23 - Entre Irmãos
— Tem certeza que isso não lhe causará problemas? — perguntou Pete preocupado com a pequena interferência que tivemos.
— Espero que não, mas não ligo se meus pais descobrirem — falei balançando os ombros. — Meu irmão Shawn é muito discreto e parece não se importar com nada além de subir de nível nos jogos online dele.
— Ele fez uma cara muito estranha quando nos viu, Klay — disse Pete coçando a nuca. — Parecia um pouco chocado ou assustado.
Era compreensível, afinal, descer do quarto à noite para beber um copo d'água na cozinha e encontrar seu irmão mais velho beijando outro rapaz deve ser algo chocante para um garoto na idade do Shawn. Eu não tinha certeza se ele contaria para nossos pais, mas eu não estava preocupado.
Pete era minha única preocupação e prioridade.
— Voltando ao assunto — falei antes de pigarrear. —, você precisa pedir para sua mãe entrar de férias o quanto antes, pois quanto mais cedo formos para a cidade onde fica a casa da minha avó, mais cedo resolveremos seu problema.
— E se não tiver solução, Klay? — questionou Pete adotando aquela mesma expressão séria de antes. — E se o que meu pai dizia for verdade e minha hora chegou ao fim.
Balancei a cabeça negativamente e escolhi bem as palavras para dar uma resposta para Pete. Eu odiaria ser rude com a memória do pai dele.
E era notável a saudade que Pete sentia do pai.
— Não é verdade, Pete — afirmei pegando a mão dele. — E se for, vou consertar!
— Eu acredito e confio em você, Klay — disse ele voltando a sorrir. —, mas não quero que você se machuque ou tenha problemas de saúde por minha causa.
Era um preço que eu estava disposto a pagar.
— Mas Pete... — Tentei argumentar.
— Me promete isso, Klay? — disse ele me interrompendo e colando a testa dele na minha carinhosamente. — Promete que vai se cuidar? Promete que não vai deixar esses sonhos e essa loucura toda afetar sua saúde?
— Eu não...
E naquele momento, mais uma interrupção.
— Klay, você e Pete ainda estão acordados? — perguntou meu pai enquanto descia as escadas. — Já passou da hora de dormir, não acham?
Pete e eu nos afastamos mais uma vez. Meu pai não tinha visto nem ouvido nada, pois felizmente ele não era nem um pouco sutil andando pela casa de madrugada. O som dos pés dele batendo nos degraus eram tão altos que aposto que até os vizinhos do outro lado da rua conseguiam escutar.
— Desci para beber um copo d'água, Sr. Nivans — mentiu Pete.
— Então vamos, pois vim fazer o mesmo — falou meu pai finalmente aparecendo, bocejando e levantando os braços para se espreguiçar.
Meu pai virou o corredor e foi direto para a cozinha. Pete deu alguns passos para segui-lo, mas no meio do caminho olhou para trás, abriu um sorriso mais contido e fofo e disse:
— Você é meu mundo agora, Klay.
O que senti em meu peito com aquelas palavras é impossível de descrever.
– 10 –
Mais uma vez no lago que fica perto da casa da minha falecida avó. O dia estava ensolarado e as flores estavam lindas mesmo não estando na primavera. Pete estava com a mesma bermuda e chinelos da última vez que sonhei com ele e aquele lugar.
Ele ainda olhava para aquela bela paisagem...
— Por que sempre sonho com você? — questionei intrigado.
— Porque você me acha lindo, fofo e uma série de outros adjetivos que não vou falar para não te constranger — respondeu ele se virando para ficar de frente para mim.
— Você não é real, Pete — repeti pela milésima vez.
— Claro que sou real, Klay — disse ele cruzando os braços. — Tão real que acabei de dizer que estou apaixonado por você.
Suspirei e fechei os olhos para tentar mudar de sonho, mas era impossível.
— Você é meu subconsciente querendo jogar coisas na minha cara que costumo evitar pensar.
— Por exemplo? ...
— Não vou entrar neste jogo.
— Claro, pois você sabe que vai perder.
Pete me olhou desafiadoramente e ergueu uma sobrancelha. Senti um arrepio que não sei descrever bem do que era.
— Por que você está aqui? — questionei querendo mudar de assunto.
— Você me trouxe, esqueceu? — respondeu ele virando para voltar a admirar a paisagem.
— Não é exatamente essa a minha dúvida — retruquei. — Quero saber o motivo de eu sonhar com você e o motivo dessas conversas.
O falso Pete não respondeu.
Claro que ele não ia responder o que eu queria saber. Não ter controle sobre ele ou sobre meus sonhos me irritava.
— Você não quer sonhar comigo?
— Eu não falei isso.
— Mas quer que eu desapareça?
— Não!
Pete olhou para trás por um breve momento. Sua expressão era feliz, seu sorriso era generoso e seus olhos brilhavam.
Mesmo sabendo que ele não era real, era impossível resistir...
— Cuidado com a cabeça — disse ele.
— Como assim? — questionei. — Você falou a mesma coisa no sonho passado.
— Respira, Klay — falou ele também repetindo o que havia dito anteriormente.
— É um aviso? O verdadeiro Pete tem que ter cuidado com a cabeça? — perguntei.
— Klay, eu não prometo que não vá doer, mas prometo segurar sua mão até o final — continuou ele repetindo as mesmas frases.
Era tudo muito confuso.
Se aquilo era um sinal, eu não estava conseguindo entendê-lo.
— O que isso significa?
— Você pediu que eu lhe mostrasse o futuro, não é?
— Sim, mas...
— Vamos nos divertir muito em Nova Iorque.
(...)
No dia seguinte, pouco depois de Pete e os irmãos dele irem embora de carro com a Sra. Praves, me tranquei no quarto e liguei o notebook para pesquisar sobre a cidade de Nova Iorque e lugares que eu poderia visitar com Pete. Eu tinha a intenção de viajar para lá com tudo solucionado. Minha fé nos dias que Pete e eu passaríamos na casa da minha avó e nas respostas que encontraríamos estava inabalável.
Algo dentro de mim dizia que aquilo era reversível e eu faria o possível e o impossível para salvar Pete.
Procurei também novas teorias para premonições, sonhos lúcidos, pessoas sensitivas e misticismo. Encontrei bastante conteúdo, porém muitas teorias sem sentido, fanfics de séries e filmes, pessoas querendo aparecer para ganhar visualizações... Era como se toda a informação fosse jogada no liquidificador da minha mente e feito uma grande vitamina de dúvidas.
Lembrei da voz do Pete em minha cabeça dizendo: "Você é meu mundo agora, Klay".
Era impossível não me animar com aquela frase. Uma sensação nova inundava meu peito de sentimentos e fazia meus ombros arrepiarem.
Eu gostava tanto dele...
— Irmão? — chamou Shawn antes de bater algumas vezes na porta.
Fechei o navegador do notebook onde estava a pesquisa sobre premonições, levantei e fui abrir a porta para ver o que ele queria.
Não tínhamos conversado desde o momento que ele me viu nos braços do Pete.
— Hey, Shawn! — exclamei assim que abri a porta. — Já voltou do colégio?
Shawn balançou a cabeça positivamente e entrou. Eu tinha perdido a noção do tempo com aquelas pesquisas.
— Você é gay? — perguntou Shawn sem rodeios.
— Sou — respondi prontamente.
Meu irmão mais novo olhou para os lados e pareceu confuso por uns segundos.
— Klay, você vai contar para nossos pais?
— Não sei.
— Você sabe que nosso pai te mataria, não é?
— Não mataria não, Shawn.
Meu pai era muitas coisas, mas não era tão mal quanto aparentava. Ele ficaria chocado, não olharia na minha cara por dias ou talvez semanas, mas superaria com o passar do tempo. Por incrível que pareça, eu tinha mais receio de contar para minha mãe.
— Acho melhor você não contar, Klay — sugeriu Shawn sentando na cama. — Você largou a faculdade e ouvi nosso pai chorando no quarto. Nossa mãe disse que você não quer mais ficar com a gente e tem medo que você se mude daqui.
— Você ouviu tudo isso? — questionei surpreso.
— Eles estão muito chateados com o que você vem fazendo e falando, por isso, acho melhor você não contar nada — falou Shawn levantando e caminhando para fora do quarto.
Tive que intervir e me colocar à frente dele.
— Espera, Shawn.
— Eu deixei meu jogo ligado.
— Só quero agradecer por você não contar nada a eles e por seu apoio.
Meu irmão fez a mesma cara de entediado que costumava fazer.
— Você é meu irmão e é um cara legal, Klay — falou Shawn. — Não foi culpa sua termos nos mudado para esta cidade.
— Você ouviu isso também?
— Se eu morrer no jogo, você terá que me pagar vinte dólares para eu recuperar a experiência perdida — disse Shawn revirando os olhos, dando a volta por meu corpo, abrindo a porta e saindo do quarto.
Sorri involuntariamente e me virei para ver Shawn sair. Ele me apoiava e não ia dizer nada a nossos pais. Ele não me culpava por mudarmos de cidade e não me odiava tanto quanto eu imaginava.
De um jeito torto, frio e entediado, ele ainda gostava de mim.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top