Epílogo - Recomeço
— Então, isso não faz diferença pra você? — perguntei enquanto Pete e eu terminávamos de comer a pizza que pedimos.
— Não — respondeu ele de boca cheia. — Não me importo em manter segredo do nosso relacionamento.
Respirei aliviado.
— Eu não vejo problema em contar para meus amigos, mas contar para meus pais seria um grande e perigoso passo — afirmei.
— Klay, estamos bem assim — disse Pete levantando da cama e começando a arrumar a bagunça que fizemos. — Não precisamos divulgar para a cidade toda.
Concordei e fiquei feliz em saber que Pete pensava da mesma forma que eu. Aquele assunto estava me preocupando desde o dia que Nuri, primo dele, assumiu publicamente seu relacionamento com um rapaz. Cheguei a pensar que Pete sentiria necessidade de expor nosso namoro em fotos, publicações e até na mudança de status em nossas redes sociais.
Fiquei aliviado em saber que ele não se importava com nada daquilo.
— Continuando o assunto de hoje mais cedo, você nunca mais teve sonhos lúcidos? — Pete perguntou.
— Não — respondi balançando os ombros.
— Nem sonhos normais? — questionou ele intrigado.
— Nada — confirmei. — Nunca mais sonhei ou senti qualquer coisa depois do que aconteceu naquele lago.
Enquanto Pete fechava a caixa da pizza e separava os pratos e copos que usamos, senti um estranho arrepio subir por minhas costas. Meu quarto ficou frio de repente e um estranho desconforto começou a me dominar.
— O que será que aconteceu com seus dons, amor? — Pete perguntou. — Por que será que você não consegue mais sonhar?
— Não faço ideia — respondi sinceramente. — Talvez seja porque tudo o que passamos acabou e eu não precise mais de sonhos ou premonições.
— Mas você tinha sonhos lúcidos antes de me conhecer, não é? — questionou Pete.
— Sim — respondi pensativo. — Toda semana eu sonhava com alguma coisa.
Novamente o arrepio subiu por minhas costas. Senti meu estômago congelar e meu corpo estremecer com aquela sensação esquisita.
— Será que tem alguma ligação com aquela silhueta misteriosa que você viu? — questionou Pete.
— Podemos mudar de assunto? — sugeri.
Pete concordou.
Ele me deu um longo e molhado selinho antes de levantar.
— Klay, quando seus pais voltam? — questionou ele.
— Acho que em dois dias — respondi.
— Temos a casa toda só para nós esta noite? — Ele perguntou com um tom malicioso.
Tive que revirar os olhos e me esforçar para não começar a rir.
— Como se a presença deles nos impedisse de alguma coisa — resmunguei. — Sem falar que Shawn está no quarto dele.
— Meu cunhado é meu cúmplice — disse Pete sorridente antes de sair do quarto levando a caixa da pizza e a louça para a cozinha.
Me distrai por um momento com uma mensagem que recebi do meu amigo Arth. Desde o dia no parque que ele pulou no lago e chamou a emergência para me salvar, tivemos uma aproximação e passamos a conversar com mais frequência.
De repente, um arrepio mais intenso e apavorante subiu por minhas costas. Fechei os olhos, suspirei e cocei a nuca para tentar espantar aquela sensação ruim.
— Tá tudo bem, Klay — sussurrei a mim mesmo.
De relance, vi um vulto passar na frente da porta do quarto em direção ao final do corredor.
— Pete?! — O chamei, mas ele não respondeu.
Meu quarto estava ficando cada segundo mais frio e uma estranha sensação de sufocamento começava a me fazer ter dificuldades para respirar.
— Shawn?! — chamei antes de levantar e caminhar lentamente até a porta.
Entrei no corredor e fui até a beira da escada. Pete parecia estar na cozinha lavando a louça que usamos e era possível ouvir meu irmão mais novo jogando vídeo game no quarto dele.
— Pete?! — O chamei um pouco mais alto.
— Já vou subir, amor! — Ele respondeu.
Respirei aliviado, cocei a nuca e me virei para voltar ao quarto.
Pouco antes de eu entrar, a porta do quarto fechou bruscamente com a força do vento que soprou por minha janela entreaberta. Antes de eu voltar a abri-la, senti como se alguém passasse atrás de mim e fosse novamente em direção ao final do corredor.
— Eu tô ficando maluco — falei sorrindo, colocando a mão na testa e finalmente virando a maçaneta para entrar e voltar para a cama.
Quando entrei, vi um rapaz desconhecido ao lado da janela. Ele estava com a cabeça ensanguentada, as mãos e os pulsos machucados e tentava falar alguma coisa enquanto se aproximava de mim.
— Que porra é essa?! — exclamei assustado dando alguns passos para trás.
Senti um líquido descer do meu nariz e um gosto intenso de ferrugem invadir minha boca. Passei o dedo na parte superior dos meus lábios e constatei que aquele líquido que escorria era sangue.
O rapaz continuava a se aproximar resmungando algumas coisas que eu não conseguia entender.
— Pete! — gritei.
Minha visão ficou embaçada por alguns segundos. As luzes do corredor e do meu quarto começaram a piscar e um zumbido agudo ecoou em meu ouvido.
— Pete! — gritei novamente.
— Klay?! — chamou Pete subindo rapidamente as escadas.
Coloquei a mão na cabeça e caí de joelhos no chão por conta do incômodo causado por aquele zumbido. Pete ajoelhou a meu lado, me abraçou e beijou minha cabeça para tentar me acalmar.
— O que aconteceu, amor? — Ele perguntou.
— O que foi, irmão?! — questionou Shawn saindo assustado do quarto.
Quando voltei a olhar para meu quarto, o rapaz com a cabeça ensanguentada havia sumido. Olhei em volta para ver se o encontrava, mas não havia mais nem um sinal dele.
— Tinha uma... — Tentei falar, mas parei depois de constatar que qualquer coisa que eu dissesse pareceria loucura.
— O que, amor?! — questionou Pete me ajudando a levantar.
— O que aconteceu com seu nariz, Klay? — perguntou Shawn.
Balancei a cabeça negativamente.
— Nada — menti. — Eu só tropecei e caí.
Devia ser coisa da minha cabeça.
Talvez, fosse o cansaço e a pizza que não tinha caído muito bem naquela noite.
Eu precisava acreditar nisso...
Precisava acreditar que tudo estava bem.
Nota: Até 2020, pessoal!
Boas festas! <3
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