16 - Encontro

Era estranho e engraçado o fato de que quando Pete estava a meu lado, tudo parecia ser mais difícil e apavorante. Mais cedo, quando eu estava em casa me arrumando para aquele encontro, milhares de coisas foram planejadas. Imaginei dezenas de situações, conversas e até uma declaração direta, mas...

— Vi em uma reportagem que tem um evento de comida italiana no shopping central, Pete — falei para puxar assunto.

Pete e eu estávamos andando pela área comercial da cidade há muito tempo em silêncio. Em determinados momentos até houve troca de olhares, sorrisos e pigarros...

— Você quer comida italiana? — perguntou ele com um sorriso fofo e confuso. — Você não tinha dito que queria comer no Junk Food? 

— Eu disse? — questionei coçando a nuca.

— Acho uma boa ideia irmos ao shopping central, pois tenho coisas importantes para te falar e será perfeito enquanto comemos um prato italiano — disse Pete.

Balancei a cabeça positivamente e controlei a vontade de sorrir apertando meus lábios, pois por algum motivo idiota, eu não me achava bonito quando sorria e não queria que Pete compartilhasse desta mesma opinião.
Aliás, desde o momento que assumi a mim mesmo a atração que sinto por Pete, comecei a me policiar e tentar não parecer uma pessoa esquisita na frente dele. A todo momento, eu tentava andar com a postura mais ereta possível, evitava sorrir demais para não parecer retardado e nem ficar sério demais para não parecer um psicopata. Quando eu me permitia olhar diretamente para ele, contava mentalmente um tempo máximo, pois eu não queria que ele se sentisse assediado ou constrangido.

Eu não sabia que era tão complicado ter interesse por alguém. Ou era complicado, ou eu estava fazendo isso de uma forma muito errada.

Antes de irmos ao shopping central, Pete e eu visitamos algumas lojas de roupas e calçados do centro comercial. Ele queria comprar duas camisetas e uma calça jeans, pois achava que as roupas que usava estavam velhas e apertadas.
Eu não concordava.

Toda a vez que Pete experimentava alguma roupa no provador das lojas, ele saía até a área de espera para ouvir minha opinião sobre ela.

— O que acha, Klay? — perguntou ele sobre uma camiseta cinza claro e uma calça skinning jeans preta.

— Está ótimo, Pete!

— Você falou isso para todas as roupas que provei — disse ele desacreditado.

— Porque você fica bonito com qualquer uma delas, ué — respondi sinceramente.

É claro que eu estava suspirando secretamente e segurando uma explosão de sentimentos em meu peito enquanto avaliava as roupas que deixavam Pete mais lindo do que ele já era. Foi muito difícil me controlar quando ele provou uma camiseta branca com detalhes em preto nas laterais que ficava bem agarrada em seu corpo.

— Eu gostei dela, mas acho que está apertada demais — disse ele olhando no espelho da sala de espera.

— Ela é bonita e acho que o modelo é assim mesmo, Pete — falei depois de quase desmaiar por vê-lo tão atraente.

Pete não estava à vontade com aquela camiseta.

— Presta atenção, Klay — falou ele antes de tirar a camiseta na minha frente, joga-la em minha direção para que eu a segurasse e correr para o reservado para pegar outra camiseta branca, porém mais larga.

Senti um tremor em minhas pernas e uma movimentação não planejada em outras partes baixas. Fui obrigado a respirar fundo e a apertar os olhos para que aquela onda intensa de sentimentos e desejos não me denunciassem.
O corpo do Pete era exatamente como no meu sonho da lanchonete. Os músculos do tórax, abdome e dos braços eram definidos. As costas, a cintura e aquela borda elástica amostra da cueca preta que ele estava usando... 

— Klay?! — chamou Pete estalando os dedos próximo a meu rosto.

— Oi? O que foi?! — questionei voltando a realidade.

— Qual das camisetas ficou melhor? — perguntou ele.

— As duas são ótimas, Pete — respondi coçando os olhos e em seguida passando a mão no rosto para disfarçar.

Mais uma vez, Pete não acreditou.
Ele suspirou e colocou as mãos na cintura.

— Você não está me ajudando, Klay.

— Pete, você fica bem com qualquer roupa, sério!

— Quer que eu acredite mesmo nisso?

— Eu não diria se não fosse verdade.

Ele me encarou por uns segundos com uma expressão séria e, aos poucos, foi cedendo e abrindo aquele lindo e largo sorriso que era acostumado a fazer.
Foi impossível não suspirar.

Após as compras, Pete e eu finalmente chegamos ao shopping central. O lugar estava lotado de gente e cheio barracas de comida italiana espalhadas por todo o piso térreo. O cheiro das pizzas, de diferentes tipos de queijos e molhos de tomate eram irresistíveis e aumentavam ainda mais a nossa fome.

Passeamos por um tempo pelo local olhando as barracas e explorando a infinidade de opções que tínhamos para almoçar. Pete estava mais falante naquela hora e contou sobre seus pratos favoritos e o que gostava de cozinhar para ele e seus irmãos. Ele também fez inúmeras perguntas sobre minha família, meus colegas da faculdade e o que eu gostava de comer além de junk food e comida italiana.

Depois de muito passeio e conversa sobre assuntos aleatórios, Pete e eu finalmente escolhemos uma barraca de lasanha e encontramos uma mesa para nos acomodar. Antes de sentar, senti uma estranha vibração no ar e aquela chata e estranha sensação de déjà vu. Uma brisa gelada passou por meu rosto fazendo meu cabelo se mover e meus poucos pelos do braço arrepiarem. Senti também uma breve sonolência e fraqueza em meu corpo.
Foi como se minha pressão baixasse de repente.

— Klay, tudo bem? — perguntou Pete percebendo minha distração.

— Tudo, Pete! — exclamei um tom mais alto, pois estava muito barulho no local por causa do evento.

Claro que pensei imediatamente em tudo que estava acontecendo com Pete e na teoria sobre o fim do tempo de vida dele, mas, até então, eu não estava preocupado, pois não tinha tido sonhos lúcidos ou trágicos noite passada. Sem falar que eu me sentia bem e aquela sensação de fraqueza foi por poucos segundos.

— Você está meio pálido — observou Pete aproximando o rosto dele um pouco mais do meu antes de sentar à minha frente.

Senti meu coração acelerar e meu peito inflar com um suspiro repentino.

— Deve ser a fome apertando e este cheiro bom de massa italiana — justifiquei.

— É verdade! — exclamou Pete. — Até eu estou quase desmaiando de fome depois de andar tanto.

— Será que o nosso pedido vai demorar? — questionei olhando as moças da barraca que escolhemos enquanto trabalhavam.

— Acho que não, Klay — falou Pete não desviando aquele olhar carinhoso e generoso de mim.

Quando percebi que Pete me olhava insistentemente, encolhi os ombros, cocei a cabeça e me ajeitei na cadeira para sentar em uma posição mais ereta. Tentei também manter uma expressão séria e tranquila para não parecer um idiota.
Não sei se consegui, pois Pete pareceu se divertir com minhas ações.

— O que foi?

— Você!

— O que tem eu, Pete?

— É tão fofo.

Tive que desviar o olhar e respirar calmamente. Não era a primeira vez naquele dia que Pete tinha me deixado sem fôlego, sem respostas e sem chão. Estava difícil respirar perto dele sem denunciar meus sentimentos.

— Obrigado — agradeci quando finalmente consegui voltar a falar.

— Disponha — disse Pete voltando a sorrir.

Quando nosso pedido chegou e uma das moças da barraca terminou de servir os pratos de lasanha em nossa mesa, antes de começarmos a comer, Pete tirou o celular do bolso da calça, olhou às horas e fez uma careta como se estivesse chateado com alguma coisa.

— Você precisa voltar logo? — questionei imaginando que ele tinha que voltar para suas responsabilidades.

— Na verdade, não — respondeu ele balançando a cabeça negativamente. — Temos a tarde toda para aproveitar.

Não resisti a vontade de sorrir.
Eu ainda tinha muito tempo para ficar ao lado do Pete.

— Quando você terá outra tarde livre como esta? — perguntei antes de começar a comer.

Pete voltou a ficar sério.

— Sobre isso... — Pete fez uma pausa e suspirou. — Acho que em duas semanas, minha mãe vai entrar de férias no hospital e pedir uma licença do trabalho no restaurante.

— Isso é bom para você, não é? — questionei.

— Sim, mas... — Pete fez outra pausa, porém mais longa. — Minha mãe quer que eu vá para Nova Iorque visitar a irmã do meu pai, pois ela está muito doente.

— Nova Iorque, que legal! — exclamei animado. — Tenho certeza que sua tia ficará bem depois que receber sua visita, Pete.

Pete balançou a cabeça negativamente.
Era a primeira vez que eu o via tão sério e chateado.

— Ela está com câncer terminal, Klay — disse Pete seriamente.

— Ah, Pete! Desculpe, eu não queria...

— Tudo bem, eu entendo — disse ele forçando um sorriso. — Nova Iorque é um sonho e eu sempre quis visitar essa cidade, mas...

— Não deste jeito — completei a frase antes de segurar a mão dele e aperta-la gentilmente.

Pete voltou a sorrir e retribuiu a gentileza também apertando minha mão de forma carinhosa.
Meu coração voltou a acelerar.

— Minha mãe quer que eu visite minha tia e ajude meu primo Nuri com algumas coisas importantes — continuou Pete. —, então, devo ficar fora da cidade por uns dias.

— Quantos dias?

— Talvez dez ou quinze dias, Klay.

Dez dias era muito tempo. Pete não fazia ideia de que a vida dele podia estar em perigo e, se ele fosse para tão longe, eu não ia conseguir protege-lo ou impedir que uma fatalidade acontecesse. Eu não confiava em sinal de celular e não queria arriscar ficar distante dele por tanto tempo, mas...
Como eu ia dizer para Pete que não era seguro viajar? Como convencê-lo a cancelar esta viajem, desobedecer a mãe dele e não visitar a tia que está com um câncer terminal?

Seria uma conversa impossível!

— Pete, talvez não seja uma boa ideia... — Tentei começar, mas eu não fazia ideia de como terminar aquela frase.

Pete estranhou, me olhou de forma confusa e esperou que eu terminasse...
Mas eu não sabia o que dizer.

— O que não é uma boa ideia, Klay? — perguntou ele.

Eu estava de mãos atadas. Nem eu mesmo sabia o que estava acontecendo, então, como ia explicar para Pete que era arriscado ele viajar?

— Vou sentir sua falta se você for viajar, Pete.

— Eu também vou, mas prometo te ligar todos os dias e comprar um presente bem legal para você!

Eu tinha voltado a me sentir mal. Meu peito doía, minha cabeça começava a pesar e minha boca salivava devido ao enjoo que eu começara a sentir.
Devia ser ansiedade e medo do que podia acontecer com Pete.

— Você está bem? — questionou Pete percebendo meu mal-estar.

— Estou sim! — menti forçando um sorriso. — Me conte mais sobre sua tia e seu primo?

Enquanto almoçávamos, Pete contou toda a história de sua família. Ele disse que seus pais e avós vieram como imigrantes da Ásia e, aos poucos, conseguiram trazer o resto da família para morar na América. A tia dele por parte de pai e esse primo que moram em Nova Iorque eram os únicos junto com Pete, a mãe e os irmãos mais novos dele que moravam nos Estados Unidos. Pete tinha mais parentes, mas eles optaram por morar na Argentina e no Brasil.
Pete deu muitos detalhes sobre o primo dele que mora em Nova Iorque. O nome dele é Nuri e, apesar de ser bem jovem, já é formado em administração. Ele trabalha em uma grande empresa de moda e confecções e vive chamando Pete para ir morar em Nova Iorque com ele.

Só depois de ouvir toda a história, entendi o motivo de ser tão importante para Pete essa visita. De qualquer forma, isso não a tornava menos perigosa.

Quando terminamos de almoçar, Pete e eu decidimos dar mais uma volta pelo shopping central. Haviam muitos eventos acontecendo naquele final de semana além de liquidações e queima de estoque das lojas.

Subimos de escada rolante até o quarto andar para olhar as vitrines. Entramos e provamos algumas roupas, mas não gostamos de nem uma delas. Pete quis provar alguns perfumes que tinha vontade de comprar, mas se arrependeu quando viu que os preços estavam salgados mesmo em liquidação. Pensei em comprar um presente para meu irmão Shawn quando passei por uma loja de roupas esportivas voltada para skatistas, mas lembrei que ele nunca usou o tênis que comprei em seu último aniversário.

A tarde com ao lado de Pete estava perfeita.

— Que tal descermos e procurarmos uma sobremesa? — propôs Pete assim que saímos de uma loja de sapatos.

— Sobremesa italiana?

— Sim! — exclamou ele animado. — Vi um tiramisù que parecia estar uma delícia.

Concordei com a cabeça e acompanhei ele até os elevadores do quarto andar. Pete estava feliz, sorria a todo instante e era notável que gostava da minha companhia. Aquilo era estranho, pois sempre me achei frio, rabugento e sério demais para fazer novos amigos. Também era notável a forma gentil e carinhosa que ele me tratava. Aqueles olhares, sorrisos e gentilezas pareciam ser de alguém que se importava realmente comigo.
Eu tentava retribuir os olhares gentis e carinhosos a fim de demonstrar meu interesse por ele, mas não sei se eu fazia aquilo da forma certa.
Eu queria tanto que ele soubesse tudo que sinto...

"Me desculpe" ecoou a voz do Pete em minha mente. "Te machuquei?... Eu não queria esbarrar em você".

— O que você disse? — questionei diretamente a ele.

— O que?!

— O que você acabou de dizer, Pete?

— Klay, eu não disse nada — respondeu ele antes de apertar novamente o botão do elevador.

Senti aquele arrepio gelado novamente.

— Talvez seja melhor irmos de escada, Pete.

— Mas o elevador acabou de chegar, Klay.

Naquele exato segundo, o elevador que esperávamos tinha chegado e quatro pessoas saíram dele. Pete segurou a porta com o braço e me olhou com aquele sorriso largo e especial.

— Vamos? — chamou ele.

— Err...

Entrei no elevador sentindo meu coração acelerar. Eu estava bem, meu corpo não estava doendo e minha cabeça não estava pesada. Eu não ouvia zumbidos, não estava sentindo tontura e nem aquela sensação de déjà vu. Eu também não tinha sonhado com nada trágico noite passada, então...
Devia ser apenas preocupação e paranoia.

O elevador era de vidro e dentro dele dava para ter a visão de todos os andares abaixo do shopping central. Segurei na barra de ferro e arqueei meu corpo para frente para olhar as barracas de comida italiana no piso térreo.

De repente...

— É uma bela visão, não acha? — perguntou Pete próximo a mim.

Dei um pequeno pulo de susto.
Pete estava tão perto que era possível sentir seu calor corporal.

— É sim — concordei suspirando.

A porta do elevador estava prestes a fechar.
Pete e eu estávamos sozinhos.

— Sabe, Klay... — murmurou Pete se aproximando um pouco mais. — Estou muito feliz por você estar aqui comigo hoje.

— Eu também — respondi controlando minha respiração.

A porta do elevador fechou fazendo um forte barulho ecoar naquele espaço. Pete avançou um pouco mais diminuindo o espaço entre nós. Senti nossos corpos encaixarem e a mão dele ir de encontro a minha cautelosamente.
Um arrepio prazeroso subiu por minha coluna.

— Correndo o risco de levar um grande soco na cara — disse ele ainda com aquele tom de bom humor. —, eu queria te dizer que...

E de repente, ouvimos um baque e sentimos um solavanco do elevador. A parede de vidro a nossa frente rachou, a sacola de compras que Pete segurava caiu no chão e o ar condicionado parou de funcionar.

— O que é isso? — questionou Pete.

— Droga! — exclamei colocando uma das mãos na cabeça. — Droga! Droga!

— Calma, Klay! — exclamou pete envolvendo os braços em minha cintura e me afastando dos vidros do elevador. — Está tudo bem!

— Eu não sonhei com isso — murmurei a mim mesmo.

— Não sonhou com o que? — questionou Pete preocupado. — Você precisa ficar calmo!

Outro forte solavanco balançou o elevador derrubando Pete e eu no chão. Era possível ouvir o barulho da parede de vidro rachando ainda mais.

Estava acontecendo de novo...

...

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