06 - Imprecisão
Eu já nem lembrava quando foi a última vez que me senti tão bem-disposto, animado, sem dores de cabeça ou sonolência. O dia estava lindo e ensolarado. Meu pai me levou de carona para a faculdade enquanto eu ouvia minha playlist do "Panic! At The Disco" e estudava a nova matéria que entraria esta semana no curso de direito.
— Psicologia Jurídica? — questionou meu pai.
— É uma nova matéria que vai entrar no curso esta semana.
— É bom ver que você está estudando, se esforçando e trilhando o caminho que queria seguir, filho.
Na verdade, eu nunca quis fazer aquele curso.
Meus pais me obrigaram.
— Eu estava pensando em fazer outro curso quando me formar.
— Vai fazer especializações? Vai querer se tornar um juiz?
— Na verdade, eu gostaria de tentar algo diferente como biologia, veterinária ou ecologia.
Meu pai gargalhou.
Estávamos entrando no campus da faculdade naquele exato momento.
— Que bobagem, Klay! — bufou ele. — É uma piada, não é?
— Talvez não seja.
— Sua mãe e eu somos peões ignorantes e queremos que você e seu irmão tenham tudo que não tivemos. Shawn é um pouco rebelde, mas é só uma fase, pois tenho certeza que ele vai escolher direito, medicina ou administração.
Eu não ia começar uma discussão, pois sei muito bem que não resolveria nada. Meus pais não costumam ouvir o que meu irmão e eu queremos, pois para eles, somos crianças e não sabemos nada sobre o mundo lá fora.
Éramos superprotegidos e sufocados por eles.
— Eu tenho que ir — resmunguei tirando o cinto de segurança assim que meu pai estacionou na frente da entrada do prédio de direito. — Tenha um bom dia, pai.
— Te pego aqui às três?
— Sim, por favor!
Assim que saí do carro, avistei meus amigos Tyler e Sue caminhando em direção a entrada do prédio. Eles notaram minha chegada, acenaram e fizeram sinal para que eu me juntasse a eles.
— Hey, garanhão! — chamou meu pai antes que eu desse o primeiro passo.
Virei para ver o que meu pai queria torcendo para que ninguém tivesse ouvido ele me chamar daquilo.
— Sim?
— Quem é aquela gatinha que está acenando para você?
— Pai...
— Por que você não a leva para jantar na nossa casa qualquer dia.
— Ela é só uma colega da faculdade.
— Começa assim — falou ele abaixando o vidro, buzinando e acenando para meus amigos. — Eu comecei a namorar com sua mãe no colégio.
— Tchau, pai!
Me recusei a continuar ouvindo, pois todo aquele discurso de como um homem deve agir com uma mulher me incomodava profundamente. O pior de tudo é que eu sabia que meu pai não me deixaria em paz até saber tudo sobre a Sue e o Tyler.
A volta para casa com ele naquele dia seria longa e estressante.
As primeiras aulas foram tranquilas e o almoço com Sue e Tyler foi muito divertido. Tínhamos tirado uma boa nota no trabalho da semana passada e combinamos de estudar a nova matéria para os próximos trabalhos que estavam por vir. Apesar de eu estar mais disposto e animado, a preguiça e o tédio me pegaram nas últimas aulas do dia. Aquelas matérias eram chatas, os livros e o conteúdo me irritavam e eu estava começando a ficar sonolento.
Sue estava sentada mais a frente da sala com uma garota que eu não conhecia. O professor explicava no projetor um caso real sobre uma família que fora assassinada no verão passado. Tyler estava a meu lado, mas a julgar por sua expressão, ele estava tão entediado e desinteressado quanto eu.
Meus olhos queriam fechar.
Senti meu corpo ficar pesado, minha boca querer bocejar...
— No dia que você deu cano, a Sue disse com todas as letras que gosta de você — sussurrou Tyler.
— Não inventa história, okay?
— É sério, Klay. A Sue está afim de você, cara.
O professor olhou para Tyler e eu quando percebeu a conversa. Sorrimos e disfarçamos para que ele não chamasse nossa atenção.
— Eu não vou ficar com a Sue, Tyler. Ela é nossa amiga. Amigos não ficam uns com os outros — sussurrei o mais baixo que consegui.
— Claro que não, pois quando ficam, deixam de ser amigos e se tornam namorados.
— Cala essa boca.
— Klay, você não gosta de ninguém?
— Não preciso gostar de alguém para viver, Tyler. Nem tudo gira em torno de gostar de alguém, ficar com alguém...
E fomos pegos.
— Os rapazes aí no fundo querem vir aqui na frente explicar a matéria? — perguntou o professor.
— Estamos justamente discutindo sobre a matéria, professor! — mentiu Tyler.
— Ótimo, ótimo! Por favor, compartilhe conosco — falou o professor antes da sala inteira voltar a atenção para Tyler e eu. — No caso do Estado contra Michael Brown, qual foi o actus reus?
Tyler arregalou os olhos e tentou desviar a atenção para o livro aberto na frente dele.
Meu amigo não fazia a menor ideia da resposta.
— Estamos esperando, Sr. Tyler Porter! — insistiu o professor.
— Asfixia por enforcamento, professor — respondi.
— Muito bem, Sr. Nivans! E qual foi a mens rea, Sr. Porter? — perguntou o professor. — Será que você é capaz de chegar a uma resposta tão fácil quanto essa?
Tive que escrever a resposta rapidamente no livro para que Tyler e eu não nos encrencássemos com o professor.
— Matar a vítima? — perguntou Tyler depois de ler o que eu tinha escrito.
— É uma pergunta, Sr. Porter?
— É minha resposta, professor.
— Está correto — resmungou o professor. — Tente ouvir mais e falar menos na minha aula, por favor.
Aquela passou muito perto e olha que estávamos apenas no começo das últimas aulas.
Tínhamos mais três horas pela frente...
– 03 –
Bocejei, cocei meus olhos fechados e estiquei os braços para espantar a preguiça.
Espere!
Como vim parar neste lugar?
Eu estava na sala da faculdade com um dos professores mais chatos que tenho no curso e...
Claro! É outro sonho. Devo ter adormecido enquanto ouvia a explicação do professor. Espero que Tyler perceba e me acorde logo, pois se o professor suspeitar que eu...
— Obrigado e volte sempre! — disse uma voz estranha.
— Obrigado — respondeu uma voz familiar.
É um posto de gasolina?
Um posto de gasolina ao lado de um McDonald's?
Com certeza eu sempre passaria pelo drive thru.
Por que minha cabeça começou a doer de novo?
— Estou voltando para casa, não se preocupe — disse a mesma voz familiar. — Eu já comprei os remédios, o leite e o jantar desta noite.
Pete?
Não é possível!
— Hey, Pete!
— Não vou demorar, prometo.
— Você lembra de mim? Sou eu, Klay!
Tem alguma coisa errada.
Por que Pete não consegue me ouvir?
Será que ele está me ignorando?
— Hey, Pete! — insisti em chama-lo.
Pete abriu a porta do carro, colocou a sacola que estava segurando no banco de trás e apertou o botão da chave para abrir o porta malas. Tentei me aproximar, mas a dor de cabeça começou a ficar mais forte e estava acompanhada de um zumbido alto e insuportável em meu ouvido.
Não!
Isso não pode estar acontecendo de novo.
— Pete! — gritei.
Ele não me responde.
Será que ele consegue me ver?
Nos sonhos, eu sempre consigo interagir com as pessoas. Já interagi diretamente com Pete quando ele foi baleado naquela avenida.
Ele esbarrou em mim. Ele falou comigo!
Este sonho está diferente...
— Rapaz, você pode me ajudar? — pediu um senhor ao lado de um carro.
— É comigo? — questionou Pete antes de chegar no porta malas.
— Sim, por favor...
Se este sonho está diferente, não deve ser nada grave. Não é possível que seja outra visão do que está para acontecer.
Pete estar neste sonho deve ser apenas uma coincidência, então...
— Este carro é novo e eu nunca abasteci o cilindro de gás — disse o senhor. — Você pode dar uma olhada nele enquanto vou até a loja de conveniência? É só um minutinho.
— Meu carro não é a gás, senhor — falou Pete sorrindo e coçando a nuca.
— Não se preocupe — insistiu o senhor. — Você só precisa ficar de olho no cilindro. Quando ele chegar ao noventa, você fecha o registro para que pare de abastecer.
— O senhor tem certeza? — questionou Pete.
— Sim, claro! — exclamou o homem apertando a mão do Pete amigavelmente. — Eu volto em um minuto.
Pete é tão educado.
O sorriso dele é muito bonito e ele tem um olhar tão gentil e generoso. Não é qualquer pessoa que para o que está fazendo para ajudar uma pessoa...
Espere!
De novo aquela sensação.
Aquele frio, aquela dor de cabeça...
E de repente, uma explosão.
(...)
— Klay — sussurrou Tyler para me acordar.
— NÃO! — gritei.
Meu grito ecoou pela sala do curso e, imediatamente, todos desviaram a atenção para mim. O professor me encarou de uma maneira nada amigável.
— Sr. Klay Nivans — resmungou ele.
— Me desculpe, professor.
— Pode nos dizer qual é o seu problema?
— Eu acabei de...
Olhei em volta.
Eu não fazia a menor ideia do que dizer.
— Acabou de quê, Sr. Nivans?
— Acabei de perceber que este crime está me deixando muito triste, enojado e eu peço sua permissão para ir ao banheiro.
— Como é que é? — questionou o professor confuso.
— Eu quero vomitar, professor.
Ouvi risos e cochichos, mas não me importei.
— Vomitar? — repetiu o professor.
— Klay, você está bem? — perguntou Tyler me encarando estranhamente.
— Não estou bem — falei decidido. — Eu preciso ir ao banheiro, vomitar!
Peguei minhas coisas, soquei na mochila de qualquer jeito e a coloquei nas costas antes de levantar e caminhar em direção a saída da sala. Não me importei com os olhares e risadas dos meus colegas.
Pete podia estar em perigo.
De novo!
Tirei meu celular do bolso enquanto corria pelos corredores do prédio de direito. Pesquisei no Google os McDonald's da região e qual deles tinha um posto de gasolina ao lado.
Encontrei três postos de gasolina nos resultados.
— Merda! — resmunguei antes de tropeçar e quase cair.
Aquele sonho foi diferente. Eu senti as dores de cabeça, os zumbidos no ouvido, aquela sensação gelada e apavorante...
Mas por que não consegui falar com o Pete desta vez?
Procurei o número do celular do meu pai na agenda. Cliquei no nome dele para efetuar a chamada...
— Oi filhão! — exclamou ele do outro lado da linha assim que atendeu.
— Você sabe algum posto de gasolina que tenha abastecimento de carros a gás e que fique ao lado de um McDonald's?
— Você não deveria estar em aula?
— O professor nos deu uma pausa e estou precisando desta informação, por favor!
— Para que?
— Pai, por favor!
Eu não fazia ideia de quando o que eu tinha sonhado ia acontecer. O desespero e a ansiedade começaram a me sufocar.
— Quase todos os postos de gasolina hoje em dia têm abastecimento a gás, filho.
— É um posto relativamente pequeno, localizado em uma avenida pouco movimentada e com o drive thru de um Mc'Donald's bem em frente.
— A fachada dele é amarela ou vermelha?
Eu não tinha reparado nisso.
Droga!
— Amarela, eu acho.
— Se for amarela, provavelmente é o posto de gasolina da avenida cento e oitenta.
— Cento e oitenta? Ok!
— Se for vermelha, é da avenida vinte e três, mas fica do outro lado da cidade.
Ferrou!
Se eu errar, Pete morre.
— Obrigado, pai.
— De nada, filhão! Vou te buscar daqui há duas horas.
— Okay.
Eu não podia esperar mais.
Avenida vinte e três ou cento e oitenta?
...
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