28 - Eve

— Esta é a melhor oportunidade que vamos ter para falar com ela, Klay — disse Nathan assim que Pete estacionou o carro na frente de um hospital infantil.

— Obrigado, Nate — agradeci antes de tirar o cinto de segurança.

Pete me olhou preocupado por um segundo, mas suspirou e também tirou o cinto para darmos continuidade ao plano.

— Vamos, princesa? — Pete chamou a irmã dele que estava brincando com meu celular no banco de trás.

— Quem é Nate? — perguntou a irmã do Pete de maneira fofa e despreocupada.

— Amigo imaginário do tio Klay. — Pete respondeu.

Meu namorado saiu do carro para abrir a porta de trás e tirar o cinto de segurança da irmã dele para ajudá-la a descer. Nathan estava sentado ao lado dela. Ele desapareceu por um segundo e reapareceu a meu lado assim que abri a porta e sai do carro.

— Também posso ter um amigo imaginário? — perguntou a irmã do Pete pulando de um lado para outro antes de devolver meu celular.

— Eu não recomendo, querida — respondi forçando um sorriso. — Eles são chatos e um pouquinho intrometidos.

Nathan cruzou os braços arqueando uma das sobrancelhas depois daquela provocação.

Tínhamos um objetivo: encontrar uma garotinha chamada Eve.
Quando Nathan saiu em busca de alguém com dons iguais aos meus, ele encontrou uma menina chamada Eve. Segundo ele, ela não conseguia vê-lo ou ouvi-lo, mas conseguia sentir sua presença.
Depois que decidi que queria encontra-la, Nathan a seguiu e descobriu que ela tinha consultas semanais em um hospital infantil. Aquela seria a última consulta dela do ano e, depois do réveillon, Eve não teria outras consultas pelas próximas quatro semanas.
Aquela oportunidade era única e indispensável.

— Vou levar minha irmã para a consulta que agendei — disse Pete pegando a irmã dele no colo. — Klay, tem certeza que não quer minha ajuda?

— Você já ajudou demais marcando esta consulta desnecessária, Pete — afirmei.

Pete assentiu, apertou os lábios e sorriu de maneira fofa.

— Você me liga se aparecer qualquer problema? — Ele perguntou.

— Como combinamos — confirmei.

Pete e eu nos separamos assim que entramos no hospital. Meu namorado foi para a recepção anunciar a chagada da irmã dele como paciente e eu, sendo guiado por Nathan, segui furtivamente por um longo corredor.

Nathan aparecia e desaparecia várias vezes para encontrar o melhor caminho para eu seguir. Aquilo estava me deixando enjoado, pois além de emanar ansiedade, ele também emanava preocupação com nosso plano.

— Será que dá pra você se controlar, Nate? — sussurrei enquanto caminhava tranquilamente.

— Desculpa! — Ele resmungou. — Estou tão apreensivo quanto você e o Pete.

— Vai dar certo, caramba — murmurei entredentes.

Até que...

— O que está fazendo aqui?! — perguntou uma mulher assim que entrou no corredor.

Pisquei algumas vezes boquiaberto.

— Eu só... Eu só... — gaguejei.

A mulher abriu um largo e amável sorriso.

— Você é do grupo de voluntários, meu jovem? — Ela perguntou. — Você se perdeu?

Balancei a cabeça positivamente retribuindo o sorriso para ser simpático.

— Eu fui ao banheiro e acabei me perdendo — menti. — É a primeira vez que venho neste hospital, então...

— Não se preocupe, querido — disse a mulher se aproximando com uma prancheta. — É só dizer qual é o seu nome que eu te levo até onde você precisa ir.

Eu não podia dizer qualquer nome. Era óbvio que aquela prancheta era uma lista dos voluntários que estariam no hospital naquele dia.

— Meu nome? — questionei.

— Preciso marcar sua presença em nossa agenda semanal — explicou a mulher. — Sem falar nos ótimos créditos que você ganhará no seu estágio com este gesto de carinho, meu jovem!

Forcei outro sorriso, pois eu não sabia como sairia daquela situação.
Até que de repente...

— Kyle Morton — disse Nathan aparecendo atrás da mulher. — Há uma observação no papel dizendo que ele nunca apareceu para o trabalho voluntário.

Respirei aliviado.
Nathan me salvou mais uma vez.

— Meu nome é Kyle Morton — menti. 

A mulher franziu o cenho quando olhou a prancheta.

— Sr. Morton! — exclamou ela. — É um prazer finalmente conhece-lo!

— O prazer é todo meu — respondi a cumprimentando com um aperto de mãos.

— Eu pensei que você fosse muito mais velho — disse ela com o olhar desconfiado. — Quando nos falamos por telefone, sua voz dava a impressão de que você era um homem maduro.

Pigarreei antes de colocar a mão na boca e tossir algumas vezes.

— Tenho muitos problemas na garganta — menti. — Eu tenho alergia a quase tudo que existe e às vezes minha voz fica rouca, sabe?

— Compreendo — disse a mulher. — Deve ser por isso que você cancelou todas as visitas ao nosso hospital.

— Foi por isso mesmo! — exclamei já aliviado. — De qualquer forma, hoje estou me sentindo bem e estou pronto para ajudar.

A mulher acreditou em minha história, anotou alguma coisa na prancheta que segurava e fez sinal com a mão para que eu a acompanhasse.
Enquanto andávamos, senti um estranho frio na barriga seguido de um arrepio que fez meu corpo todo estremecer. Aquelas sensações não foram causadas por espíritos, pois senti exatamente o contrário do que eu estava acostumado quando os via...
Eu me sentia mais leve e mais forte.
Até as pontas dos dedos das minhas mãos começaram a formigar como antes.

— Onde exatamente você foi chamado, querido? — perguntou a mulher.

Nathan apareceu a meu lado imediatamente depois.

— Klay, a menina que te falei está na sala três de recreação — disse ele. — Parece que é uma ala que cuida de crianças com autismo.

— Sala de recreação três — respondi.

A mulher estranhou minha resposta.

— O programa não costuma chamar voluntários para esta sala — disse ela.

— Parece que eles precisam de ajuda para arrumar algumas coisas — afirmei.

— Já era hora de acordarem — resmungou a mulher virando de repente em um dos corredores e fazendo sinal para que eu a acompanhasse.

Não demoramos para chegar à sala de recreação três. A sala era grande e espaçosa, mas haviam poucas crianças naquele local. Enquanto algumas brincavam com jogos de tabuleiro, outras se divertiam com quebra cabeças e bloquinhos de madeira.

— Tente não fazer muito barulho enquanto trabalha — orientou a mulher. — Qualquer coisa é só me procurar na recepção número cinco.

Assenti.
Esperei a mulher sair da sala e virar o corredor para respirar aliviado e dar continuidade ao plano.

— Nate? — sussurrei.

Nathan apareceu a meu lado como sempre fazia.

— É aquela garotinha alí, Klay. — Apontou ele. — A que está rabiscando a cartolina com giz de cera.

Quanto mais eu me aproximava da menina, mais meus dedos formigavam. Eu ainda não tinha um bom pressentimento quanto a tudo aquilo, mas meu corpo parecia reagir de forma positiva.

— Hey! — exclamei para chamar a atenção dela enquanto me aproximava.

A menina não me deu atenção e continuou desenhando pequenos animais com seu giz de cera. Cheguei perto o bastante para sentar com as pernas cruzadas de frente para ela.

— É melhor eu vigiar a porta, Klay — falou Nathan.

— É melhor eu vigiar a porta, Klay — repetiu a menina.

Arregalei os olhos.
Ela tinha ouvido e repetido o que Nathan tinha falado.

— Você consegue ouvi-lo? — perguntei.

A menina não respondeu, mas abriu um lindo sorriso enquanto pintava um de seus desenhos com giz amarelo.

— Você é a primeira pessoa que conheço que pode ouvir o Nathan — afirmei. — Eu posso vê-lo e ouvi-lo. Você consegue vê-lo?

A menina balançou a cabeça negativamente.

— Qual é o seu nome? — perguntei.

A menininha parou de pintar o desenho por um segundo para apontar onde tinha escrito o nome dela em vermelho com letras e corações no canto inferior da cartolina.

— Eve! — Li com um sorriso. — Que nome bonito!

Ela não esboçou reação.

— Meu nome é Klay — falei. — Eu vim até aqui só para te conhecer.

— Por quê? — perguntou Eve falando comigo pela primeira vez.

— Acho que você é como eu — afirmei. — Acho que você tem dons como os meus.

— Eu não sou como você — disse Eve desviando o olhar para mim. — Ninguém é como você.

A garotinha parou de desenhar, fechou os olhos e colocou as duas mãos sobre a cartolina. Nathan e eu trocamos olhares e a observamos por alguns segundos sem entender o que estava acontecendo.

— Eve? — A chamei.

A garotinha continuou com as mãos sobre a cartolina. Naquele momento meus dedos ardiam de tanto que formigavam. Comecei do nada a sentir uma pequena pressão em minha nuca que praticamente me forçava a colocar as mãos sobre o chão.

— Coloque as mãos na cartolina, Klay — sugeriu Nathan. — Acho que ela quer te mostrar alguma coisa.

Relutei por um momento, mas coloquei as mãos na cartolina exatamente como Eve tinha feito...

E foi como se minha alma de repente saísse do meu corpo.
Foi inacreditável. Eu vi tudo e todas as coisas em segundos. Vi estrelas, planetas e galáxias. Visitei diferentes realidades. Vislumbrei pessoas, animais e a natureza em todo o seu resplendor. Me vi criança, adolescente, adulto e idoso em segundos.
Até que...

— Você não é igual a mim — disse Eve em minha cabeça pouco antes de minha alma voltar a meu corpo. — Não existe ninguém igual a você por aqui.

Eu estava atônito.
Aqueles últimos segundos foram infinitamente longos, mas ao mesmo tempo, nem um minuto tinha passado.

— O que você fez comigo? — questionei olhando fixamente para as palmas das minhas mãos.

— Nada — respondeu Eve. — Foi você que fez, mas não percebeu.

— Como eu fiz isso? — perguntei ansioso. — Eu posso fazer de novo?

Antes que Eve respondesse, uma das cuidadoras daquela sala se aproximou e abaixou ao nosso lado.

— Que desenhos lindos, Eve! — exclamou ela. — Quem é seu novo amigo?

Eve se calou, pegou um novo giz de cera da caixinha e voltou a pintar seus desenhos na cartolina. Ainda em estado de choque, levantei do chão rapidamente e desamarrotei minhas roupas.

— Você é um dos voluntários? — perguntou a cuidadora.

Balancei a cabeça positivamente.

— A pequena Eve não costuma falar muito. — Ela explicou. — Ela passa a maior parte do tempo desenhando e colorindo.

— Preciso ir ao banheiro — falei forçando um sorriso. — Estou me sentindo um pouco enjoado.

— Quer que eu chame ajuda? — perguntou a cuidadora já preocupada.

— Não precisa, obrigado! — exclamei amigavelmente enquanto caminhava para a saída da sala.

Eu precisava me afastar daquele lugar.

...

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