02 - Favores

– 5 meses antes –

Estar naquele cemitério para dar um último adeus ao amor da minha vida foi o momento mais difícil que já passei. Apesar do apoio dos meus pais, do meu irmão e dos meus amigos, não consegui falar. As pessoas me faziam perguntas, mas eu não conseguia responder. Eu sentia algo entalado em minha garganta. Eram dúvidas, teorias e um monte de pensamentos desconexos que, por mais sufocantes que fossem, me ajudavam a não chegar ao limite.

A mãe do Pete foi a primeira a falar na cerimônia. Ela estava desolada, com olheiras fundas. Foi difícil não se emocionar com as poucas palavras que ela conseguiu dizer em homenagem ao filho. Nuri foi o segundo a falar. Apesar de parecer mais calmo, era notável o quanto ele sofria por estar parado ao lado do caixão do primo mais próximo que tinha. Eu sentia a dor dele e de todos os que estavam naquela cerimônia absurda. Ninguém entendia ou se conformava com o que tinha acontecido com o Pete. Um rapaz jovem, saudável e cheio de vida simplesmente morrer subitamente enquanto dirigia. Era absurdo e doloroso demais para acreditar. Eu era o único que sabia o que tinha acontecido com ele... Pete Praves morreu por minha culpa. Eu era diretamente responsável por ser teimoso e imprudente.

Meu pai foi convidado a falar, e fiquei agradecido por ele não ter revelado sem querer minha real relação com o Pete. O padre que regia a cerimônia até tentou me chamar, mas permaneci sem reação sentado em uma das últimas fileiras. Shawn, quando percebeu que todos estavam me olhando e esperando por uma resposta, se ofereceu para ir em meu lugar.

— Klay, tudo bem? — perguntou minha mãe, sentando a meu lado. — Você não levantou desse banco desde o minuto em que chegamos, filho. Você não quer se despedir do Pete?

Balancei a cabeça negativamente. Eu não queria me despedir do Pete, pois não entrava em minha cabeça que ele estava morto. Vi mortos andando para todos os lados por meses, mas Pete não tinha aparecido para mim. Ele não veio se despedir. Nathan, mesmo depois de descobrir o que tinha acontecido, teve tempo para me abraçar, agradecer e se despedir... Por que o meu namorado, o rapaz que dizia que me amava mais do que tudo no mundo, não teve um segundo para aparecer e se despedir?

— Quero ir embora — falei de repente, levantando, dando as costas e saindo daquele lugar.

— Klay?! — chamou meu pai, tentando me fazer voltar e reconsiderar.

— Algo está errado e eu vou descobrir o que é — resmunguei, enxugando as lágrimas enquanto saía daquele lugar.

(...)

– Dias atuais –

— Ual! — exclamei assim que entrei na loja de roupas do Klay daquela realidade.

— O quê? — perguntou meu pai, desconfiado.

— Nada — resmunguei, pigarreando em seguida.

Era gigantesca... A loja do Klay daquela realidade não vendia somente roupas, mas calçados e bolsas também. Era bem decorada e iluminada. Havia uma grande variação de estilos, o que era estranho vindo de um rapaz que só tinha roupas pretas no armário. Haviam muitos funcionários e clientes, o que dava a entender que não era uma simples lojinha de roupas, mas sim uma empresa sólida e rentável.

— Não posso ficar muito, amor — disse Phillip, tentando pegar em minha mão.

Para não parecer rude, apertei a mão dele carinhosamente, forcei um sorriso para disfarçar e a soltei para fingir que arrumava aquele grande e desconfortável cabelo.

— Sério?! Para onde você vai?

— Para o meu trabalho, esqueceu? Pensei que depois a gente podia...

— Ah, que bom! Então tchau, meu amor!

Tentei escapar, mas Phillip foi mais rápido e agarrou minha cintura antes de eu me afastar.

— Não está esquecendo nada?

— Eu?! Esquecendo?! Nada?! O quê?

Ele pegou a chave do meu carro e a balançou na minha frente.

— Estranho você me deixar dirigir o seu carro hoje — disse Phillip, franzindo o cenho.

— Não estou me sentindo bem — menti.

Tentei pegar a chave, mas ele a afastou e sorriu como se aquilo fosse uma brincadeira muito engraçada. Tive que respirar fundo para manter a calma e o foco em ser o Klayton Nivans daquela realidade.

— Era para eu ter vindo com o meu carro, então não tenho como voltar para casa hoje. Você me da uma carona?

Eu não tinha pensado naquilo. Eu não sabia dirigir, então alguém teria que fazer isso por mim todos os dias.

— Você pode vir me buscar mais tarde? Te deixo dirigir o meu carro quantas vezes quiser!

— É estranho, mas tudo bem! Se meu bebê não está se sentindo bem para dirigir, serei seu motorista particular com todo o prazer.

Phillip tentou me beijar, mas virei o rosto o fazendo beijar minha bochecha. Aproveitei aquela brecha e peguei a chave do meu carro, mesmo sabendo que não poderia fazer nada com ela.

— Até mais tarde, Phillip — falei, me soltando dos braços dele e andando sem rumo pela loja.

Eu não sabia para onde tinha que ir. Quando chegamos, meu pai desapareceu enquanto eu tentava me livrar daquele namorado que nem conhecia. A loja era muito grande e eu não fazia ideia de onde era o meu local de trabalho, ou o que o Klay daquela realidade costumava fazer.
Passeei pela loja olhando as araras de roupas e calçados para ter uma noção do que era vendido. Separei algumas camisetas e bermudas que gostei, pois eu não pretendia usar as roupas que o Klay daquela realidade tinha. Percebi por um momento que os funcionários evitavam me olhar diretamente. Eles sorriam, abaixavam a cabeça e arrumavam alguma coisa para fazer enquanto eu estava por perto.

— Bom dia! — cumprimentei um dos vendedores.

Ele demorou alguns segundos para perceber que o bom dia era para ele.

— Bom dia, Sr. Nivans! — respondeu. — Como foi o final de semana?

— Bem, obrigado! E como foi o seu, Sr...? — Fiz uma pausa para conseguir ler o nome do rapaz no crachá. — Sr. Michael!

— Muito bem, obrigado — respondeu, com um sorriso estranho e aparentemente preocupado.

Eu não queria passar uma primeira impressão errada para as pessoas, mas depois lembrei que eles já me conheciam... Eu que não os conhecia e precisava entender os detalhes daquela realidade.

— Você pode me fazer um favor?

— Qualquer coisa, Sr. Nivans!

— Pegue as peças que estou separando e as leve para o meu local de trabalho.

— Levar para a sua sala?

— Minha sala?! Sim, por favor!

Ainda com a expressão preocupada, o rapaz pegou os cabides com as roupas que estavam em minhas mãos.

— Algo mais, Sr. Nivans?

— Talvez sim, mas já pode levar essas, por favor.

O rapaz assentiu e saiu em direção aos fundos da loja. O segui discretamente, pois aquela seria a melhor forma de descobrir onde era minha sala sem precisar perguntar.

— Bom dia, Sr. Nivans! — cumprimentou uma mulher sentada em uma escrivaninha ao lado da minha sala.

Deduzi que aquela era a minha secretária. A mesma mulher que tinha me ligado de manhã.

— Bom dia!

— O seu café da manhã está na sua mesa, e o seu pai mandou avisar que tem coisas importantes para resolver e voltará mais tarde para a reunião.

— Reunião? Qual reunião?

— Você tem uma reunião com os anunciantes, com o pessoal do marketing e do design às quatorze horas.

Forcei um sorriso e suspirei.

— Por favor, me lembre dessa reunião quinze minutos antes de começar, ok?

— Sem problema, Sr. Nivans.

— E, por favor, venha à minha sala. Quero te pedir um favor.

Minha secretária não estranhou o pedido e levantou prontamente para me acompanhar.

A sala de trabalho do Klayton daquela realidade não era tão assustadora quanto eu imaginava. Era bem decorada, não estava bagunçada como o quarto dele e nada parecia estar fora do lugar. Era um ambiente tranquilo, bem arejado e aconchegante.

— No que posso ajudá-lo, Sr. Nivans? — perguntou a secretária, tirando um bloquinho de anotações e uma caneta do bolso do casaco.

— Muitas coisas, Sra... — Levei alguns segundos para conseguir ler o crachá dela. — Charlotte!

Ela estranhou minha pausa antes de falar o seu nome. Forcei um sorriso para disfarçar, contornei minha mesa e sentei em minha poltrona.

— Vou tomar nota de tudo, Sr. Nivans.

— Por favor, me chama de Klay! Sr. Nivans lembra muito o meu pai e prefiro que só ele seja chamado dessa forma por aqui.

— Mas o senhor disse que era para eu te chamar de Sr. Nivans e...

— Esquece o que eu disse e me chame de Klay, ok?

Ela assentiu, confusa.

— Quero que você procure uma pessoa para mim.

— Uma pessoa?...

— O nome dele é Peter Praves e, não sei se isso vale para esta realidade, mas ele mora na Coniston, próximo a faculdade de Pittsburgh.

— Para esta realidade?

Cocei a nuca e comecei a rir sem a mínima graça.

— Eu quis dizer que não sei se ele ainda está morando lá. De qualquer forma, é muito importante que você consiga o telefone e o endereço dele. Tenho muita urgência em encontrá-lo, ok?

— Tudo bem, Sr. Niva... quero dizer... Klay! O senhor deseja mais alguma coisa?

— Sim, por favor! Você sabe onde eu costumo cortar o cabelo?

— Hãn... Não sei, Sr. Nivans...

— Klay, Charlotte!

— Sim, desculpe! Não sei, Sr. Klay.

Revirei os olhos. É claro que aquele Klay não cortava o cabelo e não fazia a barba há semanas. Como ele tinha relações com o namorado daquele jeito? Até as partes intimas estavam precisando de uma boa depilação.

— Será que você consegue me arrumar um carro particular hoje? — perguntei, ligando o computador à minha frente.

— Como assim? — perguntou ela, com uma expressão engraçada e ainda mais confusa.

— Um carro com motorista para me levar onde eu quiser, sabe? — respondi, tentando parecer mais sério e menos nervoso do que eu estava. — Não estou me sentindo bem para dirigir o meu carro, e provavelmente o Phillip vai vir me buscar mais tarde.

— Posso providenciar sim, Sr. Klay.

— Só Klay, Charlotte!

— Desculpe, Klay.

A primeira tela que apareceu quando o computador ligou foi a do login e da senha para acessar o meu perfil. O login já estava preenchido, mas a senha estava em branco e eu não fazia ideia de qual era. Como de costume, peguei meu celular no bolso da calça, pois eu costumava salvar minhas senhas no bloco de notas em minha realidade. Mas havia outro grande problema em minhas mãos...

— Qual é a senha para desbloquear o meu celular?

— O senhor esqueceu a sua senha?

— Esqueci! Eu consegui atender sua chamada hoje de manhã porque não era necessário desbloquear o celular. Esqueci completamente deste detalhe! Sem falar que essa droga de celular parece um tablet! Quem usa um celular tão grande e desta marca horrorosa?

Charlotte permaneceu em silêncio enquanto eu resmungava. Ela parecia ter medo de mim.

— Charlotte, por favor, vá até alguma loja e compre um iPhone X, o onze ou até o doze para mim, depressa!

— Sim, Klay!

— E, por favor, leva esse tablet em formato de celular para algum técnico, hacker ou qualquer bruxo que seja para desbloqueá-lo!

— Agora mesmo!

— E mais uma coisa... — falei, já totalmente sem paciência. — Peguei algumas roupas da loja que vou levar para casa. Meu guarda-roupa está péssimo e preciso mudar um pouco...

— Quer que eu adicione as peças, o celular novo e o carro particular no relatório de saídas de caixa?

— Sim, por favor!

— Deseja mais alguma coisa?

— Um comprimido para dor de cabeça, mas termine tudo o que eu te pedi antes, ok?

Charlotte assentiu, pediu licença e saiu da sala. O dia só estava começando e eu já tinha milhões de coisas em minha cabeça para fazer e resolver.
Pete era a minhaprioridade, mas muitas coisas precisavam da minha atenção... Eu precisava encontrar a minha mãe e saber se ela estava bem. Eu queria saber como estava o Tyler, a Sue, o Arth e meus outros amigos. Nathan também era uma pessoa que eu gostaria de encontrar, mas isso poderia esperar um pouco mais. Eu precisava também resolver minha situação com o Phillip, pois se eu queria ficar com o Pete daquela realidade, terminar com o meu atual namorado era um dos primeiros passos que eu tinha que seguir.

...

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