Capítulo Vinte (último)
- Steve, se estás assim com tanta pressa, vai sozinho.
- Não! – ripostei e sentei-me de volta no sofá, com os braços cruzados. Connor bufou e mudou de canal. Empurrei os seus pés para fora da mesa de café.
- Ei!
- Sabes que a tua irmã trabalha aí. – ele revirou os olhos, mas assentiu.
Tinha chegado finalmente o dia em que Mia ia para casa, depois de a sua filha ter nascido. Nós tínhamos todos ido ao hospital, mas também tivéramos noção de que aquele era um momento importante para o casal. Víramo-la por dois segundos, mas deixáramos o casal em paz assim que a nossa curiosidade tinha sido saciada e víramos que estavam todos bem. Mia ficara no hospital durante três dias e, por aquela altura, já estaria de volta na sua cama, com a sua filha nos braços e o seu namorado a tratar das duas. Escusado seria dizer que eu estava entusiasmado para conhecer a minha sobrinha de uma melhor forma. Agarrá-la e apresentar-me e dizer-lhe que a iria proteger para sempre.
Connor, por outro lado, estava completamente farto da minha irrequietude. Lexie tinha dito que demoraria apenas uns minutos, mas tinham passado cerca de quinze e ela ainda não tinha saído do seu quarto. Na verdade, começava a ficar preocupado – não era uma ocasião especial, e eu sabia que Lexie não era vaidosa ao ponto de querer maquilhar-se e vestir-se melhor apenas para visitar a minha irmã e uma bebé. O seu irmão não parecia querer saber da sua demora, porque estava entretido a ver passear pelos canais de televisão. Notava-se que estava cansado, de ter as suas semanas divididas entre o trabalho comunitário e os estudos, por isso não duvidava que qualquer tempo livre fosse uma dádiva, na sua perspetiva.
Levantei-me pela terceira vez em dez minutos, ignorei o olhar completamente farto de Connor, e caminhei até ao quarto de Lexie. Bati suavemente na porta, mas, quando não obtive resposta, decidi simplesmente entrar. Ela não estava na divisão, e as roupas que ela tinha escolhido ainda estavam em cima da cama. Fiquei automaticamente alarmado. Dei os passos necessários para chegar até à porta da casa de banho e bati, com um fervor muito maior que anteriormente; a minha vontade de ver a minha sobrinha não era nada, se lhe tivesse acontecido algo ou se ela se sentisse doente.
- Lexie? – chamei, batendo na madeira uma segunda vez.
- Sim? – a sua voz soou baixinha. – Estou quase pronta!
- Sentes-te bem? Estás doente? Precisas que vá comprar alguma coisa? – ouvi, do outro lado da porta, um riso suave e isso ajudou-me a relaxar.
Dez segundos depois, a porta abriu-se. Lexie ainda estava de pijama, mas um olhar rápido para o lavatório da casa de banho disse-me que ela já tinha lavado os dentes e o seu cabelo estava mais penteado do que tinha estado antes de ela entrar. No entanto, os seus olhos estavam completamente vermelhos e as suas bochechas húmidas devido às lágrimas que caíram e continuavam a cair, mesmo enquanto ela olhava para mim. Sem pensar, puxei-a para um abraço, mais suave do que pretendia, porque não sabia se as suas lágrimas se deviam a algum tipo de dor muscular. Ela retribuiu o abraço, com uma força que parecia estrangeira à fragilidade da sua expressão, e eu acariciei os seus cabelos. Ficámos naquela posição durante uns minutos, sem dizer nada.
- Queres dizer-me o que se passa? – senti-a assentir contra o meu peito, mas ela não disse nada. Soltei um curto riso. – E vais fazê-lo?
- Não sei como vais reagir... - permaneci calado, a acariciá-la, paciente.
- Vamos para o quarto. – sussurrei. Desliguei o interruptor da casa de banho e empurrei-a suavemente até à sua cama. Sentámo-nos, lado a lado. – Eu sou ótimo a reagir a coisas, Lexie. Só tens de experimentar, não precisas de ter medo de mim.
- Não tenho medo de ti, obviamente. – sorri, feliz por o saber. – Mas...
- Lexie. – interrompi a sua linha de raciocínios, numa voz mais séria, embora suave. Ela olhou para mim, respirou fundo, e assentiu.
- Estou grávida. – a minha mão, que estava a caminho de acariciar a sua bochecha, paralisou. – Não sei como aconteceu. Quer dizer, sei, obviamente, mas eu nunca me esqueço de tomar a pílula e tu usas sempre preservativo. E eu sei que a tua vida tem mudando imenso e precisas de estabilidade e que a Mia acabou de ter um bebé e tu queres dar-lhe atenção e ajudá-la, por isso eu percebo se...
- Se? – voltei a interrompê-la, não sabendo bem se queria ouvir o que a sua paranoia lhe dissera. A minha mão pousou finalmente na sua bochecha e forcei-a a olhar para mim. – O que quer que fosses dizer a seguir, foi a tua paranoia a falar mais alto, meu amor. E sim, tens razão quando dizes que eu preciso de estabilidade, mas... - abanei a cabeça.
- O que é que estás a dizer? – os seus olhos voltaram a ganhar lágrimas e eu permiti as minhas expressões suavizarem. Lancei-lhe um sorriso terno.
Em vez de falar, voltei a abraçá-la. Com toda a minha força. Lexie demorou a abraçar-me de volta, talvez por não estar a entender o que eu queria transmitir com aquilo tudo, mas fê-lo eventualmente. Aproveitei o silêncio, e o facto de não ter duas esmeraldas enormes viradas na minha direção, para pensar. Pensei, pensei e pensei.
Lexie era uma idiota, foi a conclusão a que eu cheguei.
- Tu estás grávida, de um bebé meu, e achaste mesmo que eu ia ficar chateado? Que te abandonaria? – ela começou a abanar a cabeça freneticamente, mas eu coloquei um indicador nos seus lábios – A bebé da Mia vai trazer algumas mudanças para esta família e eu demorei a lidar com isso, mas...mas isto é diferente, Lexie. Isto é nosso. E se tu não quiseres ter este bebé, eu também vou aceitar isso. Não tenho pressa, por muito que esteja quase do lado errado dos trinta. – pisquei-lhe o olho.
Ela pestanejou três vezes seguidas e eu comecei a rir, adorando a sua reação. Inclinei a cabeça, fechando os meus lábios para não sorrir demasiado.
- Então? – ela abanou a cabeça para voltar à realidade – Queres este bebé?
- Eu...
- Estavas tão preocupada com a minha reação que nem sequer tiveste tempo de pensar naquilo que querias? – fechou os olhos por uns segundos e assentiu – A decisão é tua. Se quiseres ser mãe, eu também quero ser pai. E se não quiseres... - encolhi os ombros – Aposto que vou ter muitos sobrinhos para mimar.
Lexie olhou para mim, analisou todas as minhas feições, e manteve uma expressão impassível durante uns segundos. Quando eu comecei a ficar preocupado, ela sorriu abertamente e assentiu. Depois, pulou para me abraçar, mas com tanta força que eu caí para trás. De costas encostadas ao colchão, com ela em cima de mim, aceitei o beijo frenético que ela iniciou entre nós. Apertei as suas coxas e deixei que ela se libertasse do alívio que certamente sentia depois de processar o que eu lhe dissera. Por muito que eu quisesse ser pai, não era um desejo de vida e nunca seria algo que me afastaria de Lexie, caso ela não quisesse. Tanto quanto me importava, eu estava na sua vida para ficar, e não havia muito que ela pudesse fazer que me afastasse.
- Não temos de decidir hoje. – murmurei, contra a sua testa, quando dela se deixou relaxar. – Mas o que temos de fazer hoje é ir visitar a minha irmã. Pode ser que olhar para a sua bebé te ajude a decidir.
- Está bem. – sorri contra a sua pele suave e depositei um leve beijo, antes de ela sair de cima de mim. – Só preciso mesmo de me vestir, eu sou rápida.
Assenti, mas fiquei sentado na sua cama enquanto a observava a vestir-se, em movimentos supersónicos. Tropeçou em si própria algumas vezes, mas a verdade era que eu não me importava tanto com a sua demora como me tinha importado dez minutos antes. O espaço que a ideia da minha sobrinha ocupava na minha cabeça tornara-se muito menor em comparação à ideia de poder vir a ser pai, de partilhar um filho com Lexie, de criar uma família com ela no sentido mais tradicional. Connor seria sempre uma mistura de quase-filho, quase-irmão, para mim, por muito estranho que isso fosse, mas ter um filho meu...carne, osso e sangue... Seria maravilhoso.
Cerca de três minutos depois, Lexie vestia uma camisola de malha quente e umas calças de ganga justas. O meu instinto foi olhar para a zona da sua barriga, ainda com a informação que recebera a pairar na minha cabeça. Ela notou para onde o meu olhar estava direcionado, porque sorriu, e aproximou-se de mim. Comigo ainda sentado, ela tinha de olhar para baixo para me encarar e eu gostei daquele ângulo, de estar a encarar diretamente a sua barriga e os meus braços rodearem o seu tronco num movimento quase mecânico. Os seus dedos finos passaram pelos meus cabelos, sem dúvida despenteando-me mais do que eu já estava, e ela sorriu-me. Sorri de volta, respondendo mentalmente à promessa que ela me pedia com os seus olhos.
Falaríamos melhor depois e, no entretanto, seria um segredo nosso.
Saímos do quarto para encontrar Connor adormecido no sofá da sala. Comecei a rir, e foi esse som que o acordou, mas ele nem me deu muita importância. Esfregou os olhos, desligou a televisão e pegou no seu casaco. Lexie achou tudo aquilo divertido, porque foi ela quem fez a primeira piada, e quem despenteou os cabelos do seu irmão. Eu limitei-me a observá-la, até garantir que ela estava mesmo mais leve e contente e que não era uma fachada para que o seu irmão não notasse nos seus olhos ainda um pouco inchados. Connor estava tão cansado que mal olhou para a sua irmã, na verdade; caminhou diretamente para a porta da frente e chamou o elevador sem sequer esperar por nós.
- Já avisaste a Mia que iriamos? – assenti para a pergunta de Lexie, enquanto ela trancava a porta. – Oh! Esqueci-me de uma coisa.
Antes que eu pudesse perguntar o que era, ela voltou a destrancar a porta e entrou no seu apartamento. Olhei para Connor, mas o adolescente apenas encolheu os ombros e bateu com o seu pé no chão, enquanto esperava pelo elevador. Estava prestes a dar-lhe as chaves do meu carro e a dizer para ele ir andando, mas assim que o elevador chegou ao nosso andar, Lexie reapareceu. Nas suas mãos, ela tinha um pirex cheio do bolo de chocolate preferido de Mia. Sorri-lhe, por saber que a minha irmã iria adorar o gesto e o bolo em si, e agarrei o objeto enquanto ela voltava a trancar a sua porta. Connor segurava o elevador com o seu pé.
- Não vou ter de lhe pegar, pois não? – perguntou ele, de repente. O meu instinto foi rir. – Nunca peguei num bebé! E se a deixar cair?
- Não vais deixar ninguém cair, Con. Mas se não quiseres pegar-lhe, também não há problema. – foi Lexie quem falou, numa voz suave e que me fez continuar a rir, baixinho. – Para de rir dele!
- Nunca. – coloquei a língua de fora e olhei para o teto do elevador, para ignorar as suas reações.
Eles continuaram a falar entre si, até que chegámos à garagem subterrânea e caminhámos diretamente para o meu carro. Estava prestes a atirar as minhas chaves na direção de Lexie mas, no último segundo, apercebi-me que conduzir me daria uma boa oportunidade para pensar. Depois de entrarmos no carro e, logo a seguir, sairmos do prédio, abstraí-me da conversa dos dois irmãos – sobre Gary e a sua família, ou qualquer coisa do género – e pensei mais um pouco. Lexie tinha, naquele exato momento, um monte de células que, se nós quiséssemos, se tornariam um bebé. Um bebé humano e real, que seria nosso e de mais ninguém. A ideia entusiasmava-me, mas o que lhe tinha dito ainda era verdade.
Eu tinha trinta e quatro anos e, tinha de admitir, a ideia de as minhas irmãs mais novas terem filhos antes de mim custou a engolir. Não por inveja, mas um pouco por ciúme; focara-me tanto na minha família, na sua proteção, que durante uns anos me esquecera de viver para mim. Mia e Ava estavam, por fim, numa vida estável, e mal precisavam do seu irmão. Continuavam a precisar de mim, Steve, um bom amigo, da mesma forma que eu precisava de cada uma delas pelas pessoas que eram e não pela nossa ligação de sangue. Connor estava finalmente a estabilizar a sua própria vida também, e Lexie parecia feliz na sua carreira um pouco eremita, porque era bem-sucedida. Pensei em qual seria o passo lógico para mim e a resposta era óbvia: queria efetivamente sair das forças armadas e trabalhar com Dax. Queria deixar de tentar equilibrar a vida de um polícia com a vida de um homem que precisava da sua família e de quem a sua família precisava.
Senti uma mão por cima da minha.
- Tudo bem? – assenti a Lexie, sorrindo. Depois, ela olhou para a sua camisola e eu assenti. Foi o suficiente para saber no que eu estava a pensar.
- Como é que se chama a bebé? – foi Connor quem perguntou. Pestanejei, ao pensar na pergunta.
- Não...sei? Isto não é possível, certo? Eu não saber? – Lexie gargalhou, mas encolheu os ombros. – A Mia conseguiu mesmo que nós saíssemos do hospital sem nos dizer o nome!
Connor riu tanto que o seu riso ecoou pelo veículo. Revirei os olhos, mas acabei por o acompanhar. No dia em que a minha sobrinha nascera, tanto eu como Ava estivéramos mais ocupados a verificar que Ash e Mia não precisavam de nada, que estavam os três bem, para dar asas à nossa curiosidade. E, no meio de todo o movimento, do equilibrar as visitas e de andar a correr por todo o lado...escapara-me. Lembrava-me de ter perguntado...mas os meus pais tinham aparecido no hospital logo a seguir, e Mia nunca conseguia responder-me.
- Espero bem que ela não tenha um nome esquisito. – murmurei apenas, depois de uns segundos a ouvir Connor rir. Lexie sorriu-me e abanou a cabeça. Olhou para fora do carro, depois de apertar a minha mão uma última vez.
Uns minutos depois, eu estava a estacionar o mais perto que consegui do prédio onde a minha irmã vivia. Saímos do carro e caminhámos calmamente, apesar de eu sentir o entusiasmo a apoderar-se do meu corpo. Olhei à volta, reparando mais uma vez que aquela era uma zona calma da cidade, sobretudo habitada por pessoas de idade já avançada. Asher e Jake tinham escolhido um ótimo apartamento para viver, porque nenhum deles era o tipo de pessoa que precisava de viver no meio tipicamente académico, repleto de festas e de bebida. Graças à sua inteligência, Asher e Mia iriam começar a sua família e a educação da sua primeira filha num ótimo lugar. Estava contente por eles; relaxado. Não existiam, à primeira vista, perigos.
Foi Ava que abriu a porta do apartamento. Abraçou-nos, individualmente, rápido, mas o nosso abraço durou um pouco mais de tempo que os outros dois. Beijei a sua testa e fechei a porta atrás de mim. No sofá, vi Dax a conversar com Declan, em vozes baixinhas. Cumprimentei todo o grupo, mas a minha atenção estava na porta do quarto que outrora tinha sido de Jake, e que passaria a ser o quarto da bebé. Antes de entrar, no entanto, mesmo depois de Ava me indicar que Ash estava lá dentro com a nossa irmã, parei. Olhei para Lexie, que me empurrou com o olhar, mas não continuei a andar.
- Qual é nome? – Ava riu, tão baixinho quanto conseguia.
- Gemma. – depois, aproximou-se de mim e sussurrou no meu ouvido. – É o nome da irmã do Harry Styles, mas o Ash ainda não percebeu.
Tive de tapar a minha boca para não fazer demasiado barulho com a gargalhada que rompeu da minha garganta. Ava acompanhou-me, encolhendo os ombros como se dissesse já sabes como é e eu assenti. Com o nome – Gemma! – na minha cabeça, decidi finalmente ir conhecer a minha sobrinha e abraçar os seus pais, pela primeira vez em tanto tempo. Bati suavemente na porta que estava entreaberta e vi Asher a arrumar algumas coisas, com a ajuda de Jake, e Mia sentada numa cadeira de baloiço, com a sua filha nos braços. As lágrimas apareceram-me instantaneamente nos meus olhos, mas não me preocupei a limpá-las; quando eles levantaram a cabeça e me sorriram, caminhei apenas na direção da minha irmã.
Ela estava a sorrir, a cantar para a sua filha.
- You'll never love yourself half as much as I love you... - demorei a perceber de onde conhecia a canção. Quando as vozes dos cinco membros dos One Direction apareceram, voltei a rir. Asher aproximou-se de mim e eu depositei uma mão pesada e segura no seu ombro.
- Gemma Miller. – ele assentiu, com olhos brilhantes e cansados e um sorriso calmo. – Um ótimo nome.
- Vem cá! – Mia exclamou, num sussurro. – Ela quer conhecer o tio.
Aproximei-me dela e ajoelhei-me ao lado da cadeira em que ela estava sentada. Antes que eu pudesse acariciar suavemente a pequena bochecha de Gemma, Mia indicou-me para eu lhe pegar. Confirmei, com um olhar, e, depois do seu assentir confiante, retirei-lhe a pequena bebé dos braços. O seu cobertor amarelo-torrado era adorável e fofo e foi reconfortante, ao agarrá-la, saber que ela estava envolta de algo quente e suave. Depois de confirmar que não havia problema, com Asher e Mia, depositei um leve beijo na cabeça de Gemma e embalei-a, nos meus braços.
- Olá, Gemma...sou o teu tio. – apresentei-me, numa voz suave – Ainda não percebes o que eu estou a dizer, mas preciso que te lembres que gostas mais de mim do que dos outros teus tios todos, está bem?
- Típico. – o comentário sarcástico de Asher fez Mia rir e, talvez com as dores que sentira, levar as mãos à sua barriga. – Desculpa, eu sei que prometi não te fazer rir.
- Hás de pagar por isso, Asher Miller. – ignorei a conversa do casal e continuei a embalar Gemma nos meus braços, caminhando inconscientemente até à janela. – Olá, Lexie! Vem conhecer a Gemma!
- Olá, Mia. – Lexie abraçou Asher primeiro, cumprimentou Jake com um sorriso, e aproximou-se da minha irmã. Envolveu-a, com um carinho enternecedor, nos seus braços, e eu observei tudo aquilo com um sorriso. – Gemma é um bonito nome.
- Se tivesse sido menino, teria sido Harry. – Asher bufou, fazendo Jake rir. Eu tremi com o meu riso, mas esforcei-me para não despertar Gemma.
- Olha aqui, Lexie. Não é preciosa? – Lexie deu os cinco passos que a levavam até mim e inclinou a cabeça para ver melhor a expressão que a adormecida Gemma possuía na sua cara.
- Steve... - sussurrou, depois de olhar para as três outras pessoas que estavam no quarto e perceber que estavam ocupadas. Assenti, indicando que ela poderia falar. Não deixei de embalar Gemma, já estava habituado a tê-la ali, nos meus braços. – Achas que...que o Connor se importaria?
- Com o quê? – levantei a cabeça, para a olhar com confusão.
- Com o seu sobrinho...ou sobrinha. Achas que ele acharia que eu o estava a desprezar?
Paralisei. Olhei para Gemma, para verificar que não a tinha acordado com os meus movimentos, e depois olhei para Lexie. Ela sorria-me, um sorriso honesto e que fazia os seus olhos diminuírem de tamanho. O verde dos seus olhos estava decorado com o mesmo brilho que eu adorava ver nela, aquele que me dizia que ela estava feliz, leve e a ser completamente honesta consigo própria. O brilho que acompanhava as suas conversas sobre o seu trabalho, sobre os feitos de Connor ou quando estávamos apenas nós os dois, deitados numa das nossas camas, a ver um filme.
- O Connor sabe que é importante para ti. – respondi apenas, numa voz rouca. – É isso que queres? Queres...ter uma Gemma para nós?
- Não podendo roubar esta, acho que é a segunda melhor opção. – o riso rompeu o nó que tinha nascido na minha garganta. Ela encostou a sua cabeça ao meu ombro, respirando fundo. – Quero mesmo. Tu?
- Também. Se tiveres a certeza. – ela assentiu. Depois, indicou-me que era melhor eu devolver Gemma à sua mãe e, relutante, concordei. Mia esticou os seus braços com um entusiasmo enorme, como se estivesse a receber uma prenda. Ri baixinho.
- Mia, tenho uma prenda para ti. – a minha irmã olhou para a minha Lexie, com olhos gigantes e suaves. – Deixei um bolo de chocolate na cozinha, já agora.
- Angelical, é o que tu és, Lexie. – concordei, fazendo ambas rir. - Acho que tu vais ser a tia preferida da Gemma. Desculpa, Ava.
- Não é justo. – olhei para trás para encontrar a segunda das minhas irmãs, encostada à ombreira da porta, já a comer uma fatia do bolo que Lexie tinha feito. – Mas, por este bolo, eu aceito. Está ótimo, Lexie!
- Obrigada. – as suas bochechas coradas disseram-me que ela não estava muito confortável a receber os elogios. – Mas não é só essa a minha prenda. Fiz-te isto.
Retirou, do seu bolso das calças, um objeto pequeno e quadrado que eu demorei a ver como um livro. Inclinei a cabeça e estiquei o meu pescoço, para tentar ver o que o livro dizia, mas Mia e Asher eram os verdadeiros destinatários da pequena prenda. Como Mia ainda segurava Gemma, foi Asher quem abriu o livro e não demorou muito a começar a rir. Lexie corou mais um pouco, aceitou o abraço suave que o meu cunhado lhe deu e afastou-se, para deixar Mia apreciar a sua prenda. Aproximou-se de mim e, por instinto, envolvi os seus ombros com um braço. Antes que pudesse perguntar o que o livro continha, Mia riu baixinho e decidiu ler alto.
- Steve, o super-tio. – olhou para mim, com grandes olhos escuros. – Que adorável! Olha para os desenhos, Ash! Era uma vez um polícia que passava os seus dias a proteger crianças. Um dia, a sua irmã...sou eu!...encontrou uma criança para levar para casa, mas precisava de alguém que pudesse tomar conta dela, quando não estava lá.
- Desenhaste-me? – Lexie assentiu, tímida.
- Pedi a uma amiga me escrever uma história pequenina e fiz as ilustrações.
- Agora é que vou ser o preferido. – coloquei a minha língua de fora, na direção de Declan. O mais novo revirou os olhos, mas sorriu-me. – Obrigado, meu amor.
- Não tens que... - tapei os seus lábios com um indicador e ela calou-se, assentindo. Inconscientemente, vi-a a levar uma mão até à sua barriga. Sorri-lhe.
Ao fundo, Mia continuava a ler a pequena história, para todos os que queriam ouvir. Eventualmente, todo grupo estava dentro do pequeno quarto, pintado às riscas laranjas e verdes, a ouvir a minha irmã ler o livro que Lexie lhe tinha oferecido. Contra toda a minha natureza, senti-me tímido a cada olhar rápido que recebia; Lexie contava a história de um polícia super-humano cujo super-poder era o que ela chamava de ultraproteção, a capacidade de saber sempre quando a bebé precisava de ajuda. Quando a história terminou, Mia limpou as lágrimas que tinham crescido nos cantos dos seus olhos, e eu apertei Lexie com ainda mais força que anteriormente.
Depositei um beijo nos seus cabelos loiros e passei a minha mão pelo mesmo braço que ainda não saíra da sua barriga. Ela relaxou sob o meu toque.
a ideia de a lexie oferecer um livro sobre o steve à mia há de ter sido das primeiras coisas que me apareceram na cabeça assim que decidi que ela seria ilustradora. que coisa ADORÁVEL, certo? a lexie é um bebé
depois de cinco meses, esta aventura chega ao fim. como disse no início desta história, a ideia de escrever uma história para o steve estava na minha cabeça desde que escrevi a de ava, no início de 2020, e ele apareceu como amigo do steve. soube logo que ele precisava de alguém também. é, até hoje, a minha personagem principal mais velha, com 34 anos, mas a verdade é que ele é tão enérgico e tão livre que não o vejo como muito velho.
como disse há uns capítulos, a Contrabalançar passa-se em 2024 e eu imagino que o steve nasceu em 1990, e a Mia e a Ava em 1997 (por esta altura, 2021, no universo desta história, a Mia já não fala com os pais porque já trocou de curso. how funny is that)
anyway. eu gostei muito de escrever esta história. foi a primeira vez que participei no nanowrimo e foi a primeira história em MUITO tempo a ser escrita enquanto eu tinha aulas, porque normalmente eu guardava para as férias.
espero que tenham gostado todos muito desta história, tanto quanto eu, e obrigada a quem tem lido até aqui! fico mesmo feliz por todos os comentários e votos que fui recebendo. há quase 2 anos que tenho publicado sempre histórias a seguir a histórias e acho que agora mereco uma pausa.
NO ENTANTO
porque eu não consegui (ainda) largar este universo, no mês passado escrevi uma história para uma das personagens desta história. é loiro. tem olhos verdes. não é a lexie.
é o connor, claro. não sei quando a vou publicar, mas fiquem a saber que está escrita e guardadinha aqui no wattpad, para quando eu estiver pronta. passa-se 10 anos depois deste último capítulo, ou seja, em 2034 - foi MUITO divertido imaginar esta família enorme mais velha. principalmente aos olhos da pessoa de fora, a minha narradora, que é super cómica e eu adoro-a.
quando a publicar, eu aviso no meu perfil. agora, para terminar: espero mesmo que tenham gostado e que tenham rido quase tanto como eu, a escrever, com a mente do steve.
até já <3
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