03 - Assombrado

– 02 –

— Nunca passou pela sua cabeça que você talvez estivesse vendo pessoas desencarnadas? — Ela perguntou.

— Como eu cogitaria um absurdo desses? — questionei. — Eu tive uma experiência de quase morte e não fiquei andando por aí como se estivesse vivo.

— Acontece diferente de pessoa para pessoa, Klayton — disse ela. — Há pessoas que não querem partir, mas que não podem ficar.

Desviei minha atenção para ela com curiosidade.
Eu nunca tinha parado para pensar naquilo.

— Como assim? — perguntei.

— Negócios inacabados, apego material ou amoroso... — explicou ela. — Existem muitos motivos para uma pessoa não querer fazer a passagem.

Era um fato...

— Nathan tinha um forte motivo para ficar aqui — murmurei envolto em pensamentos. — Por isso ele não conseguiu seguir em frente.

— Que motivo foi este, Klayton? — Ela perguntou.

Fechei os olhos, suspirei e engoli a saliva com dificuldade.

— Eu não sabia no que estava me metendo — afirmei aflito. — Eu só queria ajudar!

— Nathan foi o único que você se propôs a ajudar? — perguntou ela. — Você ajudou outros espíritos?

Balancei a cabeça positivamente.

— Comecei a ajuda-los no momento que descobri que não eram só alucinações — confessei. — Eu precisava fazer alguma coisa para que tudo aquilo parasse e, na minha cabeça, ajuda-los era a saída.

— Quero saber mais sobre isso — disse ela colocando mais chá em sua xícara.

(...)


Já era noite quando acordei. Eu tinha adormecido enquanto estudava o livro de biologia celular que continuava aberto sobre meu peito.

— Droga! — resmunguei enquanto tateava minha cama atrás do celular para ver as horas.

Eram oito e dez da noite. Na tela do celular abaixo do relógio, haviam notificações de mensagens do Pete dizendo que sairia um pouco mais tarde do trabalho, do Tyler mais uma vez reclamando dos professores do curso de Direito e da Jessica me lembrando das anotações que prometi levar no dia seguinte.

Levantei os braços para me esticar enquanto soltava um longo e preguiçoso bocejo. Sentei na cama, tateei o chão com meus pés atrás do meu par de chinelos e tirei a camiseta já pensando em tomar um banho antes do jantar.

— Mamãe? — chamou uma voz de criança.

A voz era tão baixa que, por um momento, pensei que vinha do andar de baixo ou do quarto do meu irmão Shawn.

Pouco a pouco, a temperatura a meu redor começou a cair. Aqueles sentimentos de medo e desespero começaram a crescer dentro de mim. A atmosfera a minha volta parecia ter mudado e eu me sentia sufocado. Meu corpo começou a ficar pesado e minha cabeça a doer como no passado...

— Pete? — indaguei preocupado.

Eu não tinha mais sonhos, então, minha maior preocupação era de algo acontecer com Pete e eu não conseguir prever para tentar impedir.

Peguei meu celular novamente e o desbloqueei na intenção de ligar para meu namorado, mas antes de completar a ligação, ouvi mais uma vez aquela voz...

— Mamãe? — chamou novamente. — Cadê minha mamãe?

A voz estava mais mais nítida.
Os sentimentos de medo e desespero só cresciam.

— Quem está aí? — perguntei paralisado.

— Me ajuda a encontrar minha mamãe — disse aquela voz que era claramente de uma menina.

Levantei da cama e olhei em volta, mas não havia ninguém no quarto além de mim.

— Onde você está? — perguntei respirando fundo para tentar espantar aqueles sentimentos ruins.

— Por favor, não fica bravo — pediu ela com a voz chorosa. — Eu só quero ir pra casa.

A voz vinha do outro lado da cama.

— Não estou bravo — respondi tentando me manter calmo.

Em passos lentos e pensados, andei até a beirada da cama para ver o que tinha do outro lado. Meu quarto estava escuro, mas era possível ver a sombra de uma criança sentada no chão ao lado da cabeceira.
Desbloqueei meu celular e abri o aplicativo de lanterna...

— Por favor, não fica bravo — repetiu a menina começando a chorar.

Por causa do susto, dei alguns passos para trás, tropecei e caí sentado no chão do quarto. A garotinha estava muito pálida, seus braços e pescoço estavam com manchas avermelhadas e seus olhos tinham olheiras fundas e apavorantes.

— Não estou bravo — repeti captando a dor, o medo e todo o desespero que aquela garotinha estava sentindo.

Eu conseguia sentir o que ela sentia, mas não parecia tão intenso quanto deveria ser. Ela estava com medo de alguém, estava confusa por estar no quarto de uma pessoa desconhecida e desesperada por não conseguir encontrar alguém confiável.

— Você vai me ajudar? — Ela perguntou.

— Eu... Po... Posso tentar — gaguejei.

Aquela alucinação era diferente das outras. A energia e os sentimentos emanados por ela eram mais tristes, profundos e inocentes. As energias que eu sentia quando tinha outras alucinações eram mais agressivas, raivosas e pesadas.

— O que tá acontecendo? — Ela perguntou.

— Eu não sei — respondi ainda paralisado no chão do quarto.

— Como faço pra ir embora? — Perguntou ela enxugando as lágrimas.

— Você sabe onde está sua mamãe? — questionei.

A menina balançou a cabeça negativamente.

Naquele instante, tudo que vinha a minha cabeça era a última conversa com a alucinação que mais me atormentava...
A alucinação que disse que seu nome era Nathan.

Talvez ele fosse real.
Talvez todos eles fossem reais.

— Como é seu nome? — perguntei finalmente conseguindo me mexer.

— Rachel — ela respondeu.

— Você não precisa ter mais medo, Rachel — afirmei. — Você pode relaxar e se sentir segura agora.

Ela abaixou a cabeça ainda enxugando as lágrimas.
Aquela cena era de cortar o coração.

— Como vim parar aqui? — Ela perguntou. — Você veio me ajudar?

— Sim — menti para conforta-la. — E vai ficar tudo bem se você colaborar comigo.

— Como? — perguntou ela um pouco menos aflita.

Eu não fazia ideia do que fazer.
Eu costumava ignorar todas as pessoas que eu considerava alucinações até elas desaparecerem. Sem falar que era muito raro uma pessoa aparecer com aquelas condições físicas assustadoras.

— Primeiro, você precisa se acalmar — sugeri forçando um sorriso. — Depois, precisa me dizer como faço para encontrar sua mamãe.

— Você é da polícia? — perguntou ela. — A mulher malvada disse que a polícia ia nos achar.

— Sou amigo da polícia — menti, mas percebi que a cada mentira contada, a garotinha emanava mais tranquilidade e segurança.

— Minha mamãe está viajando — disse ela. — Me deixou na casa do meu papai e da madrasta.

— Onde seu pai e sua madrasta moram? — questionei.

— Não sei — respondeu ela. — Papai vai me buscar de carro e sempre demora pra chegar.

Meu celular começou a vibrar naquele momento. Era Pete que estava querendo iniciar uma conversa por vídeo.
Eu não podia atender uma chamada de vídeo naquela hora. Seria impossível disfarçar tanto minha expressão quanto meus sentimentos.

Atendi a ligação, mas desliguei minha câmera.

— Estou saindo do trabalho, amor — disse ele se filmando enquanto caminhava. — Sei que amanhã poderemos ficar a noite toda juntos, mas preciso muito te ver esta noite.

— Também quero te ver, Pete — respondi tentando disfarçar minha voz trêmula.

— Por que não ligou a câmera? — Pete perguntou.

— Acabei de acordar e não lavei meu rosto — menti. — Não quero que você me veja neste estado.

— Klay, já dormimos e acordamos juntos centenas de vezes — disse ele. — Você sabe que eu amo seu rostinho inchado de sono.

— Vou tomar banho, Pete — falei arrumando um motivo para encerrar a ligação. — Quero estar cheiroso e com a cara desinchada quando você chegar aqui.

Pete olhou para a câmera do celular desconfiado por um segundo, mas logo abriu aquele sorriso que eu tanto amava admirar.

— Chego em quinze minutos — disse ele. — Quer que eu leve alguma coisa?

— Não precisa, obrigado — agradeci tentando parecer normal e carinhoso.

— Te amo! — exclamou Pete antes de encerrar a ligação.

Pude respirar aliviado depois de encerrar aquela ligação. Pete não podia saber ou desconfiar que eu estava tendo alucinações ou vendo pessoas aparentemente mortas. Seria uma preocupação a mais que eu não queria dar a ele depois de tudo que passamos nos últimos meses.

Aquele era meu problema.
Só meu.

— Rachel? — chamei levantando do chão e caminhando até a lateral da cama.

A garotinha não estava mais lá.

— Rachel? — chamei novamente.

A energia do quarto não estava mais pesada, a temperatura estava começando a voltar ao normal e eu já não me sentia tão sufocado quanto antes. Minha dor de cabeça não tinha passado e, por uns segundos, senti meu estômago embrulhar me fazendo ter uma intensa vontade de vomitar.

Me apoiei na escrivaninha esperando que aquela ânsia passasse. Eu me sentia fraco, as juntas do meu corpo doíam e minha cabeça ardia de dor.

— Não pode estar acontecendo de novo — murmurei preocupado. — Não pode ser um problema com o Pete.

Eu estava no escuro. Se Pete corria perigo, eu não tinha como prever o que estava para acontecer. Toda a vez que eu adormecia, a escuridão me levava e eu não via mais nada até despertar. Meus sonhos tanto lúcidos quanto premonitórios tinham acabado.
Aquilo era o que mais me atormentava.

Depois de tomar banho e ensaiar uma forma de transparecer estar bem, fui na varanda de casa esperar Pete chegar do trabalho e também respirar um ar fresco para aliviar toda aquela tensão. Em minha cabeça, dezenas de ideias ecoavam...

Eu precisava me certificar de que Pete não corria mais perigo. Os últimos meses foram tranquilos e nada de estranho tinha acontecido. Pete tinha se recuperado milagrosamente do trauma que teve na cabeça, então, eu acreditava que minha ida para o linear entre a vida e a morte tinha dado certo.

Pensei que o estresse pós trauma estava me causando alucinações. Eu tinha lido em algum lugar que quando pessoas passam por um estresse e trauma muito grande, podem começar a ver coisas e ter comportamentos estranhos. Aquela era a explicação que eu tinha para todas as pessoas desconhecidas que eu costumava ver, mas...

Nathan disse que está morto, mas como ele pode saber isso? Se ele estivesse morto, estaria no linear entre a vida e a morte e não andando por aí como uma pessoa viva.
Digo por experiência própria.
Quando o corpo morre, a alma da pessoa é guiada para o pós vida por um ente querido. No meu caso, reencontrei minha falecida avó materna, mas ela me deu a escolha de voltar já que não era minha hora de morrer.

Então, Nathan podia ser realmente uma alucinação e não um fantasma.
Mas e as outras pessoas?

Rachel parecia tão frágil e perdida. Estava claro que alguém tinha feito mal a ela...
Isso se ela fosse real.
A maior parte das minhas alucinações são com pessoas comuns, mas Rachel estava visivelmente machucada. Lembro que tive poucas alucinações com pessoas machucadas...
Estes detalhes só reforçavam a ideia de que tudo não passava de coisa da minha cabeça.
Eu estava vendo filmes de terror demais.

Era definitivamente coisa da minha cabeça e as sensações ruins que senti eram apenas consequências do estresse pós trauma.
Eu tinha fé e certeza de que tudo melhoraria com o tempo.

Eu era forte o bastante para superar tudo isso.

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