11 - Ciúme

Fiquei com meus amigos em um dos quartos do andar principal da festa enquanto mais e mais alunos da faculdade chegavam e lotavam tanto os corredores quanto as escadas do prédio. Perdi completamente a noção do tempo com as conversas, risadas e brincadeiras que fazíamos.

Tyler e Mike não paravam de beber. Entre uma garrafa de cerveja e outra, eles contavam histórias de seus piores encontros com as garotas do ensino médio. Andie, Sue e eu gargalhávamos com aquelas histórias absurdas enquanto comíamos pipoca e bebíamos refrigerante.
Meu amigo Arth estava distraído e olhava no celular de minuto em minuto como se estivesse esperando por uma ligação. Foi a insistência dele em olhar o celular que me fez perceber que já tinha passado da hora de eu ir para casa.

— Arth? — O chamei. — Tudo bem?

— Tudo bem. — Ele respondeu. — Só estou esperando uma mensagem do meu irmão.

— Achei que você era filho único — comentei.

— Na verdade, Jake é meu primo — explicou ele. — Meus pais adotaram ele, então...

— Entendi — afirmei com um meio sorriso.

Arth suspirou.

— Ele ficou de me mandar mensagem às nove, mas já são quase onze — disse ele.

— O que?! — exclamei. — Que horas são?!

— Dez e quarenta e sete, Klay — disse Arth mostrando a tela do celular com as horas.

Como o tempo tinha passado tão rápido?
Onde estive todo aquele tempo?

— Preciso ir embora! — exclamei levantando, tirando meu celular do bolso e checando se havia alguma mensagem do Pete.

Meu namorado já devia ter chegado na cidade. Tínhamos combinado de nos encontrar a onze e meia, então, não restava muito tempo para eu voltar para casa.

— Não seja chato, Klayton! — exclamou Mike soltando Tyler e envolvendo o braço esquerdo em meu pescoço. — Você precisa ficar, pois a festa só está começando.

— Tenho coisas pra fazer em casa esta noite — expliquei. — Já estou atrasado!

— O que alguém teria pra fazer em casa em uma sexta-feira à noite, Klay? — questionou Andie. — Não me diga que você vai estudar?

— O pai dele é um general — brincou Tyler. — Se o Klay chegar tarde, vai ficar de castigo e sem mesada.

— Cala a boca — resmunguei jogando um punhado de pipoca no rosto dele.

Olhei novamente o celular, mas não haviam mensagens do Pete. Se ele já estivesse em casa, provavelmente teria me avisado. De qualquer forma, o horário combinado era às onze e meia e eu precisava ir embora.

— Tem certeza que não pode ficar mais um pouco, Klay? — perguntou Sue. — A gente te arruma uma carona para ir pra casa.

— Eu adoraria ficar, mas preciso ir — falei antes de abraça-la para me despedir. — De qualquer forma, foi muito bom rever vocês.

— Um brinde ao Klay! — exclamou Tyler levantando sua garrafa de cerveja. — Um brinde ao futuro professor chato de biologia da rede pública!

— Vai pro inferno — resmunguei antes dele também se aproximar para me abraçar e se despedir.

Insisti que não era necessário eles me arrumarem uma carona, mas Arth fez questão de pegar a moto do Mike emprestado para me levar para casa. Não restava tanto tempo para eu esperar um motorista de aplicativo chegar, então, tive que aceitar.
Mesmo nunca tendo andado de moto.

Quando chegamos, desci cambaleando da moto e quase cai na calçada de casa. A velocidade daquele veículo de duas rodas tinha me deixado zonzo e com um pouco de dor de cabeça. Sem falar no meu capacete que estava apertado e com o fecho emperrado.

— Eu te ajudo, Klay — propôs Arth também descendo da moto para me ajudar a tirar o capacete. — Também sofro quando uso ele.

— Tá emperrado — afirmei tentando tirar sozinho. — Não consigo abrir.

Naquele exato momento, o carro do Pete estacionou ao lado da moto do Mike. Meu namorado abaixou o vidro do carro e observou Arth e eu com uma expressão confusa e desconfiada.

— Klay?! — chamou ele.

— Pete! — exclamei animado.

Pete desceu do carro e se aproximou enquanto meu amigo Arth terminava de fazer o truque que conhecia para tirar o capacete.

— Está andando de moto? — perguntou Pete ainda confuso.

— Eu estava no campus da faculdade visitando uns amigos — afirmei. — O Arth se ofereceu pra me trazer, pois já estava ficando tarde.

Pete abriu um sorriso e cumprimentou Arth com um aperto de mãos.

— Meu nome é Arthur — disse meu amigo.

— Peter! — respondeu meu namorado de forma simpática.

— Eu estava na turma dele quando cursava Direito — expliquei.

Pete balançou a cabeça e abriu outro sorriso, mas daquela vez não pareceu ser sincero ou simpático.

— Você estava na festa que tá rolando hoje no campus? — Pete perguntou.

— Você sabe sobre a festa? — perguntei.

— Amor, estudamos na mesma faculdade — lembrou Pete. — Também fui convidado por uns colegas, mas não estou com ânimo para esse tipo de coisa.

Me senti péssimo por um momento. Eu não queria que Pete pensasse que eu era insensível ou que não o apoiasse naquele momento. Eu sabia que ele estava triste e que precisava de mim depois de voltar do velório de sua tia.
Me senti tão mal que nem me alarmei quando ele me chamou de amor na frente de um dos meus amigos.

— Eu só fui conversar com uns amigos — expliquei.

— O Klay ficou o tempo todo com a gente — disse Arth. — Ele não bebeu e nem ficou na festa, praticamente.

— Calma, gente! — exclamou Pete. — Eu não disse nada!

De repente...

— Isso tá ficando interessante — disse Nathan aparecendo do nada atrás do Pete.

Suspirei e apertei os lábios para disfarçar o susto.

— Vou voltar para a festa, Klay — disse Arth voltando para a moto e prendendo o capacete que usei na garupa. — Preciso cuidar do Tyler e do Mike até eles desmaiarem de tanto beber.

— Seu namorado e o garoto que gosta de você aqui, juntos! — brincou Nathan. — Isso tá mais interessante que as séries que eu via quando era vivo.

— Obrigado por trazer meu namorado pra casa, Arthur — disse Pete envolvendo o braço em minha cintura. — Foi um prazer te conhecer.

Não fiquei incomodado quando Pete revelou que era meu namorado. O que mais me incomodava eram os comentários provocativos do Nathan. Seria impossível disfarçar e segurar minha vontade de xinga-lo por mais tempo.

— O prazer foi meu, Peter — respondeu Arth antes de ligar a moto, dar a partida e seguir de volta para o campus.

Fiquei alguns segundos sem saber o que dizer. Eu sentia uma tensão no ar, mas Pete conseguia disfarçar seus sentimentos com maestria.
Naquele momento senti muito a falta do meu dom de captar os sentimentos de pessoas vivas.

— Seu namorado está morrendo de ciúme, Klay — disse Nathan ainda se divertindo com toda aquela cena. — Eu também ficaria, pois o cara que te trouxe além de também ser lá do oriente, tem um sorriso de dar inveja.

— Cala a boca — resmunguei revirando os olhos.

Pete franziu o cenho.

— O que disse? — perguntou ele confuso.

— Beijar sua boca! — exclamei para concertar. — Estou louco de saudade de beijar sua boca, Pete.

Ele sorriu antes de me presentear com um carinhoso e forte abraço.

Depois de entrarmos em casa e prepararmos um lanche rápido na cozinha, Pete contou tudo que tinha acontecido em Nova Iorque. Ele falou do quão triste foi o velório e sepultamento da tia dele, o quanto Nuri ficou arrasado e como aquilo o tinha afetado. Meu namorado também relembrou tudo o que aconteceu com o pai dele no passado além de mais uma vez me agradecer por eu ter me dedicado tanto para salvar sua vida.

Pete estava triste e eu sabia que grande parte era por causa do falecimento da tia dele, mas foi impossível não me preocupar com o que ele estava pensando sobre mim, sobre o Arth e sobre eu ter ido na festa do campus naquela noite. Eu não queria ser egoísta e colocar meus sentimentos e medos na frente do que ele estava passando, mas eu não conseguia ficar tranquilo e sem saber o que ele estava pensando.

— Sobre a festa no campus... — comentei assim que Pete terminou de contar o que tinha feito na viagem. — Eu só fui porque encontrei o Tyler por acaso. Eu estava estudando depois da prova que tive hoje e...

— Tá tudo bem, Klay. — Pete me interrompeu. — Eu sei que faz tempo que você não vê seus amigos.

— Arth se ofereceu para me trazer. — Continuei as explicações. — Foi ele que me tirou do lago naquele dia, lembra? Desde então, ele tem se preocupado, pois achou que...

— Aquele cara é muito bonito, Klay — disse Pete abrindo um meio sorriso e coçando os olhos antes de soltar um longo bocejo.

— Você é muito mais — falei seriamente.

— Obrigado. — Ele agradeceu.

Não tinha funcionado.
Eu ainda estava na duvida sobre o que meu namorado estava pensando.

— Você sabe que o Arth é hétero, né? — questionei ainda preocupado.

— Isso é o que me conforta — respondeu Pete levantando da mesa e se aproximando para me dar um selinho. — Seria difícil competir com ele se fosse gay.

— Não tenho olhos pra mais ninguém — afirmei.

— Eu sei e confio em você, amor. — Ele disse encerrando de uma vez aquele assunto.

Pete me ajudou a colocar a louça na pia, mas estava visivelmente triste, cansado e indisposto por conta da viagem. Ele bocejava e coçava os olhos a cada minuto enquanto secava os copos e pratos que usamos.

— Pode deixar que eu termino, Pete — sugeri quando o vi se espreguiçar.

— Posso dormir aqui hoje? — Ele perguntou. — Você pode me emprestar uma de suas cuecas?

— Claro! — concordei feliz com o pedido.

— Então vou subir para tomar banho — disse Pete antes de me dar um beijo no rosto e sair da cozinha.

Estava tudo bem...
Apesar de triste e cansado, Pete estava bem.
Nós estávamos bem.

— Quem te disse que o seu amigo Arth é hétero, Klay? — disse Nathan aparecendo de repente na cozinha.

Não me assustei daquela vez.
Eu estava começando a me acostumar.

— Hoje você resolveu me atormentar? — perguntei rispidamente.

— Eu estava brincando quando disse que o Arth gosta de você — disse Nathan ignorando minha pergunta. — Quando estávamos na festa, eu o vi trocando mensagens com um amigo. Ele falou que estava com saudade de um rapaz que não lembro o nome, que ainda o ama e que está com saudade.

— Como é?! — questionei incrédulo.

— Não sei direito, pois só consegui ler algumas linhas — falou Nathan cruzando os braços. — O que posso garantir é que seu amigo Arth também é gay, mas pode ficar tranquilo, pois ele não está afim de você.

Aquela informação me pegou de surpresa. Eu nunca imaginaria que meu amigo Arth também fosse homossexual. Eu desconfiaria da Andie ou até do Mike, mas nunca do Arth.

— Você gosta de cuidar da vida dos outros, né? — resmunguei terminando de guardar a louça.

— Quando se está morto, não resta muito o que fazer — disse Nathan fazendo uma careta.

— Você poderia desaparecer esta noite? — pedi com toda a calma e educação que consegui acumular.

— Não se preocupe, pois não fico espiando quando você e seu namorado estão juntos no quarto — disse Nathan voltando com seu tom de provocação. — Prefiro não ver algumas coisas.

— Será que incensos são bons para afastar espíritos? — indaguei.

Naquele momento, meu pai entrou na cozinha.
Nathan desapareceu imediatamente depois.

— Com quem você está falando, Klay? — perguntou meu pai desconfiado.

— Pete vai dormir aqui esta noite, pai — falei tentando arrumar uma desculpa.

— Sim, já o vi lá em cima — disse meu pai abrindo a geladeira e pegando uma garrafinha de água. —, mas ouvi sua voz aqui na cozinha e pareceu que você estava falando com alguém.

— Pensando alto — menti. — Às vezes é bom falar sozinho.

Meu pai me olhou com uma expressão estranha, mas aceitou a explicação.

— Boa noite — disse ele antes de deixar a cozinha ainda desconfiado.

— Boa noite — respondi respirando aliviado.

...

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top