37 - Rompendo o Lacre
— Você tem conversado com o Nate? — perguntou Sra. Lewis emocionada depois de eu contar tudo o que tinha acontecido desde o momento que conheci o filho dela.
— Sei que é difícil acreditar — falei seriamente. —, mas eu tenho falado com o Nathan há semanas. Ele não está conseguindo seguir em frente, pois não consegue ficar em paz sem saber o que aconteceu.
O Sr. e a Sra. Lewis trocaram olhares. Eles pareciam acreditar no que eu estava dizendo.
— Você deu tantos detalhes que é impossível não acreditar em você, meu jovem — disse Sr. Lewis.
— Você sabe de coisas que nunca saíram das paredes desta casa e que só nós ou o próprio Nathan saberia — disse Sra. Lewis.
— Nos tornamos meio que amigos depois de ele me assombrar por tanto tempo — comentei com um meio sorriso. — Ele costumava me contar o que fazia quando estava vivo. Estamos tentando descobrir o que aconteceu com ele, mas era meio impossível em Pittsburgh.
Depois de dar detalhes e esclarecer os motivos daquela visita, os pais do Nathan concordaram em procurar a polícia para reabrir a investigação da morte do filho deles. O Sr. Lewis ficou muito abalado com a história, pois pensou que o filho dele estava usando drogas, mas na realidade, o filho dele podia estar passando mal naquele dia e ele não conseguiu enxergar por pura teimosia e desconfiança.
— Ele estava com os olhos vermelhos, um pouco aéreo e falando tudo embolado — comentou Sr. Lewis. — Foi estranho, pois Nathan não falava daquela forma. Ele realmente parecia estar drogado.
— Não estava — afirmei. — Nathan não usava drogas ilícitas. Ele apenas usava medicamentos indicados para treinos e ganho de massa muscular.
— Eu fui muito burro — disse Sr. Lewis. — Por minha culpa meu filho está morto!
— Não foi sua culpa, querido — disse Sra. Lewis. — Eu também estava estranhando o comportamento do nosso filho nas últimas semanas antes da morte dele.
— Ele ficou agressivo, distraído, as notas dele caíram no colégio e muitas coisas aconteceram — comentou Sr. Lewis.
— Ele estava com problemas, mas não estava usando drogas — afirmei. — Ele jamais usaria coisas assim, pois se cuidava mais do que qualquer pessoa que eu já conheci.
— Problemas? — questionou Sra. Lewis.
Expliquei minhas suspeitas e falei de quem Nathan suspeitava que poderia fazer algum mal a ele. Os pais do Nate não tinham conhecimento da gravidade das ameaças do Frank ou do que estava acontecendo em relação ao Patrick.
— Então se vocês souberem de qualquer coisa que tenha acontecido naquele dia, seria de suma importância para meus amigos e eu descobrirmos o que aconteceu — comentei. — O senhor lembra de alguma coisa que tenha visto naquele dia, Sr. Lewis? Nathan estava sozinho na quadra? Acompanhado? Ele segurava alguma coisa?
— Ele estava sentado em um dos bancos da quadra com uma toalha pendurada no pescoço e uma garrafinha de água nas mãos — disse Sr. Lewis. — Ele estava sozinho na quadra. Pensei que ele estivesse sozinho por estar fazendo alguma coisa errada.
— Tem certeza que ele estava sozinho? — Insisti.
— Tenho — afirmou Sr. Lewis. —, mas lembro que uma colega do Nate entrou na quadra antes de eu sair.
— Uma colega? — questionei já animado. — Quem? Como ela é?
— Um pouco mais baixa que o normal, cabelos cumpridos, pele clara, usava uma jaqueta azul clara e uma calça jeans escura — disse o Sr. Lewis. — Nada em especial.
— Se eu te mostrar uma foto dela, o senhor acha que consegue identifica-la? — perguntei esperançoso.
— Acho que não — respondeu Sr. Lewis. — Estava longe e eu não vi o rosto dela direito.
Podia ser qualquer garota daquele colégio, mas mesmo que a identificássemos, não dava para ter certeza de que ela estava envolvida em alguma coisa. A garota poderia ter apenas passado pela quadra de esportes naquele dia.
— Tudo bem se eu for no quarto do Nate? — perguntei simpaticamente. — Talvez eu encontre alguma coisa lá que nos leve a quem fez isso com ele.
— Claro — concordou Sra. Lewis. — Tenho mantido o quarto do Nate igual desde o dia em que ele se foi. Tenho certeza que ele tem nos visitado e gostado de como deixamos tudo como ele sempre deixou.
Não me atrevi a dizer que o filho deles não conseguia entrar na casa. Eles já estavam abalados demais para eu contar detalhes do que o espirito do Nathan estava passando.
A Sra. Lewis me acompanhou até onde ficava o quarto do Nate. Ela preferiu me deixar sozinho por um tempo tanto para que eu ficasse mais à vontade quanto por achar que eu usaria meus dons paranormais para algum fim religioso para ajudar o filho dela.
— A única coisa que mudei foi a escrivaninha do Nate — disse Sra. Lewis. — Coloquei fotos, itens pessoais e dvd's de filmes que ele gostava de assistir quando estava entediado.
Reparei em uma fita amarela com alguma coisa escrita em outra língua enrolada em uma das fotos do Nathan. No momento que bati o olho naquele pedaço de tecido, constatei que se tratava de um objeto de alguma religião e que tinha uma forte energia emanando dele.
— O que é aquilo? — questionei intrigado.
— É uma fita que recebi do reverendo da igreja que vou todo domingo — respondeu Sra. Lewis ainda emocionada. — Ele nos deu duas fitas benzidas. Uma coloquei aqui no quarto do Nate e a outra levaram para a escola. Lá tem um quadro no vestiário da quadra com a camisa que ele usava para jogar basquete. A outra fita está lá.
Agora eu sabia o motivo do Nathan não conseguir entrar naquela casa ou no colégio que estudou. Lembro de ter lido em algum livro da minha avó que objetos benzidos e que receberam preces para espíritos descansarem barravam sua passagem em determinados locais. Isso servia para que pessoas apegadas a suas casas e itens pessoais conseguissem desapegar para não as assombrar.
— Vou deixar você tranquilo — disse Sra. Lewis. — Quando terminar, estaremos esperando na sala.
Agradeci, mas era estranho ser tratado daquela forma. Aquele tratamento e olhar eram os mesmos que minha falecida avó recebia quando atendia os clientes que a procuravam. Era um olhar de súplica, de pesar e gratidão ao mesmo tempo.
Me senti estranho, mas os entendi.
O quarto do Nate era exatamente como eu tinha imaginado. Haviam posters e quadros de basquete, um violão ao lado da cama, uma escrivaninha preta e uma cadeira gamer camuflada...
— É a sua cara, Nate — sussurrei.
Me aproximei da escrivaninha e peguei a fita amarela que impedia Nathan de entrar na casa. Peguei também a caixinha de fósforos que estava ao lado de um dos porta retratos com a foto dele para ascender um dos copinhos com velas.
— Eu prometi que te ajudaria, então acho que não tenho outra opção — falei antes de pegar um dos palitos de fósforos e acender um dos copinhos com vela para queimar aquela fita benzida.
As chamas consumiram aquele pedaço de tecido em poucos segundos...
Nathan apareceu no quarto quase que imediatamente depois.
— Klay?! O que tá acontecendo?
— Bem vindo de volta!
— Eu pensei que nunca mais ia conseguir entrar aqui! Eu tentei e tentei muito, mas nunca consegui passar da calçada.
— Tinha um objeto que te impedia de entrar aqui, mas já me livrei dele.
Nathan não parecia acreditar no que estava vendo. Ele estava feliz e emocionado por rever o quarto que viveu por dezessete anos.
— Nathan, precisamos descobrir depressa o que houve naquele dia!
— Por quê? Você descobriu alguma coisa?
— Seu pai disse que viu uma garota na quadra antes de passar pela saída de emergia naquele dia. Você não lembra de nada sobre isso?
— Não lembro de quase nada do dia que morri, Klay.
Eu sentia que podia ajuda-lo, mas teria que romper o lacre em minha mente que mantinha meus dons adormecidos. Por um lado, eu sabia que usar meus dons era errado, por outro, eu sabia que o que eu podia fazer pelo Nathan seria incrível e que ele seria eternamente grato a mim...
E minha avó disse quando a reencontrei no linear entre a vida e o pós-vida que meu destino era ser um grande homem e ajudar as pessoas.
— Acho que posso te ajudar a lembrar — afirmei depois de suspirar. — Não tenho outra opção, pois se a garota que seu pai viu na quadra naquele dia for a Anne ou a Ellen, meu amigo Mike ou minha amiga Sue podem estar correndo perigo.
— Como você vai me ajudar a lembrar? — questionou Nate confuso.
— Com a mesma habilidade da Eve, aquela garotinha — comentei. — Vou entrar na sua mente.
Peguei meu celular do bolso, desbloqueei a tela e procurei o número do Pete para fazer uma ligação.
— Klay, eu tô morto — disse Nathan descrente. — Não tenho mente!
— O corpo é só uma casca, Nate — afirmei. — Confia em mim, por favor!
Pete atendeu a ligação...
— Hey, amor!
— Pete, por favor, vá buscar Tyler, Mike e Sue imediatamente.
— Ainda não encontrei com o Patrick.
— Não é mais necessário. Não quero que você ou meus amigos se arrisquem mais. Minha intuição estava certa e acho que consigo descobrir tudo que aconteceu naquele dia usando meus dons.
— Você vai liberá-los?
— Não tenho outra opção.
— Estou muito orgulhoso de você, amor! Você é um anjo e eu sabia que tomaria a decisão certa.
— Obrigado, Pete.
Encerramos a ligação.
Nathan ainda me observava com um olhar preocupado. Ele queria ser ajudado, mas não queria que eu abrisse o lacre que bloqueava meus dons e me arrependesse depois.
— Klay, tem certeza disso?
— Tenho!
— Mas Klay, eu não acho que...
— Não é só por você, Nate. É por todos os espíritos que tenho visto nessas últimas semanas... Por todas as pessoas como você e o Pete que precisam da minha ajuda.
— Você disse que sentia medo de usar seus dons.
— Temos que enfrentar nossos medos se quisermos progredir.
Me aproximei do Nathan, fechei meus olhos e comecei a respirar lentamente. O lacre ainda estava intacto, mas conforme minha vontade de usar meus dons crescia, o lacre foi afrouxando lentamente até abrir e desaparecer completamente da minha mente.
De repente, os dedos das minhas mãos voltaram a formigar e eu comecei a me sentir muito mais leve.
— Klay?! — Nathan chamou preocupado.
Abri os olhos e ergui minha mão em direção a meu amigo Nathan. Ele não entendeu por um momento, pois sabia que não conseguia encostar de verdade em nada ou ninguém por ser um espirito.
— Confia em mim, Nate.
— Eu não posso encostar em...
— Confia em mim!
Nathan se aproximou e ergueu uma das mãos dele em direção a minha. Eu já sabia que podia toca-lo, mas ele ficou surpreso e emocionado quando sentiu minha mão.
— Como você fez isso?
— Não é meu corpo que está tocando você...
E foi naquele momento que fiz a mesma coisa que a garotinha Eve fez comigo no dia que a visitei no hospital infantil. Eu consegui entrar nas memórias do Nathan. Eu o vi nascendo, brincando de carrinho quando era criança, andando e caindo de skate, fazendo os testes para o time de basquete do colégio que estudava, dando seu primeiro beijo e...
— Ellen. — Nathan e eu falamos ao mesmo tempo.
Antes que pudéssemos processar o que tínhamos descoberto nas memórias ocultas dele, Nathan foi ficando transparente pouco a pouco. Ele olhou para as mãos assustado enquanto elas começavam a desaparecer.
— Klay, eu tô morrendo — disse Nathan ainda assustado.
— Você não tá morrendo, Nate — falei não conseguindo segurar a vontade de chorar. — Você já está morto e agora finalmente vai conseguir seguir em frente.
— Eu não quero ir! — exclamou Nathan me presenteando com um forte abraço. — Eu tô com muito medo.
— Relaxa, okay?! — falei emocionado. — Eu já fui para onde você está indo agora e não é o final. É apenas o começo, acredite!
— Obrigado por me ajudar, Klay. — Nathan disse ficando com a voz mais fraca.
— Da um abraço na minha avó por mim? — perguntei, mas era tarde demais.
Nathan tinha desaparecido em meus braços.
Ele finalmente tinha partido para o pós-vida.
...
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