17 - Visita
— Que surpresa maravilhosa, vovó — exclamei, ajudando-a a sentar.
— Faz muito tempo que não venho aqui, querido. Senti que você estava precisando de mim, então vim correndo!
— E a senhora não imagina como estou feliz em vê-la!
Assim que sentei a seu lado, ela colocou a mão em meu rosto me olhando atentamente. Fiquei emocionado em sentir a mão quente, macia e carinhosa da minha avó em meu rosto mais uma vez.
— Você desmaiou ontem, querido.
— Foi apenas um mal-estar.
— Você pode dizer isso para todo mundo a sua volta, mas não engana sua velha avó. Você está se esforçando demais para manter tudo isso, não é?
Haviam várias formas de interpretar aquela pergunta, mas foquei na possibilidade mais óbvia.
— O trabalho aqui é...
— Não estou falando do trabalho, Klay.
Minha avó pegou a travessa em cima da escrivaninha, abriu e me deu um dos sanduiches que tinha trazido.
— Você anda com muita fome?
— Demais!
— Alguns sensitivos desenvolvem duas ou no máximo três habilidades durante a vida. Por algum motivo, você desenvolveu muitas em pouco tempo.
Comecei a comer o sanduiche. Estava tão delicioso quanto os que a minha avó de minha realidade de origem fazia.
— Mesmo desenvolvendo mais do que deveria, não sei como usar ou controlar a maioria deles. Por exemplo, nunca mais vi espíritos recém desencarnados.
— Porque não quis, meu querido — disse, sorrindo. — Você parece ter dominado essa habilidade, então não verá a menos que queira ou precise.
— E minhas visões? — perguntei, ainda comendo.
— Visões são mais complicadas, pois é uma das habilidades que sensitivos não conseguem controlar. Você não pode escolher o futuro que quer ver.
— Mas não entendo como isso acontece, vovó...
Eu estava cheio de perguntas... Aquela era a oportunidade perfeita para eu esclarecer todas as duvidas que tinha sobre meus dons e o que estava acontecendo comigo.
— Você já teve premonições?
— Sim!
— Como elas se manifestaram?
— Através de sonhos. Tenho sonhos lúcidos desde criança, mas quando conheci o... quando conheci um rapaz, comecei a ter premonições em meus sonhos.
— Premonições em sonhos são complicados, pois mesmo sendo sonhos lúcidos, você não consegue controlar.
Quando terminei meu sanduiche, minha avó imediatamente pegou outro para me dar.
— Também não entendo como consigo mover as coisas — comentei, coçando a cabeça. — Quando estou com muita raiva, coisas acontecem e...
— Saem do controle, eu sei — completou ela, com um olhar empático e amoroso. — Essa é só uma das várias coisas inexplicáveis que você consegue fazer. Minha melhor teoria é que você tem tudo para ser um super-herói.
Sorri envergonhado. Eu estava longe de ser um super-herói. Na verdade, eu estava mais para um vilão de histórias em quadrinhos.
— E sobre eu estar aqui, vovó? — perguntei, receoso. — Acha que fiz mal em vir pra cá?
Ela abaixou a cabeça, suspirou e pareceu pensar bem antes de responder.
— Acho, meu querido.
— Por quê?
— Qual é o significado da palavra realidade para você?
Balancei os ombros.
— Realidade é o que existe! É o que é real!
— E isso é real para você?
— Sim, eu acho.
Minha avó ergueu as duas sobrancelhas, esperando uma resposta menos direta e mais sensata da minha parte.
— Essa não é a sua realidade, nem sua vida. Isso não é real para você, meu amor.
— Desculpa, mas... ver a senhora aqui, sentir o seu toque e comer novamente seus sanduiches é real para mim! Ver o Pete e o Nathan, poder conversar e estar com eles é real para mim!
— Até quando?
Balancei os ombros novamente. Eu sabia exatamente o que ela queria me dizer, mas tentava ignorar por egoísmo e teimosia.
— Não planejei quanto tempo pretendo ficar.
— Tanto porque isso não depende só de você, não é?
Franzi o cenho, curioso pelo tom que ela usou. Apesar de todas as dúvidas, havia uma que não saía da minha cabeça.
— A senhora não está brava ou chateada por eu estar no lugar dele? Eu sou seu neto, mas não sou ao mesmo tempo.
— E você está aqui, mas não está ao mesmo tempo. Não estou brava ou chateada... estou preocupada.
— Prometo que ele vai ficar bem e...
— Não estou preocupada com ele, mas sim com você.
Apertei os lábios. Aquele era outro dos momentos que eu queria que durasse para sempre.
Enquanto devorava todos os sanduiches que minha avó trouxe, tirei a maioria das duvidas sobre meus dons. Ela era sábia, mas não tinha todas as respostas. Eu já tinha lido em livros a maior parte daquelas orientações, mas a forma carinhosa e paciente que ela explicava era bem melhor que a frieza das folhas de papel.
— Posso te perguntar só mais uma coisa? — perguntei, depois de ter comido todos os sanduiches.
— Claro, meu querido.
— Como a senhora sabe, desmaiei ontem a noite. Além dos desmaios, tenho tido apagões... É como se eu visse meus dias aqui nesta realidade em pedaços, sabe?
Ela balançou a cabeça, levantando da cadeira com a travessa naquelas mãos fofas e envelhecidas.
— Você vê só o que quer — respondeu. — Você acha que está no controle, mas não está.
— Como assim?
— Estou cansada... Sua velha avó não é muito de pegar Uber e sair pela cidade. Será que você poderia chamar um motorista para me levar para casa?
— É claro, vó! — exclamei, prontamente. — Vou pedir a Charlotte para providenciar.
— Tenho certeza que ela poderá resolver tudo pra você — disse, me abraçando carinhosamente.
Charlotte pediu um motorista para levar minha avó para casa. Meu pai, que parecia não gostar dela, só apareceu depois que teve a certeza de que ela não estava por perto.
— Aquela velha louca já foi embora? — resmungou ele, fazendo uma careta.
— Não fala assim da vovó, pai!
— Quando sua mãe e eu estávamos casados, ela vivia se metendo onde não era chamada. De qualquer forma, qual foi o motivo da visita?
— Precisa ter um motivo para a minha avó materna me visitar?
Ele cruzou os braços, me olhando com desconfiança.
— Você está estranho, Klayton.
— Já ouvi muito isso nos últimos dias, mas nem ligo, papai.
Rimos juntos. O dia só estava começando e havia muito o que fazer.
Eu já tinha terminado boa parte do trabalho do dia poucos minutos antes do horário de almoço. Eu não estava com tanta fome. Os dez sanduiches que minha avó me deu naquela manhã tinham aliviado bastante a fome que senti nos últimos dias.
— Klay?! — chamou Pete, antes de entrar em minha sala.
— Oi, Pete! — exclamei, já animado em vê-lo. — Já vai almoçar?
— Só se você me acompanhar, meu querido chefe!
— Será um prazer, meu querido funcionário.
Desliguei a tela do computador, peguei minha carteira na primeira gaveta da mesa e meu celular ao lado do teclado.
— Para onde vamos? — perguntou Pete, colocando as mãos nos bolsos.
— Que tal comermos alguma coisa e depois passarmos no meu apartamento? — sugeri, com um sorriso sugestivo.
— Adorei a ideia. — Ele respondeu, começando a se aproximar.
— Que ideia?! — perguntou Phillip, entrando de repente em minha sala.
Meu namorado passou pelo Pete, me abraçou e me deu um longo e carinhoso selinho.
— Sobre um... um trabalho que estou... — Pete disse, coçando a cabeça para disfarçar.
— Bebê, vim te buscar para almoçarmos — disse Phillip, ignorando o que Pete ia dizer.
Eu estava um tanto quanto desconsertado depois daquela aparição surpresa. Me senti um pouco estranho. Me senti em um daqueles filmes onde a personagem tenta disfarçar quando seu marido e seu amante estão no mesmo ambiente.
— Você não avisou nada, Phillip.
— Preciso avisar? Sempre jantamos juntos quando estou de boa no trabalho, amor.
— Você podia ter mandado mensagem, né?
Phillip franziu o cenho, me encarou curiosamente por um momento e depois desviou o olhar para o Pete, que permanecia no mesmo lugar.
— Atrapalhei alguma coisa? — Ele perguntou, com um sorriso descontraído e simpático.
— Claro que não, amor — respondi, segurando a mão dele. — Vamos almoçar logo, pois não quero te atrasar.
— Seu fotógrafo também está indo almoçar? — perguntou Phillip, entrelaçando nossos dedos carinhosamente.
Pete balançou a cabeça positivamente, parecendo envergonhado.
— Vem com a gente, fotógrafo! — convidou Phillip, com um largo sorriso. — O Klay me falou muito bem do seu trabalho e meu sogro gostou do seu projeto, apesar de ter sido totalmente contra no começo. Vou adorar saber mais sobre a nova coleção da KN Store.
Cocei a cabeça e até tentei gesticular para o Pete não aceitar o convite, mas ele não pareceu entender meus sinais.
— Claro! — exclamou ele, ainda sem jeito. — Obrigado pelo convite. É claro que aceito almoçar com vocês!
...
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