20 - Pessoal
– 28 dias antes –
— Que bom que você aceitou vir comigo, Klay — disse Arth, depois de descermos da moto.
Ele me ajudou a tirar o capacete, pois como sempre, o fecho estava emperrado e precisava de um macete que só ele conhecia.
— Basicamente meus pais me obrigaram a sair de casa — comentei. — Eles disseram que ou eu saía com um de meus amigos, ou cortavam minha internet.
Arth me encarou com um olhar engraçado de reprovação.
— Mas juro que estou feliz de estar aqui com você, Arth — falei, tentando consertar minha última frase.
— Tudo bem! Sei que foi um ano bem difícil para você. Por isso resolvi te trazer para conhecer alguns velhos amigos.
Estávamos no centro da cidade, onde eu não costumava ir com tanta frequência. Haviam muitas livrarias interessantes naquela região que eu ainda não tinha visitado. Claro que eu não perderia a oportunidade de escapar do Arth e seus amigos para atualizar minhas prateleiras.
Entramos em um fast-food, onde a turma que Arth conhecia desde o ensino médio o esperava. Sue, Tyler e nossos outros amigos em comum não estavam lá. No começo me senti deslocado por não conhecer ninguém. Fiquei em silêncio, no canto da mesa, comendo e mexendo no celular enquanto eles conversavam descontraidamente.
— Seus amigos da faculdade são quietos assim, japonês? — perguntou um dos rapazes.
Eu tinha percebido que era comigo, mas não dei atenção.
— O Klay precisava sair de casa um pouco, pois está passando por uma fase difícil — respondeu.
— O que aconteceu? O gatinho de estimação dele foi atropelado? — perguntou o rapaz, em tom provocativo.
— Meu namorado morreu há alguns meses — respondi, o encarando com uma expressão nada amigável.
O clima mudou drasticamente na mesa. Os amigos do Arth arregalaram os olhos e até pararam de comer seus lanches.
— Como você é idiota, Phillip — disse um dos amigos do Arth, socando o ombro do rapaz. — Será que não consegue ficar com a boca fechada?
— Foi mal, Klay — disse Phillip, coçando a cabeça. — Eu não fazia ideia que...
— Tudo bem — falei, o interrompendo. — Não quero incomodar vocês com meus dramas pessoais.
Levantei, pegando a bandeja com o refrigerante e o lanche que eu mal tinha comido.
— Klay, você não precisa sair — disse Arth, segurando minha blusa. — Tenho certeza que o Phillip não teve a intenção de...
— Não estou saindo por causa dele — comentei, forçando um sorriso. — Quero passar em uma livraria aqui do centro.
— Quer que eu vá com você? — Arth perguntou.
— Não, tudo bem! — exclamei, forçando um sorriso ainda maior. — Fica com seus amigos, pois não sei quanto tempo vou demorar.
Eu precisava sair daquele fast-food. Eu ainda não estava no clima para ouvir piadas, dar risada ou conversar sobre qualquer assunto. Ver o Arth com seus amigos trouxe recordações do Pete. Adorávamos comer hamburger juntos naquela mesma rede de lanchonetes... Seria difícil ficar lá e aguentar toda aquela felicidade por mais tempo.
Entrei na livraria na esperança de encontrar livros diferentes dos que já tinha lido sobre realidades paralelas e vida após a morte, mas não encontrei novidades. Eu já tinha comprado todos os livros que eles tinham em estoque. A maioria era inútil e escrito por pessoas que não entendiam nada de sensitivos ou do tema que estavam escrevendo.
— Podemos recomeçar? — perguntou o amigo do Arth, aparecendo do nada no corredor em que eu estava na livraria.
— O que faz aqui? — perguntei, sem a menor vontade de ouvir a resposta.
— Sinto que fui um idiota e quero me desculpar com você — disse, apoiando um dos braços na prateleira. — Vamos recomeçar?
Balancei os ombros, desinteressado, pegando um livro aleatório para ler a contracapa.
— Meu nome é Phillip Russel.
— Klay Nivans.
— É Klay mesmo ou é apenas um apelido?
— É Klayton, Phillip Russel.
Eu não queria ser grosseiro, mas não estava com vontade de conversar ou fazer novos amigos. Eu tinha ido forçado para aquele passeio com o Arth. Minha vontade era de estar em meu quarto, estudando formas de rever o Pete, mesmo que por alguns segundos.
— Posso te chamar de Klay?
Balancei os ombros novamente. Phillip sorriu, como se achasse graça em minha indiferença.
— Desde que te vi com o japonês, te achei interessante e quis implicar com você, Klay — disse Phillip, me seguindo enquanto eu andava no corredor. — Eu não sabia o que aconteceu e nem esperava por aquilo, então quero dizer que sinto mui...
— Você já se desculpou, Phillip. Já aceitei a desculpa, então...
Ele sorriu de novo.
— Conheço um lugar aqui perto que vende um sorvete artesanal delicioso. Quer me acompanhar até lá, Klay Nivans?
Eu não queria, mas estava sendo um idiota em tratar o amigo do Arth de uma forma tão fria. Ele só estava querendo ser legal. Eu não tinha nada melhor para fazer e não queria voltar naquele fast-food.
— Claro — concordei, desanimado, antes de devolver o livro que peguei na prateleira.
...
– Dias atuais –
Passei o domingo todo no sofá da sala, pedindo comida por delivery e assistindo algumas séries e filmes de TV. Achei interessante que alguns filmes daquela realidade tinham histórias e rumos diferentes da minha. Cada filme que eu via com algum conteúdo diferente me deixava com mais vontade de assistir outros, só para ver o quão diferentes estavam.
Meu pai me convidou para beber na parte da tarde, algo que em minha realidade nunca seria possível. Não aceitei, pois preferi continuar comendo e assistindo TV. Phillip me convidou para sair, ir ao cinema ou passear em algum lugar, mas eu não estava com vontade. Preferi curtir aquele raro momento de paz, pois a semana tinha me estressado demais.
Pete me enviou algumas mensagens ao longo do dia, mas não as respondi. Ele queria falar sobre sexo e saber quando transaríamos de novo. Toda a vez que meu celular vibrava com uma notificação dele, eu revirava os olhos, lia o conteúdo e o jogava de volta no canto do sofá. Eu estava cansado de ser tratado e visto só daquela forma. Eu o amava, mas era só um momento de prazer para ele. Talvez não houvesse nem sentimento da parte dele. Ele tinha deixado claro no almoço do dia anterior que amava a noiva há anos. Eu era muito ingênuo de acreditar que ele mudaria seus sentimentos de uma hora para a outra.
— Não vai sair do sofá hoje, Klayton? — perguntou meu pai, entrando na sala com uma garrafa de cerveja.
— Não.
— Você pediu delivery em quantos restaurantes?
— Doze, eu acho. O décimo terceiro está quase chegando, segundo o aplicativo.
Meu pai gargalhou, sentando a meu lado.
— Como você consegue comer tanto e não engordar? Você tem comido muito nos últimos dias e sua barriga continua igual!
Levantei a blusa e a camiseta para olhar minha barriga. Realmente não havia mudado nada em minha aparência. Pelo tanto que tinha comido nos últimos dias, eu devia ter engordado.
— Deve ser genético — deduzi, com um meio sorriso. — Você bebe cerveja e sua barriga não cresce.
— É porque só bebo nos finais de semana.
— Engorda de qualquer forma.
Meu pai balançou os ombros, dando mais goles em sua garrafa.
— Que milagre é esse que o Phillip não veio ficar com você hoje?
— Eu quis ficar sozinho e ter um dia só para mim. Sem namorado, estresse do trabalho ou preocupações.
— Faz bem! Ainda acho que você precisa de férias, Klayton.
— Em breve, pai.
Ele terminou sua garrafa de cerveja e levantou para ir à cozinha buscar mais uma. Meu pai não quis assistir TV comigo. Ele preferiu sair para beber com amigos do prédio.
Depois de terminar de assistir o quinto filme daquele dia, resolvi levantar um pouco para esticar as pernas e jogar fora todas aquelas caixas de comida. Enquanto as colocava em um saco preto, as luzes da sala começaram a piscar, igual tinha acontecido em meu escritório. Fui até a cozinha e liguei o interruptor para ver se era um problema de energia do apartamento, mas as luzes não estavam piscando como as da sala.
— O que é isso? — questionei, intrigado.
Voltando para a sala, além das luzes, a TV também começou a falhar. Ela estava estática e fazia um chiado grave e esquisito. Me aproximei para escuta-la melhor, mas o som começou a incomodar meus ouvidos e a deixar minha cabeça pesada.
"Sai da... Voc... Preci... Sai des..." dizia a voz grave que saía da TV.
A voz foi ficando mais baixa até que, em um piscar de olhos, tudo voltou ao normal. Os créditos do filme que eu acabara de assistir voltaram a passar na TV e as luzes da sala não piscaram mais.
— Isso não é normal — falei, com medo, olhando em volta.
...
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