29 - Preso


– 14 dias antes –

— Foi estranho — resmunguei, entrando em meu carro depois de uma longa e confusa conversa com a tia do Phillip.

— Eu avisei que minha tia era estranha, Klay — disse, ainda jogando no celular. — De qualquer forma, ainda estou curioso para saber o motivo que te fez insistir em conversar com ela.

— Minha pesquisa, esqueceu? — respondi, tentando ser o menos especifico possível.

— Sobre diferentes realidades e versões de si mesmo? — perguntou.

Balancei a cabeça para não prolongar o assunto.

A conversa com a tia do Phillip foi confusa, porém me deu esperanças. Ela não é um desses falsos sensitivos que enganam as pessoas para ganhar dinheiro. Ela me explicou passo a passo do que eu precisava fazer para "me conectar" com outras versões de mim em outras realidades. Não era um caminho tão fácil, mas eu estava disposto a fazer tudo o que foi recomendado. Eu precisava jejuar, tomar alguns chás de ervas por alguns dias, acender velas e incensos para alinhar e elevar meus chakras e meditar... Segunda ela, depois de seguir todo esse ritual, eu seria capaz de não só enxergar infinitas realidades além da minha, mas também conversar com outros Klayton Nivans que também possuíssem meus dons.

— E então...?

— Então o quê?

— O que ganho em troca?

— Em troca de quê?

Phillip ergueu uma das sobrancelhas.

— Eu te ajudei, não foi?! Te trouxe para ver minha tia maluca para a sua pesquisa.

— E...?

— Mereço uma recompensa, pois pela sua expressão de felicidade, acho que te ajudei de alguma forma.

Franzi o cenho.

— O que você quer?

— Um encontro.

— Como?!

— Um encontro! Quero que você saia comigo qualquer noite dessas.

Cocei a nuca, me controlando para não ser rude com ele.

— Vou pensar sobre isso — resmunguei, colocando o cinto de segurança antes de ligar o carro. —, mas sem conversa ou comentários sobre isso durante a nossa volta.

— Okay. — Phillip concordou, cruzando os braços com uma expressão satisfeita.

Revirei os olhos antes de dar partida. Eu estava feliz demais para me estressar com aquilo.

– Dias atuais –

Minha mente estava uma bagunça. Mesmo depois de me acalmar, eu não conseguia parar de pensar no que tinha acabado de acontecer. Por mais que pensasse, não conseguia achar uma explicação racional para o que estava vivenciando. Se eu estava alterando a realidade sem perceber, por que não conseguia parar? Eu tinha mesmo perdido o controle?

— Você está melhor? — perguntou Pete, entrando em minha sala acompanhado pelo Nathan.

Recuei quando os vi. Há poucos minutos aqueles dois tinham se juntado para me matar. Por mais que a realidade tivesse mudado novamente, eu não sabia o que esperar das pessoas a minha volta.

— Onde está a Charlotte?

Pete e Nathan trocaram olhares.

— Quem é Charlotte? — Nathan perguntou.

— Queremos saber se o senhor precisa de mais alguma coisa — disse Pete, colocando uma revista estranhamente familiar em minha mesa.

— Charlotte é minha secretária — respondi, pegando a revista para vê-la mais de perto.

Era uma revista da KN Store, mas estava diferente... Aquela sensação de déjà vu era estranha e, como sempre, parecia querer me alertar de alguma coisa.

— Nós que somos seus secretários, Sr. Nivans — respondeu Pete, franzindo o cenho.

— O senhor deve estar cansado da volta de sua última viagem e com os preparativos para a próxima edição da KN Store — disse Nathan. — Não se preocupe com nada, pois ligamos para o departamento de arte e eles vão entregar o livro com as correções que você apontou até o final do dia.

Pete e Nathan eram meus secretários e aparentemente a loja KN Store tinha virado uma revista de moda... o que não fazia nenhum sentido. Eu sabia que tinha visto algo parecido com aquilo em algum lugar, mas não conseguia lembrar onde.

— Por acaso eu sou o editor-chefe desta revista? — perguntei, sentando em minha poltrona.

— Sim — respondeu Pete, prontamente.

— Editor chefe de uma das revistas de moda mais vendidas e aclamadas do país — disse Nathan, orgulhoso. — Você é uma lenda, Sr. Nivans.

— Por que isso soa tão familiar? — indaguei, fechando os olhos para tentar descobrir de onde vinha aquela sensação desconfortável.

Andei pela nova KN Store a fim de descobrir mais coisas sobre aquela variação de realidade. Por onde quer que eu passasse, os funcionários pareciam ter medo da minha presença. Eles desviavam o olhar e imediatamente focavam em suas tarefas. Ninguém se atrevia a olhar diretamente para mim.
Não existia mais uma loja de roupas e calçados. A KN Store tinha virado um andar inteiro de salas com pessoas trabalhando e correndo para todos os lados. Eu me sentia como em um...

— Filme! — exclamei, lembrando de repente de onde aquilo tudo era familiar.

Voltei para a minha sala imediatamente depois de descobrir de onde vinha aquela sensação de déjà vu. No banheiro do escritório, liguei a torneira da pia e deixei a água fria escorrer por meus dedos. Por um instante não consegui sentir a temperatura da água. A sensibilidade dos meus dedos estava estranha. Era como se eu não estivesse molhando minhas mãos.

— Estranho... — sussurrei, sentindo minha visão embaçar.

Depois de desligar a torneira, ergui meu corpo para olhar o espelho. Por um segundo achei ter visto meu reflexo mudar. Pensei que foi minha visão turva ou até a confusão que estava minha cabeça naquele momento, mas não... Meu reflexo estava mudando pouco a pouco. Minhas expressões faciais, meu cabelo e até a cor dos meus olhos. Meu reflexo no espelho se tornou o do Klayton Nivans da realidade que eu tinha invadido.

— Você não vai sair daí — disse, com meio sorriso.

Dei dois passos para trás por conta do susto que levei quando o ouvi falar.

— Não adianta resistir — continuou. — Não vou deixar você passar.

Os olhos daquele Klayton Nivans brilharam em um tom azul-claro, diferentes dos meus que brilhavam em um tom amarelado quando usava meus dons.
Em um estalar de dedos eu estava de volta a minha sala na KN Store, sentado em minha mesa com vários documentos da loja e fotos que o Pete tinha feito do Nathan. Tudo parecia ter voltado ao normal. A sala estava organizada do jeito que era antes daquela troca desenfreada de realidades.

— Klay?! — chamou Pete, depois de bater à porta entreaberta. — Está ocupado?

Eu sabia o que estava acontecendo... Finalmente estava começando a entender o significado de tudo aquilo. Eu sabia o porque estava aparentemente trocando de realidades e não conseguindo controlar tudo a minha volta.

Era porque não era eu quem estava controlando...
Eu estava preso.

— Não estou ocupado, Pete — respondi, pegando uma das fotos do Nathan nas mãos, mesmo sabendo que ela não era real.

Nada daquilo era real e só depois de ter visto o que vi no banheiro que comecei a me dar conta.

— Está tudo pronto para o lançamento da coleção — disse, se aproximando com aquele olhar e aquele sorriso que eu tanto amava admirar. — Só está faltando o seu "ok".

Levantei, decepcionado e ao mesmo tempo irritado por não ter percebido tudo antes.

— Ok — respondi, decidido a pôr um fim em tudo aquilo.

...

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