24 - Alfa

Os dias passavam e minha cabeça não parava nem por um segundo de se programar e criar soluções para os mais variados tipos de problemas e imprevistos que poderiam acontecer em minha viagem com Pete. Apesar de tudo estar bem e nada de ruim ter acontecido com ele durante aqueles dias, eu estava sempre alerta e dormindo mais de uma vez por dia por precaução.

Minha relação com meus pais ainda estava estremecida. Os jantares eram estranhos e meu pai não puxava assunto comigo como antes. Tanto ele quanto minha mãe tinham esperança de que eu me arrependeria por ter largado a faculdade de Direito.
Na noite anterior a viagem, quando eu já devia estar dormindo, ouvi uma conversa dos dois na cozinha e eles tinham a mais absoluta certeza de que depois da viagem tudo voltaria ao normal.

Shawn não voltou a comentar sobre o que descobriu na noite que Pete dormiu em nossa casa. Ele sabia do meu segredo, mas como sempre, não pareceu se importar. De qualquer forma, pode ser coisa da minha cabeça, mas senti que Shawn se aproximou um pouco mais de mim para conversas aleatórias, dizer como foi o dia dele na escola e quantos níveis de experiencia subiu no joguinho online que ele tanto gosta.
Apesar de tudo isso, falta muito para voltarmos a ser os grandes amigos que éramos.

Um dia antes da viagem, fui até o campus matar a saudade do Tyler e da Sue. Eles estavam bem ocupados com trabalhos e novas matérias que cairiam nas próximas provas, então não os aluguei muito para não atrapalhar.
Entre as conversas e fofocas, descobri que Tyler estava saindo com uma garota mais velha de outro curso. Ele não quis comentar muito sobre isso, mas estava claro que era uma garota importante pela forma respeitosa que ele falava.
Não houve piadinhas sexuais sobre ela.

Sue continuava me tratando de forma especial e carinhosa. Eu não fazia ideia se ela ainda tinha esperança de ficar comigo ou se aquilo era só porque a gente era amigo.
Acredito mais na primeira opção, pois Sue não tratava Tyler do mesmo jeito.

Se eu fosse contar sobre minha sexualidade para mais alguém, essa pessoa com certeza seria a Sue. Eu sei que ela entenderia e me apoiaria.

Antes de deixar o prédio de dormitórios do campus, encontrei meu ex colega de turma Mike na portaria. Ele tinha chegado para o grupo de estudos com Tyler, Sue, Andie e Arth. Mike ficou surpreso quando me viu, abriu um largo sorriso e me deu um abraço apertado.

— Você faz falta no grupo, Nivans — falou ele. — Sue e você são os mais inteligentes e os que mais ajudam.

— Também sinto saudade de vocês, Mike — respondi antes de sentir meu celular vibrar em meu bolso.

Pete havia acabado de me enviar uma mensagem confirmando tudo para a nossa viagem no dia seguinte. Ele já tinha feito as malas além de ter vistoriado e abastecido o carro como sugeri. Até tentei insistir para que viajássemos de transporte público, pois seria bem mais seguro se Pete e eu estivéssemos na companhia de outras pessoas, mas ele insistiu em nos levar...

— Quando você voltará a estudar? — perguntou Mike também olhando no celular dele.

— Se tudo der certo, no próximo semestre — respondi digitando uma mensagem rápida para Pete.

— Boa sorte, Klay — disse Mike colocando a mão em meu ombro e chacoalhando de maneira amigável. — Se precisar de qualquer coisa, sabe onde nos encontrar.

— Vocês também! — exclamei enquanto Mike e eu nos afastávamos.

Antes de eu chegar à porta do prédio, recebi mais uma mensagem do Pete. Meu coração acelerou e meu corpo todo arrepiou com aquela frase:

"Queria estar aí com você. Te abraçando e te beijando".

Mesmo depois de eu ter contado toda a verdade para Pete e termos confessado nossos sentimentos um para o outro, nada mudou em nossa rotina. Ele continuava cuidando dos irmãos e não tinha tanto tempo para sair e ficarmos juntos. Eu não queria ir na casa dele atrapalhar, tanto porque cuidar de crianças não devia ser uma tarefa fácil.
Depois daquela noite em minha casa, Pete e eu tivemos apenas um encontro. Demos um selinho quando ele foi me buscar e outro quando nos despedimos.

"Só abraçando e beijando?" perguntei em resposta a mensagem dele.

"Entre outras coisas..." respondeu ele com o emoticon do macaquinho cobrindo a boca com as mãos.

Eu havia passado muito tempo pensando em como seria a viagem com Pete até a casa da minha avó e no que faríamos além de procurar respostas e soluções. Eram praticamente quatro dias inteiros que passaríamos sozinhos no mesmo espaço. Apesar de toda a preocupação, medo de perdê-lo e vontade de resolver as coisas, era impossível não desejar Pete de todas as formas humanamente possíveis. Era impossível não desejar aqueles lábios, aquele corpo perfeito...

Não sei se eu deveria me sentir culpado por estes desejos, pois enquanto Pete colocava a confiança e a vida dele em minhas mãos, eu estava pensando em ficar, beijar e ter momentos íntimos com ele.
Era egoísmo e babaquice da minha parte?

"Me desculpa por isso, Pete" falei em resposta a última mensagem dele.

"Pelo que?" questionou ele menos de um minuto depois.

"Fazer perguntas inapropriadas" respondi imediatamente.

Os três pontinhos que indicavam que Pete estava respondendo começaram a piscar. Aqueles segundos pareceram uma eternidade, pois em minha cabeça eu estava sendo assanhado demais e dizendo coisas inapropriadas para o momento.

"Quero fazer muitas coisas inapropriadas com você nos próximos dias, gatão" respondeu ele com um emoticon de diabinho.

Fechei os olhos, apertei o celular na mão e respirei fundo.

Eu tinha muitas coisas para resolver antes da viagem, então, eu não podia parar para pensar naquelas coisas naquele momento.

***

O dia amanheceu chuvoso e com aquele cheiro forte de asfalto molhado. Eu já tinha me despedido dos meus pais e do meu irmão noite passada, pois eles sabiam que eu viajaria antes do almoço e que não voltaríamos a nos ver naquele dia. Enquanto conversávamos no jantar, meu pai até propôs faltar no trabalho para me levar à rodoviária. Ele não fazia ideia que Pete ia comigo e por isso estava preocupado com o fato de eu nunca ter ido para a casa da minha avó sozinho antes. 
Não foi fácil convencê-lo de que não era necessário.

Enviei algumas mensagens para Pete, pois tínhamos marcado às dez e meia da manhã e ele estava quinze minutos atrasado. Pete não respondia minhas mensagens e nem aparecia online no aplicativo.
Aquilo me deixou ansioso e preocupado.

Minha mala estava ao lado da porta da frente e minha mochila já estava nas costas. Eu já tinha tomado café, escovado os dentes e arrumado o cabelo no lavabo mais de três vezes. De minuto em minuto, eu desbloqueava o celular com a digital e olhava o aplicativo de mensagens para ver se Pete tinha me respondido ou pelo menos ficado online, mas não...
Minha ansiedade só aumentava.

De repente, a campainha tocou.

Levantei com um pulo do braço do sofá, corri para a porta da frente e virei a maçaneta com tanta força para destranca-la que meus dedos estralaram. Meu coração acelerou, o peso gigantesco que parecia estar em minhas costas desapareceu e suspirei de alívio quando o vi.

Pete estava lá.
Lindo, sorridente e bem arrumado como sempre.

— Está atrasado! — exclamei.

— Minhas irmãs não pararam de chorar enquanto nos despedíamos — disse Pete olhando em volta e por cima do meu ombro.

— O que houve? — questionei também olhando em volta.

— Seus pais ou seu irmão estão em casa? — perguntou Pete.

Depois de minha resposta balançando a cabeça negativamente, Pete avançou três passos em minha direção, envolveu os braços em minha cintura e me beijou. Estremeci surpreso por um momento e notei que Pete percebeu, pois ele sorriu enquanto me beijava. Coloquei uma de minhas mãos na nuca dele e retribui aquele beijo da forma mais doce e carinhosa que pude.

— Que saudade de você, Klay — sussurrou ele ainda com o rosto colado ao meu.

— Duvido que tenha sentido mais que eu de você, Pete — falei antes de suspirar.

Pete voltou a me beijar, mas desta vez de uma forma mais profunda e intensa. Apesar de ainda não estar acostumado com aqueles momentos, tentei seguir o ritmo e retribuir na mesma intensidade.
Foi impossível conter a excitação com aquele beijo.

— Melhor a gente ir, Pete — sussurrei quando nossos lábios fizeram uma pausa.

— Tem certeza? — murmurou ele com um tom que eu nunca o tinha ouvido falar. — Minha vontade é de fechar essa porta, te levar para aquele sofá e fazer coisas inapropriadas.

Apertei os olhos e contive a vontade de rir contraindo meus lábios. Pete estava tão animado quanto eu e isso era perfeitamente notável por nossos corpos estarem colados um no outro. Eu tinha receio e vergonha de mover meu quadril e roçar nele...
Aquela sensação era gostosa e constrangedora ao mesmo tempo.

— Teremos tempo para isso, Pete — afirmei começando a me afastar.

— Posso morrer a qualquer momento — disse Pete balançando os ombros. —, então quero aproveitar o máximo de tempo que tenho com você.

Franzi a testa e respirei profundamente.

— Não fala isso, por favor! — resmunguei. — Estamos indo à casa da minha avó justamente para procurar respostas e resolver tudo isso.

— Eu sei, eu sei — falou Pete balançando a cabeça negativamente. — Me perdoa, Klay. Eu ainda estou confuso com toda esta história e não sei bem o que pensar.

Não imagino como era estar na pele do Pete e não o culpava por estar confuso. Na verdade, não sei como ele conseguia manter o sorriso e aquele jeito fofo e generoso mesmo sabendo do destino que o aguardava.

Às vezes, eu me questionava se Pete tinha acreditado mesmo em mim.

— Vamos resolver isso, Pete — falei seriamente afim de passar segurança a ele.

— De qualquer forma, tudo que mais desejo é passar estes dias com meu namorado e curtir muito nossa passagem por Nova Iorque.

— Seu namorado?

— Ninguém te avisou que você é meu namorado, Klay?

Cruzei os braços para não esconder o rosto com as mãos. Eu não queria parecer mais idiota do que eu já devia aparentar naquele momento.

— Então somos namorados? — questionei depois de finalmente conseguir responder.

— Alguma objeção? — questionou Pete voltando a se aproximar.

Não precisei responder com palavras, pois instintivamente meus braços envolveram o corpo dele e voltamos a nos beijar de maneira carinhosa e apaixonada.
Era incrível como os beijos do Pete eram viciantes.

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