35 - Altercação

— Não posso deixar minha mãe e meus irmãos despreparados, amor — disse Pete insistindo em uma aproximação.

— Eles não precisam se preparar, pois nada vai acontecer com você! — exclamei ainda irritado.

— Se não acontecer comigo, vai acontecer com você e eu não vou permitir isso — falou Pete adotando uma postura mais firme. — Eu não vou deixar você morrer no meu lugar, Klay!

Antes, eu achava que tudo era uma invenção da Theodora para me impedir de mudar o destino do Pete, mas agora, eu não tinha mais argumentos.

— Estou disposto a isso, Pete — falei francamente.

— Não! — exclamou ele irritado. — Isso nunca vai acontecer, Klay!

— Pete, ninguém toma as decisões por mim — resmunguei descruzando os braços. — A escolha é minha, okay?! É minha escolha!

— Eu não vou conseguir viver sabendo que você se matou por minha causa — disse Pete ainda mais irritado. — E pelo que sabemos, depois que você morrer, não haverá como eu saber quando um novo acidente vai acontecer e me matar! Eu vou acabar morrendo e você terá se sacrificado em vão.

— Não sabemos disso! — Quase gritei.

— Você quer mesmo arriscar?! — retrucou Pete no mesmo tom.

Ele estava certo. O fato de eu morrer sem saber se isso ia de fato salva-lo também me preocupava. Se isso acontecesse, meu sacrifício seria em vão e Pete estaria desprotegido.

— Eu devia ter contado sobre o apartamento e o emprego que meu primo está ajudando a arrumar para a minha mãe — disse Pete mais tranquilo. —, mas eu sei como isso te chateia e não queria que essa discussão acontecesse, amor.

— E a solução foi esconder de mim? — questionei. — Você está agindo como se fosse morrer a qualquer momento, Pete.

— Mas eu posso morrer a qualquer momento, Klay — disse ele tranquilamente. — Se você quiser me culpar por ser cuidadoso e pensar em uma alternativa segura para a minha família, tudo bem! Eu aceito seu julgamento.

Eu conseguia entender, mas era difícil pensar naquilo. Como eu deveria reagir a planos feitos em cima da possível morte dele?

— Você está certo, Pete — falei enxugando aquelas malditas lágrimas. — Me desculpa. Acho que me excedi um pouco.

— Você não precisa se desculpar, amor — disse ele me abraçando. — Eu que devo me desculpar por te dar tanto trabalho. Eu que tenho que me desculpar por ter bagunçado sua vida.

Quase o soquei depois daquela frase.

— Você não bagunçou nada, Pete — pontuei.

— De qualquer forma, temos que resolver isso — falou ele seriamente.

Pete se afastou um pouco, segurou meus braços e me olhou diretamente. Ele não estava brincando, sorrindo ou sendo gentil como de costume.

— Você não vai morrer para me salvar, Klay.

— Pete...

— Eu invadi sua vida e virei ela do avesso.

— Isso não é verdade.

Pete permaneceu sério.
Eu nunca o tinha visto daquela forma.

— Se você insistir em querer morrer para me salvar, juro que desapareço e que você nunca mais vai me ver.

— Pete, você não está falando sério, né? Isso não vai acontec...

— Nunca falei tão sério em toda a minha vida, Klay!

Pete soltou meus braços, mas ainda me olhava fixamente. Partiu meu coração ver uma lágrima descer por seu rosto.

— Você não faz ideia do quão feliz eu fico em saber que você me ama ao ponto de arriscar sua vida para salvar a minha. Justamente por te amar nesta mesma intensidade, eu não posso permitir que você se sacrifique por mim.

— Então você entende, Pete. Entende que vou fazer tudo por você.

— Entendo, mas não é justo. É o meu tempo que acabou aqui na terra, não o seu. Se você não tivesse me parado naquela avenida, nunca teríamos nos conhecido e sua vida seguiria normalmente.

Ele não ia conseguir me convencer, mas se eu não cedesse, ficaríamos discutindo a noite toda e nunca chegaríamos a um acordo. Eu o entendia, mas também não achava justo um rapaz jovem, maravilhoso, cheio de vida e responsabilidades perecer.
Não era justo.

— Vou apoiar toda e qualquer decisão que você tomar — falei depois de respirar fundo para me acalmar. —, mas você tem que entender que eu vou continuar fazendo de tudo para te manter seguro.

— Klay, por favor... — Ele tentou falar.

— Não, Pete! — exclamei para interrompe-lo. — Enquanto meus sonhos, premonições ou seja lá qual for o dom que eu tenha funcionar, vou continuar te ajudando.

Pete também respirou fundo e balançou a cabeça concordando mesmo com uma clara insatisfação.

— Mas se você correr qualquer tipo de perigo...

— Não vou, Pete!

— Klay, quando você tem visões, sua saúde fica debilitada.

— Não é por causa das visões, mas não se preocupe, pois não vai mais acontecer. Talvez, haja uma solução para isso.

Tive que explicar para ele o que de fato me fazia ter reações físicas cada vez que eu o salvava de algum acidente. Pete e eu concordamos que tentaríamos de tudo para eu não me envolver tão diretamente nestas ocasiões. Combinamos que se houvesse oportunidade, eu daria detalhes do que ia acontecer e que ele pediria ajuda para alguém próximo se fosse necessário.
Claro que não firmei aquele compromisso seriamente. Eu apenas disse o que ele queria ouvir para tranquiliza-lo. Era óbvio que eu me envolveria diretamente para salva-lo sempre que fosse necessário. Eu jamais o deixaria sozinho ou sendo ajudado por um estranho, pois isso poderia custar a vida dele.

A dor e o cansaço físico não me assustavam mais. Eu estava disposto a tudo para prologar a vida do Pete ao máximo.


O clima tenso que ficou entre Pete e eu na discussão que tivemos no Rockefeller Center ainda era sentido na manhã seguinte. Acordei e levantei bem cedo, fui para a escrivaninha e comecei a ler o livro "A realidade além da matéria" que eu tinha comprado. Pete acordou meia hora mais tarde, passou uns vinte minutos mexendo no celular e depois foi ao banheiro sem dizer uma única palavra.

— Bom dia pra você também — murmurei baixinho para ele não escutar.

O livro "A realidade além da matéria" falava sobre vida após a morte e uma série de outros assuntos relacionados ao tema. De começo, achei tudo aquilo uma grande bobagem cheia de misticismo, religiosidade e fantasia, mas conforme eu avançava as páginas, percebi que havia muito mais do que lendas e depoimentos de pessoas que tiveram experiências de quase-morte.

— O que você está lendo? — perguntou Pete saindo do banheiro com uma toalha amarrada na cintura.

— Bom dia, Pete! — exclamei irônica e rispidamente. — Vai tomar banho? Pretende sair hoje?

— Está irritado? — questionou ele pouco antes do meu celular começar a vibrar em cima do criado mudo.

Pete pegou meu celular, cruzou o espaço entre o criado mudo e a escrivaninha e sentou na cadeira a meu lado.

— Obrigado — murmurei grosseiramente.

Pete sorriu.

— Você fica lindo quando está irritado, Klay — disse ele me entregando o celular.

— Não estou irritado — falei engrossando a voz sem perceber.

— Vamos conversar sobre isso? — perguntou ele com o olhar preocupado.

Quando vi que a ligação era do meu pai, deslizei imediatamente o dedo na tela para atendê-lo. Eu não estava pronto para conversar com Pete sobre a noite passada, pois eu ainda estava tentando digerir toda aquela história do apartamento, do emprego para a mãe dele e do fato de ele estar se preparando para morrer.

Durante toda manhã, Pete ficou na cama assistindo TV enquanto eu lia aquele livro entediante sobre vida após a morte. Estava claro que estávamos chateados um com o outro, mas Pete parecia bem mais interessado em conversar e tentar resolver as coisas.
Eu, por outro lado, me mantive firme com uma falsa pose de desinteresse.

— Vai continuar emburrado comigo? — Ele perguntou enquanto trocava de canal.

Não respondi e suspirei profundamente.
Eu queria que ele soubesse o quanto eu estava chateado, mesmo que isso me fizesse parecer imaturo.

— Está tudo bem com seus pais e seu irmão? — questionou Pete insistindo em falar comigo. — Você não me falou como foi a ligação do seu pai.

— Foi bem — resmunguei.

Pete suspirou e desligou a TV.

— Você vai no jantar na casa do meu primo, né? — perguntou Pete levantando da cama e se aproximando da escrivaninha. — Ele vai ficar chateado se você não for, Klay.

Balancei a cabeça positivamente, mas não desviei o olhar do livro nem por um segundo.

— Se você está tão chateado comigo, por que continua lendo esse livro idiota e tentando me salvar? — perguntou ele parecendo impaciente. — Se você não quer mais saber de mim, por que insiste nisso? Por que não me deixa morrer de uma vez?

Senti toda a raiva acumulada explodir dentro de mim em apenas um segundo. Eu estava pronto para levantar, gritar e esbofeteá-lo.

Levantei e me virei para confronta-lo, mas não percebi que Pete estava bem atrás de mim já esperando por aquela reação.

— É brincadeira, amor! — exclamou ele descontraidamente enquanto envolvia os braços em minha cintura e me prensava contra a escrivaninha. — Eu estou brincando com você, okay? Só queria te provocar para você me dar atenção.

— Não diga esses absurdos nem de brincadeira, por favor! — exclamei ainda irritado, porém corado por aquela investida repentina. — Eu não vou desistir de voc...

Pete me beijou antes que eu continuasse a frase.

— Não vem me beijar agora, pois eu estou muito bravo e...

Pete me beijou mais uma vez interrompendo o que eu ia dizer.

— Você é um idiota se pensa que eu vou ceder aos seus beij...

Ele me beijou uma terceira vez, mas agora de forma mais carinhosa.

— Está passando a raiva? — perguntou ele deslizando a mão sutilmente por baixo da minha bermuda.

— Quase — murmurei já excitado.

— Vou te acalmar e aliviar sua tensão, amor — disse ele puxando minhas pernas para envolve-lo, me pegando no colo e me levando para a cama.

Pete havia ganhado daquela vez, mas eu não ia me dar por vencido.

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