19 - Estima

Era noite de sábado na KN Store e eu não fazia a menor ideia do que fazer. Pete e Nathan estavam trabalhando no segundo andar, meu pai estava com tarefas acumuladas por culpa de minha ineficiência e minha secretária parecia perdida e estressada com alguma coisa. Eu estava entediado, com fome e com muita saudade de casa... Da minha verdadeira casa.

— Boa noite, amor — disse Phillip, entrando em minha sala.

— Graças a Deus você apareceu — falei, respirando aliviado. — Parece que você sempre aparece quando preciso, Phillip.

— Minha função é te ajudar, bebê!

Desliguei o computador e peguei minhas coisas na mesa. Eu não queria ficar mais nem um segundo naquele escritório.

— Me leva para algum lugar longe daqui?

— Para onde você quer ir?

— Não sei... Me leva para comer alguma coisa e, por favor, não me julgue se eu comer demais.

Ele sorriu, me fazendo sorrir também.

— Você devia descansar mais, amor. É sábado à noite e você está aqui trabalhando. É raro você trabalhar de sábado.

— Tenho que manter esse lugar de pé enquanto eu estiver aqui, Phillip.

— Enquanto estiver aqui? Pensa em ir para algum lugar?

Phillip se aproximou, me envolveu em seus braços e me beijou. Retribui o abraço e o beijo. Eu já estava me acostumando com a ideia de ter um namorado diferente e que não me tratasse apenas como uma transa.

— Foi modo de dizer.

— Que bom, pois não vou deixar você fugir de mim, Klayton Nivans.

Sorri por um momento, mas lembrei de algo importante que eu precisava descobrir. Me soltei dos braços do Phillip e peguei meu celular no bolso da blusa. Abri o Facebook e procurei o perfil do meu ex-colega, Arth Arthit.

— Eu estava quase esquecendo, Phillip — falei, abrindo o álbum que tinha a foto que Phillip estava com o Arth. — Você conhece ele?

Phillip franziu o cenho e pegou meu celular na mão para ver a foto mais de perto.

— O japonês? Conheço!

— Japonês?

— Eu costumava chama-lo assim há uns anos. Ele é tailandês, mas eu implicava porque ele era um pé no saco.

Me animei com a descoberta. Phillip e Arth se conheciam, e eu gostaria de reencontrar pelo menos um de meus amigos.

— Onde ele mora? Vocês ainda conversam?

— Bem pouco, Klay. Não tenho conversado com meus velhos amigos desde que mudei. Eles moram quase do outro lado da cidade. Por quê?

— Quero conhecer seus amigos, Phillip.

Ele franziu o cenho novamente, devolvendo meu celular.

— Você já os conhece, Klay.

— Quero dizer... Quero rever seus amigos.

— Por quê?

— Fazer algo diferente, sabe...? Como você disse, tenho trabalhado muito e preciso relaxar.

Ele concordou, mesmo estranhando meu pedido.

Phillip e eu saímos juntos da KN Store. Meu pai se despediu da gente e pareceu gostar de me ver ir embora. Eu não quis ver e nem saber do Pete, pois não estava com cabeça para lidar com aquele assunto.

Meu namorado não tão indesejado me levou para um restaurante diferente. Pedi vários pratos, um mais delicioso que o outro. Phillip me acompanhou e comeu mais do que de costume. De sobremesa, compramos um pequeno bolo de aniversário. O garçom perguntou o que queríamos que o chef escrevesse de decoração e se aquela era uma ocasião especial. Phillip e eu trocamos olhares, rimos e dissemos para o chef escrever "me coma devagar e com muito carinho".

Depois do jantar, passeamos pela cidade. O clima estava agradável, não muito quente e com uma brisa que parecia nos abraçar. As ruas estavam cheias, pois era sábado e a noite só estava começando.

— Você falou sério hoje à tarde? — perguntou Phillip, quando paramos em uma calçada para esperar o farol fechar.

— Sobre?

— Casar comigo.

Fiquei envergonhado. Não era comum eu ficar daquele jeito com o Phillip.

— O que você acha?

— Seria um sonho se tornando realidade.

— Não acha que é muito cedo?

— São três anos, amor...

Eu não podia tomar uma decisão daquelas. Eu não era o verdadeiro Klay e não ficaria naquele lugar para sempre. Por mais que eu torcesse para que Phillip fosse feliz com o Klay daquela realidade, aquela decisão não cabia a mim.

— Tudo bem — disse, sorrindo. — Você já cansou de dizer que tem medo que nossa relação mude depois do casamento.

— Posso pensar mais alguns dias? — perguntei, tentando ganhar tempo. — Amadurecer a ideia, sabe...?

Ele assentiu, se aproximou e me deu um doce e carinhoso selinho.

Antes de voltarmos para o estacionamento que deixamos o carro, Phillip e eu passamos em frente a uma livraria de uma das principais avenidas da cidade. Em minha realidade de origem, aquela foi uma das últimas livrarias que visitei. Parei meu caminho por um momento quando passei em frente a ela, pois senti aquela sensação estranha de novo. Eu sentia que tinha esquecido alguma coisa, mas não fazia ideia do que era. Por mais que eu fechasse os olhos, pensasse e tentasse lembrar, nada vinha à minha mente.

— Klay?! — chamou Phillip, também parando em frente a livraria. — O que foi? Tá tudo bem?

— E... eu... — gaguejei, confuso. — Estou tendo uma sensação de déjà-vu..., mas é estranho.

Phillip me observou confuso por um momento, depois encarou a entrada da livraria.

— O que é estranho? Você já esteve nesta loja?

— Sim, mas...

Era difícil eu não lembrar coisas importantes. Eu sabia que estava deixando passar algo de suma importância, mas minha memória não ajudava.

— Mas o quê?

— Acho que estou esquecendo de alguma coisa, Phillip.

— Referente a KN Store, ao restaurante ou...?

— Referente a mim. Estou esquecendo algo referente a mim, sabe?

— E o que é, amor?

— Não faço ideia.

Minha cabeça estava começando a doer.

— Vamos embora? Acho que você precisa relaxar um pouco.

Concordei. Eu estava estressado demais com tudo o que vinha acontecendo naquela realidade. Eu estava em outro mundo, vivendo e convivendo com outras versões de pessoas que conhecia e não conhecia... Aquela era a explicação mais coerente para aquela sensação estranha.

Quando chegamos ao meu apartamento naquela noite, Phillip e eu seguimos a rotina dos últimos dias. Ele tomou banho primeiro, pois sabia que eu fugiria caso me convidasse para tomarmos juntos. Depois que eu sai do banho, jantamos, ficamos na sala assistindo TV e conversando com o meu pai até ficarmos com sono.

— Longo dia, não acha? — Phillip perguntou, assim que deitou a meu lado na cama.

— Nem me fala — resmunguei, já com os olhos e o corpo pesados de sono.

— Sei que vou parecer um chato, mas queria te relaxar daquela forma que você gosta, Klay — disse, envolvendo um dos braços em meu corpo.

Claro que ele estava falando de sexo.

— Agora? Eu tô muito cansado, Phillip.

— Só quero ter certeza de que você não está cansando de mim.

— Não estou...

— Promete?

Confirmei com a cabeça antes de virar meu corpo para ficar de frente para ele.

— Você não deixou de me amar, né?

— Claro que não.

— Meu maior medo é perder você, Klay Nivans.

Apertei os lábios com um tímido sorriso. Aquele rapaz tinha provado que era um excelente namorado para o Klay daquela realidade. De qualquer forma, eu ainda amava o Pete, mesmo que o daquela realidade fosse diferente e tratasse nossa relação como uma simples transa. Eu sabia e entendia que era porque ele não tinha me conhecido antes, então era questão de tempo até tudo aquilo mudar...

Eu só não sabia se daria tempo de tudo mudar.

...

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