04 - Sexto Sentido
Pete foi embora antes das nove da noite. Teríamos o final de semana inteiro para ficar juntos, então, ele preferiu ir mais cedo e descansar para o dia seguinte.
Minha cabeça não tinha parado de doer, eu ainda sentia meu corpo pesado e, mesmo constatando que Pete estava bem, tudo aquilo me preocupava. Fui obrigado a inventar que não estava bem disposto para que ele não desconfiasse ou se preocupasse, pois minha fadiga e expressão pálida quase me denunciaram enquanto conversávamos naquela noite.
Aquele mal estar e aquelas dores eram iguais as que eu tinha quando tentava evitar que o pior acontece com meu namorado, mas agora, eu não estava tentando evitar nada. Pete estava feliz e vivendo a vida normalmente. Eu não tinha mais sonhos, visões ou qualquer coisa do tipo.
Não havia motivos para aquele mal estar.
Talvez fosse por causa do estresse pós trauma que eu estava enfrentando.
— Seu amigo Pete foi embora cedo hoje — observou meu pai enquanto assistia o noticiário da TV. — Não tinham matéria para estudar?
— Ele estava cansado — respondi passando direto pela sala em direção as escadas.
Depois de subir alguns degraus, a notícia que o repórter estava cobrindo chamou minha atenção. Tive que parar de subir e me concentrar para ouvir com mais clareza o que estava passando no noticiário.
"Os vizinhos estão chocados com este crime bárbaro que aconteceu em um bairro pacato em uma rua pouco movimentada da cidade da Filadélfia. Uma garotinha foi brutalmente assassinada pelo pai e pela madrasta. O motivo? Uma simples briga entre irmãos.
O corpo foi encontrado no quarto do casal com sinais de sufocamento e marcas de agressão nos braços e nas pernas."
Senti meu corpo congelar.
Devia ser só uma coincidência infeliz.
Voltei á sala para acompanhar a notícia. Na TV, o repórter mostrava a casa e a rua onde o crime tinha acontecido.
— Que coisa horrível, né? — comentou meu pai enquanto aumentava o volume da TV. — Eu, como pai, não consigo entender como alguém pode fazer isso com o próprio filho.
Não respondi por estar concentrado e paralisado enquanto assistia aquele absurdo.
"Ainda não temos informações da mãe da vítima, mas tudo indica que ela está viajando a trabalho e deixou Rachel com o pai para passar a semana. Sabemos também que a custódia é partilhada, então, não foi a primeira vez que Rachel passou a semana na casa do pai, da madrasta e de seu meio irmão."
— Rachel? — indaguei boquiaberto.
— Era apenas uma criança inocente — disse meu pai assim que a foto da garota que eu vi em meu quarto aparecer na TV. — Que tipo de monstros fazem isso?
Era ela.
A garotinha da foto que foi morta pelo pai e pela madrasta era a mesma que esteve em meu quarto naquela noite.
— Klay?! — chamou meu pai. — Você está bem?
— Eu... Eu não... — gaguejei com as mãos trêmulas.
— Me desculpa, filho — disse meu pai desligando a TV. — Você não devia ter visto essa notícia. Pode despertar algum mal estar em você e eu não queria...
— A culpa não é sua — afirmei ainda em choque. — Eu estou bem, pai.
— Não, não está! — exclamou ele se aproximando para me abraçar. — Você está pálido e tremendo. Você não está bem, Klay!
— É só um mal estar passageiro — afirmei.
— Vamos ao médico? — sugeriu meu pai. — Quer ver um psicólogo?
Balancei a cabeça negativamente.
— Sua mãe e eu não vamos mais viajar amanhã — disse ele. — Não podemos te deixar sozinho neste estado.
— Eu já disse que estou bem, pai — resmunguei já preocupado.
Eu não queria que meu final de semana com Pete fosse arruinado. Eu precisava dele a meu lado mais do que nunca.
— Então por que você está pálido e tremendo deste jeito?
— Não comi direito e confesso que a notícia me deixou revoltado. Também não sei como alguém pode fazer uma monstruosidade dessas.
— Fora isso, como você está se sentindo? Quer desabafar ou me falar alguma coisa? Está bem psicologicamente?
Meus pais pensavam que tentei tirar a própria vida. Era só meio verdade, pois nunca tive a intenção de morrer naquele lago.
— Estou bem, pai — falei olhando fixamente para ele na tentativa de passar segurança. — É só fome e revolta desses assassinos impiedosos. Fora isso, eu estou me sentindo muito bem.
Não sei se consegui convencê-lo, mas consegui fazê-lo desistir de cancelar a viagem e parar de me fazer tantas perguntas.
Depois de jantar pela segunda vez para sustentar minhas mentiras e fazer meu pai me deixar em paz, subi, me tranquei no quarto e liguei o notebook para pesquisar mais detalhes sobre o crime que eu tinha visto no noticiário.
Tudo era verdade.
Todos os portais de notícias importantes na internet destacavam o crime bárbaro que aconteceu na Filadélfia naquela noite:
"Criança assassinada pelo pai e pela madrasta tinha acabado de completar seis anos."
"Crime na Filadélfia. Mais uma vida inocente interrompida por um crime brutal."
"Rachel tinha apenas seis anos. A cidade está de luto e pede justiça."
Não restava dúvida.
O que eu pensava ser alucinações eram na verdade pessoas mortas.
— Nathan... — murmurei. — Qual era o sobrenome que ele disse mesmo?
Abri outra aba do navegador para pesquisar qualquer morte recente de um jovem com aquele nome, mas não encontrei nada nos resultados da busca.
— Ele enche meu saco, mas não está aqui quando mais preciso — resmunguei. — O que ele tinha me dito mesmo?
Levei alguns segundos para lembrar das conversas que tive com Nathan enquanto ele me atormentava. A única coisa que consegui lembrar era que ele foi eleito o melhor jogador de basquete de um colégio que eu não lembrava o nome.
Pesquisei por qualquer estudante chamado Nathan que tivesse ganhado algum prêmio estudantil, mas também não encontrei nada nos resultados da busca.
— Merda! — resmunguei socando a escrivaninha e abaixando a cabeça sobre as mãos.
Aquele rapaz não aparecia há um tempo. Talvez ele tenha sumido como as outras pessoas que eu costumava ver. Talvez ele tenha conseguido ajuda em outro lugar.
Mas uma coisa me intrigava...
Se eram pessoas mortas, por que elas não avançaram para o pós vida como eu?
Segundo os médicos que me salvaram, eu cheguei a morrer por aproximadamente três minutos. Eu não lembro de minha alma ter vagado por aí. Tudo que lembro era de tudo ficar escuro por um tempo e depois eu ser sugado para uma luz forte e infinita.
Aquilo não fazia sentido...
Por que eu estava vendo pessoas mortas? Será que esse era o preço que aquela silhueta misteriosa disse que eu teria que pagar? Eu teria que viver para sempre como o garotinho do filme "O Sexto Sentido"?
Minha cabeça estava repleta de dúvidas e eu não fazia ideia do que fazer. Eu também nem podia falar aquilo para alguém, pois achariam que eu estava louco e provavelmente me internariam em um manicômio.
Também era óbvio que Pete era a última pessoa que podia saber sobre aquilo. Ele tentaria me ajudar, se preocuparia e provavelmente se culparia.
— Lumes, Miles, Lewis... — murmurei ainda tentando lembrar o sobrenome que Nathan tinha me falado.
Depois de finalmente conseguir lembrar, pesquisei por Nathan Lewis no Google. Ignorei algumas páginas que não pareciam relevantes e abri a primeira rede social de alguém com aquele nome que encontrei...
E era ele.
Eu finalmente o tinha encontrado.
Segundo algumas postagens do Instagram, Nathan também morava na Filadélfia. Grande parte das fotos que ele postava era com amigos ou com o uniforme de basquete do time do colégio.
Abri a última foto que ele tinha postado e cliquei no ícone para ler os comentários. A maioria deles era de condolências à família e desejos de que ele descansasse em paz.
Então estava mais do que confirmado...
Nathan estava realmente morto.
— Como você morreu? — questionei procurando qualquer informação nos comentários.
"Foi um horrível e inesperado acidente. Condolências à família. Espero que o Nate encontre a paz" dizia um dos comentários.
— Acidente? — indaguei.
— Isso é mentira! — exclamou aquela voz grossa e familiar atrás mim.
Quase pulei da cadeira de susto.
Ele tinha voltado.
— Nathan — murmurei ainda assustado.
— Não foi um acidente! — resmungou ele.
Meu quarto voltou a ficar frio. O clima começou a pesar e novamente pude sentir todas as energias ruins que aquele espírito emanava.
— Achei que você não apareceria mais.
— Acredita em mim agora?
— Acredito, mas não sei como isso é possível.
Senti que Nathan ficou mais tranquilo quando confirmei que acreditava. As energias emanadas por ele ainda eram intensas, porém bem menos agressivas.
— Não foi um acidente, Klay — insistiu ele. — Tenho certeza que não foi.
— Como você morreu, Nathan? — questionei.
— Não consigo lembrar exatamente — respondeu ele confuso. —, mas sei que não foi um acidente.
— Se não lembra, como pode ter certeza? — perguntei. — Ha comentários em sua última postagem do Instagram que dizem que foi um acidente.
— É uma longa história que pretendo te contar se você me ajudar — disse ele. — Você é a única pessoa que pode me ver e me ouvir.
Tive que respirar e digerir rapidamente todas aquelas informações. Eu não entendia como e porque aquilo estava acontecendo e já tinha que decidir se ajudaria ou não aquele rapaz.
O que aconteceu com a garotinha Rachel tinha mexido comigo, estão, como eu poderia negar ajuda para uma pessoa que talvez tivesse passado pelas mesmas coisas que ela?
E se realmente não foi um acidente?
— Tenho que pensar sobre isso — afirmei. — Eu não sei o que está acontecendo.
— Você precisa me ajudar, Klay! — exclamou Nathan insistentemente.
Outra vez o clima do quarto começou a piorar.
As dores físicas e o cansaço mental que eu costumava sentir começavam a me incomodar novamente.
— Me dê este final de semana para pensar e pesquisar sobre tudo isso? — pedi enquanto seguia o perfil dele no Instagram e salvava algumas fotos em minha pasta de download do notebook.
Nathan concordou e desapareceu imediatamente depois. Quando ele sumiu, todo o clima ruim desapareceu, mas as dores e sensação de peso continuaram...
Era igual quando eu lutava para salvar Pete da morte.
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