39 - Regresso

Pete e eu nos despedimos de Manhattan na manhã seguinte. Fizemos um último passeio pelos arredores do hotel, comemos pretzels com chocolate quente e compramos alguns presentes para nossos familiares.
Nuri não conseguiu sair do trabalho para nos encontrar antes de irmos embora, então, decidimos fazer uma chamada de vídeo para agradecer a hospitalidade e carinho que ele e sua mãe nos deram durante os dias que estivemos por lá.

Pegamos a estrada antes do almoço na intenção de chegarmos em casa antes do anoitecer. Durante grande parte da viagem, Pete e eu ficamos em silêncio ouvindo as músicas que tocavam na rádio. O clima entre nós estava tenso novamente, mas eu conseguia sentir meu namorado bem mais preocupado e chateado do que da última vez.
Eu tinha quebrado minha promessa e feito algo estupido, mas não conseguia me desculpar por tentar salvar a vida dele.

— Estamos chegando — comentei abaixando o volume do rádio.

Pete balançou a cabeça positivamente em resposta.

— Queria ter o poder de voltar no tempo para passar todos estes dias com você novamente, Pete — falei tentando parecer fofo.

Ele sorriu, mas logo voltou a ficar sério e a aumentar o volume do rádio.

Eu não o culpava por estar chateado comigo.
Eu nem estava em posição de exigir qualquer coisa dele.

Pete estacionou o carro na frente da minha casa pouco depois do anoitecer. Eu queria ter um tempo para conversar com ele e resolver tudo antes que ele fosse embora, mas meus pais estavam esperando ansiosamente minha chegada na porta da frente de casa.

— Está entregue, Klay — disse Pete desligando o carro e tirando o cinto de segurança. 

— Pete, espera! — exclamei segurando a mão dele.

— Seus pais estão te esperando — disse ele abaixando o vidro do carro propositalmente. 

— Eu quero resolver as coisas com você primeiro, amor — falei já chateado.

Pete suspirou.

— Conversamos mais amanhã, tudo bem? — propôs ele.

— Eu quero conversar com você agora, Pete — insisti.

Naquele momento, meus pais começaram a andar em direção ao carro do Pete sorrindo e acenando. Apesar de nada mais me importar, eu não queria discutir minha sexualidade com eles naquele momento.
Eu só queria resolver tudo com meu namorado.

— Marcamos alguma coisa amanhã, okay? — propôs ele abrindo a porta, saindo do carro e indo até o porta malas pegar minhas coisas.

Tive que sair do carro, estalar alguns ossos e forçar um sorriso para meus pais.

— O que aconteceu na sua mão? — questionou meu pai preocupado.

— É só uma luxação — respondi retribuindo o abraço dele.

— Como você fez isso, filho? — perguntou minha mãe.

— Eu caí — respondi balançando os ombros.

Demorou uns segundos até eles perceberem que Pete era o motorista daquele carro.

— Pete?! — questionou meu pai surpreso. — O que faz aqui?

— Ele se ofereceu para me buscar no aeroporto, pai — menti.

— Foi um prazer, Sr. Nivans — disse Pete entregando minha mala para ele.

— Se soubéssemos que você não viria de Uber como nos falou mais cedo, seu pai teria ido te buscar no aeroporto e você não precisaria incomodar seu amigo — falou minha mãe.

— Eu estava perto do aeroporto de qualquer forma — mentiu Pete.

Meus pais se olharam por um momento.
Eles não pareciam convencidos.

— Muito obrigado, Pete! — exclamou meu pai estendendo a mão para cumprimentá-lo.

— Não quer ficar para o jantar? — propôs minha mãe.

— Não quero incomodar, Sra. Nivans — disse Pete encabulado.

— Não será um incomodo, rapaz — insistiu meu pai.

— É, Pete! — exclamei me aproveitando da situação. — Por que você não fica para o jantar? Será uma grande desfeita conosco se você não aceitar.

Pete franziu o cenho me encarando.

— Eu fiz o prato favorito do Klay — disse minha mãe.

— E eu fiz a sobremesa — acrescentou meu pai.

— Deve estar delicioso, mas minha mãe e meus irmãos estão me esperando — disse Pete educadamente. — Tudo bem se ficar para uma próxima vez?

— Sem problema! — concordou meu pai. — Está prometido para uma próxima vez então.

Depois de se despedirem do Pete, meus pais voltaram para casa levando minha mala. Chateado, permaneci ao lado do carro dele com os braços cruzados e tentando de todas as formas transparecer minha inquietação.
Eu não queria me despedir brigado com ele.

— Eu já vou, Klay — disse Pete cabisbaixo.

— Tem certeza que vai embora brigado comigo? — questionei.

— Eu não estou brigado com você — respondeu ele com um meio sorriso.

Entortei a boca por não acreditar naquilo.

— Você mal consegue me olhar e está todo estranho comigo — resmunguei.

— Me desculpa — murmurou ele colocando uma das mãos na cabeça. — Acho que ainda estou transtornado por achar que te perdi naquela passarela.

Pete fez uma expressão de dor enquanto massageava a cabeça. Ele piscou algumas vezes e pareceu um pouco tonto quando se apoiou na lateral do carro.

— Pete, o que houve?! — perguntei ajudando-o a se segurar.

— Acho que dirigi demais — respondeu ele voltando a sorrir. — Sem falar em todo o estresse, preocupação e a morte querendo me matar de todas as formas possíveis.

— Você bateu a cabeça. — O lembrei. — É melhor irmos ao médico.

— É normal depois de tantas horas na estrada as pessoas ficarem tontas quando se levantam, Klay — disse Pete colocando a mão em meu rosto. — Sem falar que eu estou faminto.

Senti meu coração apertar.

— Tem certeza que não quer entrar e jantar com a gente? — insisti no convite. — Você não pode dirigir tonto, com fome...

— Estou com saudade da minha casa, da minha mãe e dos meus irmãos — disse ele se aproximando para me abraçar. — Não se preocupe, pois eu vou ficar bem.

— Tem certeza? — perguntei aflito.

— Sim, claro! — Ele confirmou. — Ambos estamos cansados, afinal, passamos mais de cinco horas sentados neste carro.

Assenti, mas não deixei de ficar preocupado. Pete estava pálido, passava a mão na cabeça como se estivesse com dor e, além de triste, ele estava visivelmente cansado.
Talvez fosse pela longa viagem, horas sentado e falta de alimento, mas isso não diminuía minhas paranoias.

— Me liga assim que chegar? — pedi assim que nossos corpos se separaram.

— Ligo sim, amor — respondeu ele com aquele belo e generoso sorriso.

Pete deu a volta, entrou no carro e acenou antes de dar a partida. Fui para a calçada, acenei em resposta e esperei até ele virar a esquina.

Apesar da preocupação, eu sentia que ele ia ficar bem.

Eu não tinha notado o quanto senti falta de casa até entrar e me juntar a meus pais e meu irmão mais novo na cozinha. Tudo estava exatamente como era antes de eu viajar.
Aquele cheiro delicioso da comida especial que minha mãe fez para mim fez meu estômago roncar.

— Eu não sou mais criança — resmungou Shawn sentando à mesa.

— É criança o bastante para não ir sozinho em um evento desses, filho — respondeu minha mãe começando a servir os pratos.

— Claro que você é criança, Shawn — retrucou meu pai. — Esses eventos não permitem que você entre desacompanhado e sua mãe e eu temos que trabalhar.

— Do que estão falando? — perguntei cruzando a cozinha e sentando no meu lugar de sempre à mesa.

Como sempre, Shawn estava de mal humor, meu pai estava com a sobrancelha arqueada pronto para dar ordens e minha mãe estava serena e despreocupada servindo as pessoas que ela mais amava no mundo.

— Seu irmão quer ir em um evento de games e tecnologia — respondeu meu pai. —, mas ele quer ir na sexta-feira e justamente no horário que sua mãe e eu temos que trabalhar.

— Já falamos que no sábado vamos leva-lo — acrescentou minha mãe.

— É que meu streamer favorito só estará lá na sexta-feira, mãe! — exclamou Shawn parecendo revoltado. — Ele não estará lá no sábado.

— Que troço é esse de streamer? — questionou meu pai. — Esse menino está ficando muito na frente do computador.

Não resisti a vontade de sorrir.
Há muito tempo eu não sorria à mesa conversando com minha família.

— Streamer é uma celebridade da internet, pai — respondi me servindo com um pouco de suco.

— Celebridade? — indagou ele. — No meu tempo, Madonna era uma celebridade.

— Ainda é — murmurei.

— Um de vocês não poderia faltar no trabalho para me levar? — insistiu Shawn. — O Matt só vai atender os fãs na sexta-feira.

— Já falamos que não, Shawn! — trovejou meu pai. — Não seja teimoso!

Pigarreei depois de beber alguns goles do meu suco.

— Que streamer é, Shawn? — perguntei.

— Matt Hale — respondeu ele decepcionado. — Ele vem para o evento de games aqui da cidade, mas só estará na sexta-feira.

— Eu vou com você. — Me prontifiquei.

Shawn se animou por um segundo, mas imediatamente depois olhou para nossos pais como se estivesse esperando uma reação negativa.

— Tem certeza, Klay? — perguntou meu pai.

— Claro! — confirmei.

— Então vamos comprar dois ingressos para sexta-feira — disse minha mãe. —, mas vocês têm que prometer que vão tomar cuidado.

Shawn levantou os braços em comemoração, meu pai balançou a cabeça esboçando um pequeno sorriso e minha mãe terminou de colocar todas as travessas de vidro com nosso jantar à mesa.

Manhattan é maravilhosa, mas era bom estar de volta.

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