando July e Cornelius viram um mapa ser projetado no holograma, onde grandes pontos azulados se destacavam — Isso é um mapa holográfico que mostra a posição de todas as cidades flutuantes.

     — É maravilhoso! — July exclamou enquanto observava cada detalhe do mapa e lia os nomes projetados diante de cada ponto. Newdawn, Myth, Cypher, Senna, Freka, Manifesto, Tesla, dentre tantas outras, todas as dezesseis cidades flutuantes diante dos seus próprios olhos. Até mesmo cidades menos importantes, como Asgard, Yggdrasil e Yara se mostravam projetadas no holograma, mesmo que essa última não esteja necessariamente flutuando como as outras. Algo mais chamou sua atenção, um ponto vermelho muito menor do que os outros — O que é aquilo?

     — O último local onde os habitantes de Sandal foram vistos — Sandal, essa deixava July ainda mais curiosa do que as outras. A última cidade em terra firme, onde as pessoas sobreviviam aos perigos do mundo abaixo das cidades flutuantes. Na verdade, ninguém, nem mesmo o aventureiro mais ousado, chegou a encontrar sua localização definitiva, mas todos sabiam que existia, pois não era raro avistar nômades nas regiões onde muito antes se localizava o norte da África e a Grécia. Assim, muitos acreditavam que a melhor opção era evitar contato, estava mais do que claro que eles queriam ficar sozinhos.

     — Acredita mesmo que tal lugar existe? — July encara o amigo.

     — Até que se diga o contrário, sim. Acho que é isso que a ciência faz, acreditar no que todo mundo duvida — Cornelius agarra novamente os ganchos e recolhe o mapa holográfico — Agora, preciso terminar umas coisas. O Ed tá na horta.

     — Já sei, com licença — July caminha em direção aos fundos da casa, onde passa por uma porta de madeira bem simples e um tanto antiquada.

     Aos fundos da casa se estendia uma redoma que mantinha o ar lá dentro mais limpo do que do lado de fora, tanto que era possível ver a fumaça exterior se acumulando em alguns pontos do vidro, esse material que também deixava o local um pouco quente, mas na medida certa para que Ed pudesse realizar a sua horta. Dentro da esfera oca haviam árvores frutíferas e pequenas plantações de hortaliças dispostas de forma organizada no solo fofo e arenoso. July observa um rapaz de dezenove anos no centro do local, bem mais alto e encorpado, agachado retirando ervas daninhas do solo. Ed se levanta, ajeita a postura e limpa o suor da testa. Só então, em meio ao sol forte da tarde, ela percebeu que ele estava sem camisa. Isso acabou deixando-a ainda mais constrangida do que o estranho fato de Ed ter uma prótese mecânica substituindo o braço esquerdo.

     — Oi, Ed — July lhe chamou de um jeito meio tímido. Ed olhou para ela, simpático, largou as ferramentas num canto e se aproximou dela, enquanto recolhia uma camisa azul pendurada no galho de uma árvore — A horta tá indo bem né?

     — Oi July, bom te ver. E tá sim, até que não foi difícil colocar em prática tudo que eu aprendi em Manifesto — Ed confirma enquanto abotoa os botões da blusa e limpa a terra das calças listradas. July achava bem legal o fato dele conhecer outras cidades flutuantes, em especial a cidade verde, mas ele sempre se recusava a lhe contar mais detalhes sobre essas viagens, em especial o motivo delas e quem financiava. Lá no fundo, July desconfiava que Ed escondia algo — Como vai?

     — Péssima! Meu pai quer que eu vá para mais um baile idiota — July cruza os braços e estampa seu rosto com a melhor expressão de raiva possível. Mesmo irritada, ela permanecia com feições graciosas. Ed solta um riso tímido diante dela e de sua fofura — O que foi?!

     — O Max Williams vai tá lá né? — Ed deduz com tom de provocação.

     — Vai sim, que droga! — July respondeu, ainda irritada.

     — Mas se o filho for, o pai com certeza também vai. O comissário Heathcliff vai tá nessa festa — Ed sugere a hipótese com um tom sacana em sua voz — Quem sabe assim você consiga uma aproximação e aproveite de seu charme para arrancar alguma coisa sobre a Ivana.

     July andava tão irritada que esqueceu completamente do principal motivo das suas fugas, investigações. Ela, Ed, Cornelius e Roza, além de melhores amigos, também eram entusiastas de literatura e filmes de mistério, e July acreditava levar jeito para ser detetive. Assim, Ed e July investigavam por conta própria alguns casos misteriosos que movimentavam o imaginário popular, e o caso de Ivana Montano era o que mais lhes chamava a atenção. Certo dia, uma garota desmemoriada foi encontrada nos escombros de uma casa destruída por um incêndio, junto de dois cadáveres. Mesmo com seus documentos afirmando que ela vinha de Myth, ela mesma não sabia dizer de onde vinha ou quem ela era, e como supostamente era estrangeira a polícia não podia simplesmente prender ela, ou lhe deportar, já que enviar qualquer pessoa de uma cidade para outra sem que a mesma confirme seu interesse na viagem e manter um estrangeiro em cárcere sem a confirmação do departamento de segurança de sua cidade natal é estritamente proibido. Nisso, Ivana permaneceu detida em uma delegacia enquanto esperava uma solução para seu dilema, e consequentemente chamando a atenção de repórteres e outros curiosos. A situação era bizarra, mas algo no olhar confuso da garota convenceu Ed a lhe ajudar, e desde então ele e July se empenham em desvendar os segredos desse mistério, e inocentar uma garota que todos acreditam ser culpada.

     — Verdade — July abre um largo sorriso — Você é mesmo um gênio.

     — Que nada — Ed tentou esconder seu constrangimento com a modéstia de uma pessoa humilde e segura de si. Ele encontra os olhos castanhos de July e vê-se perdido na profundidade deles. Agora é July quem fica envergonhada, mas aceita de forma tímida ao notar que Ed inclina o corpo para se aproximar do seu rosto. O momento termina quando eles ouvem um estridente som metálico vindo do hall, o som de alguma coisa sendo arremessada com força contra o assoalho — O que foi isso?

     Preocupados, July e Ed correm em direção do som e encontram Roza agachada atrás da mesa da sala, fazendo um sinal para que eles se escondam junto com ela. De relance, abaixados atrás da madeira grossa do móvel, o trio observa Cornelius conversando no cômodo de entrada com um rapaz que parecia bem mais novo, porém possuía uma postura rígida e ameaçadora. No chão ao lado dos pés de Cornelius, os insetos mecânicos voavam ao redor de um rádio velho desmontado pela agressividade da pancada.

     — Só isso?! — O rapaz berrava de forma furiosa, as cicatrizes no rosto se contorcendo e seus olhos cheios de ódio ardiam como chamas infernais.

     — Foi o máximo que pude fazer, eu não tive tempo — Um Cornelius amedrontado tentava se justificar falando de um jeito nervoso. Mesmo sendo mais alto que o rapaz, ele se sentia pequeno naquele momento, e seu corpo reagia a isso gerando uma incontrolável tremedeira.

     — Olha aqui velhote! — Irritado, o rapaz bateu o punho sobre uma bancada de madeira, derrubando alguns enfeites com o impacto — É melhor produzir mais dessas paradas e rápido, ou então eu vou acabar com sua raça.

     O rapaz sai foi embora, andando pela rua de um jeito rude e antiquado, com os cabelos negros balançando durante uma brisa passageira. July, Ed e Roza saem do esconderijo quando Cornelius se joga, encolhido e exausto, no sofá da sala.

     — Cornelius, você está encrencado? — July pergunta ao sentar ao seu lado e pousar a mão no seu ombro. Ela já havia entendido que não era o computador que prendia Cornelius em casa.

     — É só o Johnny — Cornelius começa a explicar enquanto apoia os braços nos joelhos e encara o assoalho, envergonhado — Ele me enganou quando eu estava procurando algumas peças no comércio, agora eu tenho que produzir narcóticos para ele.

     — Mano, você é um inventor muito talentoso — Ed diz ao se ajoelhar na frente de Cornelius, forçando-o a lhe encarar — Não pode deixar outras pessoas te usarem assim. Se um dia der algo errado vai sobrar pra você.

     — Eu sei Ed, mas ele até ameaçou a Roza — Cornelius se levanta e abraça a ruiva por trás, pegando-a pela cintura — Não quero que nada de ruim aconteça com ela.

     — Relaxa velhote, eu posso dar uma surra nele se você quiser! — Cornelius abre um sorriso franco e dá um beijo na testa de Roza. Algo em seu olhar exprimia exímia admiração nela.

     — Eu sei que pode — Cornelius riu, ou ao menos tentou demonstrar alívio — Preciso voltar ao trabalho.

     Cornelius parecia ter esquecido da tensão que sentia agora a pouco no exato momento que se sentou diante a mesa e começou a desparafusar uma caixa metálica com fios coloridos dentro. Alguém bateu à porta e Roza, num movimento quase mecânico, foi em direção ao hall de entrada. Ed e July se entreolharam, mesmo que o astral de Cornelius tenha melhorado eles ainda não gostavam de ver o amigo tão cabisbaixo e, no fundo, preocupado. Eles precisavam encontrar uma solução, livrar Cornelius das ameaças de Johnny, mas isso teria que ficar para depois.

     — Ei, July! Seu pai chegou! — Roza anuncia lá da frente, incentivando July a se despedir de Cornelius e Ed.

     — Boa sorte no baile, menina do Calçadão — Ed diz em meio a um abraço acolhedor.

     July caminha para fora da casa e encontra seu pai, Ernest Harmond, encostado no seu carro, um modelo popular amarelo vindo diretamente de Senna, a cidade da velocidade. Ernest já estava em meados da casa dos quarenta, mas sua aparência conservava uma certa jovialidade, mesmo com as entradas da calvície nas laterais da cabeça e a barriga protuberante. O ponto alto de seu visual eram os elegantes trajes executivos dignos de um banqueiro. Ao ver a filha, Ernest abre a porta do carro para ela e entra em seguida, partindo de volta para a segurança da Torre de Comando. O retorno foi, em grande parte, silencioso, até July decidir arriscar:

     — Pai, você não tá zangado por eu ter fugido de novo né? — July diz do banco de trás do veículo, retirando as costas do banco acolchoado e inclinando-se para frente, buscando uma aproximação.

     — Não — Ernest continuou concentrado na estrada, mas permitindo-se observar a filha pelo retrovisor — Até acho bom você ter amigos.

     July já parecia confusa antes, e fica ainda mais ao ver o pai agindo de forma tão amigável. Lá no fundo ela achava que seria mais um forma de convencer ela a aceitar o noivado com Max Williams, mas não era ruim ter um pouco de consentimento paterno.

     — Acabei mandando o maquiador embora, achei que seria deselegante fazer ele ficar esperando — Ernest conduziu o carro por uma esquina. Pelas janelas do veículo já era possível identificar as lojas e as casas chiques do entorno do Calçadão.

     — Olha, desculpa mesmo, é que, você sabe né? — July parecia constrangida ao extremo e assim as palavras fugiam de sua fala, era tão difícil ter um momento tão próximo com o pai, e agora ela não sabia como se expressar.

     — Filha, é sobre o noivado, né? — Ernest vira de relance para ela ao parar no sinal de trânsito — Você sabe como esse acordo vai ser bom para os negócios — Ele diz calmamente, o sinal abre e o carro avança.

     — Eu sei, mas na verdade não quero falar disso agora. Preciso me arrumar para o baile.

***

     Algumas horas depois, o céu em torno de Newdawn havia trocado a alegre tonalidade azulada pelo doce abraço da noite. Um vento frio soprava pela cidade, e para July parecia ainda mais frio já que ela se encontrava no topo de um prédio, e era difícil se aquecer com o vestido rosa que ela descartou mais cedo em seu closet. Junto com ela estava seu pai e os demais convidados da festa, todos muito bem vestidos. Mas outra coisa lhe incomodava além do frio, uma certa dúvida.

     — Vai ser aqui? — July perguntou ao seu pai, com seus braços abraçando o próprio corpo e buscando o mínimo de calor.

     — Não querida, vai ser lá — Ernest aponta para o vazio da noite. Nesse momento, um zepelim surge em meio aos prédios e para diante de todos, arrancando uma enxurrada de expressões surpresas e risadinhas — A festa é do Wes Jeffords, não dava pra esperar menos.

     — Não é um pouco exagerado realizar a festa em uma aeronave sendo que a gente praticamente mora em uma? — July comentou, arrancando um riso sincero do pai.

     — July, por favor comporte-se — Ernest continuou rindo enquanto falava, assim essa sentença se assemelhou muito mais com uma piadinha do que com uma bronca

     Um formoso rapaz de cabelos dourados, alto e musculoso, vestindo um uniforme vermelho, surge junto ao zepelim, sobrevoando seus convidados com uma jetpack. Ele se apresenta, Wes Jeffords, um aventureiro, e convida todos ali para embarcar no veículo voador quando o zepelim se aproxima da margem do terraço e as vidraças se abrem em uma porta larga, dando acesso a um amplo salão adornado com cortinas douradas. Após a entrada de todos, as vidraças se fecham e a festa começa de verdade depois que um grupo de garçons serve o bufê e a banda começa a cantar. O motivo da comemoração: a descoberta de um osso de dinossauro. Como a maior parte dos antigos museus foi destruída na guerra, qualquer descoberta arqueológica, histórica ou científica era celebrada.

     Os convidados começaram a socializar enquanto taças de champanhe eram servidas. Wes impressionava um grupo de garotas com suas histórias. Como aventureiro, um dos poucos cargos públicos que tinham permissão para viajarem a qualquer cidade e até mesmo a superfície, ele possuía várias sobre aventuras em florestas selvagens e grandes duelos nas ruínas de velhos castelos.

     — Eu estava na selva indiana fugindo de uma fera alada quando tropecei em alguma coisa pontuda. Depois que consegui despistar a fera, voltei para examinar melhor e acabei encontrando um osso da costela de um espinossauro, em perfeito estado de conservação — Wes contava com empolgação enquanto arrancava suspiros das garotas — Quem visse pessoalmente poderia jurar que esse monstro pré-histórico esteve entre nós a menos de duas semanas.

     O comissário Heathcliff Williams, um homem alto de postura firme, cabelos grisalhos e um grosso bigode, servia-se do bufê junto com um grupo de oficiais. July precisava de um único momento de distração para se aproximar e puxar assunto, ela sabia muito bem que aquele tipo de homem não resistia a uma conversa despretensiosa com uma jovem atraente como ela.

     Em outro canto do salão ela viu aquele que mais tentava evitar, o filho do comissário, Max Williams. July odiava tudo nele, o terno verde que servia perfeitamente em seu físico magro, o cabelo castanho repartido que caia sobre os ombros e se arrepiava nas pontas deixando seu penteado com um visual estranho, a cara de enjoado debochando de tudo, o cheiro de perfume adocicado digno de uma profissional da noite, e o fato dele caminhar calmamente na sua direção como um caçador caminha em direção a sua presa.

     — Boa noite, July — Max diz fingindo simpatia. O som da sua voz ecoa nas profundezas da mente de July como um lamento agonizante vindo direto do inferno. Ela fica sem reação, suando frio e buscando uma saída mesmo que seu corpo tenha ficado incapaz de se mexer. E Max continuava a se aproximar dela, se arrastando pelo salão, com seus olhos profundamente vidrados nela em meio a sua expressão neutra.

     Mas July foi salva pela música.

     — A próxima é para os casais apaixonados! — A cantora anuncia de cima do palco, e sua voz embala o salão junto com os primeiros acordes de "La Vie En Rose".

     Súbito, um rapaz surge em frente de July, impedindo que ela visse Max, o que lhe faz soltar um suspiro de alívio. Alívio este convertido em alegria e surpresa quando ela reconheceu o braço mecânico destacado no paletó azul escuro.

     — A senhorita me daria a honra dessa dança? — Ed propôs, e em seguida abriu um sorriso carismático e estendeu a mão para July.

     — Claro — July segura a mão de Ed e encena uma reverência delicada.

     Ed conduz July através da dança enquanto eles se afastam de Max, que os observa discretamente tentando segurar o riso. July aproveita para soltar uma provocação, colocando a língua para fora da boca e fazendo uma careta, na qual Max finge não ver ao tomar um gole de champanhe e ir puxar assunto com um grupo de rapazes. July achou esquisito ver Ed naquele evento, mesmo não sendo a primeira vez que eles se encontravam em circunstâncias parecidas, e durante a dança percebeu que o traje dele era feito de algum tecido nobre cujo nome lhe escapara da mente.

     — Isso parece caro — Suas mãos passeiam pelo braço orgânico e o peito do amigo — Como você conseguiu um convite?

     — Eu tenho meus contatos — Ed diz enquanto improvisa movimentos ao ritmo da música.

     — Fala a verdade, quem é você? — July encara os olhos verdes de Ed, que continua agindo com naturalidade e lhe conduzindo na dança.

     — Você sabe muito bem quem eu sou — Ed sorri mais uma vez, e July retribui apesar das desconfianças. A música, e a dança, terminam em meio a um caloroso aplauso — Não tá esquecendo de nada?

     — Claro que não — July responde enquanto arruma o cabelo — Só tava precisando mesmo despistar aquele ali — Ela olha na direção de Max, que contempla a vista panorâmica da cidade através da vidraça.

     — Eu também preciso me livrar de alguém — A expressão simpática no rosto de Ed desaparece, e por um momento ele se torna frio. Ele observa um rapaz de postura arrogante próximo ao bufê, que usava trajes parecidos com os dele mas num tom de preto fosco, e seus cabelos escuros estavam penteados para trás.

     — Quem? — July olha na mesma direção, curiosa mas controlada para não chamar atenção desnecessária.

     — Ninguém — Ed recompõe a expressão carismática de antes — Agora vai lá e se garanta, vou ver como posso te dar cobertura.

     Ed deixa July e caminha para onde o comissário Heathcliff estava, abordando o grupo que lhe acompanhava com algum assunto sem importância, futebol quem sabe? July se vira em direção ao palco e se permite observar a banda enquanto eles se preparam para tocar mais uma música. A sociedade de Newdawn levava sua estética muito a sério, tanto que até os instrumentos musicais da banda eram estilizados com engrenagens e outros artifícios metálicos. Ela encara a cantora principal, cujo visual ousado chamava ainda mais atenção do que todos os seus companheiros de grupo juntos. A saia larga de babados e as calças listradas pareciam brotar debaixo do espartilho que apertava seu torso, ela parecia não usar nada além disso na parte de cima. Para completar o figurino, uma cartola pendia inclinada em sua cabeça junto de um véu transparente que cobria parte do seu rosto. Tudo, inclusive a maquiagem, no perfeito contraste entre vermelho escuro e preto. Apesar de não ser necessariamente uma ópera, alguns ainda se referiam a ela como uma prima-dona. No fundo July sabia que era só mais uma forma de elitizar tudo que a alta sociedade consumia, mas pelo menos eles tinham bom gosto musical, e isso ela adorava.

     A banda continuou tocando seu vasto repertório que chegava a englobar pop, rock e jazz, e grande parte das antigas músicas de sucesso do passado sob novos arranjos para se adequarem ao estilo Newdawn de ser. July arrisca alguns passinhos, distraída, ao reconhecer uma música pop juvenil que ela gostava, uma sobre uma garota que acredita que pode reconquistar o namorado se ele aceitar ficar com ela mais uma vez. July se distrai tanto que acaba esbarrando em uma senhora que usava em elegante vestido amarelo, se abanava com um leque e ria de um jeito escandaloso.

     — Menina, olha por onde dança — A mulher solta mais uma risada como se tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo. July se junta a ela ao lhe reconhecer. Era Natasha Williams, a esposa do comissário e mãe de Max.

     — Oi Natasha, como vai a vida? — July odiava Max, e o comissário Heathcliff não era a pessoa mais agradável do mundo, mas ela adorava Natasha, que sempre lhe fora uma ótima companhia, e até incentivava suas empreitadas no ramo da investigação.

     — Ai amiga, nada bem — Natasha trocou as risadas por um semblante triste — Estou tendo minhas dúvidas em relação à fidelidade de meu marido.

     — Você acha que ele está lhe traindo? — July pergunta espantada.

     — Creio que não, mas queria ter um jeito de saber se ele me trairia se pudesse — Natasha encara July por um momento e em seguida observa o marido se afastar dos seus colegas para buscar mais champanhe em uma mesa. July reconheceu a sua chance.

     — Olha, eu vou pensar em alguma coisa e essa semana ainda irei lhe fazer uma visita — Natasha se anima por um instante, July se inclina para falar em seu ouvido — Agora preciso conversar a sós com o seu marido sobre "aquilo".

     — A menina presa!? — Natasha exclama, surpresa, num tom de voz um pouco mais alto do que July esperava.

     — Mulher, fala baixo, por favor — July olha em volta discretamente.

     — Desculpa — Natasha abre um sorriso envergonhado — Agora vai, aproveita que ele tá sozinho.

     — Com licença — July caminha em direção ao comissário. Após dois passos, ela se vira novamente para Natasha, e lhe diz num tom sério — E, por favor, deixe o Max bem longe de mim.

     Natasha balança a cabeça em consentimento e vai, apressada, puxar o filho para o outro lado do salão, onde um fotógrafo tirava fotos dos convidados junto ao osso de dinossauro em um cenário improvisado, tão feio que chegava a ser cômico. July segue seu caminho em direção ao comissário, mas ela interrompe o trajeto novamente ao se deparar com Lollipop. Por fora, Lollipop era uma garota com cabelos escuros e personalidade escandalosa, cujos vestidos que sempre trajava lhe davam uma aparência vulgar. Mas, por dentro, ela era muito pior, representando tudo aquilo que July mais odiava na sociedade de Newdawn, que por sua vez vendia um padrão comportamental ao transformarem pessoas como Lollipop num poço de ignorância, arrogância e futilidade.

     Lollipop saboreava pãezinhos do bufê junto de outras duas meninas que pareciam clones genéricos dela, apenas mudando o penteado e a cor do cabelo. Perto delas, tranquilamente, um rapaz negro observava a banda com ares de admiração. Lollipop e as companheiras não perderam a chance de soltarem piadinhas sobre a cor da sua pele.

     — Não sabia que o Wes tinha convidado os limpadores de chaminés — Lollipop diz em meio a risadinhas infames — A catinga de fuligem está insuportável.

     — Que macacada — Uma outra garota também disse. July, ao perceber o desconforto e a chateação que o rapaz tentava esconder sem sucesso, fica furiosa.

     — Aí garotas! — Irritada, July se pôs na frente delas e lhes apontou o dedo indicador — Estamos no século... Sei lá que século é esse! Mas vidas negras ainda importam! Então é melhor vocês pararem com essa idiotice!

     Lollipop e as genéricas se encaram confusas e soltam uma gargalhada estridente, que deixa July ainda mais irritada.

     — Venham meninas — Lollipop fala enquanto sai andando — Vamos sair desse hospício.

     — Menina mais esquisita! — Uma das companheiras diz com repulsa.

     July volta a caminhar, agora de braços cruzados e irritação visível. Essa expressão se desmonta quando o garoto negro lhe chama e vem em sua direção arrumando os óculos

     — Aquilo foi muito legal da sua parte — O rapaz dizia. July pôde então reparar melhor nele, no cabelo cacheado depositado abaixo do chapéu e no pequeno protótipo de barba que gerava em seu rosto um certo ar de elegância — Mas, de verdade, não precisava.

     — Ah precisava sim, eu não suporto aquele tipo de gente — July respondeu ainda com um pouco de raiva no tom de voz.

     — Então acho que estou lhe devendo uma — O rapaz lhe estende a mão — Me chamo Cannon, Alexander Cannon.

     — July Harmond. Prazer em conhecê-lo — Ela aperta a mão de Alexander.

     — Então, você tá sozinha ou coisa assim? — Alexander pergunta de uma forma tímida, escondendo as mãos nos bolsos e balançando o corpo levemente.

     — Na verdade agora eu tô muito, mas muito, muito ocupada mesmo — July responde em tom de súplica, dando pequenos passos para trás durante a fala — Você parece ser muito legal mesmo, Alexander — Um pequeno esforço foi feito para relembrar o nome dito segundos antes — E eu espero que a gente se esbarre por aí outra hora, mas agora não dar.

     July sai andando apressada, quase correndo, em direção ao comissário, que se preparava para retornar ao seu grupinho de conversa. Alexander lhe observa por um momento e repete para si mesmo o que a garota genérica tinha dito antes sobre July Harmond. "Menina mais esquisita", mas trocando o tom de repulsa por uma certa fascinação e curiosidade. Alexander chacoalha a cabeça, tentando reorganizar seus pensamentos.

     — Você não pode se distrair agora Alexander! — Ele disse para si mesmo — Você veio aqui a serviço, e já tem dona — Alexander se cala ao ver um casal lhe encarando de um jeito estranho — Alexander também precisa parar de falar sozinho.

     July parou por um momento para se recompor e passou a andar tranquilamente em direção a fileira de mesas onde o comissário Heathcliff estava. Distraído, o comissário não percebia a sua aproximação, e guardava uma garrafa de champanhe em um balde de gelo após encher sua taça. Se July se aproximasse o suficiente para lhe dar um simples toque ele já perceberia que ela pretendia conversar com ele. Talvez, levando em consideração o que Natasha disse um pouco antes, ele acabasse cogitando que July teria outras intenções nessa conversa, e isso a causava ânsia de vômito só de imaginar. Mesmo desconfortável ela precisava arriscar, e começa a esticar o braço, mirando seu indicador no ombro largo do comissário.

     Ela teria conseguido se alguma coisa não tivesse quebrado as vidraças, se o salão não tivesse se enchido de fumaça repentinamente e se o zepelim não tivesse dado um brusco solavanco que derrubou o comissário por cima da mesa com o balde de gelo. Em meio ao caos que se instaurou no ambiente, July conseguiu distinguir um grito apavorado.

     — Piratas!

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