19 - Resiliência
O estrondo que a porta do quarto do final do corredor fez quando bateu com violência ecoou pela casa. Eu estava terminando de dobrar minhas roupas para coloca-las na mala de viagem naquele exato segundo.
Era engraçado o fato de eu nem ter contado nada para Pete e já estar pensando em viajar com ele para Nova Iorque.
— Você não vai largar a faculdade! — exclamou meu pai entrando em meu quarto sem bater.
— Já está decidido — falei calmamente.
— Calma, Albert! — exclamou minha mãe entrando logo atrás dele.
Os dois ficaram em silêncio e se olharam por um breve momento quando perceberam que eu estava fazendo a mala.
— Vai a algum lugar? — questionou minha mãe.
— Só estou adiantando as coisas para viajar nos próximos dias — respondi fechando o zíper da mala e a colocando no chão. — Tenho coisas para resolver amanhã na faculdade e...
— Você não vai largar a faculdade, Klay — disse meu pai autoritariamente.
Balancei a cabeça.
— Eu não quero mais fazer Direito, pai — afirmei. — Como eu disse, já está decidido.
— Você não acha que deve pensar melhor antes de tomar decisões precipitadas? — perguntou minha mãe serenamente. — Você veio com esta ideia de largar a faculdade e viajar de repente, então...
— Como eu disse, preciso viajar e resolver algumas coisas urgentes — falei antes que ela terminasse o que ia dizer.
— Em Nova Iorque? — indagou meu pai. — Klay, você nunca pôs um pé em Nova Iorque! O que diabos você tem para resolver lá?
— Assuntos pessoais — murmurei sabendo que aquela história não fazia sentido para eles. — Não se preocupem que, quando eu voltar, vou me inscrever e fazer a seleção para o curso de biologia. Andei pesquisando e parece que minha faculdade da suporte ao aluno que decidir mudar de curso nos três primeiros semestres.
Meus pais me olhavam como se eu fosse louco. A incredulidade na expressão do meu pai era cômica e trágica ao mesmo tempo.
— E você vai simplesmente largar tudo? — questionou meu pai ficando ainda mais exaltado. — Tudo que trabalhamos e nos matamos para te dar até hoje será jogado no lixo? Seus estudos, sua carreira, seu sonho de ser advogado...
— SEU sonho de eu ser um advogado, pai — afirmei. — Eu nunca quis fazer Direito!
— Era seu sonho desde pequeno, Klay! — exclamou minha mãe.
— De onde vocês tiraram isso? — questionei. — Vocês sabem que eu sempre gostei de ciência, de química e da natureza! Vocês que queriam que eu fosse advogado e nunca pararam para ouvir o que eu queria ser!
Os ânimos estavam piorando.
Eu não precisava ter premonições em sonhos lúcidos para saber que aquela conversa não ia terminar bem.
— Nos mudamos à toa? — questionou meu pai ainda mais revoltado. — Eu deixei meu antigo emprego, sua mãe deixou o antigo emprego dela e seu irmão deixou um excelente colégio para você simplesmente acabar com tudo em um dia de rebeldia, Klay?!
— Seu emprego atual paga duas vezes mais do que você recebia no antigo e minha mãe trabalha menos horas e recebe a mesma coisa — resmunguei tentando manter a calma. — Se tem algo que me faz ter peso na consciência é o Shawn ter mudado e deixado os amigos dele para trás.
Meu pai estava prestes a explodir.
— Eu te proíbo de fazer isso, Klayton Nivans! — gritou ele avançando contra mim enquanto apontava o dedo para meu rosto. — Eu sou seu pai e você tem que me obedecer.
Se fosse em outras circunstâncias, aquilo seria o suficiente para eu desistir da ideia de abandonar a faculdade de Direito, mas eu não tinha outra opção. A imagem que imediatamente aparecia em minha mente era a de Pete e aquele lindo sorriso.
Eu não podia deixa-lo morrer.
Meus pais sempre me deram tudo e eu seria eternamente grato a isso, mas era a vida de um garoto maravilhoso que estava em risco. Partia meu coração ver meu pai a ponto de chorar por minha decisão repentina, mas eu não podia perder mais tempo.
Uma faculdade não valia mais que a vida do garoto mais especial que eu já conheci.
— Desculpa — murmurei sentindo meus olhos lacrimejarem. —, mas vou para a faculdade amanhã trancar a matrícula.
Pela primeira vez em dezenove anos, meu pai me deu um tapa no rosto. Não achei forte, mas foi suficiente para me ferir internamente.
De certa forma, eu o merecia.
— Albert! — exclamou minha mãe segurando os braços dele.
— Tudo bem, mãe — murmurei forçando um sorriso. — Eu merecia esse tapa.
Cruzei o pequeno espaço entre meus pais e minha cama, peguei meu par de tênis que estava em baixo dela e os coloquei rapidamente. Me estiquei, puxei a mala que eu tinha preparado e deixado do outro lado da cama e destravei o puxador para coloca-la no chão.
— O que vai fazer? — questionou minha mãe.
— Vou para o campus — respondi calmamente. — Vou passar a noite no dormitório do Tyler.
— Klay... — Meu pai tentou falar.
— Acho que vai ser melhor assim — afirmei. — Eu preciso de um tempo.
— Klay, sua atitude e suas decisões estão radicais demais — falou minha mãe soltando meu pai e se aproximando para me abraçar. — Já sabemos que você está cansado e não quer mais cursar Direito. Mesmo não concordando, vamos aceitar.
— Por que está fazendo tudo isso, Klay? — perguntou meu pai. — Por que está largando faculdade, viajando para resolver problemas que nós não conhecemos e agora querendo sair de casa para passar a noite no dormitório do seu colega?
— Desculpe seus pais antiquados, mas sua atitude é estranha — completou minha mãe.
Eu não podia dizer a verdade.
— Alguém está te ameaçando? — questionou meu pai.
— Claro que não — falei balançando a cabeça negativamente.
— E então? — insistiu ele. — Não acha que suas decisões e atitudes são suspeitas? Parece que você está fugindo de algo, Klay.
— Você sabe que pode contar tudo para nós — disse minha mãe. — Só vamos poder te ajudar se você confiar na gente.
Eu não podia confiar neles.
Não dava para contar a verdade sem eles pensarem que eu estava completamente louco. O baque seria muito pior que a notícia do abandono do curso de Direito.
— Não aconteceu nada — falei seriamente. — Eu só quero viajar e descansar um pouco.
Não houve mais discussão e minha saída de casa aquela hora da noite para dormir no quarto do Tyler no campus foi cancelada. Meus pais deram o espaço que eu precisava para descansar e para todos esfriarmos a cabeça. O dia seguinte seria longo e eu tinha muitas coisas para resolver.
E eu estava tão cansado...
– 08 –
Droga!
A mesma lanchonete...
— Eu sei que você está aqui, falso Pete — resmunguei revirando os olhos.
Ele não respondeu.
— Aparece logo, pois eu não estou com saco para brincadeiras hoje.
Silêncio.
— Falso Pete?! — O chamei.
Só depois de levantar da mesa e não ver ninguém na lanchonete que me dei conta que aquele sonho estava um pouco diferente dos demais. Os rapazes bonitos que costumavam ficar no balcão tinham sumido, as garçonetes não estavam andando de um lado para outro e o jukebox estava desligado.
— Cadê todo mundo? — questionei.
Fechei os olhos e tentei mudar de sonho, mas novamente, alguma coisa me impedia. Era possível sentir uma presença me forçando a ficar naquele lugar.
— Pete? — O chamei novamente enquanto caminhava até a porta da frente da lanchonete.
Virei a maçaneta e ouvi o barulho do destrancar da fechadura. A luz do lado de fora da lanchonete estava tão forte que tive que colocar um dos braços na frente do rosto para conseguir avançar e sair para a varanda.
— Você demorou — disse aquela voz que eu tanto amava escutar.
— Falso Pete?
— Já falei que eu sou o verdadeiro Pete, Klay!
Aos poucos a luz foi diminuindo e pude ver exatamente onde eu estava...
Era o lago que Shawn e eu gostávamos de ir quando visitávamos nossa avó.
— O que você está fazendo aqui? — questionei. — Por que me trouxe aqui?
— Você que me trouxe aqui, esqueceu? — disse o falso Pete finalmente aparecendo.
Ele estava apenas de bermuda e chinelos segurando uma toalha de banho.
— Isto é uma premonição? — indaguei. — Quero dizer... Você vai mesmo vir comigo até aqui para descobrirmos uma forma de salvar você da morte?
— É isso que você quer, não é? — questionou o falso Pete começando a caminhar pela pequena ponte de madeira que ficava na beira do lago.
Era mais uma vez meu subconsciente provocando minha ansiedade. Tenho certeza que minha cabeça tinha criado aquela imagem por conta dos planos que eu tinha para os próximos dias.
— Você pode me mostrar o futuro?
— O que você quer saber sobre o futuro, Klay?
— Quero saber como esta história acaba e se vou conseguir ajudar você, Pete.
E o falso Pete abriu aquele lindo sorriso.
— Que lugar é este? — perguntou ele.
Suspirei e avancei alguns passos para segui-lo pela ponte.
— É o lago que fica perto da casa da minha avó — respondi olhando em volta. — Meu irmão Shawn gostava de nadar todos os dias aqui.
— É raso? — perguntou o falso Pete.
— Na beirada, sim!
Eu estava falando comigo mesmo de novo.
Que coisa estúpida.
— Você não previu o que aconteceu no elevador de vidro — disse o falso Pete seriamente. — Aquilo foi muito perigoso.
— Eu não sei o que aconteceu — murmurei coçando a cabeça. — Foi tudo tão rápido.
— Você tem certeza que não sabia o que ia acontecer? — questionou ele.
Eu não tinha entendido a pergunta.
— Eu não lembrei dos sonhos que tive aquela noite, Pete.
— E você ainda precisa destes sonhos para ver?
— Como assim?
O falso Pete não respondeu imediatamente.
Ele se distraiu admirando o lago e o vento balançando as folhas das arvores em volta.
— Klay, eu não prometo que não vá doer — disse ele de repente. —, mas prometo segurar sua mão até o final.
— O que? — sussurrei confuso.
— Cuidado com a cabeça! — disse ele desviando o olhar para a minha direção.
— Pete, o que você quer dizer com isso?! — questionei preocupado.
— Respira fundo, Klay...
— Pete!
— Respira...
(...)
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