16 - Instável
Acordei em um dos sofás da sala de reuniões da KN Store. Mesmo um pouco atordoado, consegui ver meu pai e Phillip conversando enquanto minha secretária estava ao telefone.
— Ele acordou! — exclamou Phillip, correndo até mim.
— O que aconteceu? — perguntei, mas eu já sabia.
Desmaios por exaustão eram frequentes em minha realidade de origem. Acontecia sempre que meus dons saíam do controle.
— Charlotte está chamando um médico, bebê — disse Phillip, me ajudando a sentar no sofá. — Você não deve fazer esforço e tem que ficar deitado até que...
— Estou bem — falei, já levantando. — Foi apenas um mal-estar.
— O médico estará aqui em uma hora, Sr. Nivans — disse Charlotte.
— Cancela — ordenei, sentindo meu estômago roncar de fome. — Preciso comer alguma coisa.
Devo ter parecido um pouco mais severo do que de costume, pois Charlotte cancelou o médico e ninguém questionou minha decisão. Meu pai e meu namorado estavam preocupados, mas pareciam não querer me contrariar ou questionar. Pete e Nate já tinham ido embora a pedido do meu pai. Eles estavam esperando uma resposta sobre o ensaio, mas por conta do meu desmaio, a decisão teria que esperar.
Voltei para o meu apartamento com meu pai e com o Phillip. Meu namorado indesejado propôs dormir comigo naquela noite e não aceitou uma resposta negativa da minha parte. Depois de tomarmos banho e jantarmos, ele insistiu em ver um filme no sofá da sala comigo antes de dormirmos.
— Que tal "O diabo veste Prada"? — perguntou Phillip, passando alguns títulos na plataforma de stream. — É um dos seus filmes favoritos.
— Aqui também? — questionei, surpreso em saber que aquela minha versão tinha um ótimo gosto para filmes. Só o gosto dele para músicas e tatuagens que era um pouco questionável.
Phillip sorriu, pois não entendeu minha pergunta.
— Podemos ver também algumas comédias românticas que você não tenha visto — sugeriu. — Que tal aquele da menina que faz treze anos, mas faz um desejo e acorda com trinta? Como é o nome dele mesmo?
Naquele momento tive uma estranha e desconfortável sensação de déjà-vu. Era a sensação de como se eu tivesse esquecido o fogão ligado ou a porta do apartamento aberta.
— Klay...?
— Hãn...?
— Tudo bem? Você tá passando mal de novo?
— Nã... não! Eu só me distraí tentando lembrar o nome do filme.
— É "De repente 30"! Achei aqui no catálogo, bebê. Quer assistir?
Alguma coisa estava errada, mas eu não conseguia entender o que era. Eu sentia que minha mente estava me sabotando e que meu raciocínio estava mais lento que o normal.
— Pode ser — falei, forçando um sorriso.
Acordei com um pouco de dor de cabeça no sexto dia. Eu ainda me sentia estranho. Me esforcei para prestar atenção nos mínimos detalhes do que fazia e dizia para garantir que eu não ia esquecer de nada. Como de costume, tomei café da manhã com meu pai e com o Phillip em meu apartamento, fomos para a KN Store juntos e passei na cafeteria em frente a loja para comprar mais lanches para tentar aliviar a minha fome. Pete e Nathan já me esperavam e estavam conversando em frente a minha sala quando cheguei. Fiquei um pouco mais animado em vê-los juntos, principalmente por saber que aquela cena nunca seria possível em minha realidade de origem.
— Bom dia, Klay — disse Pete, com um largo e apaixonante sorriso. — Você melhorou?
— Bom dia, Pete — respondi, suspirando. — Estou ótimo! Ontem só tive um mal-estar.
— Você devia ter tirado um dia ou dois de folga, Klay — disse Nathan.
— Eu gostaria, mas não é o momento — comentei, abrindo minha sala e os convidando para entrar.
Não precisei olhar todas as fotos do Nathan para aprova-lo como modelo oficial da KN Store da próxima coleção. Tanto o trabalho dele como o do Pete estavam impecáveis. Depois de alinharmos quais seriam os próximos passos daquele projeto, Nathan saiu da minha sala para ajustar os detalhes de seu contrato com a Charlotte. Sabendo que Pete e eu tínhamos muito o que conversar, fechei a porta e me certifiquei que meu pai estaria muito ocupado durante toda aquela manhã.
— O que aconteceu com você ontem, Klay?
— Ontem só tive um mal-estar.
— Você ficou pálido e todo frio.
Balancei os ombros e cocei a nuca. Pete parecia hesitante e não se aproximou de mim naquele momento, mesmo eu dando todos os sinais de que queria uma aproximação.
— Muito trabalho e estresse, Pete. Confesso também que eu estava com fome e isso pode ter contribuído para...
— Você não tem uma doença sexualmente transmissível, tem?
Fiquei surpreso com a pergunta, mas entendi a preocupação dele.
— Claro que não.
— É que transamos ontem e meio que esquecemos a proteção...
— Eu não tenho relações sexuais com outras pessoas além de você, Pete.
— Além de mim e seu namorado, você quer dizer.
— Sim! Além de você e do Phillip, claro!
Em minha realidade de origem, Pete e eu nunca nos preocupamos com aquilo. Ele tinha sido meu primeiro namorado e minha primeira relação sexual. Ele já tinha tido uma relação anterior com uma colega do colégio, e foi naquela ocasião que descobriu que não gostava de garotas. Segundo ele, não chegou a ser uma transa, mas sim uma tragédia que o fez abrir os olhos e aceitar sua sexualidade.
— Você tem certeza que não tem...
— Não tenho nada, Pete! Você acha que eu transaria com você sem preservativo se tivesse alguma...
— Não quis ofender você, Klay! É só uma simples pergunta, ok?
Ele finalmente se aproximou, envolveu os braços em meu pescoço e me beijou. Retribui. Apesar de achar desnecessário, não me ofendi com aquela pergunta. Era natural ele querer saber para se preservar, principalmente por estarmos sendo infiéis.
— Você e o Phillip costumam transar todos os dias? — Pete perguntou, já roçando o corpo contra o meu de maneira sugestiva. — Seu namorado é tão bonito quanto você, Klay.
— Faz um tempo que ele e eu não transamos, Pete.
— Por isso você me procurou?
— Também.
Eu não conseguia parar de me sentir estranho. Apesar de estar realizando meu maior desejo, eu não conseguia relaxar.
— O Nathan é muito gato, não acha? — Pete perguntou, começando a acariciar meu peito por baixo da minha camiseta. — Será que ele curte garotos?
Franzi o cenho.
— Tá afim do Nate?
— Não é estar afim... Você viu as fotos dele?
— Vi, claro!
— Vai me dizer que não gostou daquele corpo.
— Ele é atraente, mas não o vejo como nada além de um amigo, Pete. Sem falar que te acho muito mais bonito e atraente que ele.
Pete sorriu e acariciou meu rosto.
— Também te acho mais atraente, Klay. Você é todo loirinho, tem esses olhos claros, essa carinha de inocente..., mas é um safado!
— Sou, é?
Mais um beijo, porém mais apaixonante que o primeiro. Eu queria relaxar e não pensar em nada além de ficar com o amor da minha vida. Lutei muito para conseguir aquele momento e eu tinha que aproveitá-lo, pois não duraria para sempre.
— Que tal escapulirmos hoje?
— Tenho muito trabalho, Pete.
— Também tenho, mas o que você acha de expandirmos um pouquinho o horário de almoço?
— O que você propõe?
Ele colocou a mão em pau por cima da calça e o apertou.
— Que tal isso? O que acha?
Por um lado, eu curtia aquele Pete mais safadinho, por outro, estranhava... Na verdade, eu estava estranhando quase tudo nos últimos dias.
— Acho uma boa ideia — concordei, o beijando mais uma vez.
Um pouco antes do beijo terminar, as luzes do escritório começaram a piscar. Ouvi baixinho um barulho estranho, parecido com o de uma impressora emperrando.
— Você tá vendo isso?
— Isso o quê?
As luzes continuavam piscando, mas Pete não parecia ver o mesmo que eu.
— As luzes piscando, Pete.
— Luzes piscando...? As luzes não estão piscando, Klay.
As luzes estavam piscando e aquele barulho ficava mais alto a cada segundo. A sala estava ficando fria e minha cabeça pesada. Começou fraco e pouco a pouco se tornando insuportável... até o telefone da minha mesa tocar e tudo parar como em um estalar de dedos.
— Sim, Charlotte?
— Sr. Nivans, tem uma visita te esperando.
— Visita? Quem?
— Ela disse que é surpresa. Posso pedir para entrar?
— Sim, Charlotte, obrigado!
Pete sorriu daquele jeito fofo e especial de sempre.
— Temos que trabalhar.
— Sim, mas não é pra ficar babando no Nathan, hein?!
Pete riu, mas balançou a cabeça enquanto abria a porta e saía da minha sala. Imediatamente depois, com toda a sua graciosidade e fofura, minha avó entrou com uma travessa de sanduíches nas mãos.
— Vovó?! — exclamei, surpreso e animado.
— Que tal uma pausa para conversar com sua velha avó, querido? — disse, colocando a travessa em minha mesa e me abraçando carinhosamente.
...
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