27 - Tornada
Na manhã seguinte, acordei com o barulho de panelas, pratos e passos vindos da cozinha. Eu estava deitado sem roupa e de bruços no sofá da sala. Minha camiseta, bermuda e cueca estavam no chão ao lado da lareira junto com as roupas do Pete...
E ainda era possível sentir os efeitos da noite anterior em meu corpo.
— Pete?! — chamei antes de bocejar e tatear o sofá atrás do meu celular.
Caí do sofá, engatinhei até uma das poltronas de madeira para pegar o celular do Pete e liguei a tela para ver as horas.
— Bom dia, dorminhoco! — exclamou Pete entrando na sala com a bandeja de café da manhã da minha avó. — Tomei a liberdade de preparar nosso café.
— São quase dez horas, Pete — resmunguei antes de outro longo bocejo. — Por que não me acordou?
— Deixei você dormir para recuperar as energias gastas ontem à noite — disse Pete com aquele sorriso sacana que o vi fazer noite passada. — Você estava tão animado e excitado.
Pete estava apenas de cueca a meu lado segurando a bandeja enquanto eu estava nu e de quatro me apoiando em uma das poltronas. Quando me dei conta daquela posição vergonhosa, sentei rapidamente no chão e puxei a camiseta dele para cobrir minhas partes intimas.
— Eu tinha que acordar mais cedo para resolver o problema da luz, continuar a pesquisa nos livros da minha avó e...
— Eu resolvi o problema com a caixa de energia enquanto você dormia, Klay.
— Pete, você não devia ter se arriscado.
— Eu usei luvas e ferramentas com cabos emborrachados que achei em uma das caixas na garagem, amor.
Pete sentou a meu lado e colocou a bandeja de café a nossa frente. Ele tinha feito waffles com chantilly e pedaços de maçã, torradas com geleia de morango e suco de laranja natural.
Foi muito fofo e especial a forma que ele me serviu tudo aquilo.
— Da próxima vez, espera eu acordar para fazer este tipo de coisa?
— Que tipo de coisa? Consertar a energia ou fazer o café da manhã?
Pete pegou um pedaço do waffle, o guiou até próximo a minha boca e esperou que eu a abrisse para come-lo. Eu estava extremamente envergonhado pela noite passada, pois nunca imaginei que seria capaz de provoca-lo e seduzi-lo ao ponto de termos nossa primeira vez no chão da sala da casa da minha falecida avó.
Eu temia saber o que Pete pensava sobre mim depois de tudo aquilo.
— As duas coisas na verdade — falei entredentes antes de abrir a boca e morder um pedaço do waffle. — É melhor você esperar eu acordar para fazer qualquer coisa, Pete.
— Eu não sabia que você era tão controlador e abusivo, Klay — disse Pete ficando sério e franzindo o cenho.
Respirei profundamente.
— Pete, me desculpa, mas...
— Eu estou brincando com você, amor!
— Eu sei que é chato, mas é temporário.
Pete segurou meu queixo, virou meu rosto na direção dele e me beijou.
— É brincadeira, Klay — disse ele ainda com os lábios próximos aos meus. — Eu sei que você só está preocupado com a minha segurança.
— E eu sei o quanto deve ser angustiante e apavorante toda essa história — acrescentei apoiando minha cabeça sobre a dele. — Fico feliz e surpreso por você estar encarando bem tudo isso.
Pete me abraçou e encerramos aquele assunto para comermos aquele delicioso café da manhã preparado por ele. Enquanto comíamos, estranhei e não consegui parar de pensar em como ele estava lidando bem com aquela história. Se fosse comigo, eu estaria apavorado e desconfiando de minha própria sombra. Eu não sairia de casa, não faria nada arriscado e estaria desesperado por soluções e respostas.
Mas Pete estava bem e feliz.
Ele sorria a todo instante, me tratava daquele jeito fofo e especial de sempre e parecia não ter medo de morrer a qualquer minuto por causas não naturais. Mesmo eu reforçando o cuidado e alertando Pete do perigo, ele parecia não se importar com nada além de estar comigo, me abraçar, me beijar e me agradar.
Aquilo partia meu coração ainda mais.
Como Pete conseguia manter a calma? Como ele conseguia continuar sendo um garoto tão incrível diante de uma situação complicada daquela?
***
Eram quase cinco e meia da tarde quando minha mãe ligou para saber se estava tudo bem e se eu tinha conseguido solucionar o problema da eletricidade. Levei quase dez minutos tentando tranquiliza-la e convencê-la de que não era necessário nem ela e nem meu pai se ausentarem de seus empregos para me ajudarem com coisas tão simples. Eles não sabiam que Pete estava comigo, então tive que inventar que chamei um eletricista via aplicativo de celular.
E eu não fazia ideia se realmente existia um aplicativo para aquilo.
Eu tinha passado a manhã e tarde toda lendo os livros sobre sonhos e adivinhações que minha avó tinha guardado. Não encontrei nada de importante, mas aprendi muitas coisas sobre misticismo, adivinhações em cartas de tarô, interpretações de sonhos e astrologia.
Muitas informações, mas nada de importante que eu pudesse usar.
Pete me ajudou procurando livros novos nas caixas que minha família e eu tínhamos guardado e nos outros cômodos da casa. Ele separou mais de dez livros que tivessem alguma relação com sonhos ou adivinhações.
Ficaríamos na casa da minha avó só por três dias, então não tínhamos tempo.
— Você não quer fazer uma pausa, Klay? — perguntou Pete depois de colocar mais um livro sobre adivinhações na mesa de centro da sala.
— Acho que não, Pete — murmurei depois de soltar um longo bocejo. — Até que este livro está bem divertido.
Pete deu a volta no sofá para ficar atrás de mim, pôs as mãos em meus ombros e começou a massageá-los.
— Que tal um banho? — Ele sugeriu. — Vou terminar de arrumar algumas coisas na cozinha e podemos subir para tomar banho juntos.
— É uma boa ideia — falei enquanto umedecia a ponta do dedo com a língua para avançar a página do livro em meu colo.
Pete aproximou o rosto dele do meu para beijar meu rosto.
— Ainda não comentamos sobre o que aconteceu ontem. — Ele sussurrou.
Senti um frio na barriga e um arrepio subir por minhas costas.
— Precisamos comentar? — murmurei já envergonhado.
— Eu queria saber se você está bem e... — Pete fez uma pausa, encostou a cabeça dele na minha e suspirou antes de continuar. — Se gostou tanto quanto eu.
Eu ainda não tinha superado o fato de que eu tinha provocado tudo aquilo. Deixei desejos e prazeres me dominarem e seduzi ele como se eu já tivesse feito algo parecido antes.
— Eu não sei o que aconteceu comigo ontem — confessei ainda envergonhado. — Talvez você não acredite em mim por tudo que fiz, mas foi minha primeira vez. Eu nunca tinha transado com ninguém.
— Por que você acha que eu não acreditaria em você? — questionou Pete pulando as costas do sofá para sentar a meu lado.
Não consegui encontrar uma resposta para aquela pergunta. Balancei os ombros e escondi o rosto com as mãos.
— Você se arrepende? — Pete perguntou.
— Não — falei tirando a mão do rosto e olhando diretamente para ele. — Só tenho medo de você não ter gostado por eu não ter feito direito.
Pete tirou o livro que eu estava lendo do meu colo, o jogou no chão e debruçou o corpo dele sobre o meu para deitarmos no sofá.
— A noite anterior com você foi um dos melhores momentos da minha vida, Klay — falou Pete me apertando contra o corpo dele. — Eu que fiquei com medo de você não ter gostado de mim, do meu corpo ou do meu...
— Para com isso! — exclamei sentindo meu rosto aquecer de vergonha. — Você é perfeito em todos os sentidos. A noite anterior foi a melhor da minha vida, Pete.
E mais uma vez aquele medo de perdê-lo começou a dominar meu corpo e meus pensamentos. Ter consumado nosso amor e ter passado aquela noite maravilhosa com ele só me deu mais medo de não o ter a meu lado no dia seguinte.
— Doeu muito? — perguntou Pete de forma provocativa antes de morder minha orelha e começar a roçar o corpo dele contra o meu.
— Não seja bobo, okay? — resmunguei voltando a esconder o rosto.
— Quero saber se há alguma chance de repetirmos esta noite — disse ele.
— Ainda bem que podemos trocar caso esteja doendo, né? — perguntei sugestivamente. — Desta forma, eu que vou querer saber se está doendo ou não, amorzão.
Pete começou a rir e a distribuir beijos por meu rosto e pescoço. Eu nunca o tinha visto tão feliz, brincalhão e carinhoso. Aqueles momentos também me deixavam feliz, mas me destruíam por dentro ao mesmo tempo. Era uma sensação sufocante de felicidade misturada com o medo de que tudo poderia acabar de um jeito trágico e repentino...
Era agoniante.
– 11 –
Acordei assustado com o barulho de um estalo. Eu havia cochilado enquanto lia um dos livros de adivinhação e esquecido completamente o banho que Pete e eu planejamos tomar depois que ele terminasse de arrumar a cozinha.
Eu estava estranhamente zonzo e com o corpo cansado.
— Pete?! — exclamei em direção a cozinha.
Peguei meu celular em cima da mesa de centro para ver as horas.
Eram exatamente sete e meia da noite.
— Acabei cochilando enquanto lia, me desculpa! — exclamei antes de levantar e me espreguiçar.
Pete não respondeu.
Alguma coisa estava estranha, mas eu não conseguia descobrir o que era. Algo de familiar pairava no ar e eu tinha a impressão de estar em um lugar diferente. Pete não tinha arrumado a sala e tudo estava exatamente como deixamos antes de eu cochilar.
— Estranho — murmurei caminhando descalço até a cozinha.
A cozinha estava limpa, tudo estava no lugar e o jantar que Pete tinha feito já estava na mesa pronto para ser servido. Ele tinha preparado purê de batata, milho e filé de frango empanado.
O cheiro estava incrível, mas algo estava diferente...
— Pete?! — chamei mais uma vez.
De repente, uma das janelas da cozinha fechou rapidamente provocando um barulho de impacto muito alto que ecoou naquele espaço. Dei um pulo de susto virando meu corpo automaticamente em direção a ela...
— Pete, acho que teremos outra tempestade esta noite! — falei mais alto para que ele pudesse me ouvir de qualquer cômodo da casa. — Está ventando muito lá fora!
Fechei e travei as janelas da cozinha e da sala antes de ouvir o barulho do chuveiro no andar de cima. Subi as escadas soltando outro bocejo e levantando os braços para me espreguiçar.
Aquela sensação esquisita continuava...
— Por que não me acordou para tomarmos banho juntos?! — perguntei enquanto passava pelos quartos. — Você devia ter me chamado, Pete!
Quando empurrei a porta entreaberta para entrar no banheiro, não encontrei Pete no box do chuveiro. Ele tinha saído do banho e esquecido de fechar o registro. As roupas dele estavam jogadas no tapete próximo a privada e o chão estava molhado como se ele tivesse saído sem se secar.
— Onde ele se meteu? — murmurei depois de fechar o registro.
De repente, ouvi Pete gritar no andar inferior. Junto aos gritos, aquele som agudo e irritante que há muito tempo eu não ouvia começou a ecoar em meu ouvido.
— Isto é um sonho?! — questionei finalmente percebendo a diferença da atmosfera a minha volta. — Como não percebi isso antes?
Corri para o andar inferior tropeçando e pulando alguns degraus de escada. Avancei o mais rápido que pude em direção à porta da frente já que os gritos vinham da varanda.
Conforme eu me aproximava, era possível ouvir gemidos baixos de dor.
— Pete?! — O chamei sentindo minha mão tremer de medo enquanto ia em direção a maçaneta.
— K... Klay? — respondeu ele ofegante do outro lado da porta.
Apavorado, virei a maçaneta com cuidado e abri a porta da frente lentamente. Como eu temia, o pior havia acontecido...
Pete estava em pé, com uma toalha de banho enrolada na cintura, sangue saindo por sua boca e com uma barra de ferro fina atravessada quase que verticalmente ao lado direito do peito.
Ele estava sangrando muito.
— Pete?! — murmurei começando a chorar. — O que aconteceu?
— K... Klay — sussurrou ele com dificuldade enquanto cambaleava para dentro. — Eu... Eu te... Eu te a...
Pete perdeu o equilíbrio e caiu no chão a minha frente. Ele ainda ofegava e tentava falar, mas parecia estar com dificuldade para respirar.
— Pete, você precisa dizer o que aconteceu para eu te salvar! — exclamei ajoelhando ao lado dele. — Pete, por favor, fala comigo!
Pete não conseguiu responder. O corpo dele dava pequenos espasmos enquanto os gemidos ficavam cada segundo mais baixos.
Eu vi nitidamente os olhos do Pete mais uma vez perderem o brilho da vida.
— Por favor, não — falei entre soluços. — De novo não, Pete!
Enquanto eu chorava ao lado do corpo já sem vida do Pete, senti uma estranha e nova presença próximo a mim. A energia emanada por ela era totalmente contraria a da presença gelada e apavorante que eu costumava sentir...
Aquela presença era terna, quente e protetora.
Olhei em volta atrás da origem daquela presença, mas não havia mais ninguém na casa.
— Por que estou demorando para acordar? — resmunguei fechando os olhos e me concentrando naquele pesadelo. — Eu preciso acordar agora!
Subitamente e como se meu desejo tivesse sido atendido, senti meu corpo ser arrastado a uma velocidade insana do lugar onde eu estava, mas ao mesmo tempo, eu tinha a impressão de ainda estar parado ao lado do corpo do Pete. Tudo a minha volta girava e o zumbido em meu ouvido se tornava cada vez mais incomodo.
A presença quente e terna cessou e eu não conseguia sentir mais nada.
De repente, um estalo...
(...)
Pulei do sofá assim que abri os olhos. Corri para a porta da frente e sai para a varanda atrás de qualquer sinal do Pete. Eu não fazia ideia do que tinha causado a morte dele em meu sonho e precisava salva-lo a qualquer custo.
— Pete! — gritei. — Pete, onde você está?
— Estou aqui, Klay! — respondeu ele próximo a varanda com a mesma toalha de banho enrolada na cintura. — Acho que o aquecedor está com defeito. Eu ouvi uns barulhos estranhos e resolvi olhar aqui fora para...
Naquele momento, o vento forte balançou parte da telha da sacada e arrastou uma grande lona azul que se fechou e ficou com as quatro extremidades presas na parte mais alta da calha. Em cima das telhas e próximo a lona, consegui ver a ponta de algumas barras finas e pontiagudas de ferro que meu pai esqueceu de guardar na garagem em uma de nossas visitas.
— É isso! — exclamei correndo em direção ao Pete. — CUIDADO!
Abruptamente, o vento soprou a lona com tanta força que fez uma parte da calha soltar e as barras de ferro que estavam presas a ela caírem. Pete estava exatamente no lugar onde elas caíram, mas no último instante, consegui pular na direção dele e empurra-lo evitando que o pior acontecesse.
— Klay?! — exclamou Pete caindo no chão. — Klay?! Você está bem?!
Ajoelhei próximo a sacada e comecei a vomitar. Meu estômago tinha embrulhado do nada e tudo a minha volta começou a girar. Eu me sentia fraco, meu corpo estava dolorido e eu temia perder os sentidos a qualquer momento...
Mas eu tinha que ficar firme.
Algo dentro de mim dizia que Pete ainda não estava totalmente seguro.
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