10 - Inelutável

Almocei com meu pai depois da longa e cansativa reunião com o departamento de marketing da KN Store. Eu estava tão entediado e nervoso com tudo o que estava acontecendo naquela estranha realidade que comi mais do que devia. Repeti o almoço duas vezes e pedi três sobremesas. Não satisfeito, pedi um lanche para a viagem.

— Você tá comendo demais, Klay.

— Ansiedade, pai.

— Ansiedade pelo quê? Você nunca teve ansiedade.

Balancei os ombros enquanto pagava a comanda do restaurante com o pouco dinheiro em espécie que me restava.

— Por que você não usa os cartões de crédito e débito?

— Porque não sei a senha deles.

Meu pai franziu o cenho e me olhou com desconfiança. Eu estava tão distraído que tinha esquecido por um momento que estava fingindo ser um Klay de uma realidade diferente.

— Quero dizer que as senhas venceram e eu não tive tempo para fazer outras, pai.

— Todas as senhas venceram ao mesmo tempo?

— Pois é! Que engraçado, não acha?!

Aquele era outro problema que eu tinha que resolver. O dinheiro que o Klayton Nivans daquela realidade tinha na carteira e escondido na gaveta de cuecas tinha acabado. Como eu sacaria mais dinheiro sendo que não sabia as senhas dos cartões dele?

— Pede para a Charlotte fazer isso por você, filho — disse meu pai, clareando minha mente. — Tenho certeza que ela consegue novos cartões e novas senhas para você.

— Boa ideia — falei, agradecido. — Eu não tinha pensado nessa solução.

Meu pai cruzou os braços daquela forma severa e calculista de sempre. Tive que revirar os olhos e suspirar por saber que seria submetido a mais um interrogatório.

— O novo fotógrafo surpreendeu, não acha?

— Pete?

— Existe outro?

Fiz uma careta.

— As ideias do Pete são ótimas, pai.

— Não acho que sejam as melhores ideias, mas ele ganhou o meu respeito por saber defende-las muito bem. Todos ficaram impressionados.

— Nunca duvidei dele.

Ele ainda me olhava com desconfiança, mas agora com um brilho a mais.

— Acredito quando você diz que não está dormindo com o novo fotógrafo.

— Ah! Obrigado!

— Mas isso não significa que você não queira leva-lo para a cama, Klay.

Levantei imediatamente da mesa em que estávamos. Eu não queria ter aquele tipo de conversa com ele. Meu pai começou a rir e durante toda a nossa volta para a KN Store ficou fazendo piadinhas sem graça sobre o possível crush que eu tinha no Pete.

A tarde e a noite foram mais tranquilas. Meu pai estava cheio de trabalho e isso o impediu de ficar no meu pé me enchendo de perguntas. Charlotte tinha as senhas de todos os meus cartões, então era um problema a menos para me preocupar. Phillip me mandava mensagem de vinte e vinte minutos dizendo que estava excitado e doido para me ver mais tarde. E Pete já estava trabalhando com o fotógrafo oficial da loja, então não teve tempo durante a tarde para ir na minha sala para conversarmos.

— Klay? — chamou minha secretária, entrando em minha sala.

— Tá aprendendo, Charlotte! Me chamou de Klay!

— Sim senhor.

Revirei os olhos, fiz uma careta e suspirei.

— Entrei em contato com o rapaz que você pediu. Ele não é modelo, mas aceitou falar com você para uma proposta de trabalho.

— Você conseguiu falar com o Nathan? Não acredito!

— Ele é muito popular nas redes sociais. Eu é que não acredito que ele viu e respondeu minhas mensagens.

— Marcou uma reunião?

— Ele disse que pode estar aqui depois de amanhã. É que ele mora na Filadélfia e vai ter que arrumar um tempo para vir.

— Eu já imaginava. Obrigado, Charlotte.

Ela sorriu e ameaçou sair da sala, mas lembrou de mais um recado e voltou antes que eu terminasse de arrumar minhas coisas para ir embora.

— O novo fotógrafo quer falar com você.

— Pete?

— Ele estava ocupado e passou na minha mesa por um breve minuto para que eu te avisasse.

— Você pode chama-lo, por favor?

Charlotte assentiu e saiu da sala.

Por mais que eu quisesse vê-lo, não sabia como encarar o Pete naquela noite. Eu estava desiludido, envergonhado e irritado com toda aquela situação. Ele tinha visto o Phillip me dar flores e uma caixa de chocolates... que eu já tinha comido toda. Era difícil de imaginar o que ele estava pensando de mim.

Eu queria desistir. Talvez ter viajado para aquela realidade estranha e totalmente diferente da minha não tenha sido uma boa ideia. Pete e minha avó estavam vivos, mas Shawn nem tinha nascido. Nathan também estava vivo, mas Sue, Tyler e Arth não eram meus amigos. Meus pais estavam separados e minha vida, apesar de não tem problemas financeiros, parecia virada de cabeça para baixo.

— Espero não estar te atrapalhando, Klay — disse Pete, batendo na porta entreaberta da minha sala.

— Pode entrar — autorizei, sentando em uma das cadeiras à frente da minha mesa.

Pete sentou a meu lado com a pasta preta que costumava carregar.

— Trouxe o resultado do trabalho de hoje. Sempre gosto de mostrar o que estou fazendo para o cliente acompanhar o andamento do projeto.

Assenti, prestando atenção nas explicações e nas fotos que ele tinha feito naquele dia. Pete era muito profissional, e a preocupação dele era saber se eu estava gostando e de acordo com sua proposta.

— Eu vi as fotos do rapaz que você vai contratar para ser o rosto da KN Store na próxima coleção — disse Pete, ainda me mostrando suas fotos. — Eu também acho que ele combina com minha proposta. Tenho certeza que as fotos ficarão perfeitas.

— Não tenho a menor dúvida disso, Pete — comentei, com um meio sorriso forçado por conta do cansaço físico e mental.

Pete me encarou com curiosidade por um momento.

— Você parece desanimado.

— Pareço? Desculpa, Pete. Foi um longo, cansativo e estressante dia.

— Tem alguma coisa a ver com aquele homem que te trouxe flores? Ele é seu namorado?

Pisquei algumas vezes e suspirei.

— Acho que é.

— O que ele te fez?

Seria estranho falar do Phillip para o Pete.

— Quer mesmo falar disso?

— Desculpe se estou sendo intrometido, Klay. É que gostei da sua amizade e gostaria de mantê-la depois que concluirmos esse trabalho.

Entortei a boca abaixando a cabeça. Aquelas palavras machucavam demais. Eu o amava muito para ser apenas um amigo.

— Você não está sendo intrometido, Pete... É que há problemas e coisas que você não sabe e acho que não entenderia.

— Me conta? Mesmo que eu não entenda, gostaria de saber.

Meu coração começou a acelerar. Pete estava tão perto e era tão carinhoso e atencioso comigo. Eu sentia cada pedacinho do meu corpo doer de vontade de abraça-lo e beija-lo.

— Você já chegou a gostar tanto de alguém que... até dói?

— É o sentimento que você tem por ele?

— Não.

Eu apertava meus joelhos com as mãos para me controlar.

— E então...?

— Há alguns meses perdi uma das pessoas mais importantes e especiais que passaram pela minha vida, e foi tudo minha culpa. Estudei por meses uma forma de tentar entrar em contato com ela, mas foi em vão.

Pete segurou minha mão e a apertou amigavelmente.

— Você a magoou tanto assim? O que você fez?

— Foi pior que magoar, Pete...

— O que foi então?

Ele se aproximou um pouco mais. Eu sabia que ele estava sendo gentil, tentando me ouvir e consolar por eu estar triste, mas eu não conseguia mais segurar. Era impossível resistir a vontade que eu estava guardando desde o primeiro segundo que o encontrei... e o beijei. Meu corpo e meus lábios avançaram contra ele quase que por conta própria. Não dava mais para segurar o desejo que eu guardava por meses.

— Mas que... — resmungou ele, se afastando quase que imediatamente. — Que droga você está fazendo?!

— Pete, por favor, me escut...

— Te escutar?! Você ficou louco?!

Ele me segurou pela gola da camiseta com tanta força que senti a costura apertar meu pescoço. A outra mão estava erguida e fechada em punho, pronta para socar o meu rosto. Sua expressão deixava claro que ele estava cheio de raiva e nojo.

— Achei que éramos amigos, porra!

— Pete, me deixa explicar?

— Não ouse colocar suas mãos em mim de novo! Seu... Seu pervertido!

Pete pegou a pasta com as fotos que tirou e saiu da sala. Ajoelhei no chão, coloquei as mãos na cabeça e chorei em silêncio. A dor e o vazio que eu sentia em meu peito eram devastadores. Eu não sentia algo parecido com aquilo desde o dia em que descobri que ele estava morto... Que o meu Peter Praves, de minha realidade original, estava morto.

...

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