Não se preocupe

Novamente ele corria de um lado para o outro, muito agitado e histérico. Ele repetia inúmeras vezes várias palavras com aquele seu sorriso besta na cara, forçando uma voz idiota. Eu não odiava aquilo.

Por vezes ele parecia tentar ganhar minha atenção. Ele me chamava. Eu sabia muito bem que aquele repetido “Killie” era o meu suposto nome. Eu o fitava curioso, contudo, permanecia imóvel, nisto ele se cansava e vinha até mim. Acariciava o meu crânio, minhas orelhas, meu pescoço... ele sempre foi bom nisto.

Como de costume ele coloca minha comida na tigela vermelha. Eu corro ao ouvir soar o barulho rotineiro da ração colidindo com o plástico. Seca, porém saborosa. Além de estar em uma quantidade anormalmente grande. Talvez sua mão tivesse escorregado. Ele me acaricia enquanto devoro aquelas formas geométricas. Seu rosto emitia um brilho tão gostoso quando o do sol. Ele então agarra minha tigela com água, lavando e enchendo-a de uma mais limpa.

Com isto ele parte, como todas as manhãs. Ele segue para o mundo além da porta de madeira. Todo arrumado e com uma maleta escura. Mas antes não se esquece de me acariciar novamente. Dizendo-me possivelmente uma breve despedida. Por segundos eu encaro aquela coisa bloqueadora em formato retangular, esta que eu já arranhei algumas vezes em busca de liberdade. Contudo ela permanecia estática, e eu permanecia preso. Não que isso me incomodasse de qualquer forma.

Eu apenas volto para meus afazeres, estes sendo dormir, comer, alongar e, raramente, caçar algum azarado rato ou inseto que adentre meu território.

Mais tarde, ouço alguns barulhos metálicos perto da porta, avisando-me do seu retornar. Eu me acomodo pacientemente, sentado na sua frente, esperando o movimento do retângulo. Este se abre. Fazendo com que eu seja empanturrado de mais carícias. Estas seguidas de mais comida. A tão aguardada refeição noturna. Estou satisfeito.

Aparentemente comi mais que o devido. Logo fui para cama mais cedo. Acordando novamente em outra manhã. Contudo algo estava errado. Eu não o via em nenhum lugar. Já não conseguia ouvir o tremor de seus paços. Muito menos o cheiro poeirento daquela comida padrão. Eu farejei seu cheiro até um cômodo isolado. Era lá que ele sempre dormia. Um pouco acima do solo. Em um local muito macio.

Ele parecia estar lá no topo. Nisto eu escalo em um salto. Ele permanecia deitado. Vestindo a mesma veste cinzenta que ele havia usado no dia anterior. Eu me aproximo de seu rosto e o cutuco com minhas patas. Sem resposta. Ouso então lamber seu nariz algumas vezes. Nada. Por fim eu pulo e fico em cima de seu corpo. Ele estava frio. Muito frio.
Eu o encaro e mio algumas vezes o seu nome. Ele permanecia parado. Frio. No fim, eu apenas falo para ele não se preocupar, pois eu iria esquentar ele agora.

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