05 - Condões

Foram aproximadamente três horas de viagem até uma pequena cidade do interior do estado. Meus pais tinham nascido e se apaixonado nela antes de decidirem voar mais alto, casar e mudar para uma cidade mais movimentada.
Quando meu irmão Shawn nasceu, eles até tentaram voltar para esta cidade pequena e ficar um tempo com a minha avó, mas meu pai sempre quis as melhores escolas e oportunidades para meu irmão e para mim, então, essa tentativa não funcionou.

Minha mãe visitava minha avó uma vez a cada dois meses. Quando Shawn e eu entravamos de férias, vinhamos com ela e passávamos quase todas as tardes em um lago que fica bem próximo a casa da minha avó.
Apesar de terem um bom relacionamento de genro e sogra, meu pai não gostava de passar os dias na casa da minha avó. Segundo ele, a cidade era monótona, as pessoas eram chatas e ele disse que quando era mais jovem, seu maior sonho era ir embora daquele lugar.
Minha mãe também nunca gostou da cidade, mas como minha avó não quis se mudar, ela era obrigada voltar de tempos em tempos para visita-la. Minha mãe compartilhava dos mesmos pensamentos do meu pai, mas ressaltava o desconforto que tinha no misticismo e crenças do lugar.

Assim que chegamos e estacionamos o carro na frente da casa, minha mãe tomou a frente e foi conferir a caixa de correio para pegar a correspondência acumulada dos últimos meses.

— A vizinha deve ter guardado a correspondência — disse minha mãe. — Pedi a ela que olhasse e não deixasse acumular até eu vir buscar.

— Quer que eu vá falar com ela? — questionou meu pai.

— Por favor, querido — respondeu minha mãe aparentemente chateada.

O clima já estava pesado desde o momento que entramos na cidade. Aquele era um momento muito difícil para a minha mãe.
Na verdade, para todos nós.

— Meninos — sussurrou meu pai. — Fiquem com a mãe de vocês o tempo todo, certo?

— Claro — respondi.

— Eu gostaria de visitar o lago — resmungou Shawn.

— Talvez outro dia, Shawn — disse meu pai ainda sussurrando. — Hoje vocês precisam ajudar a mamãe em tudo que ela precisar. A morte da vovó foi muito dura para ela.

Shawn revirou os olhos.

— Elas brigaram, não é? — questionei.

— Sim.

— Por que elas brigaram? — questionou Shawn.

Meu pai foi pego de surpresa com aquela pergunta. Ele olhou para minha mãe para ter a certeza de que ela não estava ouvindo nada enquanto conferia a pouca correspondência que tinha dentro da caixa de correio.

— Sua avó dizia que era vidente, sensitiva ou algo assim — sussurrou meu pai entortando a boca enquanto explicava. — Segundo a mãe de vocês, a vovó falou que sabia que ia morrer em breve.

Senti minha barriga gelar.

— Como assim? — questionei.

— Klay, é melhor não falarmos sobre isso agora — murmurou ele. —, mas este foi o motivo de sua mãe ter ficado tão chateada com a sua avó. Nunca acreditamos nos dons que ela dizia ter, mas quando sua avó morreu, sua mãe se arrependeu de não a ter ouvido.

Meu irmão fez a mesma careta que meu pai tinha feito enquanto explicava os motivos da briga.

— E agora ela acredita nessa maluquice? — questionou Shawn.

— Não exatamente — continuou meu pai. —, pois a mãe de vocês acha que a vovó estava doente e que escondeu isso da gente. Sua mãe e eu nunca acreditamos neste papo de visões, sensações, conversas com entidades divinas...

O assunto teve que ser encerrado, pois minha mãe tinha terminado de conferir a correspondência que estava na caixa do correio.

— Vamos entrar?! — chamou ela.

— Vá na frente, querida — respondeu meu pai. — Eu vou na vizinha para perguntar da correspondência.

Minha mãe assentiu, virou e caminhou em direção a porta de entrada para abrir a casa. Meu pai voltou a olhar para Shawn e eu, ergueu as sobrancelhas e suspirou profundamente antes de dar as costas e avançar em direção a próxima casa da rua.

Aquela história me pegou de surpresa. Eu não fazia ideia que minha avó era sensitiva, vidente ou que tinha outras habilidades do gênero. Claro que foi impossível não pensar imediatamente nos sonhos premonitórios que tive. Se eu não tivesse passado tudo que passei com aquele garoto oriental naquela semana, talvez nem eu teria acreditado nesta história da minha avó.
Mas não havia outra explicação.

— Shawn! — O chamei enquanto caminhávamos em direção a casa.

— O que foi?

— Você não acredita mesmo na história que nosso pai contou sobre a vovó?

— E eu deveria acreditar?

— Você adora filmes de ficção, premonições, fantasmas...

— São apenas filmes, Klay!

Shawn quase começou a rir, mas teve que se conter quando viu que nossa mãe estava nos esperando na frente da casa.

— A vovó era maluca e você sabe — sussurrou ele.

— Ela era excêntrica, mas não era maluca — afirmei.

— Se você está dizendo...

Não continuamos com aquele assunto para não chatear nossa mãe mais do que ela já estava. Era visível o quanto ela ainda estava abalada com a morte da vovó...
E eu queria muito poder fazer alguma coisa para conforta-la.

Passamos a manhã toda e parte da tarde limpando a casa. Meus pais arrumaram todo andar de cima e deixaram que Shawn e eu cuidássemos da sala, cozinha e do banheiro que tinha no andar de baixo.
Antes de terminarmos todo o trabalho, meu pai avisou que não íamos passar a noite lá como tínhamos combinado. Ele não se importava em dirigir para casa durante à noite, pois queria muito assistir um jogo de futebol internacional que passaria na TV aberta.

Minha mãe não engoliu aquela história...

— Seu pai não quer passar a noite aqui porquê acha que minha mãe era louca — murmurou ela enquanto colocava algumas coisas da vovó dentro de uma caixa.

— Ele disse isso?

— Não, Klay — respondeu ela forçando um sorriso. — Mas eu vi a cara que ele fez quando viu com o que ela trabalhava.

Eu estava parado ao lado da porta do quarto da minha avó. Em cima da cama, estavam fotografias, livros, baralhos, pedras coloridas e muitos objetos que eu não fazia ideia do que eram ou para que serviam.

— Com o que a vovó trabalhava?

— Adivinhações, leitura de cartas e outras coisas que não entendo.

— Isso é tão comum, não é?

Minha mãe balançou os ombros e suspirou antes de começar a chorar. Eu não queria perturba-la com minhas perguntas, mas eu precisava saber mais...

— Você sabe como o seu pai é antigo, Klay — disse minha mãe. — Ele não reage bem a nada que fuja do tradicional.

— Não vejo nada demais em ler cartas, adivinhar o futuro...

— Mas o seu pai vê e diz que esta casa, esta cidade e minha mãe são péssimas influências para vocês.

Suspirei.
Entrei no quarto, caminhei até a cama e peguei uma das pedras coloridas da minha avó. Era possível sentir um suave calor emanando dela, mas não me atrevi a falar sobre isso com minha mãe, pois tive medo de chateá-la.

Olhando os objetos que minha mãe guardou na caixa que levaríamos para casa, encontrei um livro que chamou muito a minha atenção...

— O poder dos sonhos e seus significados — murmurei o título quando peguei o livro nas mãos.

— Sua avó adorava ler esses livros e sempre me contava os significados dos meus sonhos — falou minha mãe sorrindo enquanto limpava as lágrimas do rosto.

O livro era grosso, tinha a capa dura e parecia ser muito antigo por conta das manchas brancas e bordas comidas por traças.
Eu queria muito lê-lo.

— Será que eu posso ficar com ele? — questionei.

Minha mãe sorriu novamente, balançou a cabeça positivamente e levantou para me abraçar.

— Claro que pode! Sua avó ficaria muito feliz em saber que você ficou com um dos livros que era dela. O Shawn não se interessou por nada desta casa.

— A vovó era uma pessoa muito legal, mãe — falei retribuindo o abraço. — E eu sei que ela nos amava muito.

Minha mãe não respondeu.
Acredito que aquele momento significava muito para ela.

— Passei férias aqui poucas vezes, mas sempre que vinhamos, a vovó sempre fazia pizza caseira, biscoitos amanteigados e suco de cereja.

Minha mãe voltou a sorrir.

— Sim! Aquele suco horrível de cereja.

— Ah, não! Até que era gostoso.

— Seu irmão odiava e sempre jogava a jarra toda fora quando ela não estava olhando.

— E depois fingia que tinha bebido tudo, mas não adiantava nada...

— Sim, pois ela achava que ele gostava muito e fazia outra jarra cheia de suco.

Ainda abraçados, minha mãe e eu não conseguíamos parar de rir daquela história clássica do suco de cereja da minha avó. Eu estava feliz por ter levantado pelo menos um pouco o humor dela, pois aquele dia estava sendo muito difícil.

— Se preparem, pois sairemos em dez minutos! — exclamou meu pai do lado de fora do quarto.

— Já vamos! — respondeu minha mãe.

Ajudei minha mãe a terminar de arrumar os objetos que estavam em cima da cama da minha avó. Guardei os livros que ela não ia levar na prateleira, as pedras em uma caixa que minha mãe tinha separado para guardar no armário e outros artigos de decoração no criado mudo, na escrivaninha e na mesinha de canto.

— Quer que eu guarde, Klay? — perguntou minha mãe pegando o livro de sonhos.

— Por favor, obrigado!

— É melhor deixar dentro da caixa que vamos levar, pois se o seu pai ver este livro, vai querer joga-lo fora.

Concordei.

Era possível que aquele livro tivesse pistas, informações e até respostas dos meus sonhos lúcidos e premonitórios. Depois que descobri a história dos dons da minha avó, minha vontade em saber mais e procurar uma resposta para tudo que eu estava passando só aumentou.

Não era coincidência, eu sei que não era...

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