18 - Causa Da Morte
"Em memória de Nathaniel Lewis.
30 de Outubro de 2004 – 03 de Novembro de 2021
Filho, irmão e amigo querido"
Achei que seria impossível entrar em um cemitério na minha atual condição. Pensei que veria espíritos por toda a parte e que a carga de energia deles me mataria, mas não foi bem assim...
O lugar estava vazio e tranquilo.
A lápide do túmulo do Nathan estava à minha frente. Haviam flores, recortes de papel colorido com mensagens de familiares e amigos e uma das fotos mais bonitas que eu já tinha visto dele.
Naquela foto, Nathan sorria como se fosse viver para sempre.
— Eu sinto muito, Nate — murmurei.
— Tudo bem — respondeu ele a meu lado. — Estou começando a aceitar.
— Isso não devia ter acontecido com você — falei antes de abaixar para arrumar um dos arranjos de flores que estava no túmulo. — Você era um rapaz tão jovem e tão bonito. Tinha toda a oportunidade e tempo do mundo para amadurecer e se tornar um grande homem.
Foi impossível não me emocionar. Eu tinha finalmente entendido o quão sério e agoniante era aquela situação. Nathan estava sofrendo por não conseguir seguir em frente. Tudo que ele queria saber era como tinha morrido e o que tinha acontecido momentos antes de sua morte.
E eu tinha que ajudá-lo a descobrir.
— Eu vou te ajudar — afirmei. — Não vou descansar até descobrir o que aconteceu com você, Nate.
— Nunca duvidei de você — disse ele.
Enquanto o motorista particular esperava no estacionamento para me levar até a casa do Nathan, resolvi passar pela recepção do cemitério para tentar descobrir alguma pista do que tinha acontecido. Não havia ninguém esperando para ser atendido, mesmo assim, peguei uma senha no painel eletrônico e sentei em um dos bancos de espera.
Não haviam atendentes na recepção.
— Que cemitério morto — comentou Nathan em um tom descontraído.
Revirei os olhos com aquela piada ruim.
— Achei que veria espíritos por toda a parte — falei baixo para não chamar a atenção.
Mesmo não tendo ninguém por perto.
— O que é estranho — disse Nathan. — Porém, na verdade, eu nunca pensei em visitar meu túmulo. Esta foi a segunda vez que o vi.
— E quando foi a primeira? — perguntei.
— No enterro do meu corpo. — Ele respondeu.
De repente ouvi o bater de uma porta ecoar por um longo corredor. Quando virei, vi uma senhora caminhar tranquilamente em direção a recepção carregando uma pequena caixa nas mãos. Ela abriu um grande sorriso simpático quando me viu.
— Ah! — exclamou ela. — Me desculpe a demora, querido.
— Sem problema — falei ainda sentado.
— Só vou arrumar um pouco esta bagunça e já te atendo, tudo bem? — disse ela começando a empilhar dezenas de papéis em uma das escrivaninhas de atendimento.
Nathan me olhou com uma expressão confusa.
— Estamos no lugar certo? — questionou ele.
— Acho que sim — sussurrei.
— Este lugar está muito vazio, Klay — observou Nathan.
— Ainda bem — resmunguei.
A mulher me ouviu e desviou a atenção para mim.
— Falou comigo? — Ela perguntou.
— Está vazio aqui hoje, né? — perguntei curioso.
— Aqui é sempre vazio — respondeu ela antes de sentar, colocar os óculos que estavam pendurados em seu pescoço e me chamar com as mãos. — Os tramites, envio e recebimento de documentação, agendamentos e vendas que fazemos atualmente são todos online.
Levantei, arrumei minha jaqueta e me aproximei da escrivaninha de atendimento que ela estava. Em uma plaquinha prateada ao lado da tela do computador estava escrito: "Sra. Morgan Michelle – Recepcionista".
— Em que posso ajudá-lo? — Ela perguntou.
— Estou procurando informações de uma pessoa que está enterrada aqui — afirmei pegando o celular para abrir o Instagram do Nathan e mostrar uma das fotos para ela. — O nome dele é Nathaniel Lewis. Ele faleceu há poucas semanas.
— Procurando informações? — questionou ela desconfiada.
Não foi um bom começo.
— Eu não quis dizer isso. — Tentei corrigir. — Eu só queria saber o que aconteceu com ele.
— Por que? — Ela perguntou. — Você é da família?
Se eu fosse da família, provavelmente já teria conhecimento do que eu queria saber. Também não ia adiantar eu dizer que era amigo do Nathan, pois eles não iam passar qualquer informação para terceiros.
— Não sou da família — confessei. —, mas queria muito saber o que aconteceu com ele.
— Não posso passar informações sem a autorização da família do falecido — disse ela ainda de forma simpática.
Eu precisava pensar rápido.
— Por favor — insisti. — Nathan era um grande rapaz. Ele era muito importante para mim. Para a senhora ter uma ideia, eu nem consegui ir no velório ou no enterro dele.
— Por que, querido? — perguntou ela empaticamente.
Nathan começou a rir a meu lado.
Ele já tinha entendido meu plano.
— Estávamos juntos e a família dele não aceitava — menti. — Tínhamos um relacionamento, mas os pais dele são muito rígidos e religiosos. Eu estaria enterrado aqui neste momento se tivesse aparecido naquele velório, acredite!
— Meu querido, eu... — Ela tentou falar.
— Por favor — insisti mais uma vez. — Nathan e eu tínhamos planos de fugir juntos quando completássemos dezoito anos. Ele dizia que envelheceríamos e morreríamos juntos. — Pigarreei. — Ah! A propósito... Aqui vocês fazem plano familiar para jazigos? Minha família é muito grande, sabe?
A recepcionista fez uma expressão fofa e emocionada.
Eu tinha conseguido convence-la.
— O que exatamente você quer saber? — perguntou ela começando a digitar alguma coisa no computador.
— Qualquer coisa — respondi tentando parecer triste e vulnerável. — Para a senhora ter uma noção, nem a causa da morte dele me contaram.
Nathan passou pela escrivaninha como se ela não existisse para espiar o que a atendente estava pesquisando.
— Ela está buscando por meu nome, Klay — disse ele. — Não estou entendendo este sistema que ela usa.
— Encontrou alguma coisa? — perguntei ansioso.
— Nathaniel Lewis faleceu no dia três de novembro. — Ela começou. — Ele teve uma intoxicação alimentar que lhe causou uma parada respiratória enquanto fazia atividades físicas na quadra de esportes do colégio Phoebe, aqui na Filadélfia.
— Intoxicação alimentar? — questionei intrigado. — O que uma intoxicação alimentar tem a ver com uma parada respiratória?
— No laudo médico diz que ele teve um quadro extremamente grave de intoxicação alimentar que resultou na paralisia da musculatura respiratória — explicou a mulher. — Como ele estava praticando esportes, suas vias respiratórias fecharam e ele desmaiou e faleceu antes de qualquer ajuda chegar.
Aquela história não fazia sentido.
Se Nathan estava com intoxicação alimentar, por que estava jogando basquete no colégio? Se o quadro dele era tão grave, ele teria sentido os sintomas e provavelmente estaria internado em algum hospital.
Olhei para Nathan afim de entender o que estava acontecendo, mas ele balançou a cabeça e os ombros.
— Estou tão confuso quanto você, Klay — disse ele. — Eu fazia minha própria comida e seguia uma dieta muito rígida. Você viu minhas fotos na academia e sem camiseta? Não era fácil ganhar massa muscular.
Revirei os olhos.
— Nathan morreu na quadra do colégio, certo? — questionei.
— Sim, querido — respondeu a recepcionista.
— A polícia foi informada do ocorrido? — perguntei.
A mulher digitou alguma coisa no teclado e pressionou o botão do mouse algumas vezes. Era nítido que ela não se sentia confortável em dar aquelas informações.
— A polícia não foi envolvida no caso a pedido da família — respondeu ela.
— Quem assinou a liberação do corpo do Nate? — perguntei.
— Desculpe, querido — disse a mulher. — Não posso mais passar nem uma informação para você. Passei a causa da morte e o local porque como companheiro dele você merecia saber, mas...
— Tudo bem, obrigado — falei abaixando a cabeça para fingir estar emocionado. — Só esta informação já me deixou um pouco mais conformado, sabe?
Eu não era bom em atuação, mas não havia outra forma de conseguir mais informações. Tive que começar a chorar, mesmo não saindo nem uma lágrima de meus olhos.
Tossi algumas vezes para aquela encenação parecer mais convincente.
— Quer um copo d'água para se acalmar? — perguntou a mulher.
— Si... Sim, por favor — falei fingindo estar soluçando.
Nathan não parava de rir ao lado da mulher.
Ela levantou, passou por ele e seguiu para o corredor onde havia um bebedouro para gentilmente pegar um copo de água para mim.
— O que está escrito aí? — sussurrei entredentes para Nathan olhar a tela do computador.
— Não consigo entender — disse ele chegando mais perto. — É um documento em formato PDF com mais de dez páginas, Klay.
— Deve ser o laudo da autopsia — murmurei. — Lê o que você está vendo na tela, Nate.
Nathan ficou em silêncio enquanto lia. O tempo estava passando e a recepcionista já estava voltando com o copo de água.
— Aqui diz muita coisa, Klay — resmungou Nathan. — Parece que eles fizeram alguns exames, pois tem muitos negativos e positivos aqui.
— Não há nem uma informação importante? — questionei já irritado.
— Deve ter, mas não nesta página! — exclamou Nathan já irritado. — E eu não consigo tocar no mouse e no teclado para rolar as páginas para baixo, né?!
Era tarde demais.
— Aqui está, querido — disse a simpática recepcionista quando colocou o copo de água à minha frente na escrivaninha.
— Obrigado — agradeci com um sorriso.
— Sobre nosso plano familiar para jazigos, acredito que tenho um excelente para você e para sua família — disse a recepcionista antes de voltar ao lugar dela.
Bebi a água em dois segundos.
— Muito obrigado pela atenção e por sua simpatia — agradeci levantando rapidamente. — Você não sabe o quanto foi importante para mim saber como meu querido e amado Nate faleceu.
— Espere, querido! — exclamou a senhora. — Leve um cartão com nosso e-mail e me procure se decidir sobre o plano familiar.
— Claro! — exclamei com um largo sorriso. — Sem dúvida vamos fazer.
Peguei o cartão e o coloquei no bolso de trás da calça antes de sair da recepção.
Fiquei satisfeito com o que tínhamos descoberto naquele local. Agora já sabíamos a causa da morte, então, talvez aquilo fosse o bastante para Nathan encontrar a paz e seguir em frente.
Apesar disso, aquela história estava estranha...
Por que a polícia não foi envolvida?
Nathan morreu na quadra do colégio, então, a polícia deveria ter investigado o caso. Principalmente por se tratar de intoxicação alimentar.
Se ele estava tão doente, por que estava jogando basquete no colégio?
Intoxicação alimentar não mata de uma hora para outra. Há vários sintomas que aparecem antes de se tornar um caso grave e, se fosse um caso grave, Nathan provavelmente estaria internado em um hospital.
Nada se encaixava.
— Hora de ir para minha casa, Klay. — Nathan lembrou.
Assenti.
Haviam mais coisas para descobrir antes de eu começar a montar minhas teorias.
...
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