As Flores Morreram

Otávio é  um homem de 32 anos, pele clara e olhos verdes, com uma barba loira  que aparentava sobre um ponto algo similar a uma juba. Suas bochechas eram rosadas e queimava no sol, tinha uma altura entre 1.80 e 1.85, era forte e tinha uma barriga de aspecto duvidoso, para Carlos era algo similar  a um estoque de cervejas. Otávio bebia demais nas horas em que não estava trabalhando. Sempre muito ativo na política, critica todos os movimentos sociais e não conseguia encontrar razão para eles existirem, olhava com desdenho  a miséria que via na TV e nos seus dias e não considerava algo saudável alimentar seus dias com a pobreza que lhe cercava.

Olhos fechados não  conseguem ver o mal. pelo  menos eram as palavras que ele dizia para quem tentasse o convencer que havia miséria e que as pessoas lutavam por uma causa que era justificada na história. "História contada  pelos malditos comunas" ele sempre dizia isso, nunca deixando que as outras pessoas terminassem o raciocínio.

O problema que todos apontavam era que ele se sentia superior em sua bolha com seus livros regados em um misticismo de que ele deveria pensar positivo e que o passado era para ser deixado de lado, mal sabendo ele, que o passado é a história  de algo, mas como em seus olhos os "comunas"  dominaram o cenário acadêmico, ele apenas observava com desprezo.

Até que em certa feita, convidado por uns amigos, foi para um lugar aonde se chamava "vale dos livros" aonde tinha de tudo que a literatura poderia lhe apresentar. Ao admirar cada detalhe daquele lugar, ele encontra um livro com o seguinte nome "As Flores Morreram" ficou impressionado com a capa, e o drama que ele sentia ao tocar nas parte de alto relevo pensou em apenas um segundo, "Isso com certeza não foi feito por um comuna".
Ele olhou para os amigos que estavam com ele e começou a falar sem nem pensar direito no que estava prestes a fazer:

- Irei comprar este livro com capa nada comuna, para me certificar que não terei um sermão de Marx sobre o trabalho - Ele começou a rir debilmente  de sua piada como se fosse uma pérola lançada aos porcos, afinal ninguém riu.

Pegou o livro consigo e foi até a dona do local e perguntou quanto que estava o livros, pois não havia nenhuma identificação.

- Moço, tenho quase certeza que esse não é um dos nossos livros, talvez alguém tenha se esquecido. Se quiser deixar aqui, acho que o dono poderá vir buscar a qualquer momento - Você acha que o nosso jovem destemido barrigudo e presunçoso iria deixar isso barato, não. Ele não tinha a mania de nos  decepcionar quando apostavamos naquele homem bochecha. Ele fingiu abandonar a obra próxima ao local que encontrara, quando percebeu que ninguém o observava, bom o resto você já imagina.

Chegando em casa, exibindo para si um furto bem sucedido, tocou novamente na capa do livro. E  com uma vontade que nem ele ao certo entendia de onde vinha o abriu e  começou a passar as páginas por seus olhos quando parou no primeiro capítulo que vinha com um comunicado.
"SE VOCÊ PASSAR DESTA PÁGINA, VOCÊ TERÁ A PIOR EXPERIÊNCIA DA SUA VIDA"
Ele riu tolamente, não sabia ao certo o que seria a pior experiência da sua vida, mas com certeza ele não teria isso lendo um livro. Mas lembrou dos livros de Faulkner e confirmou com a cabeça "sim, isso era possível". Otávio odiava William Faulkner.
Após  Otávio ler algumas poucas palavras e cochilar por segundos, lá estava ele. De cabeça para baixo, olhando para uma árvore seca que estava a sua frente, não entendeu nada, poderia apenas ser um sonho. Foi quando suas costas arderam, como se alguém tivesse colocado baldes de aço que acabaram de sair de uma grande camada de fogo. Foi quando ele sentiu como se sias costas fossem se repartir em duas, três, talvez até em dez. A dor era terrível e o sangue subindo para o seu cérebro deixava a situação ainda mais tensa. A alma dele parecia  sair repetidas vezes enquanto o odor de carne podre o afogava. Ele não entendeu nada. Mas vozes vindas ao fundo, que no começo eram tão distantes e agudas e agora tão próximas e graves.

"Vocês estão matando meu escravo, saiam seus moleques desgraçados!"
Aquilo não parecia ser real, escravo? Escravo do que e  de quem, o homem se aproximou dele. Que mantinha os olhos fechados e a boca trêmula de dor. Quando sentiu ser desatado e caiu de rosto no chão.
Ele olhou para o homem branco que o soltou, era alguém que ele imaginava em livros distantes de história.  Os livros dos comunas. Mas ele estava agora de frente para com esse homem, não sabia o que dizer. Foi quando de maneira involuntária ele soltou um grito de pavor e dor. Quando olhou para as suas mãos. Ora brancas, agora negras. Em um momento estava feliz em seu lar quente e olhando para os outros com desprezo, agora seu vago olhar pestiava a mente de quem o olhava com desprezo. Aonde ele estava? Vagamente começou a pronunciar  algumas palavras, mas sem muito êxito, quando  finalmente questionou  o seu senhor de quem ele era.
- Você é meu homem, Nancy, sempre cuidadoso com os seus afazeres, mas vivemos em um mundo em que temos de nos cuidar meu jovem.
Otávio, agora era Nancy? Ele começou a pensar em como tinha chego lá, mas nada fazia sentido, foi quando perguntou de o por que deles estarem andando enquanto poderiam  estar em um carro.
Carro?
Pobre Otávio, não haviam carros há 200 anos, não  dá forma como ele estava acostumado.
Assim como não  estava  acostumado as dores que o assolavam naquele momento. Foi quando caiu em agonia e se lançou sobre o chão. O seu senhor que estava  próximo a ele se lamentou e  jogou sobre ele pequenas flores mortas que tinha colhido no campo para Elise, sua filha pequena de um pouco mais de três anos.
Otávio olhou para as flores e entendeu o porquê das palavras daquele livro que ele roubou no vale dos livros. Entendeu que o homem que um dia ele foi agora estava ali, com as flores mortas  de seu senhor. Ele entendeu que os livros de história eram sobre a história e  não estórias de cunho político. E  na sua aflição ele morreu. Morreu não  sendo mais o tolo que um dia já foi.

Pelo menos foi o que ele achou, quando  despertou ele estava  olhando para uma parede branca, e um teto branco  e uma mulher de branco cuidando  dele. Ele se assustou.

-Estou aonde? - logo olhando para as suas mãos que estavam rosadas.  Ele não era mais Nancy, voltou a ser o homem sedentário e barrigudo que sempre foi. Porém por que ele estava  ali?

- Você chegou graças ao seu vizinho, que lhe trouxe após ouvir gritos de socorro e palavras como, está rosa morta! Ele realmente se assustou. Ainda mais quando viu suas costas. Ele nos relatou que você estava  posição fetal chorando e gritando com os olhos vidrados no teto enquanto abraçava um livro. Ele guardou o livro e  nos trouxe você. Tudo bem, senhor Otávio?

Otávio não  estava  bem, suas costas queimavam, mas ele estava vivo. Foi quando olhou pras mulheres  e perguntou qual era o nome do vizinho que o ajudou, ele queria agradecer.

- Nancy Neto, senhor Otávio, este é  o nome do seu anjo da guarda.

Otávio saiu após alguns dias internado, e caminhou até sua casa, apenas olhando para o céu e para o horizonte, falando consigo mesmo.
- É, senhor Otávio. Você precisa repensar seu modo de ver o mundo! E  obrigado por ter me mostrado que eu sempre estive errado. Nancy!
E assim ele continuou caminhando naquela tarde de quarta feira, agradecendo  por mais um dia de vida.

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