31 - Invasores

– 10 horas antes –
– Realidade 02 –

Cheguei à KN Store atrasado naquele dia. Meu pai, meu namorado e eu tínhamos passado boa parte da noite anterior bebendo e jogando conversa fora. Foi uma noite atípica, pois não costumávamos fazer isso no meio da semana.

Depois de deixar o carro no estacionamento privado, entrei pelos fundos para não passar pela frente da loja. Peguei a correspondência do dia com Charlotte, minha secretária, e cumprimentei os demais funcionários que trabalhavam comigo na administração.

— O que perdi por aqui? — perguntei, entrando em minha sala.

— Nada em especial — respondeu meu pai, já trabalhando em minha mesa. — Pensei que você demoraria mais para chegar. Estava dormindo tão profundamente hoje de manhã.

— A culpa é sua que inventa de beber no meio da semana — resmunguei, o tirando do meu lugar.

— A culpa é do seu namorado que te presenteia com boas garrafas de whisky — retrucou, me entregando algumas pastas.

Balancei os ombros.

— Falando nele... Não o vi sair hoje de manhã.

— Ele acordou, tomou um banho rápido e foi para o trabalho. Disse que vem te buscar para o almoço.

— Se não tiver muito trabalho, talvez eu nem volte para a loja depois do almoço. É nosso aniversário de namoro e quero fazer algo especial.

Na verdade, não foi eu que tive aquela ideia. Meu namorado estava planejando sair do trabalho na hora do almoço para fazermos algo especial. Ele até tentou guardar segredo, mas era impossível alguém ter segredos comigo. Eu já havia sonhado com aquela ocasião há algumas noites. Não falei para ele que sabia, pois não queria estragar a surpresa.

O dia parecia não querer passar. Meu pai e eu passamos muito tempo atendendo clientes importantes na sala de reuniões. Tínhamos acabado de fechar algumas franquias para exportar os produtos da KN Store. Tínhamos acabado de lançar uma das coleções mais bonitas e modernas do mercado. A loja estava lotada, assim como nossa agenda de compromissos.

Pouco antes do meio-dia, pedi para Charlotte cancelar minha presença em todas as reuniões da tarde. Meu pai podia cuidar de tudo aquilo sem mim. Comemorar aquela data com meu namorado era o mais importante...
Eu era muito grato por tê-lo em segurança a meu lado.

O esperei na frente da KN Store. O dia estava nublado, mas eu sabia que não ia chover. Nossa tarde seria perfeita, exatamente como eu tinha previsto.

— Meu pai falou que você viria me buscar para almoçarmos — falei, assim que ele estacionou a moto a meu lado.

— Não só para o almoço, mas pretendo te sequestrar o resto da tarde — disse Pete, tirando o capacete. — Espero que você não tenha compromissos ou muito trabalho, Klay.

— Não tenho, amor — respondi, abraçando-o. — Tenho a tarde toda livre para você!

Subi na garupa depois de colocar o capacete. Antes de sairmos com a moto, Pete segurou meus braços e os apertou carinhosamente em seu corpo.

— Feliz aniversário de namoro, Klay — disse.

— Feliz aniversário de namoro, Pete.

Pete e eu almoçamos no fast-food que tivemos nosso primeiro encontro, passeamos pelo shopping onde costumávamos comer comida italiana nos finais de semana e terminamos a tarde no parque próximo ao meu apartamento.

— Você está melhor, amor? — perguntou, acariciando meu rosto.

— Estou bem.

— Fiquei preocupado com você, Klay. Você não passou bem o último mês.

Suspirei. O último mês de fato não foi dos melhores para mim.

— É complicado... — confessei, fazendo uma careta. — Não acontece com frequência, mas está começando a me preocupar.

— O que está começando a te preocupar?

Balancei a cabeça. Eu não gostava de compartilhar aqueles problemas com o Pete. Ele não precisava saber, pois estava indiretamente envolvido. Eram situações difíceis de explicar.

— Como eu disse naquele dia, a última versão de mim que tentou tomar o meu lugar era um dos mais fortes que já enfrentei — comentei, pensativo. — Eles continuam tentando vir para cá, amor.

— Por quê?

— Não faço ideia.

Menti, mas era necessário para protegê-lo. O abracei e o beijei. Pete retribuiu meus carinhos.

— Quantos você impediu até agora?

— Quatro, mas três deles foram fáceis. Três deles apenas falaram comigo... Era como vozes na minha cabeça desejando vir para cá e tomar o meu lugar. Eles contaram coisas... Me contaram o que aconteceu na realidade deles.

— E o que aconteceu na realidade deles? — perguntou, curioso.

Eu não queria contar tudo o que sabia. Não queria confessar que outras versões de mim conversavam comigo e falavam que o Pete da realidade deles tinha morrido. O primeiro Klay que conheci perdeu sua versão do Pete em um acidente de elevador. Outra em um posto de gasolina. A penúltima versão e a mais inofensiva disse que o Pete da realidade dele morreu enquanto dormia a seu lado.
Eu estava vivendo em um filme de terror que não parecia ter fim.

— São só lamentos de Klays infelizes, Pete — menti, sorrindo. — Eles sussurram e lamentam coisas sem sentido.

— Versões infelizes de você? Isso é possível?

Balancei os ombros.
Pete sorriu antes de me beijar.

— Se eles são infelizes, deve ser porque não me conheceram em suas respectivas realidades.

— Deve ser, convencido!

Há um mês, conheci a versão do Klay mais forte até então. Ele estava ferido, angustiado e parecia ter mais poder que todos os outros. Ele não tinha forças o bastante para possuir o meu corpo, mas tentou... Ele não conversou comigo como os outros três. Aquele Klay estava disposto a tomar o meu lugar a força. Para a minha sorte, possuir o corpo de uma pessoa de outra realidade é muito difícil, para não dizer impossível.
É preciso muito poder.

Durante meses, estudei e tentei aperfeiçoar meus dons. Minha avó, ciente do que estava acontecendo, estava me ajudando a controlar e bloquear qualquer invasor que tentasse tomar o meu lugar. Meus dons estavam mais fortes que nunca.

— Amor, você disse que três dos Klays que falaram com você foram fáceis, certo? — perguntou. — O que aconteceu com o quarto Klay? Foi ele que te deixou mal daquele jeito, não é?

Respirei profundamente. Eu queria mudar de assunto, mas meu namorado não ficaria satisfeito como uma resposta rasa.

— Ele se perdeu, amor — respondi, chateado. — A alma dele se perdeu enquanto ele tentava tomar o meu lugar. Com a alma perdida entre realidades, o corpo dele não aguentou.

Pete suspirou, fechando os olhos e franzindo o cenho.

— Não quero nem pensar se algo assim acontecer com você — disse, me apertando em seus braços. — Promete que não vai deixar isso acontecer? Promete me contar tudo o que acontecer com você?

Balancei a cabeça.

— Claro! — menti novamente.

Pete e eu fomos para o meu apartamento. Tínhamos mais planos para aquela noite, mas precisávamos de um tempo.

— Ainda estou decidindo se é bom namorar alguém com seus dons, Klay.

— Sério? Por quê?

— Você acha que me engana, mas sabia dos meus planos para esta tarde, não é? Por isso reservou a tarde livre na KN Store.

Não respondi, mas minha expressão já entregava a verdade.

— Aposto que você sabe meus planos para esta noite, certo?

— Tenho uma vaga ideia, Pete...

Enquanto meu namorado assistia televisão na sala, entrei no banheiro, encostando a porta. Enquanto tirava minhas roupas, senti uma forte pressão em minha cabeça. Fiquei tonto, tanto que tive que me segurar na pia para não cair. Meu corpo começou a formigar e minha visão embaçar. Senti uma força extremamente poderosa tentar me consumir.

— De novo não... — resmunguei com dificuldade.

Meus olhos começaram a brilhar no mesmo tom azul-claro que brilhavam quando eu usava demais os meus dons. Olhando no espelho, a coloração azul foi mudando pouco a pouco para uma cor amarelada.

— Vai embora — sussurrei, tentando não fazer barulho para não chamar a atenção do Pete.

Aquele poder era muito grande...
Eu não conseguiria conte-lo e manter o meu corpo ao mesmo tempo. Eu precisava enfrentar a ameaça que estava por vir, mas de uma forma diferente desta vez.

...

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top