26 - Autópsia
Pete e a família dele voltaram de Nova Iorque três dias depois do natal. Nuri, primo do Pete, também veio passar a virada de ano na cidade junto com um de seus amigos de Manhattan. Ele estava de licença do trabalho por conta das festas de final de ano, então, decidiu retribuir a visita e ficar alguns dias na casa do Pete.
Apesar de estar curioso para saber o que tinha no envelope que Tyler me deu na tarde de natal, não consegui abri-lo antes que meu namorado estivesse a meu lado. Eu não queria esconder mais nada dele e qualquer decisão que fosse tomada no caso Nathan, teria que ser em comum acordo.
— Como está o Nuri? — perguntei enquanto abria e virava todo o conteúdo do envelope em minha cama.
— Está melhor — respondeu Pete a meu lado. — Ele quer muito ver você.
— Por que não trouxe ele? — questionei.
— Você disse por mensagem que abriríamos o envelope com os resultados da autópsia do Nathan, então, achei melhor meu primo não se envolver nisso — disse Pete.
Ele tinha razão.
Nuri ainda estava de luto pelo falecimento de sua mãe, então não era aconselhável perturba-lo com assuntos como aquele.
Junto com os relatórios e resultados da autópsia, estavam algumas fotos que pareciam ser do corpo do Nate. Pete e eu trocamos olhares assustados com aquela surpresa, mas era tarde demais para voltar atrás.
— São as fotos da autópsia — afirmei.
— O amigo do seu amigo não brinca em serviço, Klay — disse Pete sentando em minha cama para olhar mais de perto.
As fotos do corpo do Nathan não apresentavam sinais de que ele foi ferido de alguma forma. Não havia ferimentos de faca, balas ou qualquer outra coisa que sugerisse um assassinato.
Até que...
— Olha isso, amor! — pediu Pete se aproximando para me mostrar uma das fotos.
Havia uma mancha roxa no peito do Nathan.
— O que será isso? — questionei.
— Talvez uma bolada ou um soco. — Ele teorizou.
— Ajudaria se o Nate estivesse aqui — afirmei.
— Eu estou aqui — disse Nathan aparecendo de repente ao lado da porta do meu quarto. —, mas, se você não se importar, eu não quero ver essas fotos.
Minha atenção foi desviada para ele.
Pete percebeu imediatamente minha reação.
— Nate! — exclamei com um sorriso.
— Ele está aqui? — perguntou Pete olhando para a mesma direção que eu.
— Ao lado da porta, amor — respondi.
Meu namorado abriu um sorriso tímido e assustado antes de voltar sua atenção para as fotos.
— Tem uma marca roxa em seu peito, Nathan — falou Pete enquanto olhava as outras fotos. — Você sabe o que pode ter causado ela?
Nathan balançou os ombros e a cabeça.
— Ele não sabe, amor — respondi.
— Talvez seja por conta do treino de basquete — disse Nathan ainda confuso. — Era normal eu trombar com outros jogadores quando estava jogando.
— Ele acha que foi enquanto jogava basquete, Pete — falei pegando um dos relatórios da autópsia para analisa-lo.
Segundo o relatório, muitos exames foram feitos para detectar a causa da morte do Nathan. Haviam mais resultados negativos do que positivos naquele papel. Os resultados positivos eram acompanhados de nomes que eu não conseguia entender.
— Há resultados positivos, Pete — afirmei enquanto lia. —, mas não sei o que significam.
Entreguei os papéis para meu namorado olhar, mas ele pareceu tão confuso quanto eu enquanto lia os resultados dos exames. Pete foleou o relatório até a última página para ler a causa da morte concluída pelo médico legista.
— Intoxicação alimentar seguida de parada cardiorrespiratória — disse Pete.
— O pai do Nathan confessou que o resultado foi maquiado — comentei.
— Eu lembro de tudo o que aconteceu naquele dia até um pouco antes de perder a consciência, Klay — comentou Nathan. — Eu não tive dor de barriga, náuseas, febre ou qualquer sintoma relacionado a intoxicação alimentar. Eu estava bem!
— Por que alguém maquiaria o resultado de uma autópsia? — questionou Pete. — Se foi alterado, é porque quem alterou tem alguma coisa a esconder.
— O Sr. Lewis disse que não queria que a reputação do filho ou da família fosse manchada — respondi. — Ele disse que pediu ao médico para alterar o resultado.
— Que médico aceitaria isso? — questionou Pete incrédulo. — Minha mãe é enfermeira e...
Pete fez uma pausa e abriu um grande e apaixonante sorriso.
— E o que? — perguntei curioso.
— Está pronto para conhecer sua sogra? — questionou Pete com um olhar sugestivo.
***
— Então você que é o famoso Klay? — perguntou a mãe do Pete enquanto me cumprimentava com um aperto de mãos. — É um prazer finalmente conhecer o melhor amigo do meu filho.
— O prazer é todo meu, Sra. Praves — falei envergonhado.
— Acha que pode nos ajudar com isso? — Pete perguntou entregando o relatório para a mãe dele.
— Me dê uns minutos. — Ela respondeu antes de sair da cozinha.
Assim que a Sra. Praves saiu da cozinha, Nuri e o amigo que ele trouxe de Manhattan entraram carregando algumas sacolas de mercado. Eles tinham saído para fazer compras e conhecer um pouco mais da cidade.
O amigo do Nuri tinha um sorriso tão fofo e encantador quanto o do meu namorado. Ele aparentava ser tímido, mas era impossível não notar o quanto seus olhos brilhavam e suas expressões se iluminavam quando Nuri falava com ele.
— Pittsburgh não está exatamente como eu me lembrava, primo — comentou Nuri. — Se não fosse o motorista do Uber, estaríamos perdidos!
— Me desculpe por não acompanhar vocês — falou Pete.
— Relaxa! — respondeu Nuri descontraidamente. — Eu sei o quanto você estava com saudade do Klay.
Ele contornou a ilha da cozinha para me dar um forte e carinhoso abraço.
— É muito bom te ver de novo, Nuri — afirmei depois de retribuir o abraço.
— É muito bom te ver também, Klay. — Ele respondeu. — A propósito, este é Christopher — disse ele apontando para o rapaz que estava com ele. — Ele é meu vizinho e melhor amigo.
— Só isso mesmo? — murmurou Pete entredentes com um tom provocativo.
Eles trocaram olhares envergonhados.
— É um prazer conhecer você, Klay — disse o rapaz. — E você pode me chamar de Chris, se quiser.
Assenti.
— Podíamos sair os quatro esta noite — sugeriu Pete. — Jantar em algum lugar e mostrar um pouco da cidade para os dois.
— Eu apoio a ideia — afirmei.
— Não sei se estou no clima — disse Nuri coçando a cabeça.
Christopher se aproximou e envolveu um dos braços na cintura do Nuri.
— Talvez conhecer novos lugares te faça bem — disse ele de maneira fofa com o rosto próximo ao rosto do Nuri. — Viemos aqui para esquecer o que deixamos em Manhattan, lembra?
Nuri concordou com a cabeça.
— Perfeito! — exclamou Pete. — Já sei até onde nos levar, primo.
Pete sugeriu que fossemos a uma churrascaria, pois ele não queria que Nuri e Christopher fossem a um junk-food na primeira noite que passariam na cidade. Eles concordaram. Christopher estava tentando fazer Nuri esquecer os problemas que eles tinham deixado em Manhattan. O que dava a entender é que o falecimento da tia do Pete não era o único problema que Nuri estava enfrentando. Havia mais, mas não perguntei nada a eles para não parecer invasivo e insensível.
Depois de ajudarmos Nuri e Christopher a guardar as compras, Pete e eu fomos para a sala para saber o que a Sra. Praves tinha descoberto nos relatórios da autópsia do Nathan. A mãe do Pete estava comparando algumas fotos da autópsia com fotos de uma pesquisa que ela fez no celular.
— Mãe? — chamou Pete antes de sentar ao lado dela no sofá.
Fiquei em pé ao lado do meu namorado.
— Os resultados dos exames são claros e apontam para intoxicação alimentar — disse a Sra. Praves. —, mas há resultados positivos para outros malefícios que não fazem sentido.
— Por exemplo? — questionou Pete.
— Este garoto tomou alguma coisa que acelera batimentos cardíacos — disse a Sra. Praves. — Esta substância amplia o desempenho para atividades físicas.
— Anabolizantes? — perguntei.
— Está mais para um energético — respondeu a Sra. Praves. — Não parecia ser um hábito, pois outros resultados do hemograma e dos órgãos dele estão normais. Alguns resultados estão normais para a idade que ele tinha e não há evidências de uso de anabolizantes. Ele era um garoto saudável e aparentava não ter problemas.
Pete e eu trocamos olhares.
— Então o que o matou? — perguntei. — O resultado que diz ser intoxicação alimentar é falso.
A Sra. Praves pegou a foto do tórax do Nathan com aquela estranha mancha roxa.
— Estão vendo esta mancha? — Ela perguntou.
Pete e eu balançamos a cabeça positivamente.
— Foi causada por uma pancada muito forte no peito dele — continuou a Sra. Praves. — Não é possível saber só por estas fotos o quanto esta pancada foi grave, mas pela posição e altura da mancha, posso dizer que uma pancada forte o bastante nesta região seria o suficiente para causar uma parada cardíaca.
Balancei a cabeça e pisquei algumas vezes por conta da confusão mental que aquilo me causou.
— Como uma pancada no peito pode fazer um coração parar? — questionei.
— Ele tinha dezessete anos — disse a Sra. Praves. — A caixa torácica de um rapaz da idade dele não está completamente desenvolvida, com isso, o coração fica mais vulnerável e uma pancada igual a esta pode fazer um coração parar.
— Então foi isso que o matou? — perguntou Pete.
— Eu não sei, querido — respondeu a Sra. Praves. —, mas é uma das explicações com base nos resultados dos exames, fotos e relatórios dos legistas. Se vocês estão falando que a intoxicação alimentar é falsa, esta é uma das únicas explicações possíveis para a morte deste rapaz.
Quanto mais respostas conseguíamos, mais perguntas vinham à minha cabeça. Aqueles resultados maquiados eram um labirinto que dificultava nosso caminho até a verdade. Nunca saberíamos o que aconteceu com Nathan, pois graças a aqueles papéis mentirosos e a falta de uma autópsia digna, não era possível descobrir a verdade e fazer justiça a memória dele.
— Posso fazer só mais uma pergunta? — questionei.
— Claro, querido — disse a Sra. Praves.
— Vamos supor por um momento que esta pancada fez o coração do Nathan parar — afirmei. — Ele foi encontrado na quadra do colégio que estudava, então...
— Ele levou a pancada lá, Klay — confirmou a Sra. Praves. — Se a pancada for a real causa da morte dele, ele perdeu os sentidos imediatamente depois que levou o golpe.
Já era alguma coisa.
Se aquela teoria era a correta, já era possível afirmar que o que causou a morte do Nathan foi um golpe no peito que o levou a uma parada cardíaca na quadra do colégio...
Mas quem ou o que o golpeou?
...
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