Capítulo Três
Nada mudava na minha vida desde que entrara na academia de polícias. Mas, no espaço de um mês, tudo mudou: uma das minhas irmãs mais novas engravidou aos vinte-e-sete anos, ambas saíram do apartamento que era delas desde os dezoito e, por conseguinte, eu mudei de casa. As minhas irmãs voltaram a ter uma relação com os nossos pais e eu deixei de ser o mensageiro entre os quatro. E eu...eu mudei de esquadra, mudei de cidade. A única coisa boa de tudo aquilo era o facto de Caleb ter conseguido a transferência e ter encontrado um apartamento a um ótimo preço no mesmo quarteirão que o das minhas irmãs – que o meu.
Era estranho viver naquela cidade, quando sempre fora um simples viajante a visitar a minha família, mas sempre senti que fosse mais minha casa do que a cidade onde eu vivia. A Mia tinha razão quando dissera que eu vivia demasiado perto dos nossos pais. A necessidade de continuar a ser o mais velho, aquele que era mais sensato e que nunca, nunca escolhia lados tinha falado mais alto que eu durante os últimos anos. Muitas vezes tinha ponderado a transferência para outra cidade, mesmo que continuasse a estar longe das minhas irmãs, mas não sentia que era justo para os nossos pais. Não quando eu me lembrava que, para todos os efeitos, eu tinha sido sempre o filho que nunca se afastara deles. As minhas irmãs tinham aberto as suas asas muito cedo, mas só tiveram oportunidade para eu fazer porque eu fechara as minhas. Demorara quase duas décadas a voltar a abri-las, mas ali estava eu.
- Mia Farrell, se não largares essa caixa em cinco segundos... - avisei, numa voz séria, quando vi a minha irmã a tentar pegar numa das caixas mais pesadas.
- Dá cá isso. – e, antes que eu pudesse fazer alguma coisa, foi Dax que, num único segundo, retirou a caixa dos braços da mais pequena e entrou no apartamento. Mia cruzou os braços e bufou.
- Brutamontes! – Ava riu e abanou a cabeça, dando-lhe um monte de cobertores para ela não se sentir tão inútil. – Eu não sou inválida.
- Não, mas tens um humano a crescer dentro de ti. – apontei, com o polegar, para a zona da sua barriga e soltei um sorriso suave. A ideia de ser tio estava, aos poucos, a assentar dentro da minha cabeça. Estava quase confortável com a ideia, até. – Já pensaste em nomes?
- Bem... - o sorriso dela era inegável, ela estava a pensar em ideias espalhafatosas. A cabeça de Asher apareceu nesse momento, com um dos meus quadros preferidos nas mãos, e olhou-me diretamente nos olhos com a expressão mais cansada de sempre.
- Ela quer chamar-lhe Niall. – antes que eu me pudesse controlar, ri alto e deitei a cabeça para trás. Ash revirou os olhos e entrou no apartamento, ignorando-me.
- Niall é um bom nome... - Mia fez um beicinho que me fez continuar a rir, mas abanei a cabeça. – Porque não?
- Porque não Louis? Liam? Liam Miller soa bem!
- Recuso-me a dar ao meu primeiro filho o nome de um dos membros dos One Direction! – Asher gritou, da sala de estar, e Mia encolheu os ombros, sorrindo.
- De qualquer forma, ainda nem sabemos se é um menino ou menina...ou outra coisa, na verdade. Por mim até esperávamos que ele conseguisse falar e escolher o próprio nome.
Abanei a cabeça, sorrindo, e deixei a conversa passar para o lado. Ava apareceu depois, com a última das caixas que eu tinha trazido na carrinha que o pai de Caleb me emprestara. Recrutara toda a gente – incluindo o irmão mais novo de Asher, porque eu adorava o miúdo – para me ajudar, no intuito de poupar o máximo possível com todas as mudanças. Toda a papelada que a minha transferência pedia estava feita e a única coisa que faltava era, de facto, tudo o que a mudança de apartamentos pedia. Os meus pais não tinham tido qualquer problema com a ideia de eu mudar de cidade – eu suspeitava que era porque eu passaria a viver num apartamento que existia apenas por sua causa, mas não dissera nada – e com o apartamento das gémeas passar a ser meu. Quanto mais pensava naquilo, mais confortável estava com a ideia e mais inteligência e sensatez via no plano da Mia. O apartamento de Asher não era assim tão longe, o que significava que eu estaria perto deles, e a casa que Dax comprara era bastante perto também, assim como o laboratório de Ava.
Se alguma delas precisasse de mim, eu estaria perto; para não falar que, como polícia, estaria literalmente a protegê-las todos os dias.
A confusão de ter tanta gente no apartamento – no meu apartamento – sumiu depois de umas horas. Todos trabalhávamos cedo no dia seguinte e o facto de termos passado o fim de semana a carregar caixas e a arrumar coisas tinha-nos roubado muita energia. Durante a semana anterior, eu tinha ocupado os meus tempos livres a pintar as divisões. Eu adorava a Mia, mas recusava-me a viver num quarto laranja e, infelizmente, o dela era o quarto virado para a avenida principal. O antigo quarto de Ava serviria como quarto de hóspedes, mas também como uma espécie de ginásio caseiro. Para duas pessoas, o apartamento era confortável, mas para uma só era demasiado espaçoso. Os meus quadros e todas as minhas decorações e mobília que eu não tinha querido vender tornavam aquele espaço meu. Precisei de pintar as paredes e de mudar a organização de muitas coisas para não sentir que estava a invadir o espaço sagrado das minhas irmãs. Precisei de torná-lo meu.
Coloquei água a ferver, no intuito de fazer a minha massa preferida, e ocupei-me a cortar os ingredientes. A mudança ainda não estava completamente processada no meu cérebro e, inconscientemente, eu sentia estar quase a cozinhar para as minhas irmãs e não para mim próprio. Deixei tudo a cozinhar e caminhei até à sala de estar; sentei-me no sofá e liguei a televisão, para me distrair. O sofá que tinha estado naquela divisão antes tinha sido vendido, assim como todas as outras mobílias que nenhum de nós queria, e o conforto de me sentar, com as pernas esticadas, no meu próprio sofá fez-me suspirar. Deitei a cabeça para trás e, sabendo que a refeição demoraria a ficar pronta, deixei-me relaxar.
Fui despertado por gritos, vindos de algures à minha volta. Sentei-me com a minha coluna direita e tentei perceber o que estava a acontecer.
- Porque é que tens de ser assim? – seguido de um estrondo. Algo partiu. Levantei-me. – Cuidado!
Depois, o som distinto de uma porta a bater e de passos pesados a atravessar o prédio até aos elevadores. Praticamente corri até à minha porta de entrada, sentindo o meu coração a bater rápido. As minhas irmãs nunca tinham falado de discussões recorrentes no seu prédio e, por isso, achei estranho e fiquei nervoso. Abri a minha porta a tempo de ver um rapaz que aparentava ter cerca de quinze anos, com os braços cruzados, à espera do elevador. Imitei-o, cruzando os braços, e encostei-me à ombreira da porta, observando-o.
- Sim? – o rapaz questionou, num tom insolente e zangado. Levantei a minha sobrancelha e fiz a minha melhor expressão séria. – O que é que queres?
- Está tudo bem? – percebi que o apanhei de surpresa, mas não quis saber. – Ouvi gritos.
- Não tens nada a ver com isso!
- Não sejas assim, Connor. – o meu olhar saiu instantaneamente do rapaz à minha frente para a pessoa que estava atrás dele. Uma rapariga, pousada mais ou menos da mesma forma que eu, contra a ombreira da sua porta. – Peço desculpa. Não sabia que as paredes eram tão finas.
- E não são. Vocês estavam só a gritar muito, muito alto. – o rapaz, Connor, pareceu embaraçado por continuar em frente aos elevadores, entre a mim e a rapariga. – Volto a perguntar...está tudo bem?
- Sim. – a rapariga assentiu, ao falar, fazendo com que uma madeixa de cabelo loiro caísse. Observei o movimento suave das suas mãos a compô-la atrás da orelha. – Não volta a acontecer.
- Hm.
O elevador finalmente chegou. Connor abriu a porta e, sem sequer olhar para a rapariga com quem tinha discutido, entrou na caixa de ferro e fez o elevador descer. Ela, por sua vez, aproveitou o facto de eu ter observado o adolescente para dar um passo para trás e voltar para dentro do seu apartamento. Não deixei que ela o fizesse. Em quatro passos grandes, atravessei o espaço entre nós e aproximei-me dela. Observei tudo o que havia a observar: cabelo loiro, olhos verdes e uma altura normal. Deveria ser pouco mais alta que Mia, mas pouco mais baixa que Ava. Percebi que ela ficou assustada com a minha abrupta aproximação, mas continuei a fazer o meu trabalho: naquele momento, o meu trabalho era procurar por feridas. Connor podia ser novo, mas o seu corpo não era magro ou fraco o suficiente para não conseguir fazer estragos.
- O que é que estás a fazer?
- Ouvi gritos e coisas a partir. O que é que achas que eu estou a fazer? – antes que ela pudesse ficar indignada – Desculpa. Não era suposto eu ser assim tão bruto. Sou polícia.
- Alguém chamou a polícia? – ela arregalou os olhos, completamente perturbada e assustada. Abanei a cabeça. – Oh. Ainda bem.
- Chamo-me Steve. Mudei-me hoje, mas as minhas irmãs mais novas viviam aqui antes. Ava e Mia Farrell? – ela pensou por um pouco, até que assentiu e soltou um sorriso suave. – Nunca me falaram de ti. Nem do teu...
- Irmão mais novo. – ela suspirou. – Chamo-me Lexie, já agora. Alexandra, na verdade, mas prefiro Lexie, e já conheci as tuas irmãs. Quer dizer, passei por elas pelo prédio e apresentei-me, mas nunca falámos muito. Eu passo muito tempo dentro de casa, porque o meu trabalho é sobretudo digital, então quase não vejo ninguém. Por isso é que elas não devem ter falado de mim. O Connor é inofensivo, prometo!
Senti os cantos dos meus olhos a esticarem para a forma desastrada com que ela estava a falar e a tentar explicar-se. Esperei que ela acabasse e assenti, mas continuei a analisar toda a sua expressão; ela parecia estar a ser sincera, mas também notei um pouco de medo nos seus olhos. Seria medo de mim? Do seu irmão? A curiosidade estava a matar-me e decidi, mentalmente, que precisava de saber mais sobre Lexie e Connor. Não me podia chamar um bom polícia e deixar que um possível caso de violência doméstica acontecesse literalmente à minha frente.
- Não soou inofensivo. – apesar das minhas palavras sérias, o meu instinto foi sorrir um pouco e brincar com ela. Deixá-la confortável. Percebi que resultou quando os músculos da sua cara suavizaram e ela baixou o olhar para o chão, por uns segundos.
- Mas foi. Obrigada pela preocupação. – tive que conter o riso quando ela deu mais um passo para trás e voltou a agarrar a porta, pronta para colocar algo entre nós. Decidi deixá-la em paz e fiz o mesmo, um passo para trás para lhe dar mais espaço.
- Se precisares de alguma coisa, estou aqui ao lado. – e apontei com a cabeça para o meu apartamento. Lexie assentiu e forçou um sorriso. Depois, vi o seu nariz a captar qualquer coisa e a mexer.
- Cheira-te a queimado? – tentei focar-me no cheiro e paralisei por dois segundos.
- Oh, não. – grunhi para mim próprio e, sem me despedir, corri de volta para o meu apartamento.
Bem, vou ter de encomendar uma pizza.
-:-:-:-:-
- Fartaste-te de estar no lado certo da lei? – Caleb perguntou, depois de olhar para o ecrã do meu computador.
- Nunca saberás. Acho que seria um ótimo polícia corrupto. – o meu parceiro revirou os olhos, mas não saiu de trás de mim.
- Quem é ela?
- A minha vizinha.
- Por favor, diz-me que não estás a pesquisar todos os teus vizinhos. – comecei a rir e abanei a cabeça, mas não parei de olhar para o ecrã e de procurar o que queria.
- Não, fiz isso quando as minhas irmãs se mudaram. – respondi, num tom leve e divertido. Não era totalmente mentira, na verdade, mas na altura não tinha tido os mesmos recursos e tinha apenas ido falar com todos os vizinhos para ter a certeza de que eram boas pessoas.
Caleb não precisava de saber isso, no entanto.
- Ontem ouvi uma discussão enorme e coisas a partir. – comecei a explicar, numa voz baixa. Caleb compôs a sua postura ao perceber que eu estava a falar de algo sério. – Quando fui ver se estava tudo bem, descobri que eram dois irmãos, e a mais velha garantiu-me que estava todo bem, mas... O miúdo foi demasiado insolente, demasiado revoltado, alguma coisa se passa ali.
- Achas mesmo que um miúdo de... - aproximou-se do ecrã para ler melhor a idade de Connor – quinze anos podia fazer alguma coisa à irmã mais velha?
- Não digo que ele lhe bate ou algo do género. – encolhi os ombros – Mas digo que há qualquer coisa de errado ali. Ela parecia quase ter medo dele, por isso acho que é possível que ele esteja envolvido em qualquer coisa de perigoso. Olha para isto! Já ficou em esquadras durante a noite quase dez vezes desde os seus treze anos e não tem registada a mesma morada que a irmã.
Olhei para a cara do meu parceiro para perceber que expressão ele me estava a lançar, mas sabia que aquilo era um assunto com que ele, também, não conseguiria brincar. Não ia simplesmente assumir que Lexie estava a sofrer fisicamente pelas mãos do irmão mais novo, mas algo era irrefutável: ela estava preocupada com ele e tinha medo de alguma coisa que o rodeasse. Ainda assim, não podia passar os meus dias de trabalho a utilizar os recursos policiais em cosias que não importavam aos casos que me tinham sido designados e, depois de mais uns minutos a tentar assimilar todas as informações que conseguia sobre eles, tive que me focar no meu trabalho. Caleb, sentado à minha frente, exatamente como na nossa antiga esquadra, estava completamente focado no seu trabalho.
Durante o resto do dia, Lexie e Connor não saíram da minha cabeça, mas fiz o trabalho que era esperado de mim. Quando cheguei ao meu apartamento e reparei no silêncio profundo que provinha do apartamento de Lexie, permiti-me relaxar, mas nunca demasiado. Relaxar demasiado era perder o meu sentido de concentração e a rapidez dos meus instintos e, por isso, enquanto cozinhei – não saindo da cozinha para não queimar outra vez o meu jantar -, um dos meus ouvidos estava sempre focado no outro lado do prédio.
uma coisa muito importante: eu adoro a Lexie. e adoro o Connor, mas ele vai ser muito difícil de gostar (ou não, na verdade, se forem como eu e como o Steve e virem nele muito potencial)
na Cair e Levantar, o Declan era adorável e extrovertido e, mesmo a sofrer, fez logo amizade com a Mia e com a Ava, mas o Connor não vai ser assim. ele é definitivamente mais introvertido, mais de estar no seu canto, mas é só um rapaz de quinze anos que tem razões para ser assim. a relação entre ele e o Steve é a coisa que mais adoro nesta história
como sempre, esta "terceira parte" da "trilogia" segue o método de contar a história mais importante a partir dos irmãos das personagens principais. neste caso, é duplamente interessante porque se há pessoa que passa a vida inteira a pensar nos irmãos mais novos, é o Steve.
espero que estejam a gostar, embora muito poucas pessoas andem a ler - o que é na boa, não esperei o contrário -, e que se apaixonem por estas personagens da mesma forma que eu! ainda ontem reli esta história e fiquei muito <3 com eles. adoro estas personagens e adoro muito ver a relação do Steve com a Mia e com a Ava, da sua perspetiva. até ao próximo capítulo!
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