18 - Alvedrio
Sem dúvida aquela era uma das aulas mais chatas que eu tinha na faculdade. O professor não parava de falar sobre leis, casos do passado que deram errado e erros dos advogados, clientes, vítimas, juízes, júri...
Eu não tinha prestado atenção nas explicações e nem feito anotações para estudar. Eu estava de saco cheio de tudo aquilo e com muita vontade de levantar da cadeira e ir para casa.
Olhei no relógio do celular e percebi que faltava pouco tempo para terminar aquela entediante aula. Também vi no topo da tela duas mensagens que Pete tinha acabado de me enviar que diziam: "Boa volta a faculdade, Klay!" e "Ansioso para a nossa próxima conversa".
Fiquei o resto do final de semana passado ensaiando uma forma de contar para Pete tudo que eu sabia e suspeitava em relação ao destino dele. Não encontrei argumentos fáceis para convence-lo de que ele estava em perigo, que eu suspeitava que a hora dele aqui na terra tinha acabado e que eu estava enganando a morte como nos filmes de suspense.
Ele ia me chamar de louco ou achar que eu era psicopata assassino.
Acho que a segunda opção seria menos humilhante.
Eu queria compartilhar aquele segredo com outra pessoa, mas me faltavam opções. Meus pais me internariam em um manicômio e meu irmão morreria de rir antes de pedir para eu não encher mais o saco. Tyler ia achar que era brincadeira e arrumaria alguma brecha para sexualizar aquele assunto. Sue e eu estávamos estranhos um com o outro desde a mentira que Tyler contou a ela, então, acho que ela não me compreenderia.
Eu nunca tinha me sentido tão sozinho e encurralado em toda a minha vida.
Quando a última aula daquele dia na faculdade finalmente acabou, Tyler e Sue me chamaram para acompanha-los até os dormitórios do campus. Meus amigos fizeram cópias de todas as aulas e anotações que eu tinha perdido enquanto estive doente. Eles me convidaram para estudar com eles e outros colegas da nossa turma.
Senti desânimo e uma preguiça sem fim quando peguei a pilha de papéis que eles tinham copiado.
— É tudo isto aqui? — resmunguei foleando aquela pilha rapidamente.
— Não se preocupe, pois a gente vai te ajudar a entender — disse Sue enquanto sentava e tirava os sapatos para ficar mais à vontade no quarto do Tyler.
— Eu convidei o Arth, a Andie e o Mike para estudar com a gente — falou Tyler enquanto se trocava.
Eu queria sair correndo daquele lugar.
— É muita coisa — resmunguei começando a ficar irritado. — Quando é a prova?
— Depois de amanhã — murmurou Sue com a expressão preocupada.
— Eu tô ferrado! — exclamei. — Eu não vou conseguir estudar tudo isso em quarenta e oito horas.
— Na verdade, você só tem quarenta horas para estudar — disse Tyler. — Fora o tempo que você vai perder dormindo, comendo, se masturbando...
— Cala a boca, Tyler! — exclamou Sue empurrando-o. — Você não acha que devíamos incentivar e ajudar o Klay ao invés de ficar falando asneiras?
— Sue, ao contrário de você, eu sou realista — retrucou Tyler. — Acho que o Klay devia conversar com o professor, entregar um atestado ou pedir trabalhos extras, pois esta matéria é uma das mais complicadas que já estudamos até agora.
E o pior é que Tyler tinha razão.
O pouco que li daquelas anotações que eles fizeram...
— Eu não sei o que fazer — murmurei.
— Eu sei! — exclamou Sue batendo uma palma. — Estudar, estudar e tomar muito café, pois você não vai poder dormir.
— Ficar acordado quarenta horas não é nem um sacrifício, é? — questionou Tyler.
Eu não podia me dar a tarefa de não dormir. Eu precisava dormir e sonhar, pois mesmo que a última vez tenha falhado, meus sonhos eram a única forma de manter Pete a salvo.
— Vou estudar o máximo que eu puder e, se eu reprovar, não quero nem saber! — resmunguei chutando os sapatos, sentando no chão e abrindo minha mochila para pegar meu material de estudo.
Tyler e Sue se olharam preocupados por um instante, mas depois se juntaram a mim no chão do quarto. Passamos boa parte da tarde revisando as primeiras aulas da semana passada e refazendo anotações. Antes do anoitecer, Arth, Andie e Mike apareceram no quarto do Tyler para completar aquele grupo de estudos. Andie trouxe pizza de muçarela e cheddar para jantarmos enquanto Arth e Mike trouxeram refrigerante e energéticos.
Eu tinha recebido várias mensagens de texto do meu pai perguntando onde e com quem eu estava. Tive que tirar foto de toda a pilha de livros, papéis e pratos de pizza espalhados pelo chão do quarto para que ele acreditasse que eu estava em um grupo de estudos no campus da faculdade.
"Me avise quando terminarem que eu vou te buscar" dizia a última mensagem dele.
"Okay" respondi rapidamente antes de erguer os braços e bocejar.
— Acho que alguém está com sono — disse Mike descontraidamente.
— Podemos fazer uma pausa? — sugeriu Sue. — Preciso esticar as pernas.
— E eu preciso ir ao banheiro — falou Andie. — Você vem comigo a meu quarto, Sue?
Todos concordaram em fazer uma pausa e alguns saíram do pequeno quarto do Tyler para esticar as pernas, tomar um ar e descansar um pouco daquela bateria interminável de leis, casos famosos e psicologia jurídica. Sue e Andie foram ao banheiro de outro dormitório, Tyler acompanhou Mike até a parte de fora do campus para fumar e Arth ficou jogado no chão mexendo no celular.
E eu, como de costume, estava exausto e de saco cheio daquela matéria.
Eu tinha coisas mais importantes para fazer e me preocupar. Eu tinha que ir atrás de respostas, ensaiar uma forma convincente de contar ao Pete tudo que estava acontecendo e ajuda-lo...
O tempo estava correndo e eu não podia desperdiça-lo.
— Arth, você já pensou em desistir? — questionei olhando pela janela do quarto.
— Desistir de quê? — perguntou ele voltando a atenção para mim. — Da faculdade?
— Sim — confirmei. — Ou pelo menos de um curso que você nunca quis fazer.
Arth sentou no chão e se espreguiçou.
— Para falar a verdade, eu nunca pensei em fazer Direito — confessou ele. —, mas sempre foi o sonho do meu pai, então...
— Sério que o seu também? — indaguei.
Eu conhecia aquela história.
— Não desista só por estar com medo de uma prova, Klay — disse Arth levantando do chão e sentando na cama.
— Não é só por isso — murmurei. — Eu nunca quis cursar Direito. Acho que estou perdendo o meu tempo tentando agradar outras pessoas e esquecendo de mim mesmo.
Arth suspirou.
— Eu entendo — disse ele. — Já perdi muito tempo tentando agradar todo mundo a minha volta e me ferrei muito por isso.
— E o que você fez para resolver? — perguntei desviando minha atenção para ele.
— Nada — falou Arth balançando os ombros e abaixando a cabeça. — Eu perdi tudo o que tinha e tive de seguir em frente.
Aquela conversa acendeu um alerta em minha cabeça. Eu estava perdendo meu tempo com uma coisa que eu não gostava para agradar meus pais e, com isso, deixando de correr atrás das coisas que eu amava e de soluções para meus problemas atuais.
Meu assunto com Pete era muito mais urgente que uma simples prova de faculdade. A vida dele estava em risco e eu não queria perde-lo. Ficar sentado no chão daquele quarto estudando uma matéria de uma profissão que eu não pretendia exercer era uma total perda de tempo.
— Hey, seus cornos! — exclamou Tyler entrando no quarto. — Não estou atrapalhando, estou?
— Cala a boca, idiota — resmunguei.
— Mike esqueceu o isqueiro — falou Tyler pegando a mochila do Mike e colocando nas costas. — Está rolando um showzinho de música com alguns alunos no térreo. Vocês querem vir com a gente?
— E as garotas? — perguntou Arth.
— Já mandei mensagem para elas — respondeu Tyler puxando Arth pelo braço e acenando com a cabeça para eu acompanha-los. — Vamos! Terminamos a matéria depois!
Eu não ia terminar a matéria, pois estava decidido a trancar minha matrícula e focar apenas no que era mais importante naquele momento...
Salvar a vida do Pete, custe o que me custar.
***
— Tem certeza que você quer fazer isso? — questionou minha mãe mais uma vez. — Seu pai vai surtar com esta notícia.
— Tenho certeza — confirmei decidido. — Já passou da hora de me impor e ir atrás dos meus sonhos.
— Então ter mudado para esta cidade foi uma total perda de tempo? — questionou Shawn aparentemente irritado. — Deixar tudo para trás e vir morar aqui só para o Klay cursar Direito foi em vão?
— Não foi em vão, pois pretendo entrar em outro curso da faculdade daqui — respondi.
Minha mãe e meu irmão não estavam acreditando em mim. Eles se olhavam de minuto em minuto com uma expressão desconfiada, como se houvesse uma câmera escondida em algum lugar ou que alguém começaria a rir e gritar que tudo aquilo era uma brincadeira.
— Qual curso? — perguntou minha mãe preocupada.
— Biologia — respondi entredentes.
Minha mãe teve que sentar para não cair no chão.
— Seu pai vai te matar, Klayton Nivans! — exclamou ela colocando a mão no peito.
— Mãe, eu já decidi! — exclamei em resposta.
— E quando você começa? — perguntou Shawn.
— Eu não sei, pois tenho coisas importantes para resolver e não sei quanto tempo isso vai levar — respondi. — E depois de resolver tudo, eu ainda tenho que fazer a matrícula, entrar na lista de espera, fazer uma prova e...
— Que coisas importantes você tem para fazer, Klay? — questionou minha mãe.
— Eu vou passar uns dias na casa da vovó e depois vou para Nova Iorque — afirmei.
Minha mãe e Shawn arregalaram os olhos. Eu sei que tudo parecia ser absurdo e repentino, mas eu não tinha tempo a perder.
Era questão de vida ou morte.
— É uma piada! — exclamou minha mãe começando a rir. — Klay, de onde você tirou essa ideia maluca? Desta vez você me pegou, filho!
— Não é piada — afirmei seriamente. — Eu vou para Nova Iorque depois de passar uns dias na casa da vovó.
Minha mãe fechou sua expressão novamente.
— Como assim você vai para Nova Iorque? — questionou Shawn.
— Com que dinheiro? — perguntou minha mãe.
— Tenho algumas economias guardadas e o dinheiro que a vovó deixou para mim — falei.
— O dinheiro que era para a sua viagem de formatura da faculdade de Direito, Klay! — exclamou minha mãe.
— Não vou terminar a faculdade de Direito, então... — ironizei. — Sem falar que ela deixou bastante dinheiro para mim. Eu posso viajar com metade dele e ainda vai sobrar.
— Nova Iorque é aqui do lado, mãe — disse Shawn. — Não será tão caro.
Depois de todas aquelas revelações, um silêncio mortal pairou na cozinha. Minha mãe não conseguia acreditar em minhas decisões. Shawn estava surpreso, mas parecia não se afetar com aquilo como pareceu a princípio.
Eu até pensei em falar abertamente minha orientação sexual, mas achei que seria um baque pesado demais depois daquela avalanche de informações.
— Pode falar com o papai por mim? — perguntei diretamente a minha mãe. — Se eu falar, ele não vai acreditar.
— Por que você está fazendo isso com a gente, Klay? — questionou minha mãe aflita. — Está te faltando alguma coisa? Estamos chateando você?
A resposta era muito simples: eu estava apaixonado por Pete Praves e não suportava a ideia de perde-lo. Ele estava em perigo e eu precisava de respostas imediatas para tentar salva-lo. Ficar parado ou me dedicando a um curso de faculdade que eu não ia seguir carreira só me atrapalharia.
Eu queria me arrepender do que fiz e não do que deixei de fazer.
— Quero me arrepender do que fiz e não do que deixei de fazer — falei encerrando aquele assunto.
E a partir daquele momento, meu plano para salvar Pete de um destino injusto estava iniciado.
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