38 - Violação

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— Eu realmente preciso ir embora — afirmei me dirigindo à porta da frente. — Prometo voltar um outro dia para conversarmos mais.

— Por favor, Klay, não vá embora — pediu a mulher. — Eu realmente quero te ajudar.

— Você só está interessada nos meus dons, não é? — questionei. — Eu não sou burro e você já deve saber depois de tudo que te contei. Sei o que você quer que eu faça por você e por sua falecida filha. Me desculpe, mas ela faleceu a muito tempo e não posso fazer nada a respeito!

— Klayton... — Dra. Susan tentou insistir.

— Não posso fazer nada por você, Dra. Susan — resmunguei. — Por favor, para de fingir que quer me ajudar, pois é obvio que você só quer se ajudar aqui!

Abri a porta da frente por conta própria e finalmente saí daquela casa. O livro estava comigo, então, eu poderia dar continuidade a meu plano.

— Nossa, Klay! — exclamou Tyler. — Achei que você nunca mais ia sair.

— Também achei — afirmei entrando no carro.

— Você está bem? — Tyler questionou. — Estou preocupado com você, pois você mal dormiu desde o...

— Por favor, me leva pra casa — pedi impaciente. — Tenho muito o que estudar e muito o que fazer.

— Mas Klay... — Meu amigo tentou insistir no assunto.

— Acelera, Tyler! — exclamei irritado.

(...)



Quando desci as escadas e voltei para a sala da casa da família Lewis, os pais do Nathan estavam de mãos dadas rezando pela alma do filho. Esperei até que eles acabassem de fazer aquela prece para contar o que tinha acontecido.

— Não se preocupem, pois o Nathan já pode descansar — afirmei. — Ele não está mais neste mundo, mas tenho certeza que pode ouvir suas preces.

— Ele está bem? — perguntou Sra. Lewis.

— Está sim — falei ainda emocionado. —, mas conseguimos descobrir o que aconteceu naquele dia. Como eu suspeitava, a morte do Nate não foi natural.

— Quem ou o quê fez isso com nosso filho? — perguntou Sr. Lewis já irritado levantando do sofá.

— Ele já não estava bem naquele dia — afirmei. — Acho que alguém fez ele comer ou beber alguma coisa que o deixou no estado que o senhor o encontrou na quadra, Sr. Lewis. Acredito que o que ele tomou tenha misturado com o medicamento que ele usava para ganhar energia nos treinos.

— E quem deu isso a ele? — perguntou Sra. Lewis.

— Uma garota chamada Ellen — falei. — Ela esteve aqui no dia que vocês fizeram aquela reunião para homenagear o Nate, sabe?

— Foi a garota que vi entrar na quadra? — perguntou Sr. Lewis.

Balancei a cabeça para confirmar.

— E ela deu um soco no peito do Nathan que pode ter feito o coração dele parar — deduzi. — Ele já estava com taquicardia por conta do medicamento misturado com a droga que ingeriu sem saber. Suspeito que ela tenha dado a ele com alguma segunda intenção, mas isso só ela poderá confirmar se confessar.

Os pais do Nathan ficaram chocados e começaram a chorar com aquela notícia. Aquilo partia meu coração, mas se não fizéssemos nada, Nathan não teria a justiça que merecia.

— Vocês precisam ir à polícia — afirmei. — Podem fazer uma denúncia contra a Ellen e juntar com os resultados de uma segunda autópsia para provar que ela drogou e matou o Nate.

— Você está insinuando que... — Sra. Lewis fez uma pausa. — Você quer que desenterremos nosso filho?

— O que está naquele cemitério não é seu filho, Sra. Lewis — afirmei. — Seu filho já está em outro mundo e acreditem quando eu digo que ele está bem!

— Temos que fazer isso — incentivou Sr. Lewis. — Por minha culpa enterraram nosso filho e mentiram na causa da morte. Você sabe que pagamos para alterarem os resultados porque achamos que ele estava usando drogas.

— Se quiserem, eu tenho algumas fotos da primeira autop...

Não consegui terminar a frase, pois meu celular começou a tocar justamente naquele momento. Era uma chamada do Tyler...

— Hey, Ty!

— Onde está seu namorado coreano e a Sue?

— Pete não foi te buscar?

— Ele foi pegar a Sue primeiro, pois estava mais próximo da localização dela. Ele disse por mensagem que já estava chegando aqui, mas talvez tenha decidido passar para te pegar primeiro. Sabe como é o amor, né?

— Tentou ligar pra ele?

— Caixa postal. O celular da Sue também!

— Ele já deve estar chegando aí. Por favor, fiquem juntos que eu já vou encontrar com vocês, okay?

— Se ele chegar aí primeiro, me liga! Tô com fome e ele prometeu levar a gente para um junk food quando terminássemos.

— Eu ligo, não se preocupe.

Tyler encerrou a chamada...
Senti um estranho e incômodo aperto em meu peito em seguida.

— Eu sinto muito, mas preciso ir embora — falei aos pais do Nathan. — Tenho alguns assuntos para resolver, mas prometo voltar aqui amanhã antes de voltar para casa.

— Obrigado pela ajuda — disse Sr. Lewis. — Muito obrigado por ajudar o espírito do nosso filho.

— Eu sabia que ele estava por perto, pois de alguma forma meu coração ainda o sentia — disse Sra. Lewis.

— Ele os amava e com certeza está feliz agora que toda a verdade será revelada — concluí.

Depois dos agradecimentos e troca de contatos telefônicos, os pais do Nathan me levaram até a porta da frente. Distraído, esbarrei em um rapaz que estava parado na varanda pronto para tocar a campainha da casa.

— Opa! — exclamou o rapaz. — Me desculpe! Te machuquei?

— Não machucou — respondi com um meio sorriso. — Desculpe eu ser tão distraído.

— Eu não queria esbarrar em você — disse o rapaz.

— Não foi nada — falei franzindo o cenho. — Não se preocupe!

— Sr. e Sra. Lewis, me chamo Peter, sou da empresa de seguros e vim concertar a torneira do lavabo — disse o rapaz enquanto eu me afastava da casa.

De repente tive uma estranha sensação de Déjà vu... Eu já tinha ouvido aquelas frases antes.

Fiquei parado na calçada absorto em pensamentos antes do meu celular começar a vibrar novamente em meu bolso...
E daquela vez era um número desconhecido.

— Alô?

— Por favor, gostaria de falar com o Klayton.

— É ele.

— Uma amiga sua me passou seu número. É que ela e um rapaz asiático bateram o carro aqui na avenida que eu estava passando e...

— O que?!

Congelei.
Meu coração começou a acelerar.

— Calma, não se preocupe! Acho que eles estão bem, pois não foi uma batida grave! A ambulância chegou segundos depois e os levou para o hospital central da Filadélfia.

Encerrei a ligação e abri um dos aplicativos de carona para chamar um carro. Eu estava aflito, mas ao mesmo tempo esperançoso, pois eu não tinha tido nem uma visão de que algo ruim ia acontecer com Pete ou Sue. Depois que liberei meus dons, eu sabia que era capaz de prever algo como aquilo, então, eu teria previsto se uma tragédia grave fosse acontecer... 
Por garantia, enquanto estava a caminho do hospital, fechei os olhos e me concentrei para tentar descobrir o que tinha acontecido com eles. Para meu alívio, eu não vi nada.

Liguei para Tyler e Mike para que eles chamassem um carro para leva-los ao hospital. O ideal era que o grupo todo ficasse junto naquele momento. Se Pete ou Sue precisassem de alguma ajuda, podíamos nos ajudar e procurar soluções rápidas para qualquer problema.

Assim que entrei nas dependências do hospital, ouvi um sussurro seguido de um arrepio apavorante.

"Você não poderá usar seus dons, Klayton" ecoou em minha mente.

"Estou disposto a pagar." Me ouvi respondendo.

"Temos um trato?" perguntou a estranha voz.

"O que acontece se eu romper este lacre?" Reconheci novamente minha voz, mas não lembrava quando e onde aquilo tinha acontecido.

— O que foi isso? — questionei ficando um pouco tonto.

Flashes de luzes vinham à minha mente. Eu estava confuso, desconfiado e um medo inominável crescia dentro de mim. Eu não queria duvidar dos meus dons, mas...
Havia alguma coisa errada.

— Meu nome é Klayton Nivans — falei assim que cheguei na recepção do hospital. — Recebi uma ligação falando que dois amigos deram entrada aqui no hospital depois de um pequeno acidente de trânsito.

— Quais são os nomes dos seus amigos? — perguntou a recepcionista.

— Peter e Sue — respondi.

A recepcionista digitou alguma coisa no computador, assentiu e me deu um cartão.

— Pegue o elevador a esquerda e vá para o quarto andar — disse ela. — Seus amigos já devem estar te esperando na enfermaria.

— Os dois estão bem? — questionei preocupado.

— Não sei te dizer — confessou a recepcionista. — Quem chega com ambulância entra pelos fundos e sobe direto. Aqui diz que seus amigos estão na enfermaria, então, acredito que estejam bem.

Assenti e segui para o elevador.

Enquanto o elevador não chegava no meu andar, aquela voz estranhamente familiar voltou a sussurrar.

"São poderosos demais" sussurrou ela.

"Não entendo como isso aconteceu" respondi.

"Vai contra as leis da natureza, mas a culpa não é sua." Ela continuou.

"Como vou controlar?" perguntei.

"Nunca rompa o lacre." Ela respondeu.

Jamais estive tão confuso. Eu tinha recuperado meus dons e sabia que podia fazer muito mais do que ver espíritos ou ter visões do futuro, mas tudo relacionado a Pete e Sue parecia estar em branco. Eu não conseguia senti-los.

Subi de elevador até o quarto andar e entreguei o cartão que recebi na recepção do térreo na recepção daquele andar. A atendente me deu um crachá e permitiu minha entrada na enfermaria.

— Klay! — exclamou Sue se aproximando para me dar um abraço assim que me viu entrar na enfermaria.

— Oi, Sue! — exclamei aliviado retribuindo aquele abraço. — Você está bem? Onde está o Pete? O que aconteceu com vocês?

— Não sei o que aconteceu, Klay — disse Sue parecendo preocupada. — Pete foi me buscar antes de eu conseguir falar com a Ellen, pois disse que você já tinha resolvido tudo e não era mais necessário seguir com o plano. De repente, ele simplesmente apagou enquanto dirigia.

Congelei.

— Como assim apagou? — perguntei quase sem voz.

— Ele estava dirigindo e falando comigo até desmaiar — disse Sue. — Por sorte estávamos devagar e o carro derrapou no gelo em direção a uma arvore, então, eu só ganhei um galo na cabeça.

— Onde está o Pete? — questionei já completamente apavorado.

As coisas começavam a se encaixar de maneira desesperadora.

— O levaram para fazer exames, mas...

— Ele chegou no hospital acordado?

— Klay... Fica calm...

— Ele chegou no hospital acordado ou não?

— Não, Klay! Ele não chegou aqui acordado, mas provavelmente já deve estar bem...

Sue continuou falando para tentar me tranquilizar, mas eu desliguei completamente. Eu sabia o que estava acontecendo... Não era uma coincidência...
Nada era coincidência.

— Eu matei o Pete — murmurei colocando as mãos na cabeça já começando a me desesperar. — Eu matei meu namorado... Eu matei ele quando quebrei o lacre... Eu...

— Klay, se acalma! — exclamou Sue colocando as mãos em meus ombros. — O médico ainda não disse nada e ele já deve ter acordado.

— Não, ele não... — gaguejei. — Eu preciso ir... Eu preciso falar com ele de novo para tentar um novo acordo... Eu preciso morrer de novo, Sue! Eu preciso ir até ele e...

Sue me segurou e começou a gritar por ajuda. Eu estava em pânico, pois finalmente tinha entendido o que estava acontecendo. Alguma coisa em minha mente tinha bloqueado não só meus dons, mas também minhas memórias do que aconteceu no dia que fui para o linear entre a vida e o pós-vida...
Eu tinha violado o acordo com a entidade que me guiou naquele dia.

— Você não vai morrer coisa nem uma, Klay! — exclamou Sue. — Me escuta, Klayton Nivans! Isso é só um ataque de pânico, mas o Pete vai ficar bem!

— Acredita em mim! — gritei. — Se eu não for agora, o Pete vai...

Naquele momento duas enfermeiras e um médico chegaram na sala para ajudar Sue. As enfermeiras me seguraram e o Médico também começou a tentar me acalmar.
Quando mais tempo eu perdia, mais desesperado eu ficava.

— Me soltem, por favor! — Eu gritava me debatendo com todas as forças que eu tinha. — Eu preciso ver o Pete!

— Vou ter que aplicar um sedativo se você não se acalmar! — exclamou o médico.

— Acredita em mim, por favor! — exclamei. — Se eu não fizer nada, Pete vai morrer!

— Apliquem, rápido! — exclamou o médico.

— Klay, fica calmo! — exclamou Sue. — Vou ligar para seus pais, não se preocupa. Pete está bem e você vai ficar bem também!

— Por favor, me soltem! — gritei. — Eu quero ver o Pete!

Senti uma picada em meu braço e logo em seguida senti meu corpo amolecer. Eu não tinha mais forças para lutar. Eu queria fazer alguma coisa e se possível morrer para salvar a vida do Pete, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer...
Meus olhos começaram a escurecer até eu perder completamente a consciência.

***

Eu soube no momento em que abri os olhos e vi meus pais a meu lado naquela cama de hospital. Eu ainda estava sedado e mal conseguia me mover.

— Querido... — disse minha mãe com aquela voz suave.

Não respondi.
Eu estava completamente morto por dentro.

— Klay — murmurou meu pai sentando a meu lado na cama e pegando em minha mão. — Vai ficar tudo bem.

Comecei a chorar.
O olhar dos meus pais já denunciava aquilo que eu mais temia.

— Vamos levar você pra casa — disse minha mãe. — Vamos ficar com você, filho.

— Seus amigos estão lá fora te esperando com seu irmão — disse meu pai. — Você não vai ficar sozinho, Klay.

— Me deixem, por favor — murmurei com dificuldade.

— Klay, precisamos falar com você — disse minha mãe. —, mas agora não é o momento e...

— Pete está morto, não está? — perguntei.

Meus pais trocaram olhares de pesar. Meu pai apertou minha mão e também começou a chorar.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer...
Naquele momento, eu só queria morrer.

(...)

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