Asaph Sawyer
Foi aqui que tudo começou, um dia como outro qualquer. Minha avó dizia que os espíritos podem estar em qualquer lugar, em qualquer momento, e isso a causava fascínio, mas ainda mais pavor. Que devemos respeitar todas as crenças e que não podemos em hipótese alguma desrespeitar quem já esteve nesse mundo. Porque a cobrança é grande. Sempre ouvi esses comentários muito atento e com muito medo quando criança, porém após alguns anos da repetição das palavras e por saber da esquizofrenia de minha avó, a magia das palavras se perderam. O costume antigo de olhar embaixo da cama e dentro do guarda-roupa perdeu toda a caracterização pra mim. As histórias de minha avó estavam morrendo com ela e quando de fato ela morreu ela deixou pequenas frases que não haviam sentido algum e um nome esquisito no meio do texto, parecia ser um alerta. Mas pobre senhora, nem nos momentos mais íntimos de sua vida, os seus demônios a deixaram de atormentar.
Falava isso com muita tristeza pra mim mesmo, parecia um eco de palavras. Porque sempre que estava ali, ela contava histórias grandiosas, mas no meio do caminho decidia voltar ao terror habitual, mas o que mais me incomodava nisso tudo foi que eu via a verdade nos olhos dela. Não parecia ser paranoia ou um conto que ela ouvia falar e passava aos netos como um amuleto ou herança. Não! De fato ela tinha visto algo. E de fato ela tinha visto, mas suas condições sempre faziam a gente recuar nesse mundo que ele acreditava piamente.
E foi nesse dia como qualquer outro, que encontrei essa carta de minha avó, ela dizia muitas coisas, mas ela destacava o medo que tinha de um tal de Asaph Sawyer, o medo profundo que torturava a minha avó, tinha um objeto como representação disso, era um anel dourado com dois símbolos que o caracterizava como algo impuro. Na carta ela também dizia que pobre do homem que tiver este anel em suas mãos. Pois a desgraça irá segui -lo até a consumação dos seus dias. E ela dizia que ter o contato com esse anel foi uma das coisas mais tenebrosas que poderiam ter acontecido em sua vida. Mas a descrença do grupo que sempre a rodeava fez ela ser mais uma pessoa paranoica nesse mundo.
Peguei a carta, guardei no bolso, eu precisava ir na casa de um amigo deixar umas coisas que minha mãe havia dado a mãe dele. Eu fui com todas aquelas palavras na cabeça e a carta no bolso. Aquilo poderia tirar o sono de uma criança. Tudo era muito profundo, mesmo que de primeira eu tivesse achado desconexo e sem explicação, mas entendi ao ter o contato com as palavras de minha antecessora. O anel tinha destruído toda noção que minha avó tinha, será que havia mais alguma coisa que eu simplesmente tinha ignorado nesses anos todos. Mas aí veio uma voz de cautela em minha mente "e se não for nada, e se sua vó só estava carente e precisando da atenção dos seus filhos e netos? E se ela simplesmente inventou tudo para cativar a atenção das pessoas? Por que alguém houvera ela se não fosse pelos contos? E se tudo fosse apenas loucura do transtorno psicológico que ela tinha, afinal, médicos sabem mais do que nós. E todos afirmavam com uma certeza absurda que a minha avó estava passando por momentos de uma aflição tão grande que alucinações eram convenientes. Foi quando decidi esquecer do papel. Do nome de Asaph Sawyer, e apenas fazer o que minha mãe tinha pedido a mim.
Levar as coisas na casa de uma pessoa e depois voltar para a minha, avisar meu chefe sobre alguns problemas. Agradecer pelo frango e viver a vida real, no plano que a gente vê e que de fato não tem dragões e nem feiticeiros. O fascínio que eu tinha sentido pela carta e a curiosidade em saber aonde a minha avó tinha deixado o anel, simplemtne desapareceram. E se o anel fosse tão ruim quanto ela dizia, ele não deveria estar mais por ali, não faria sentido. Assim como tudo que a minha avó dizia. Apenas o eu te amo era o importante nesses momentos de perda. E a falta que ela me fazia e faz fez com que eu simplesmente tivesse afeto pela carta, pela última carta de minha querida senhora de cabelos castanhos tingidos e sorriso largo. Minha adorada avó.
Após todo meu trajeto, eu voltei para o lugar aonde tinha guardado a carta da minha avó, lembro de olhar novamente, ainda incrédulo, mas algo bem forte em mim, me questionava da razão daquela carta. Todas as possibilidades que eu tinha criado pareciam lógicas demais, e algo infantil veio ao meu encontro, como se por algum momento eu devesse encontrar aquele anel e provar pra mim mesmo algo. Dentro de mim era conveniente acreditar no que os médicos falavam sobre ela. Mas eu queria ter a certeza. Vi que dentro da carta havia um mapa com a seguinte frase "se você encontra este mapa e tem interesse no anel, destrua. Não consegui fazer isso após usá-lo, ele mexe com a sua percepção do mundo e te torna gananciosa. O mapa está aqui pelo simples motivo de que eu não consegui esconde-lo e nem destrui-lo. Forças místicas fortalecem este material que aos olhos nus de um homem comum nada mais são do que papel e textura" eu abri um largo sorriso de descrença, porém pensei. Vou tirar a prova agora. E com toda a força que eu tinha tentei rasgar aquela carta e o mapa. E eu não conseguia, culpei a mim mesmo, mas aquele sentimento de descrença começou a ser substituído pelo sentimento de medo. Foi quando decidi em súbito de que precisava achar a localização daquele lugar que estava sendo apontado ali. E assim o fiz, peguei algumas coisas que eu tinha deixado em casa com o fim de começar a prática de alpinismo.
-Leve água, meu amor! - Minha mãe sempre gostava de ver o seu filho bem hidratado, mãe é uma mulher acima de todas as que eu conheci.
Pode deixar, mas logo logo estarei de volta - Eu falei todo confiante de que tudo iria dar certo. Pelo menos era o que eu queria acreditar.
Peguei o carro e dirigi até o ponto em que marcava como o local aonde o anel estava. Que coisa mais louca. Parece um túmulo! Foi a mentalidade do rapaz que vos fala quando percebeu as pedras daquele lugar e o frio que o cercava, eu realmente não compreendia a mudança do clima. Mas compreendi que a partir dali eu deveria tomar muito cuidado.
Fechei a porta do carro e peguei meus instrumentos de alpinismo que improvisei para aquela ocasião. Senti um calafrio como se alguém me tocasse constantemente na minha caminhada. Era algo diferente no mínimo. Porém me mantive calmo.
Um vento gelado passou entre meus músculos e eles ficarem rígidos como uma pedra. E no momento que falei pra mim mesmo que eu estava no lugar errado e na hora errada. As pedras se mexeram, eu realmente estava vendo pedras se movendo constantemente em minha frente. Sei um salto e logo busquei as chaves do carro para voltar para a minha casa, porém já não era mais tempo. Alguém estava ali, e não parecia alguém vivo ou desse plano. O que era perturbador.
Senti o odor nauseabundo da morte e quando as pedras se moveram na ideia de criar um caminho. Senti que as mãos que me tocavam antes, agora me empurravam com muita força, de maneira chocante e afligindo meus sentidos.
Foi quando vi ao longe o anel que minha avó tanto alertara, decidi pegar forças que restavam após o contato mórbido e corri em direção ao anel, foi quando o som da correnteza entrou dentro da minha mente e eu senti que tudo estava ficando mais apertado. Eu morreria ali, e no meu campo de visão, várias mãos me atacavam. Tendo como meta me prenderem ali, foi quando ao me debater senti uma dor horrível no meu tornozelo, e o gosto sufocante de ferro na minha garganta. Peguei o anel e sobre saltos com a perna esquerda sai de lá, até que tudo se fechasse. Quando me dei conta eu estava ofegante e o anel milagrosamente estava em meus dedos. Quando senti que.
Bom.
Eu não estava aonde eu deveria estar!
Uma voz forte veio ao meu encontro me pedindo para ficar quieto, era uma voz forte e acredito, era o dono daquele lugar e anel. E ele me perguntava o que eu queria. Se a resposta lhe agradasse eu poderia sair de lá com o meu desejo realizado, se não. Eu seria o novo recipiente.
Aquilo era loucura! Como eu poderia estar ouvindo aquilo e me sentindo daquele jeito. Parecia uma grande brincadeira com a minha cara. Mas quando olhei para a minha perna direita, ela estava destruída ao meio. Senti como se alguém tivesse quebrado ela por partes e o momento não era favorável nem para pensar em algo. Pensar em fortuna ou em vida eterna, meus pesadelos eram sonhos perto daquilo.
E ele me questionava. O que eu queria? Meu Deus o que eu queria? Eu só queria sumir daquele lugar. Só queria que este bruxo não me possuísse, e eu gritei forte.
Não quero ser como a minha avó foi!
Aquilo comoveu os céus que estavam admirando todo aquele conflito e uma grande chuva inundou aquele lugar. E o sentimento que apertava o meu peito se foi. O monstro que me tomou para si, agora estava calmo e os céus em sua agitação molharam todo o meu rosto. A Perna parecia que iria soltar do restante do meu corpo. Decidi fazer algo a respeito daquilo, após construir uma espécie de suporte com a madeira que eu tinha dentro do carro. E cheguei em casa.
Como eu não sei.
Vuuuuuuuuuuultooo!
Eu despertava assustado em minha cama, olhando ao meu redor com medo. Parecia que tudo não passava de um sonho e dentro de mim vinha o convencimento de que precisava queimar aquela carta. Mesmo tendo muito amor pela minha avó, aquilo estava me deixando doido.
Me levantei, mas sentia uma dor horrorosa na minha perna direita, mas não era nada semelhante ao que o sonho me convenceu de que era.
Lavei o rosto, olhei para o espelho e:
- Eu sou uma comédia, até parece. Minha avó está passando pra mim o seu legado - o deboche no meu tom de voz era nítido e a risada fluiu como algo automático.
Peguei minhas coisas para ir ao trabalho, foi quando peguei meu tênis, meu único tênis. E ele estava molhado, como se a chuva que eu tivesse tomado ontem fosse de fato algo real. O medo de doer o estômago entrou dentro de mim, senti no âmago que tudo que vivi naquela noite era real e que, meu Deus, aonde estava o anel?
Foi quando descalço caminho até a área da minha casa e vejo a figura da minha mãe vindo distante com sacolas grandes, e aos pouco metros se aproximando de mim. Eu a chamo como se eu tivesse dez anos e estivesse morrendo de medo.
Mãe!
Mãe!
E ao olhar para ela me vem à sensação de alívio, de Porto Seguro!
Porém ao olhar para a suas mãos. Ali estava o anel. E o sorriso que se alimentou de minha mãe naquela manhã. Não era o dela.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top