21 - Fora de Controle

– 5 –

— Acho que já entendi — disse a mulher abrindo a tampa do bule para conferir o chá. —, mas vou pedir para você fazer uma pausa. Meu chá acabou, então vou até a cozinha preparar mais enquanto você respira.

— Tudo bem — concordei.

A mulher levantou e olhou em volta atentamente antes de pegar sobre a mesa de centro a bandeja com seu jogo de chá florido.

— Você não quer nada, querido? — Ela perguntou.

Quanto mais ela demorasse, mais tempo eu teria para achar o que eu procurava naquele lugar.

— Aceito um suco — respondi. — Natural, por favor, se não for te incomodar.

— Não é um incomodo — disse ela pouco antes de sair da sala em direção a cozinha.

Mais uma vez fui tomado pelo desespero. Eu precisava encontrar o livro que tinha as respostas que eu precisava. Eu precisava abrir minha mente e potencializar meus dons para meu plano funcionar.

Eu precisava fazer aquilo custe o que custasse.

Tirei o tênis para não fazer barulho e andei nas pontas dos pés até a prateleira ao lado da TV. Olhei livro por livro atrás do que eu estava procurando, mas não o encontrei. Abri as gavetas de todos os móveis com o máximo de cuidado, mas também não encontrei o que eu queria.

— Klayton?! — chamou a mulher enquanto voltava da cozinha.

— Sim?! — exclamei enquanto fechava uma das gavetas e corria de volta para o sofá.

— Açúcar ou adoçante? — Ela perguntou.

— Açúcar, por favor! — falei enquanto ouvia os passos dela no corredor.

Aparentemente ela tinha se aproximado só para ouvir minha resposta. Ela não ia voltar antes de terminar o que tinha para fazer na cozinha.
Isso significava que eu tinha mais tempo.

Depois de olhar em cada canto da sala e não encontrar o livro, olhei apreensivo para as escadas que davam acesso aos quartos do andar de cima. Eu não queria me arriscar e subir, pois não sabia quanto tempo a mulher demoraria para voltar...

Mas eu não tinha escolha.

(...)


Um barulho estranho vindo do corredor me fez acordar naquela madrugada. Pete não estava mais agarrado a mim na cama. Parecia que ele tinha despertado, colocado uma roupa e pegado um cobertor para nos cobrir antes voltar a dormir.

Tateei o criado mudo ao lado da cama a procura do meu celular para ver as horas...
Eram cinco para as quatro da manhã.

Havia alguma coisa diferente no ar. Meus dedos das mãos formigavam, minha cabeça estava pesada e um baixo zumbido irritava meus ouvidos.

Depois de vestir uma camiseta e uma bermuda, abri a porta do quarto com cuidado para não fazer barulho e não acordar meu namorado. Passei pelo corredor rente as portas dos quartos dos meus pais e do meu irmão, mas aparentemente eles estavam dormindo.
Tudo estava em silêncio.

Enquanto eu descia as escadas, vi que a TV da sala estava ligada. Meus pais estavam dormindo no sofá ao lado de um grande balde de pipoca.

— Deve ser este o barulho — sussurrei antes de pegar o controle da TV no braço do sofá para desliga-la.

De repente ouvi outro barulho, mas daquela vez vindo da cozinha. O barulho não parecia ser passos ou coisas caindo no chão. Era um som estranho, grave e que eu não conseguia identificar.

Aquele barulho parecia me chamar.

Andei lentamente em direção a cozinha. Enquanto passava pelo corredor, senti meu corpo estremecer, minha cabeça doer e o irritante zumbido em meu ouvido aumentar. As vibrações que vinham da cozinha eram muito negativas e intensas. A dor que elas me causavam eram como dezenas de facas entrando em meu corpo.

— Deve ser alguém precisando de ajuda — murmurei juntando forças para avançar.

Senti um líquido espesso escorrer por meu nariz. Desconfiei que fosse sangue por causa do gosto que invadiu minha boca, mas o limpei mesmo assim com uma das mãos enquanto avançava para não perder mais tempo.

— Por favor, se acalma — falei assim que entrei na cozinha. — Eu vou te ajudar, mas você precisa se acalmar.

Tateei a parede a procura do interruptor para acender a luz. Não havia uma parte do meu corpo que não doesse. Minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer segundo. Até meus ouvidos estavam doloridos por conta do zumbido que só ficava mais alto a cada segundo.

— Por favor, se acalma — repeti antes de achar o interruptor e acender a luz.

Não era apenas um espírito...
Haviam vários espíritos confusos e revoltados naquela cozinha.

Minha cabeça começou a girar e minha visão a embaçar. Naquele momento eu não conseguia sentir nada além de negatividade e dor. Eu também não conseguia sair da cozinha, pois meus sentidos estavam bagunçados e eu não via ou ouvia mais nada.

Não consegui pedir ajuda.
Minha visão foi escurecendo até eu não aguentar mais ficar em pé...

***

Eu ouvia sons, mas não sabia se estava dormindo ou acordado. Presumi que estava acordado, pois havia muito tempo que eu não conseguia mais sonhar. Algumas vozes se misturavam e eu conseguia reconhecer as que eram dos meus pais, do meu irmão e do Pete. Também haviam vozes estranhas. Eu não entendia o que elas falavam. Até tentei responder, mas era como se eu não estivesse mais naquela realidade. Eu me sentia como em uma sala paralela, escura e vazia. Eu sabia que existia, mas minha existência era a única naquele espaço.
Um espaço vazio infinito.

Até que...

— Ele está acordando! — exclamou uma voz desconhecida. — O paciente está acordando! Avisem o médico!

— Vou chamar! — exclamou a voz jovem e inconfundível do meu irmão.

Demorou um pouco, mas consegui abrir os olhos. Eu estava deitado em uma cama de hospital ligado a aparelhos. Meu corpo estava tão pesado e dolorido que parecia que eu tinha sido atropelado por um planeta.

— O que está acontecendo? — perguntei com dificuldade.

— Por favor, não se esforce — pediu uma moça com um uniforme azul.

Provavelmente era uma enfermeira daquele hospital.

— Onde estou? — perguntei sentindo minha boca extremamente seca.

Não consegui ouvir uma resposta. Minha visão escureceu mais uma vez me levando de volta para o vazio.

***

— Por favor, Klay — disse a voz doce e amorosa do Pete a meu lado. — Por favor, acorda!

Quando apertei minhas mãos, senti que uma delas segurava alguma coisa.

— Você está me ouvindo? — perguntou Pete ansioso. — Se você estiver me ouvindo, por favor, aperta a minha mão novamente!

Apertei a mão do Pete como ele havia pedido.

— O que está acontecendo? — perguntei pouco antes de abrir os olhos.

— Graças a Deus, Klay — sussurrou Pete antes de beijar meu rosto e começar a chorar.

— Por que está chorando? — perguntei conseguindo sorrir em seguida. — O que está acontecendo?

— Você desmaiou na cozinha da sua casa — disse Pete apertando o botão que servia para chamar as enfermeiras. — Ficamos tão preocupados com você!

— Por que? — questionei tentando erguer meu corpo. — Foi só um desmaio.

Eu me sentia muito melhor.
Meu corpo ainda estava dolorido, mas eu tinha forças para levantar se quisesse.

— Não foi só um desmaio, amor — disse Pete com uma expressão séria e preocupada. — Você apagou por nove dias!

— O que?! — indaguei incrédulo.

— Você apagou por nove dias, Klay — repetiu Pete acariciando meu cabelo. — Seus pais, seu irmão e eu ficamos muito preocupados com você.

Aquilo tinha saído do meu controle.
Como eu tinha apagado por tanto tempo?

— Meus pais devem estar surtando agora — falei já preocupado.

— Seu pai ameaçou processar o hospital e qualquer médico que dissesse que você não tem nada — disse Pete. — Os exames deram todos negativos. Não há uma parte do seu corpo que não tenha sido examinada nos últimos dias.

— Como daquela vez — afirmei.

— Eu sei — disse Pete seriamente enquanto me encarava.

Eu não podia engana-lo mais.
Pete não aceitaria qualquer explicação.

— O paciente acordou? — perguntou uma das enfermeiras assim que entrou no quarto. — Graças a Deus! Vamos ligar para os pais dele.

— Que horas são? — perguntei.

Pete tirou o celular do bolso para olhar as horas.

— Cinco e quinze da manhã, amor. — Ele respondeu.

— É melhor eu ligar — sugeri para a enfermeira. — Minha mãe está grávida e ligar a esta hora pode causar um susto desnecessário neles.

— Você não pode fazer isso — disse a enfermeira. — Você precisa descansar.

— Eu dormi por nove dias! — retruquei. — Acho que já descansei o suficiente.

— Eu ligo, Klay — disse Pete prontamente. — Eles estão esperando minha ligação caso o Klay acorde, então...

— Tudo bem — concordou a enfermeira enquanto anotava alguma coisa na prancheta que carregava. —, mas ligue agora, por favor. Vou avisar o médico que está cuidando dele para vir ao hospital.

Pete assentiu e a enfermeira saiu do quarto.

Alguns segundos constrangedores passaram enquanto Pete me encarava esperando explicações. Eu o entendia e me colocava no lugar dele. Eu também ficaria extremamente preocupado e desconfiado se fosse ele.

— Tudo bem — falei finalmente quebrando aquele clima. — Vou te contar o que está acontecendo.

— Ótimo — disse ele ainda me encarando. —, mas quero só a verdade, Klay. Não importa se for me machucar. Não importa o que você tenha escondido de mim. Estou aqui e vou entender qualquer coisa que você me falar.

Respirei profundamente e me ajeitei na cama para ficar de frente para ele. Eu tinha medo de como Pete reagiria a tudo aquilo.

— Vai parecer estranho... — comecei. — Não faço ideia do porquê começou ou como controlar isso.

— Controlar isso? — perguntou Pete apreensivo. — Isso o que?

— Estou vendo pessoas mortas — confessei.

Pete franziu o cenho.

— Tá me zoando? — Ele perguntou. — Você não tá querendo me zoar reproduzindo a cena daquele filme do Bruce Willys e o garoto loirinho, né?

— Não é zoeira, Pete — falei segurando uma das mãos dele. — Estou vendo espíritos de pessoas recém desencarnadas.

— Em sonhos? — Ele perguntou.

Balancei a cabeça negativamente.

— Acordado?

Balancei a cabeça positivamente.

Pete suspirou.
Ele parecia não acreditar no que eu estava dizendo.

— Não acredita em mim? — questionei decepcionado.

Pete apertou os olhos e entortou a boca.

— Eu sei sobre o Nathan! — resmungou ele entredentes. — Eu ouvi sua conversa com ele no telefone naquele dia que o Shawn abriu a porta da casa para mim. Eu sei que você foi para a Filadélfia encontrar com ele, Klay!

— Pete...

— Eu sei que as fotos que estavam no seu notebook são desse tal de Nathan, pois vi o histórico de buscas do seu Instagram!

— Você entendeu errado, Pete!

— Eu não quis ver todas as fotos do Instagram dele, mas vi o bastante para saber que ele é da Filadélfia! Você foi pra Filadélfia nove dias atrás para encontrar com ele e mentiu para mim! Você disse que ia para a casa da sua avó com seus pais, Klay!

Pete tinha começado a chorar, mas conseguiu manter a calma.

— Pete, me escuta?

— Eu vou lutar por você, okay?! Não vou deixar ele tirar você de mim!

Eu queria chorar e sorrir ao mesmo tempo.
Pete era o namorado mais fofo e incrível que alguém poderia ter.

— Você disse que viu o Instagram do Nathan, não é?

— Sim...

— Você viu a legenda da última foto?

Pete balançou a cabeça antes de desbloquear o celular e abrir o aplicativo Instagram para pesquisar o perfil do Nathan. Ele abriu a última foto que foi postado e leu em voz alta:

— Convidamos familiares e amigos para a cerimônia que celebrará a memória do nosso querido Nathaniel... — Pete fez uma pausa, suspirou e voltou a bloquear o celular. — Memória? Como assim?

— Nathan faleceu há algumas semanas — contei acariciando a mão dele. — Ele é um dos espíritos que veio me procurar para pedir ajuda.

A expressão fofa que Pete fez me forçou a sorrir.

— Então...

— Não estou te traindo com o Nathan, seu bobo! Eu jamais trairia você!

— Estou há dias com ciúme de um rapaz morto?

Balancei a cabeça e apertei os lábios para disfarçar meu sorriso.
De repente...

— Isso não tem graça, Klay! — exclamou Nathan aparecendo a meu lado. — Não ria do seu namorado por ter ciúme de um rapaz lindo como eu.

Até pensei em responde-lo, mas eu precisava contar toda a história para meu namorado antes.
Aquele seria um longo dia.

...

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top