35 - Ruína
– Realidade 02 –
– Klay da realidade 01 –
Tudo que eu tinha vivido naquele lugar era mentira. Os lugares que visitei, as pessoas que conheci e até as que reencontrei... Tudo era falso. Foi difícil perceber a princípio. Cada toque, sentimento e dor que tinha sentido nos últimos dias eram reais demais para levantar minhas suspeitas. Aquela realidade falsa foi criada com tanto cuidado que se eu não a tivesse alterado sem perceber, jamais teria descoberto aquela armadilha.
— Agora consigo lembrar — resmunguei, com raiva. — Você tentou me enganar, mas todo esse teatro chegou ao fim!
Tentei rachar aquela realidade com todo o poder que consegui acumular, mas suas paredes invisíveis eram fortes e pareciam indestrutíveis. Devia haver alguma brecha ou algum ponto onde aquela prisão invisível fosse mais fina. Eu sabia que estava sendo vigiado pelo Klayton Nivans que me aprisionou ali, então deduzi que o ponto do qual ele me vigiava devia ser mais vulnerável. Se eu o encontrasse, talvez conseguisse me libertar.
— Apareça! — gritei, começando a quebrar tudo que estava em meu caminho.
A mesa com o computador, as cadeiras, as prateleiras e até o sofá no canto da sala foram esmagados com o meu poder. A porta daquela que eu acreditava ser a minha sala na KN Store explodiu, espalhando seus pedaços pela recepção dos fundos da loja. Todas aquelas pessoas, que não passavam de personagens criados para me enganar, começaram a correr e a gritar como se tudo aquilo fosse real.
— Sr. Nivans?! — gritou Charlotte.
— Onde você está?! — resmunguei, usando meu poder para desmaterializar qualquer pessoa irreal que se colocasse em meu caminho.
Tudo era destruído por onde eu andava. Do corredor da recepção dos fundos até a frente da loja. Fiz questão de não deixar nem um único centímetro intacto, pois não sabia o quão grande aquela prisão era. Andando pelas ruas dos arredores da KN Store, também destruí cada carro, cada prédio e cada marionete que eu encontrava. Aquela falsa realidade estava ruindo por onde eu andasse.
— Viu no que você se transformou, Klay? — disse a voz dele, não parecendo estar tão longe de mim.
— Você me prendeu! — gritei, irritado. — Você tentou me enganar!
— E você quer tomar a minha vida! — retrucou, fazendo eco em minha cabeça. — Você não é assim, Klay!
— Você não me conhece! Você não faz ideia de como eu sou!
Senti a raiva me dominar, e isso só aumentava o meu poder. Pouco a pouco, a realidade criada por minha outra versão começou a quebrar. Tudo à minha volta estava quebrando, evaporando, dissolvendo...
— Se você continuar, vai me matar — disse, com a voz cada vez mais próxima.
— A intenção nunca foi essa, mas você não me dá escolha! Eu só queria uns dias no seu lugar, mas minha paciência acabou!
Antes de explodir toda a energia acumulada contra aquela realidade em ruínas, encontrei a fresta que procurava. Eu não fazia ideia do que aconteceria se eu saísse, mas não podia continuar ali. A realidade que eu tanto procurei e tanto queria entrar estava a um passo à frente. Eu já tinha ido longe demais para recuar.
— Eu sinto muito, Klay — falei, atravessando a fresta para sair de uma vez daquela prisão.
...
Não sei quanto tempo demorei para acordar. Meu corpo estava fatigado e dolorido. Parecia que eu tinha levado uma surra, mas não haviam marcas em meu corpo. Olhando em volta, percebi que aquele era o mesmo apartamento que eu estava vivendo na realidade falsa em que estava preso... Apesar de parecer real, eu não fazia ideia se ainda era tudo falso ou se eu tinha conseguido tomar o lugar do Klay daquela realidade.
— Klay? — perguntou aquela voz linda, rouca e inconfundível.
— Pete? — questionei, já emocionado.
— É você, amor...?
Ele veio até mim, me ajudou a levantar e segurou meu rosto com delicadeza. Eu ainda estava um pouco zonzo, mas certo de que eu tinha conseguido. Tudo aquilo era real.
— Pete...
— O quanto você me ama?
— O quê?
— O quanto você me ama, Klay?
— Eu te amo muito, Pete!
Sua expressão mudou com minha resposta. Ele tirou a mão do meu rosto e a envolveu em meu pescoço, me empurrando e prensando contra a parede.
— Você não é o meu Klay! — exclamou, segurando um dos meus pulsos com a outra mão.
— Pete...
— Você tomou o lugar dele, desgraçado! — continuou, começando a chorar. — Como pôde fazer isso?! Por que está machucando ele?!
— Eu não estou machuc... Eu nunca machucaria ele!
— Mentira!
Ele apertou meu pescoço com mais força, porém não o suficiente para me fazer perder o ar.
— Se eu pudesse, te matava aqui mesmo! — exclamou, aproximando o rosto dele do meu. — O problema é que eu estaria machucando o corpo do meu namorado! Este corpo não é seu!
— Você sabe?! — perguntei, decepcionado.
— Entre meu namorado e eu não há segredos! Você acha mesmo que entraria nesta realidade, tomaria o lugar dele e ficaria comigo sem problemas? Achou mesmo que eu não ia perceber?
— Pete, eu só queria...
— Não me interessa o que você quer! Sai do corpo do meu namorado e deixa a gente em paz! Ele não já sofreu o bastante?! Por que vocês não deixam ele em paz?!
Pete me soltou depois de me empurrar com mais força contra a parede. Ele se afastou, mas continuou me encarando de uma forma que nunca imaginei que faria. Ele sabia a verdade... Pete sabia que eu não era o Klayton Nivans daquela realidade. Nada seria da forma que imaginei.
— Por que você está aqui? — Pete perguntou, depois de um longo tempo que ficamos em silêncio.
— Por você, Pete.
— O que você quer de mim?
— Consertar as coisas! Quero que a gente fique bem e...
— Consertar o quê?! Não estava nada errado até você aparecer e tomar o lugar do meu Klay!
Aquele não era o meu Pete. Ele era diferente não só na forma de falar, mas também na maneira que me tratava, no corte de cabelo, nas roupas... Foi um erro entrar naquela realidade achando que as coisas seriam iguais e que aquele era o meu Pete. O Pete que amei, que protegi e que faria tudo para salvar sua vida não estava mais comigo. O poder e a possibilidade de revê-lo com vida tinham me cegado.
— Fala alguma coisa! — Ele gritou, com raiva. — Você queria tanto vir aqui e me ver, não é?! Pronto, já viu! Agora devolve o meu Klay!
— Vou devolver — murmurei, ajoelhando no chão. — Me perdoa, Pete? Eu não sabia que... Eu não tinha a intenção de...
— Ele está sofrendo há meses — disse, voltando a se aproximar. — Outros como você querendo tomar o lugar dele e fazendo da nossa vida um verdadeiro inferno!
— Não fui o primeiro?
— Não! Por quanto tempo isso vai durar?! Vamos ter que lidar com isso a vida toda?! Se for assim e a culpa for minha, prefiro que terminemos nossa relação para que ele possa seguir em paz!
— Não!
Eu não ia permitir que aquilo acontecesse. Perder o Pete em minha realidade era o bastante. Se aquele Klay tivesse a chance de ser feliz com o Pete de sua realidade, eu faria de tudo para que ele não o perdesse.
— Desculpa por vir até aqui, tomar o lugar do seu Klay e perturbar a vida de vocês.
Ele balançou a cabeça e se aproximou um pouco mais para abaixar e ficar mais próximo a mim.
— Eu sei o que você passou e sei porque você está aqui, mas não acho que o que você está fazendo seja a solução, Klay.
— Eu achava, mas estava errado.
Aquele Pete voltou a pôr sua mão em meu rosto de uma forma carinhosa.
— Não sou o Pete da sua realidade, mas tenho certeza que se eu fosse, não te culparia pelo o que aconteceu. Klay, a culpa não foi sua! Você o salvou até onde pôde, mas não há como lutar contra o nosso destino.
— Ele estaria vivo se eu não...
— Talvez sim, mas por quanto tempo? Não se culpe por algo que foge do seu controle, Klay! Não podemos mudar os erros do passado, mas podemos aprender com eles e não errar novamente.
Ele estava coberto de razão.
— Desculpa, Pete — murmurei, antes de ele me abraçar.
— Desculpo se você parar com essa loucura — disse. — Por favor, ajuda o meu namorado? Ele precisa de você, Klay.
Concordei. Eu estava pronto para deixar aquela realidade, mas ciente de que seria difícil voltar para a minha depois do que tinha que fazer. Sair daquela realidade não era o meu único desafio... Eu queria ajudar o Klay e o Pete que viviam nela.
— Prometo que vocês nunca mais serão incomodados por outros Klays de outras realidades — comentei, já sentindo meus olhos arderem e minhas mãos formigarem. Vou consertar tudo e impedir que outros machuquem vocês como eu fiz.
— Obrigado, Klay — disse, segurando minhas mãos enquanto eu recuava e devolvia aquele corpo para o seu verdadeiro dono.
...
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