O Trem da Vida

A morte para alguns significa caminhar ao econtro da eternidade, ter o corpo transformado e andar com Deus em um plano lindo e repleto de paz, para outros é o passaporte para a verdadeira vida. Alguns dizem que morreremos apenas uma vez e que seremos divididos e outros afirmam que iremos para uma Terra Pura sem se preocupar com inferno ou condenação divina. A morte sempre foi a certeza da humanidade. Para muitos a única certeza. Para muitos outros a razão de levar uma vida regrada e desenvolver um amor incondicional, se bem que com muitas condições, ao Criador.

Muito se fala do que de fato é o ato de morrer e que após o apagar das luzes, o show termina, e por incrível que pareça tem uma música do Queen que eu escutava com meu pai, que me faz realmente entender o que era a morte para àqueles músicos geniais que eu adorava. Não sei ao certo no que você que me lê acredita. Mas eu estava pronto para dar fim a minha vida, quando me deparei com alguém que me fez entender que eu tinha muita coisa para fazer. Quando a gente pensa em suicídio ou em abandonar os nossos. A gente não abraça a morte, porque desde sempre à encaramos como um ser místico de capuz e instrumentos em suas mãos. A foice é um peso. E para mim, a minha vida me intoxicava em tormentos, ninguém decide morrer por amar a morte, mas sim por temer em demasia o que lhe espera. E foi nesse pensamento que decidi pegar um trem e ir me despedir do meu melhor amigo e terminar com a minha vida. Eu sempre fui muito de fazer tudo pelo certo. Estava decidido a sair daqui, deixei uma pequena carta em cima da mesa me despedindo de meu filho, ele já era adulto, mas as vezes ia me visitar, as vezes quase nunca, mas sempre me dizia que se esforçava por isso, então fui forçado aceitar que eu era o seu esforço e não o seu lamento. Sempre romantizei o meu adeus desse mundo com o clássico Caronte me levando por Veneza e me deixando nos braços de Hades. Era horripilante o fato de eu não poder beber naquele espaço, mas também tinha a opção de que não poderia ter mais nada. E que após a minha morte tudo de fato seria uma escuridão profunda e um sono eterno. Me sinto um clichê jovial de pessoa que está chateada com a vida e deseja morrer por isso. Porém eu estou cansado. Tem aqueles momentos que as piadas de hora extra que meus vizinhos viviam repetindo, faziam sentido. Mas enfim. Fui até onde eu pegava o trem, e entrei. Olhando para a paisagem comecei a entender o porquê de eu estar naquela situação. Mas a decisão já havia sido tomada. Quando uma mulher sentou ao meu lado. Ela era linda. Cabelos bem escuros e pele branca similar ao floco de neve. Eu olhei, mas sem interesse voltei os meus olhos para a paisagem quando ela me deu um oi, eu fiquei estranhando porém eu lhe retribui o seu oi com um sorriso meio mal calculado, parecia o início de um derrame. Tá desculpe, adoro fazer uma piada com minha condição física. Ela olhou bem nos meus olhos e disse:

- Você está bem? Eu não sei ao certo o porquê, porém eu senti que deveria dizer a verdade.

- Estou passando por momentos difíceis. A sensação de estar aqui por mais tempo do que eu deveria me consome.

- Eu não diria isso Richard - foi nesse momento que eu fiquei me perguntando como ela sabia meu nome. E então eu perguntei. E ela me disse quem ela era. E não. Ela não era Caronte.

- Eu sou uma amiga, eu gosto da sua companhia, Richard. Mas tem outras pessoas que gostam mais dela do que eu. A morte é uma boa escolha. Mas existem outras? Ou eu estou errada?

- Querida, folhetos religiosos não me impressionam mais.

- O que é isso, Richard ? - Ela tocou numa cicatriz que eu tinha no peito. Adorava deixar minha camisa social com os dois botões de cima abertos. Mania de idoso, será?

- É a cicatriz de uma cirurgia, tem um momento na sua vida que você vira um pneu cheio de remendos. Mas não é por eles que quero sair de onde estou é pelos remendos que tive que fazer na alma, se é que isso é possível.

- Você quer sair ou fugir? Sair é olhar para onde está e decidir ir a outro. Fugir é correr por medo de não suportar estar no lugar aonde está.

- Eu preciso fugir, desde que minha esposa morreu. Eu tenho andado só. Dias e dias.

- Você não está só, Richard. Não digo no fato de estar de fato sozinho, porque eu sei que você está. Mas digo, olhe para esse trem o que vê?

- Vejo uma moça rindo com o seu bebê e no lado oposto vejo um casal apaixonado. Todos têm alguém.

- A moça está sorrindo mesmo? Olhe com cuidado e sem julgamentos.

- Ela está chorando!

- Ela é mãe solteira, Richard. Seu marido sofreu um grave acidente e não voltou pra casa, ele saiu desse plano. Ele não fugiu.

- E quanto ao casal? A moça pode ter perdido o marido mas tem o seu filho. Certo?

- Richard, você não entendeu. Não estamos falando sobre o que temos e sim sobre o que perdemos. Você quer fugir pelo que perdeu e não pelo que tem. E o casal apaixonado, não é tão apaixonado assim, Richard. A garota o traí com a maioria dos amigos dele. Se fosse você, fugiria ou iria para algum lugar?

- Eu iria para algum lugar. Certo? Ele é novo. Tem muitas decepções para acumular.

- O que mais me incomoda nos humanos é que eles não se ouvem. Decepções para acumular. Você já acumulou todas que você podia?

- Talvez sim. Sou velho e preciso descansar. Fugir é uma boa opção quando se está assim.

- Uma vez um jovem rapaz saiu de casa e decidiu conhecer o mundo, ao longe encontrou um sábio que o disse. Viver é dar vida aos outros, mas não depender dos outros. Este rapaz pensou em procriação, era o normal nessa juventude. Então ele saiu a procurar por alguém que ele amasse. E não encontrou a mulher para que ele pudesse dar vida a alguém. Porém em uma das duas caminhadas ele encontrou um jovem caído, acabara de ser assaltado e estava muito ferido. O ajudou, levou para um lugar aonde trataram dele e o jovem pagou por todo o tratamento. Ele saiu do lugar em que estava. Quando viu o homem que ele tinha salvado correndo para o abraçar e o agradecer. E ele disse "obrigado por ter me dado a vida" foi aí que tudo fez sentido para o jovem.

- Você está dizendo que eu tenho uma espécie de missão?

- Você tem uma espécie de Missão. Todos temos. Mas gosto da sua.

- E qual seria?

- O peso de ser abandonado é duro, ainda mais quando você sente que essas correntes foram colocadas por quem você mais ama. Mas sabe, Richard você tem as chaves.

Foi quando a moça bonita tirou de um dos seus bolsos uma chave de ouro. E me deu. Eu realmente me senti importante. E ela me abraçou em seguida. E me disse as seguintes palavras

- Você não está sozinho nesse trem, nem na sua rua, nem aonde você for. Porque quando há mais de duas pessoas sozinhas em um ambiente elas de fato não estão só. Estão juntas.

Eu chorei. Chorei como se fosse um garoto de 8 anos. Eu chorei muito, mas não pela saudade de meu filho ou minha esposa. Mas pelo abraço que eu não recebia há tanto tempo. Foi quando decidi sentar ao lado da moça que estava com o bebê e começamos a Conversar. Ela olhava pra mim com muito receio, porém quando entendeu minha missão, conseguimos ter uma conversa cheia de risos. Verdadeiro riso.

Aquela moça que eu conversei recebeu a vida que eu tinha acabado de ganhar. Porém eu não estava sem. Por isso que eu adoro essa matemática doida do altruísmo.
E quanto a moça que eu tenho certeza que era a dona Morte? Ela se foi. E nunca mais a vi. Até agora. Em que ela está ao meu lado me ajudando a redigir isso. Hoje tenho 95 anos e chegou o dia da minha morte. Hoje passarei por Veneza e encontrarei o meu amor. Mas antes precisava lhes dizer que no trem da vida eu encontrei a morte e ela me deu vida. Dar vida é importante não apenas por quem recebe, mas para quem doa também.
Adeus meus amigos!

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