14 - Ensaio

– 3 meses antes –

Eu estava frustrado, pois não tinha tido progressos. Viajar para outras realidades era impossível. Segundo minhas pesquisas, não existia uma pessoa no mundo que havia conseguido. A existência de realidades paralelas era incontestável, mas sair de uma para a outra parecia nunca ter sido feito na história da humanidade. 

Eu estava no sexto livro do dia sobre realidades paralelas quando meu pai bateu na porta entreaberta do quarto.

— Klay?! Você tem visita.

— Eu já disse que não quero ver ninguém. Estou ocupado.

— Acho que essa visita é diferente.

E era diferente. Os pais do Nathan saíram da Filadélfia para me visitarem em Pitsburgo. Eles ainda estavam agradecidos pelo que fiz pela alma do Nate. Graças a mim, eles descobriram o que tinha acontecido com o filho e puderam guiar as investigações de sua morte.

— A garota que machucou nosso filho confessou tudo depois de semanas de pressão da polícia — disse a Sra. Lewis. — Sabemos que Nathan já está em paz, mas agora nós podemos ficar em paz sabendo que a verdade apareceu e a justiça foi feita.

— E devemos tudo isso a você, Klay — disse o Sr. Lewis, estendendo a mão para me cumprimentar.

Retribui o cumprimento com um meio sorriso. Aquela era a melhor notícia que eu recebia há semanas.

— Podemos retribuir esse gesto de alguma forma? — perguntou a Sra. Lewis.

Balancei a cabeça. A única coisa que eu queria no mundo era ter uma segunda chance com o Pete, mas nada e nem ninguém poderia me dar aquele presente.

— Fico feliz em saber que tudo foi esclarecido, Sr. e Sra. Lewis. Durante o tempo que o ajudei, Nathan e eu nos tornamos grandes amigos. Tenho certeza que ele está feliz em saber que houve justiça em seu caso.

Foi a primeira vez em muito tempo que eu disse que me sentia feliz, mas não era verdade. Há meses eu não sentia nada. Eu estava vazio e não havia nada em minha mente ou em meu coração além do meu objetivo...
Reencontrar o Pete.


– Dias Atuais –

— Estou bem, pai! — resmunguei, terminando de beber um pouco de água.

— Você ficou branco igual papel, Klayton!

— É só cansaço. Preciso de uns dias de folga.

Charlotte entrou em minha sala depois de bater na porta entreaberta.

— Sr. Nivans? O rapaz está esperando.

— Ele pode entrar, Charlotte.

Meu pai cruzou os braços quando viu Nathan entrar, me encarou por um segundo e franziu o cenho.

— Esse é o rapaz?

— Ele mesmo!

— Obrigado por me receber, Sr. Nivans — disse Nathan, estendendo a mão para me cumprimentar.

E ele estava tão lindo quanto eu me lembrava. Nathan também estava vivo naquela realidade e eu não perderia a oportunidade de conquistar a amizade dele.

— Esse rapaz é modelo? — perguntou meu pai.

— Não, senhor — respondeu ele. —, mas já fiz algumas fotos para minhas redes sociais com fotógrafos profissionais.

— Não importa se ele é modelo, pai — resmunguei, feliz em rever meu amigo. — Ele é lindo e é exatamente o que Pete e eu procuramos para a nossa próxima coleção.

— Falando assim, parece que você o contratou antes de entrevista-lo, Klayton — disse meu pai.

— Não preciso entrevista-lo — respondi, gesticulando para Nathan sentar. — Pete vai tirar algumas fotos dele hoje e, se o Nate se der bem, estará contratado.

Nathan e meu pai trocaram olhares.

— Só isso, Klayton? — questionou meu pai.

— Você não tinha umas coisas para resolver? — perguntei, já sem paciência. — Não me faça repensar aquele aumento.

Ele resmungou alguma coisa inaudível, revirou os olhos e saiu da sala.

— Obrigado pela oportunidade, Sr. Nivans.

— Me chama de Klay, pois vou continuar te chamando de Nate.

— Tudo bem, Klay.

Nathan e eu conversamos o básico para aquela entrevista de emprego. Ele parecia ser um rapaz bem menos problemático que a versão da minha realidade de origem. Aquele Nathan era mais reservado, cuidava do corpo como o Nate que eu conhecia, mas parecia manter a humildade e gentileza com as pessoas.

— Sua secretária disse que você que me indicou como possível modelo da próxima coleção, é verdade?

— Verdade! O fotógrafo passou uma proposta e um tema para os ensaios, e a primeira pessoa que pensei foi você, Nate.

— Você me conhecia das redes sociais, não é?

Não, mas aquela era a desculpa perfeita.

— Sim, claro! — exclamei, depois de pigarrear.

— E meus pais dizem que redes sociais são uma total perda de tempo — comentou Nathan, parecendo orgulhoso de si mesmo.

Depois de mais alguns minutos de conversa, liberei Nathan para se reunir e fazer o teste com os fotógrafos e o pessoal do marketing. Já estava quase na hora do almoço e, apesar da fome, eu não parava de pensar no que tinha acontecido naquela manhã.
Era difícil imaginar o que passava na cabeça do Pete daquela realidade. Ele criou sentimentos por mim ou o que tivemos foi apenas um impulso? A segunda opção era a mais palpável, pois ele deixou claro que o que fizemos não ia se repetir..., mas sei que ele tinha gostado. Ele ter gostado era um ponto positivo a meu favor na tentativa de conquista-lo ou aquele era mesmo o fim?

— Vamos almoçar? — perguntou Phillip, entrando de repente em minha sala.

— Claro — aceitei, balançando os ombros.

Phillip e eu almoçamos em um restaurante próximo a KN Store. Minha fome tinha voltado com tudo, mas não abusei daquela vez. Eu precisava me controlar para não levantar suspeitas, então decidi que pediria lanches para a Charlotte quando eu voltasse ao trabalho. Confesso que quase me senti mal por ter "traído" o Phillip. Ele era um rapaz legal e eu tinha certeza que a relação dele com aquele Klay era maravilhosa. O problema é que apesar do corpo ser do namorado dele, a mente e a alma não eram mais.

— Fiquei sabendo que o rapaz que você quer contratar como modelo já está fazendo testes com os fotógrafos — disse Phillip, enquanto pagava a conta.

— Sim! Nathan chegou hoje para fazer o teste.

— Ouvi dizer que ele nem é modelo profissional, Klay. Você o escolheu só por ser bonito?

Balancei os ombros.

— Claro que não, Phillip.

— Então...? Devo ficar com ciúme?

Franzi a testa.

— Ciúme do Nathan? Não se preocupe, pois não o vejo como uma paquera ou algo assim.

— Não sei, pois ainda não o vi pessoalmente. Que tal você me levar para conhece-lo?

— Devo ficar com ciúme do Nate, Phillip?

Ele arregalou os olhos.

— Nate?! Já está tratando o rapaz por apelidos?

Phillip e eu passamos o resto da volta a KN Store fazendo piadas e nos provocando. Eram brincadeiras bobas de ciúme que todos os casais costumam fazer para encher o saco um do outro. Percebi que com a convivência acabei me acostumando com a ideia de ele ser meu namorado. Ele me entendia, me ajudava e estava sempre por perto quando eu precisava. Eu ainda amava o Pete e minha prioridade era conquista-lo, mas não queria mais afastar o Phillip da minha vida. Eu ainda evitaria ter relações com ele, mas não era justo terminar o relacionamento dele com o Klay daquela realidade. Eles eram apaixonados e fofos demais para eu chegar e destruir tudo.

Quando chegamos a loja, Phillip e eu fomos direto para os fundos do segundo andar, onde haviam os estúdios de criação e marketing. Pete e o fotógrafo oficial da KN Store estavam fazendo um ensaio com Nathan.

— Já posso ficar com ciúme? — disse Phillip, assim que viu Nathan posar com a jaqueta aberta para as fotos. — Esse garoto não deve comer absolutamente nada que tenha gordura ou açúcar.

— Eu disse que ele era perfeito, não disse?

— De onde você o conhece? Ele deve ter o quê...? Uns dezessete anos.

— Se o tempo aqui é igual ao meu... tem quase dezoito.

Phillip me encarou por um momento e cruzou os braços.

— Se o tempo aqui é igual ao seu, Klay?

— Eu quis dizer se calculei certo, Phillip.

Pete estava concentrado na sessão de fotos. Ele chegou a acenar para Phillip e eu quando nos viu, mas manteve o foco no trabalho.

— Qual é a desse fotógrafo novo, Klay? — Phillip perguntou, com um tom diferente na voz.

— Como assim?

— Não o conheço direito, então não quero fazer pré-julgamentos..., mas ele é um pouco estranho, não acha?

Soltei todo o ar de uma vez para começar a rir.

— Estranho? Como assim?

— A expressão corporal dele é um tanto quanto suspeita.

Observei Pete por um momento e nada parecia suspeito para mim. Eu não sabia onde o Phillip estava querendo chegar.

— Não vejo nada de estranho.

— Bom, você deve estar certo. — Phillip me deu um selinho e um tapinha na bunda. — Venho te buscar mais tarde, ok?

Confirmei com a cabeça antes de ele ir embora.

Não senti aquela tarde passar. Quando voltei para a minha sala, fiquei estudando mais sobre a realidade em que estava. Estudei sobre a KN Store e quase tudo o que o Klayton Nivans daquela realidade fazia para administra-la. Estudei sobre a minha família olhando as redes sociais dos meus pais e matei a saudade dos meus amigos stalkeando as redes sociais deles.

Sue e Tyler estavam juntos naquela realidade. Eu acreditava que era questão de tempo até eles ficarem juntos na minha de origem, mas fiquei feliz em saber que aquilo não mudou. Arth não cursava Direito e estava namorando um rapaz. Ele parecia mais feliz que a versão que eu conhecia, mas por conta da troca de curso, ele não conhecia Sue e Tyler.
Passando algumas fotos do Instagram do Arth, encontrei uma em que ele estava em algo que parecia ser uma festa ao lado do Phillip.

— Arth e Phillip se conhecem? — indaguei, pegando o celular do bolso para mandar uma mensagem ao Phillip.

Antes de desbloquear a tela do celular, o monitor do computador começou falhar. Não só o monitor, mas as lâmpadas do escritório e até a tela do meu celular pareceu entrar em uma espécie de curto circuito. Dei alguns tapas no monitor e chacoalhei meu celular, mas as telas estavam falhando quase que em sincronia.

— Que merda é essa? — questionei, preocupado.

— Klay?! — chamou Pete, batendo na porta e entrando em minha sala em seguida. — Sua secretária disse que eu podia entrar sem ser anunciado.

As luzes pararam de piscar e tanto o monitor do computador quanto a tela do celular voltaram a funcionar perfeitamente.

— Você viu isso, Pete?

— Isso o quê?

— As luzes piscando.

Ele franziu o cenho olhando para os lados.

— Luzes piscando? Eu não vi nada, Klay.

Pete fechou a porta e se aproximou para mostrar a pasta com as fotos do Nathan.

— O Nate já foi?

— Não. Ele está esperando na sala de reuniões. Eu disse que traria as fotos para você avaliar.

E elas estavam perfeitas. Nathan era muito fotogênico e sua beleza física era de cair o queixo.

— Estão perfeitas, Pete.

— Também achei, Klay. O rapaz é muito atraente.

— Concordo.

Pete mordeu o lábio inferior, sorriu maliciosamente e se aproximou para me beijar. Hesitei por um segundo, mas retribuí.

— Achei que isso não aconteceria de novo, Pete — comentei, depois de ele sentar em meu colo.

— Ainda sinto o que fizemos mais cedo — disse ele, envolvendo os braços em meu pescoço e roçando o rosto carinhosamente no meu. — É normal sentir essas coisas depois de uma transa?

Eram momentos como aquele que eu estava esperando, mas não parecia correto. Não sei o que estava errado comigo, mas alguma coisa me incomodava.

— Está dolorido?

— Um pouco, mas a sensação é boa.

— Boa? Como assim?

— É como se meu corpo pedisse por mais.

Pete me beijou novamente, mas com mais intensidade e paixão que a primeira vez. Ele rebolou o corpo em meu colo me deixando imediatamente excitado.

— Você quer mais, Pete?

— Você não quer?

— Achei que...

Alguém bateu na porta naquele exato momento. Pete a tinha trancado por dentro, então deu tempo para nos recompormos.

— Klay?! Por que estão trancados? — perguntou meu pai, desconfiado, entrando assim que Pete abriu a porta.

...

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