29 - Resistência Involuntária

Andei sem rumo pelos corredores do hospital tentando entender o que tinha acontecido comigo minutos antes naquela sala de recreação infantil. Eu estava confuso, um pouco tonto e sentindo vibrações estranhas em meu corpo. Era diferente, pois eu não estava com dores, enjoado ou me sentindo mal. Eu estava bem, forte e com a sensação de que podia mover qualquer coisa só com o comando da minha mente.

Ao mesmo tempo, eu estava com um mal pressentimento.

Eu podia sentir nas pontas dos dedos que era capaz de fazer tudo que eu quisesse, mas eu tinha medo. Algo em minha cabeça estava me impedindo de destravar minhas habilidades. Eu podia sentir meus sonhos, visões e outros condões prontos para serem liberados por um lacre invisível em minha mente, mas por algum motivo que eu não entendia, eu não queria rompê-lo.
Eu tinha medo de rompê-lo.

— Klay! — chamou Nathan aparecendo a meu lado. — Você está bem? O que está acontecendo?

— Tem algo errado, Nate — murmurei me apoiando na parede para esperar aquela tontura passar.

— Você ficou todo estranho naquela sala — disse ele preocupado. — As pupilas dos seus olhos ficaram brancas quando você colocou as mãos sobre a cartolina daquela garotinha.

— Não sei o que a Eve fez comigo — falei apertando meus olhos. —, mas ela destravou alguma coisa na minha cabeça.

— Alguma coisa? — Nathan questionou.

— Não sei o que é, mas está estranho... — afirmei.

Mesmo Nathan exalando preocupação e outras energias negativas, eu não estava me sentindo mal. Eu o sentia de uma forma diferente, mas não sabia explicar como.

— Melhor sairmos daqui. — Nathan disse. — Acho que vem vindo alg...

— Está tudo bem, querido?! — perguntou uma mulher desconhecida assim que entrou no corredor. — Quer que eu chame ajuda?

...

– 8 –

— E foi naquele momento que te conheci — afirmei. — Acho que não preciso dizer o que aconteceu depois.

— Eu sabia no momento que o conheci que você era diferente, Klayton — disse a mulher. — Eu sabia que você era especial.

— Não sou especial — retruquei rispidamente.

— Você tem dons — disse ela.

— O que eu tenho não são dons — rebati. — O que eu tenho são maldições.

A mulher suspirou, colocou a xícara de chá sobre a mesa de centro e voltou a me encarar com um ar orgulhoso.

— Você não é a primeira criança especial que eu conheço, mas é de longe a mais poderosa — falou a mulher.

— Não sou uma criança — retruquei.

A mulher levantou e começou a andar de um lado para outro na sala.

— Durante todos os anos que trabalhei no hospital infantil, conheci crianças com habilidades básicas como sonhar com o futuro, captar emoções e, como no caso da Eve, entrar na mente das pessoas e sentir a presença de espíritos.

Pigarreei franzindo o cenho.

— Você tem todas essas habilidades e muitas mais!

— Não sabemos isso.

— Sabemos! Eve me contou o que você é capaz de fazer.

— Ela é um pouco linguaruda para uma menininha fofa de dez anos, não é?

Olhei novamente as horas no celular.
Aquela conversa tinha durado mais do que eu tinha previsto.

— Eve é minha paciente desde o dia em que nasceu — disse a mulher voltando a sentar na poltrona. — É meu trabalho saber o que acontece com ela.

— Não é seu trabalho saber o que acontece comigo — afirmei.

A mulher me olhou com curiosidade.

— Achei que você estivesse aqui pela ajuda que te ofereci naquele dia, Klayton — disse ela.

Apertei os olhos para me recompor.
Eu tinha que me controlar.

— Tem razão — falei forçando um sorriso. — Me desculpe!

— Vamos continuar? — Ela incentivou.

Assenti.

Daquele momento em diante, eu teria que ter muito cuidado com o que ia dizer.

(...)


— Me explica isso direito? — pediu Pete tão confuso quanto eu. — Você descobriu que pode fazer várias coisas além de ver o futuro e pessoas mortas?

— Não sei se posso fazer tudo isso, Pete. — O corrigi. — Eu acho que posso, mas de acordo com livros da minha avó e pesquisas que já fiz na internet, sensitivos desenvolvem apenas uma ou duas habilidades durante a vida.

— E você acha que desenvolveu mais de duas? — Ele perguntou.

Balancei os ombros e a cabeça.
Eu não tinha todas aquelas respostas.

— Eu sei que todos esses dons estão dentro de mim, mas...

— Mas? ...

— Tenho medo de usá-los.

Pete franziu o cenho.

— Medo de usá-los?

— É complicado, amor...

— Klay, se você tem dons que podem ajudar pessoas, você precisa usá-los!

— Pete...

— Você usou seus dons para me salvar. Eu não estaria vivo sem a sua ajuda!

Meu namorado levantou da cadeira da escrivaninha e sentou a meu lado na cama. Ele envolveu os braços em minha cintura, deitou a cabeça em meu ombro e me apertou carinhosamente.

— Você é um anjo, Klay. — Pete continuou. — Deus te deu esses dons por algum motivo.

— Mas e se não for para eu usá-los? — indaguei.

Pete me olhou com curiosidade.

— Como assim?

— Sei lá, eu... Eu tô tendo uma sensação de déjà vu, mas...

Pete abriu um lindo e apaixonante sorriso.

— Sei que foi difícil pra você tudo o que passamos, mas você conseguiu! — Ele incentivou. — Você foi forte, foi corajoso e conseguiu o que queria! Eu estou aqui com você e vou te apoiar e ajudar seja lá qual for sua decisão.

Assenti. Não consegui resistir a vontade de sorrir que nem bobo depois das palavras fofas e encorajadoras do Pete.

— Voltando a falar do hospital... — Pete continuou. — Você acha que a mulher do cartão pode mesmo te ajudar?

Desviei meu olhar para o cartão de visitas que a mulher que conheci depois de sair da sala de recreação me deu. O cartão dizia que ela era médica da ala de psiquiatria infantil daquele hospital.

— Ela parecia saber muito mais do que me contou — afirmei. — Ela soube o que eu era e o que eu podia fazer no momento que colocou os olhos em mim, Pete.

— Como? — questionou ele. — Ela não é só uma médica psiquiatra?

— Acho que não — deduzi.

— Então o que ela é? — Pete perguntou.

Minha cabeça estava doendo, minha mente estava cansada e eu não queria mais falar sobre aqueles assuntos. Haviam muitas coisas para pensar, mas tudo que eu queria era relaxar e ficar com meu namorado.
Eu precisava dele.

— Podemos mudar de assunto? — sugeri virando meu corpo para ficar de frente para ele.

Pete concordou, se aproximou ainda mais e me presenteou com um longo e carinhoso selinho.

— Que tal um lanche? — sugeriu ele. — Estou afim de comer hambúrguer com bacon.

Concordei.
Eu precisava me distrair para tirar aquelas intuições e sensações ruins do meu peito.

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