22 - Revelação
Era difícil dizer a verdade.
Por mais que eu tentasse encontrar as palavras certas, elas não vinham à minha cabeça. Pete era um garoto tão tranquilo, alegre e educado...
Eu não fazia ideia de como ele ia reagir a um assunto como aquele.
— Não tenha medo, Klay — disse Pete me incentivando a falar. — Nada que você diga vai me fazer deixar de gostar de você.
— Eu não sei por onde começar, Pete — murmurei me recusando a olhar diretamente para ele.
Ainda segurando minha mão, Pete entrelaçou nossos dedos e a levou até seus lábios para beija-la. Na tentativa de me passar segurança, ele se aproximou um pouco mais e encostou a lateral do rosto dele em minha cabeça para que eu me recostasse.
— Eu faço uma ideia do que seja, Klay — disse ele soltando minha mão e envolvendo o braço em volta da minha cintura. — Na verdade, eu desconfio desde aquele dia que nos vimos no posto de gasolina.
— Desconfia? — questionei desacreditado.
— Você tem alguma doença e descobriu isso a pouco tempo, não é? — perguntou Pete me apertando um pouco mais em seu meio abraço. — Não se preocupe com nada, pois não importa o que seja, eu vou ficar a seu lado até você ficar bom.
A teoria do Pete partiu meu coração.
Ele era um garoto tão incrível e tão preocupado com as pessoas...
— Pete...
— Eu devia ter te contado isso antes, mas fui um covarde.
— Pete, me escuta...
— Eu estou apaixonado por você, Klay!
Pete se afastou o bastante para me olhar nos olhos e voltar a segurar minha mão.
— Você é o garoto mais incrível que eu já conheci — continuou ele. — Você me salvou mais vezes do que eu sou capaz de contar e eu nem sei se estaria vivo se você não tivesse entrado em minha vida.
— Pete... — murmurei, mas não consegui continuar.
— Eu acho que você também gosta de mim, não sei — disse ele de forma fofa e envergonhada. — Eu percebi que você fica nervoso e com as bochechas coradas quando me vê.
Aquele era um dos momentos que eu mais desejava na vida, mas o peso do que eu estava prestes a contar o tornava triste e amargo. Eu estava feliz por saber que meus sentimentos eram correspondidos, mas arrasado por todo o medo de perder Pete para o destino ou para aquele segredo.
— Pete, eu também me apaixonei por você — falei seguramente. —, mas...
Antes que eu pudesse terminar a frase, Pete segurou meu rosto e me beijou. De início, os lábios dele apenas encostaram nos meus e ambos foram se moldando lentamente, mas conforme os segundos passavam, começamos a intensificar o roçar de nossos lábios e línguas para matar de uma vez aquele desejo há muito tempo contido.
Era uma explosão de sentimentos dentro do meu peito. Senti meus olhos lacrimejarem, mas eu não sabia se era de felicidade ou medo de perder o que eu tinha acabado de conquistar. O beijo do Pete era tão doce, carinhoso e apaixonado. Naquele momento incrível, eu pude sentir o quanto ele queria estar a meu lado e o quanto ele gostava de mim.
Isso partia ainda mais meu coração.
— Pete... — sussurrei entre uma pausa e outra daqueles beijos.
— Você é tão lindo, Klay — disse ele suspirando e mordendo meu lábio inferior de uma forma deliciosa antes de voltar a me beijar.
Eu queria retribuir aquele beijo e passar a madrugada toda nos braços do Pete, mas aquele segredo estava me matando por dentro e eu não conseguia mais guarda-lo.
Ele tinha o direito de saber para se proteger.
— Pete... — murmurei descolando nossos lábios.
— Klay... — respondeu ele com um sorriso.
— Eu não estou doente — falei seriamente. — Não é este o segredo que tenho para te contar.
Pete ficou sério de repente.
Ele afastou seu corpo o suficiente para me olhar diretamente mais uma vez.
— Não está doente?
— Não.
— Então? ...
— Eu sou sensitivo, Pete.
Nem eu sabia o que estava falando, mas me baseei nas poucas informações que eu tinha pesquisado e em meu histórico familiar.
— Sensitivo? — Ele indagou. — Como assim?
— Eu tenho sonhos lúcidos — falei sem rodeios. — Eu desperto dentro dos meus sonhos e consigo controla-los na maioria das vezes.
— Isso é muito legal, Klay — disse ele voltando a sorrir. — Acho que já vi um vídeo com este tema no YouTube. Poucas pessoas no mundo conseguem desenvolver essa habilidade.
— Sim, mas... — Fiz uma longa pausa, apertei meus olhos e suspirei. — Foi por causa destes sonhos lúcidos que eu te conheci, Pete.
Pete não entendeu, mas continuou me olhando daquele jeito interessado e especial que me dava um aperto gigantesco no peito.
— Há algumas semanas, tive um sonho estranho e extremamente real em um ponto de ônibus — continuei. — Eu estava voltando para casa, acabei passando por aquela avenida e parando naquele ponto. De repente, um garoto com uma mochila esbarrou em mim, me pediu desculpa e perguntou se eu estava bem...
Pete continuou me olhando curiosamente.
Eu não estava pronto, mas não podia adiar mais aquele momento.
— Esse rapaz era...
— Era você, Pete.
Pete balançou a cabeça positivamente, desviou seu olhar para baixo e pigarreou.
— Você sonhou comigo antes de me conhecer? — questionou ele voltando a me olhar e abrindo um lindo sorriso.
— Naquele sonho — continuei. —, você esbarrou em mim, pediu desculpa e seguiu seu caminho por aquela avenida. Quando você virou a esquina, os policiais começaram a troca de tiros com aquele homem.
Pete voltou a ficar sério.
Eu sentia minha coragem querer fraquejar, mas não podia me render.
— Você foi baleado na barriga, Pete — falei angustiado só de lembrar daquele pesadelo. — Você foi baleado, caiu no chão e...
— Eu morri? — questionou ele me interrompendo.
Balancei a cabeça positivamente.
Pete desviou o olhar mais uma vez, franziu o cenho e voltou a sorrir.
— Eu sabia que você era meu anjo da guarda e meu herói, Klay — disse ele aproximando seu corpo para me beijar outra vez.
— Isso não é tudo, Pete — falei colocando a mão sobre o peito dele para impedi-lo.
Pete recuou e voltou a me olhar com atenção.
— Depois daquele dia, eu voltei a sonhar com você — continuei. —, mas desta vez, saindo de uma loja Pharmacy no centro da cidade. Eu estava do outro lado da rua e vi aquele carro te atropelando e...
— Me matando — completou ele.
— Outra noite, sonhei com um posto de gasolina que eu não fazia ideia de onde ficava... — falei ainda controlando minha aflição. — Aquele carro a gás explodiu enquanto você ajudava aquele homem a abastecer e...
— Eu morri de novo — completou Pete mais uma vez.
Por mais que eu engolisse o medo e tentasse me manter firme, aqueles sentimentos eram mais fortes que eu.
Minhas mãos tremiam.
— Ontem à tarde, eu tive dois sonhos — continuei depois de respirar fundo e banir a vontade de chorar do meu peito. — Um sonho estranho e atrasado dentro daquele elevador de vidro e de um pequeno incêndio na sua casa.
Pete estava sério. Eu não fazia ideia se ele estava acreditando em mim ou não.
Mas eu precisava continuar.
— É por isso que você sabia onde eu moro? — questionou Pete.
— Na verdade, para encontrar onde você mora, eu precisei da ajuda de um amigo da faculdade — confessei. —, mas eu sabia que você estava em perigo e por isso apareci na sua casa daquele jeito, Pete.
Pete levantou do sofá, passou a mão na cabeça e suspirou. Era muita informação para ele processar, mas eu tinha que continuar.
— Você me salvou muitas vezes, Klay — disse ele em pé olhando para o nada. — Você sonhou com minha morte muitas vezes.
— E acho que ainda não acabou, Pete — falei também levantando do sofá. — Eu andei pesquisando teorias, lendas, relatos de pessoas que já viveram algo parecido e acho que ainda não acabou.
— Como assim não acabou? — questionou ele voltando a virar para ficar de frente para mim.
— Eu acho que... — Fiz outra pausa longa e suspirei. — A morte está atrás de você, pois seu tempo aqui na terra já acabou.
Não sei descrever em palavras as expressões que Pete fez naquele momento. Ele ria e ficava sério de um segundo para o outro. Ele balançava a cabeça negativamente, coçava a nuca e se movia de forma inquieta.
— A morte? — questionou ele incrédulo. — A morte é tipo uma pessoa? Uma mulher de capa preta e foice como nas lendas e histórias?
— Eu sei que parece loucura, mas...
— É loucura, Klay!
Aquele medo cresceu dentro de mim...
O medo de Pete achar que eu era louco.
— Por favor, confia em mim — falei me reaproximando dele. — Eu não vou deixar que nada de ruim aconteça com você, Pete.
— Isso tem alguma coisa a ver com seu estado de saúde atual? — perguntou Pete me olhando seriamente. — Por favor, me fala que a exaustão que o médico disse que você teve foi por causa da faculdade e não por causa destes sonhos. Me fala que você não está exausto por sempre ter que correr para me salvar.
— Não é exaustão, Pete — afirmei. — Eu não sei o que é, mas geralmente ocorre quando eu tento impedir o que acontece em meus sonhos.
A inquietação do Pete estava me deixando inseguro e aflito. Eu precisava me manter firme, expulsar o medo e me portar da mesma forma que sempre me portei.
Eu precisava ser forte.
— Então, eu vou morrer? — questionou ele ainda incrédulo.
— Eu não vou deixar — falei firmemente.
— Se eu não morrer, você vai acabar morrendo se continuar tentando me salvar — resmungou Pete.
— Vale o preço — murmurei tentando me reaproximar dele.
Pete tinha acreditado em mim, mas estava visivelmente confuso e assustado. Meu maior medo naquele momento era que ele se desesperasse e tomasse decisões que não teriam volta.
— Meu pai tinha razão — disse Pete com o olhar perdido.
— Tem como te salvar, Pete — insisti.
— O preço é alto demais, Klay — falou ele voltando sua atenção para mim, colocando a mão em meu rosto e reaproximando nossos corpos.
O momento era de medo e tensão, mas o calor das palavras e o carinho de Pete comigo eram um alívio para todo aquele filme de terror.
Era tão bom finalmente dividir aquele segredo com alguém...
— Eu tenho um plano — falei sorrindo sincera e esperançosamente. — Minha avó era sensitiva também e tem um monte de livros e objetos que podem nos ajudar a entender e superar tudo isso.
— E você acha que podemos encontrar uma cura, solução ou sei lá como chamar essa loucura toda? — perguntou Pete retribuindo meu sorriso.
— Minha intuição diz que sim, Pete — afirmei. — Por isso, quero que antes de irmos para Nova Iorque, você me acompanhe por uns dias até cidade que minha avó morava.
Pete me olhou com curiosidade e voltou a sorrir daquela forma linda e especial.
— Antes de irmos para Nova Iorque? — indagou ele. — Então...
— Eu vou com você! — exclamei animado. — Não vou te deixar sozinho nem por um segundo a partir de agora.
Pete roçou o nariz dele no meu antes de encostar nossos lábios mais uma vez em um beijo doce e apaixonado. Estar nos braços dele me causava sensações que nunca senti antes. Era viciante, quente, reconfortante...
— Klay?! — exclamou uma voz vinda da escada.
Pete e eu nos afastamos na hora, mas era tarde demais.
Nós tínhamos sido pegos.
...
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