07 - Falsa Visão
Que sensação horrível!
Sem dúvida era uma das piores que já senti em minha vida.
— Ele está acordando — disse uma voz distante.
— Deem espaço ao garoto, por favor! — exclamou outra voz, porém um pouco mais próxima.
A luz estava incomodando meus olhos e minha cabeça não parava de doer. Eu sentia um gosto estranho na boca e um cheiro suave de fumaça.
Estava tudo girando.
— Eu vou leva-lo para um hospital — falou uma voz familiar.
— Não é necessário — murmurei.
Apertei os olhos e respirei fundo na tentativa de fazer meus sentidos voltarem ao normal. Meu corpo doía e aquele zumbido agudo e irritante em meu ouvido começava a cessar.
— Você desmaiou do nada e está muito pálido — disse a mesma voz familiar. — Eu estou preocupado, então acho que você deveria ir ao hospit...
— Eu estou bem, sério — afirmei.
Era ele.
Pete, o garoto oriental do sorriso lindo e do olhar gentil e generoso.
— Por que toda a vez que me encontro com você, alguma coisa acontece? — perguntou Pete sorrindo enquanto me olhava diretamente.
— Acontece? — ironizei.
— Você está me perseguindo? — questionou ele. — Pode continuar, eu deixo!
Pete pegou meu braço, envolveu no pescoço dele e aos poucos me ajudou a levantar.
Eu ainda estava no posto de gasolina da estrada cento e oitenta, o carro que estava sendo abastecido por gás não explodiu e todos a minha volta estavam bem.
Meu dever estava cumprido, mas...
Eu não me sentia nada bem.
— Peçam para terem cuidado ao abastecer aquele carro — murmurei enquanto caminhava pendurado no Pete.
— É um carro a gás.
— Pode ser perigoso.
— Não se preocupe, pois o dono já terminou de abastecer — disse Pete me levando até o carro dele. — Foi enquanto você estava desmaiado.
Então...
— E ele não explodiu?
— Explodiu? Como assim?!
— O carro a gás, ele...
— Carros a gás são bem seguros e econômicos.
Será que eu tinha errado?
Talvez, todo o estresse dos sonhos passados que envolviam acidentes com o Pete tenham me causado aquele pesadelo, mas...
— O que você faz aqui então?
Pete estranhou a pergunta, mas sorriu e respondeu:
— Colocando gasolina no carro, por quê?
— Não faz sentido — pensei em voz alta.
— Acho que vou ter que te levar para o hospital — falou Pete preocupado.
Ele deve ter achado que eu estava louco ou delirando depois do desmaio.
Qualquer um pensaria isso.
— Eu estou bem, é sério — reafirmei me soltando e me afastando do Pete.
Ele suspirou e fez uma expressão fofa de desapontamento.
— Pelo menos, desta vez, vou te dar uma carona.
— Não precisa, Pete.
— Você lembrou meu nome! — exclamou ele voltando a sorrir.
Por que o sorriso dele me causava um frio na barriga?
Que coisa estúpida.
— Eu tenho boa memória — murmurei.
— E o seu nome é Klay, certo?
— Sim.
— Impossível esquecer o nome do anjo que me salvou duas vezes.
Senti uma estranha vontade de sorrir e um calor esquisito aquecer meu peito. Foi muito rápido, pois a dor ainda era muito presente.
Parecia que eu tinha sido pisoteado por uma manada de elefantes.
— Eu preciso ir — murmurei antes de colocar a mão no estômago e tossir algumas vezes.
— Vou te dar uma carona, Klay — insistiu Pete. — Você apareceu correndo aqui no posto, começou a ficar pálido e gemia com as mãos na cabeça. O certo seria eu te levar para um hospital, mas como você não quer, não vou conseguir te deixar andando sozinho por aí.
E eu nem estava em condições para isso naquele momento.
O estranho é que um desmaio não deveria causar uma dor física e um desconforto tão intenso daquele jeito.
— Tudo bem, Pete — falei depois de suspirar. — Pode me dar uma carona?
— Será um prazer — respondeu ele voltando a sorrir.
Enquanto Pete dirigia, fiquei de olhos fechados e em silêncio para relaxar e para que as dores de cabeça e no corpo cessassem mais rápido. Eu já me sentia bem melhor fisicamente, mas mentalmente, eu estava exausto.
Sem falar na sensação fria e constante que me causava arrepios.
Será que eu estava ficando gripado?
— Onde você mora? — questionou Pete.
— Avenida duzentos e trinta — murmurei baixinho.
— Próximo ao campus da faculdade?
— A menos de três quilômetros do campus.
— Vou ligar o GPS, pois não costumo ir para essa região e...
O celular do Pete tocou.
Ele colocou o aparelho no suporte do carro sem tirar a atenção da estrada, atendeu a chamada e ligou o viva-voz.
— Eu sei que estou atrasado, mas tive um imprevisto.
— Eu preciso sair, Pete!
— Eu sei e peço mil desculpas por isso, mãe.
— Onde você está e o que está acontecendo?
Abri os olhos e tentei desviar minha atenção para Pete disfarçadamente. Ele percebeu, retribuiu meu olhar e sorriu de forma gentil.
Tive que retribuir o sorriso para não parecer grosseiro.
— Eu estava no posto de gasolina e encontrei um amigo que passou muito mal. Estou dando uma carona, pois ele não está em condições de ir para casa sozinho.
— Eu preciso sair em cinco minutos. Você quer que eu seja demitida?
— Claro que não, mãe.
Eu estava atrapalhando.
— Vou ver se a Sra. Watson pode ficar com seus irmãos enquanto você não está, mas é muita irresponsabilidade sua, Pete!
— Eu prometo chegar em quinze minutos.
— Corre!
A mãe do Pete encerrou a ligação.
Minha vontade era de pular para fora do carro.
— Eu estou te atrapalhando, não é? — questionei meio sem jeito. — Me desculpe...
— Você não me atrapalha, Klay — respondeu ele voltando a sorrir. — Você me salvou duas vezes e eu nunca fiz nada por você.
— E nem precisa fazer.
— Eu vou te levar pra casa bem rápido e volto para cuidar dos meus irmãos.
Por algum motivo, eu estava me sentindo péssimo de novo. Desta vez não por cansaço ou dor física, mas por um sentimento empático.
Pete ia morrer se eu não tivesse interferido duas ou talvez três vezes, mas...
Ele tinha família.
Mãe e irmãos que o esperavam e precisavam dele.
— Quantos irmãos você tem?
— Três! Duas meninas gêmeas de seis anos e um garotão de dois.
— E você cuida deles para seus pais? Que bacana!
— Na verdade, só para a minha mãe — disse Pete apertando os lábios como se aquele assunto o chateasse. — Meu pai faleceu antes do meu irmão mais novo nascer.
Senti meu coração falhar e aquele sentimento empático varrer meu corpo de cima à baixo.
— Desculpe, eu não queria entrar em um assunto tão chato.
— Tudo bem, Klay — disse Pete voltando a sorrir. — A morte é só mais um caminho que todos nós teremos que seguir.
Senti novamente aquele aperto no peito.
— Você acha que encontrará seu pai neste caminho? — questionei.
— Acho — respondeu ele desviando o olhar para mim por um segundo, balançando a cabeça positivamente e voltando a atenção para a avenida. — Ele dizia que estamos de passagem e que todos nós temos a nossa hora de partir.
— É uma boa teoria.
— Eu compartilho da mesma ideia, Klay.
Justamente naquele momento, Pete parou o carro quando o semáforo fechou. Ele voltou a desviar a atenção completamente para mim.
— Minha mãe tem dois empregos e eu tive que largar tudo para cuidar dos meus irmãos — continuou ele. — Creche e babá são caros demais e, mesmo que eu trabalhasse para ajudar a pagar, não daria com todas as dívidas e contas que nosso pai deixou. Sorte que ele deixou este carro e uma boa casa para morarmos.
— Sua mãe trabalha de quê?
— Ela faz turnos como enfermeira e, quando não está de plantão, trabalha como garçonete em um restaurante. Ela não tem horários fixos e tem dias que eu quase não a vejo.
— Você não tem outros parentes? Tios, primos ou alguém que possa ajudar?
— Tenho, mas eles não moram perto.
Pete e eu nos olhamos em silêncio por um breve momento. Eu queria mostrar todo meu apoio e admiração pela história dele, mas não sabia como fazer isso. Eu não parava de pensar em como seria injusto se Pete tivesse morrido como nos sonhos que eu tive. Como aquilo impactaria a vida daquela família e como os irmãos mais novos dele sentiriam sua falta.
Aquela família seria completamente destruída.
— Você é incrível, Pete — murmurei.
Ele sorriu mais uma vez daquele jeitinho fofo e gentil.
— Você que é incrível, Klay — disse ele. — E é meu anjo da guarda, não esqueça!
O semáforo abriu. Pete voltou a olhar para frente e acelerar o carro. Suspirei, fechei os olhos e apertei as mãos em punho para tentar espantar aquele sentimento de medo de uma vez por todas.
Tudo estava bem.
Pete voltaria para casa, encontraria sua família e cuidaria dos irmãos por muitos anos. Um dia, ele terá os próprios filhos, seus irmãos serão gratos e sua mãe não terá que trabalhar tanto, pois a luta terá valido a pena.
O sonho que tive aquela tarde foi apenas uma reação aos sonhos passados.
Tinha que ser assim!
Eu precisava acreditar e me apegar fortemente a isso.
Pete estar naquele posto de gasolina foi sim uma premonição, mas aquele cilindro de gás não ia explodir e ele não morreria esta tarde.
Ele não vai mais morrer.
Bom... Não tão cedo, espero.
Não era a hora dele.
Não podia ser.
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