03 - Mudanças

Passei o restante do dia cortando o cabelo, raspando completamente a barba e me depilando para me sentir mais confortável e confiante para encarar os problemas daquela realidade. Quando voltei para a loja, selecionei mais algumas roupas e calçados, pois eu não queria parecer um desleixado. O Pete ainda não me conhecia naquela realidade, e eu precisava conquistá-lo novamente.
Minha volta ao trabalho foi um choque para todos. Os vendedores não pararam de me encarar e cochichar quando achavam que eu não estava olhando. Charlotte, minha secretária, me olhou de cima a baixo como se eu fosse um estranho.

— Sr. Nivans?

— Klay, Charlotte! Klay!

— Ah, sim! Desculpa, Sr. Klay.

Revirei os olhos e entrei em minha sala carregando as sacolas com as novas roupas que peguei. Eu me sentia mais leve, mais cheiroso e até mais atraente por estar quase do jeitinho que eu era em minha realidade nativa.

— Klayton?! — exclamou meu pai assim que me viu. — O que você fez?

— Cortei o cabelo, fiz a barba e resolvi dar uma mudada no visual — respondi, tomando meu lugar em minha poltrona.

— Não o vejo assim desde a adolescência, filho.

— Eu estava cansado de tanto pelo, sabe?!

Percebi que o computador estava ligado e desbloqueado em meu perfil. Deduzi que o meu pai sabia as senhas, então um dos problemas que me preocupavam já estava solucionado.

— Sr. Klay, consegui o que o senhor me pediu — disse Charlotte, entrando na sala. — Seu celular antigo está desbloqueado e eu já passei o número do senhor para o novo. Eu ia passar a sua agenda também, mas imagino que o senhor queira abrir a caixa antes e ver se está tudo certo.

— Está tudo certo, Charlotte, obrigado! Por favor, pode passar toda a agenda do celular antigo para o novo.

— Mudou até de celular, Klay? — perguntou meu pai.

— O meu antigo está com a bateria viciada.

— Mas você o comprou há quatro meses, filho.

— Pois é! Que absurdo, não acha?!

Sorri para disfarçar. Eu não sabia como estava conseguindo manter aquela farsa. Claro que todos estavam estranhando minhas mudanças de aparência e de comportamento, mas se eu quisesse que o meu plano desse certo, precisava focar e ser convincente.

— Também consegui encontrar a pessoa que o senhor está procurando — disse Charlotte.

Meu coração acelerou.

— Encontrou o Pete? — questionei, emocionado.

— Sim! Consegui o telefone, Facebook e Instagram dele — respondeu Charlotte, me entregando um papel com as anotações que tinha feito. — Quer que eu ligue e tente marcar uma hora?

— Marcar uma hora? — perguntei, sem entender.

— Ele é fotógrafo, Sr. Klay — disse Charlotte. — Não foi por isso que o senhor pediu para que eu o encontrasse? O senhor quer contratá-lo, não é?

O Pete daquela realidade era fotógrafo? Imagino o quão fofo ele ficava exercendo aquela profissão.

— Exatamente! — exclamei, animado. — Por favor, Charlotte, ligue para o Pete imediatamente e marque um horário para hoje. Diga que tenho urgência em encontrá-lo, ok? 

Charlotte assentiu e saiu da sala. Meu pai começou a falar comigo, mas eu não fazia ideia do que ele estava falando. Não consegui prestar atenção em mais nada além do papel com os dados do Pete.

O Facebook e o Instagram do Pete daquela realidade eram profissionais, então não encontrei tantas informações pessoais quanto gostaria. A maior parte das fotos eram de trabalhos que ele realizava como fotógrafo. Não haviam fotos dele além da do perfil. Não haviam fotos dele em família ou com amigos...

— Klay?! — exclamou meu pai, chamando minha atenção.

— Hãn?! Quê?!

— Você não respondeu minha pergunta.

— Que pergunta?

— Você tá querendo contratar outro fotógrafo? Não combinamos de resolver isso na reunião de hoje à tarde junto com o pessoal do marketing e design?

— Sim, mas eu já escolhi o fotógrafo! Conheço o Pete e sei que ele fará um excelente trabalho.

— Nosso fotógrafo oficial ficará chateado.

— Azar o dele!

Meu pai pareceu estranhar a resposta.

— O que você tem hoje?

— O quê?

— Você tá muito estranho, Klayton Nivans!

— Como assim? Enlouqueceu?

— Você tá falando diferente, cortou o cabelo, fez a barba, depilou os pelos do braço...

— Eu só queria mudar um pouco de visual. Isso é algum crime?

— Não quis dirigir o seu carro de estimação e trocou de celular! Você comprou um celular novo há menos de quatro meses!

— A propósito, se quiser ficar com o meu celular antigo, é todo seu!

Fingi estar digitando alguma coisa no computador para o meu pai achar que eu estava trabalhando. Ele continuou a me olhar desconfiado, mas não insistiu no assunto.

— A reunião começa daqui a vinte e cinco minutos, filho.

— Tudo bem! Você vem me buscar?

— Te buscar?

— Para irmos juntos a reunião.

Meu pai assentiu, franziu o cenho e saiu da minha sala. Respirei aliviado assim que ele fechou a porta. Aquele dia estava sendo difícil, e aposto que ficaria pior em uma reunião onde eu provavelmente teria que tomar decisões sobre assuntos que não conhecia. E foi menos assustador do que eu imaginava...
A reunião com meus funcionários e anunciantes foi relativamente simples. Basicamente tive que ver o conteúdo que eles tinham preparado e aprovar para as próximas campanhas publicitárias. O que me deixou ainda mais impressionado foi ver o quão importante e influente era aquela loja. Tínhamos anúncios em revistas, jornais, sites importantes e até em emissoras de TV a cabo.

— Sobre o fotógrafo... — pontuou um dos designers. — Tenho uma sugestão para...

— Sobre isso, decidi contratar um novo profissional — falei, interrompendo-o.

— Qual? — perguntou um dos anunciantes.

— Peter Praves! — exclamei, orgulhoso.

— Quem?! — questionou um dos designers.

— Não lembro de termos trabalhado com esse Peter Praves, Sr. Nivans — disse um dos anunciantes.

— Pois é, mas quero ele no nosso time — afirmei. — Conheço o Pete e sei que ele é perfeito em tudo que faz.

— Pode ser difícil para nossos anunciantes aceitarem um profissional desconhecido, Klay — comentou meu pai. — Sem falar que nosso fotógrafo oficial tem o contato de excelentes modelos e sempre os chama para nossos trabalhos.

— Podemos contratar novos modelos também — sugeri.

— Mudar tudo? — questionou um dos anunciantes. — Você quer mudar de fotógrafo e de modelos?

— Não é um bicho de sete cabeças, gente — falei, levantando da cadeira para passar mais firmeza e confiança em minha decisão. — Vamos contratar um fotógrafo e novos modelos para a campanha publicitária do próximo semestre. Podemos fazer isso!

— E por que essa mudança tão repentina? — perguntou um dos designers.

— Preciso dar um motivo? — perguntei, voltando a sentar. — Eu que gostaria de saber qual é o problema de mudar o fotógrafo em uma campanha publicitária. Nosso fotógrafo oficial continuará conosco, mas desta vez, quero que quem fotografe a campanha do próximo semestre seja o Pete!

Todos concordaram, mas ficaram confusos com aquela decisão. Meu pai foi o que mais me fez perguntas depois da reunião, pois sabia que o Klay daquela realidade não conhecia o Pete. Ele estranhou a certeza que eu tinha de que aquele fotógrafo novo faria um bom trabalho.
Quando voltamos para a minha sala, meu pai continuou questionando minhas mudanças...

— Você está levando seu trabalho a sério, Klayton?

— Sério que tudo isso é por uma simples troca? Se for por isso, o Pete trabalhará junto com nosso fotografo oficial. Isso te deixa mais calmo?

— O problema é que você quase demitiu tudo e todos para contratar nosso fotógrafo oficial, e agora quer mudar para um novo que você nem conhece? Logo você que é a pessoa mais sistemática que existe?

— Confia em mim, Ok? Pete trabalhará com o fotógrafo oficial da loja, assim, você, os designers e anunciantes não precisarão se preocupar.

Meu pai me encarou com uma expressão desconfiada e maliciosa.

— O que você tem com esse tal de Peter?

— Hãn?!

— Você o defende como se o conhecesse. Você o conhece? O que está escondendo do seu velho?

— Não o conheço! Não estou escondendo nada!

— Não é o que parece.

Charlotte bateu na porta entreaberta da minha sala e entrou quando dei permissão com a cabeça.

— Foi difícil, mas consegui a reunião com o fotógrafo que você pediu, Sr. Klay.

— Excelente, Charlotte! Para hoje?

— Ele disse que está muito ocupado esta semana, mas concordou em encontrá-lo hoje se for na Station Square.

— Station Square?! Por quê?

— Ele tem que fazer algumas coisas por lá, então se o senhor tem tanta urgência em encontra-lo, ele pode atende-lo entre as dezoito e dezenove horas.

Estava acontecendo... Pete concordou em me encontrar. Eu jamais imaginei que seria tão fácil reencontrá-lo.

— Confirme nosso encontro, por favor, Charlotte.

— Sim, senhor!

Meu pai continuava em minha sala, me encarando. No começo tentei ignorar, mas ficou chato conforme o tempo passava.

— Você não tem nada para fazer, pai?

— O quê? Como?

— Vai ficar me olhando enquanto trabalho?

— Você não trabalhou hoje, Klayton. Basicamente você foi dormir ontem sendo uma pessoa e acordou hoje sendo outra completamente diferente.

— Que bobagem!

— Entendo que você está estressado com a loja e com saudade da sua mãe, mas você mesmo preferiu não tirar férias, lembra?

— Talvez eu tire uma semana ou duas em breve. Juro que não está acontecendo nada, pai! Só quero ser diferente um pouco, tudo bem?

Ele concordou e pareceu se convencer. De qualquer forma, eu não me importava com o que os outros pensavam de mim. A única coisa que me importava naquele momento era rever o Pete, abraça-lo e continuar nosso amor de onde parou.

O carro com um motorista particular que Charlotte conseguiu estava me esperando na frente da loja às dezessete horas em ponto. Phillip, que ainda era o namorado do Klay daquela realidade, ligou para saber qual horário eu queria que ele fosse me buscar. Ciente que ele e meu pai precisariam do meu carro para voltarem para casa, pedi ao Phillip para voltar sozinho com o meu pai, pois eu tinha coisas importantes para fazer naquela noite.

Cheguei na Station Square quinze minutos antes do combinado. Charlotte tinha marcado meu encontro com o Pete em uma cafeteria do terceiro andar. Meu coração estava acelerado e eu não me aguentava de ansiedade. Depois de meses de tristeza e culpa, finalmente eu reencontraria o amor da minha vida.
Pete ainda não tinha chegado, mesmo assim pedi um choco macchiatto para mim e um frappuccino para ele, pois sabia que era uma de suas bebidas favoritas. Sentei em uma das mesas e fiquei olhando em meu celular novo de minuto em minuto, torcendo para que o tempo passasse depressa. Até que...

— Klayton Nivans? — perguntou aquela voz linda e inconfundível. — Sua secretaria disse que você estaria com uma camiseta branca de manga longa. Espero não ter te feito esperar muito.

— Pete?! — exclamei, já emocionado.

...

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