Veneno sobre a grama - 5
Wulfric virou-se para o leste, olhando para o horizonte acima da copa das árvores, para o Véu. Depois voltou-se para Blitz, falando em um tom baixo e derrotado:
– Cuide de minhas roupas, okay?
A garota assentiu e pareceu segurar o riso. O rapaz estreitou os olhos, irritado, mas decidiu por ignorá-la.
Wulfric fechou os olhos e se concentrou em seu corpo, tornando-se ciente de cada parte, cada membro, cada órgão. Depois visualizou um lobo no olho de sua mente. Não um vira-latas pequeno e franzino, mas um verdadeiro lobo-cinzento. Concentrou-se também em suas roupas, para que elas mudassem junto dele naquela fera imponente. E então se transformou.
Sentiu seu corpo encolhendo de todos os lados. Sentiu seus músculos e ossos diminuindo e tomando outras formas. Seus cabelos pretos se espalharam pelo seu corpo, transformando-se em uma pelagem negra e hirsuta.
Wulfric não precisava de um espelho para ver que falhara mais uma vez em se transmutar naquilo que imaginara. Seu rosto estava próximo demais do chão para ser o de um lobo e ele ainda sentia suas roupas, agora largas como lençóis, tocando seu corpo.
Se cães pudessem suspirar de decepção, ele o teria feito. Ao invés disso, livrou-se de sua camisa ao sacudir sua cabeça como só caninos conseguiam. Ele não precisava ver as expressões das outras pessoas para saber que havia surpresa e diversão nelas, como fora com Blitz quando ele se transformara pela primeira vez junto dela.
Mas como culpá-los? Sua forma canina era simplesmente ridícula. Pequena, magra e coberta por pelos pretos arrepiados, além de dotada de um latido fino, que o animorfo se recusava a demonstrar, a menos que necessário.
Um autêntico vira-latas.
Wulfric balançou a cabeça, livrando-se daqueles pensamentos ruins e disparou para a floresta, sem olhar para trás.
Um som abafado e um leve bater de asas o comunicou que Aura o seguia.
Ele correu mais rápido.
Sua forma canina lhe provia várias vantagens sobre um corpo humano. Ele era mais ágil do que jamais seria. Não tão rápido quanto um lobo e, ainda assim, rápido. Podia saltar com facilidade por sobre os galhos e pedras que permeavam o chão da floresta e se enfiar nos cantos mais apertados para chegar onde precisava. Sua audição também melhorara. Podia ouvir o bater de asas de insetos a vários metros de distância e as notas dos cantos de passarinhos que eram agudas demais para um humano escutar.
Mas naquela situação, seu olfato era seu sentido mais útil. Cheirava o ar enquanto corria e captava odores diversos da floresta: grama fresca, flores recém-abertas, terra úmida, o tronco de uma árvore em decomposição.
Não demorou muito a encontrar o cheiro que procurava. Cheiro de elfo da floresta, uma mistura de pele, cabelos e suor, realçados pelo aroma de lilás e amoras do campo.
O odor ficava mais forte cada vez que Wulfric passava pelo corpo ressecado de uma dríade, onde Torithen havia parado por tempo o suficiente para matá-las.
E havia algo mais, um cheiro forte que Wulfric não imaginava encontrar flutuando por ali. Mana. Uma grande quantidade de mana. O spriggan havia dito que Torithen não tinha dom para magia, mas nunca comentara sobre ele possuir mana o suficiente para deixar um rastro fácil de se seguir.
"Espere um pouco, por favor", a voz de Aura soou dentro sua cabeça.
Wulfric estacou, deslizando pela terra sobre suas patas caninas. A voz da elfa, madura em contraste com sua aparência, soara em sua mente, perfeita e sem sotaque.
Wulfric sabia que animorfos se comunicavam telepaticamente quando em forma animal e vinha tentando fazer isso desde quando descobrira ser um deles. Ele só não esperava pela estranheza que sentira ao ouvir uma voz invadindo sua cabeça, vinda de todos os lados e lado nenhum.
A andorinha que o seguia o ultrapassou e continuou voando em direção ao Véu.
"Por aqui", ela disse, sem parar.
Wulfric a seguiu, sentindo-se consciente de que ele não poderia se comunicar com Aura da mesma forma que ela fazia. Rezou para que um aceno de cabeça ou um latido fosse o suficiente para qualquer pergunta que pudesse vir a seguir.
O Véu surgiu à sua frente, sem cerimônia e sem aviso. Uma simples parede de névoa, que se estendia até onde sua visão alcançava, para cima e para os lados. Aura o atravessou, sem hesitação.
Wulfric parou ali mesmo.
O rapaz o atravessara poucas vezes, mas em todas elas, nunca simplesmente o fizera sem hesitar. O Véu deveria ser algo normal para ele e para todos em Linsel. Uma simples cúpula de névoa que cobria a cidade e seus arredores. Mas ele não conseguia vê-lo dessa forma. Aquela parede de neblina parecia tão mais complexa, tão mais surreal. Ao atravessá-la, estaria em um mundo diferente do que conhecia.
Wulfric sacudiu a cabeça e obrigou-se a enxergar o Véu como nada mais que uma simples fronteira. Aquilo deixava as coisas mais fáceis.
Respirou fundo e o atravessou.
Sentiu frio, mesmo através de seu casaco de pelos negros de vira-lata. Seu nariz foi invadido por algo que não podia ser descrito como um cheiro. Lembrava mana, mas era tão mais discreto que Wulfric sequer conseguia descrever. Era como cheirar neblina. Era gelado e úmido e havia tanto que Wulfric pensou que iria se afogar naquele odor.
Nympharum desdobrou-se para seus olhos lentamente, revelando-se por trás da cortina de neblina a cada passo que dava. Ele já imaginava o que encontraria do outro lado, mas independente disso, seu senso de antecipação foi às alturas, para então ser substituído por um de decepção. Não era muito diferente de onde acabara de vir, o que já era esperado.
A floresta do spriggan era composta em sua maioria por plantas e animais que atravessaram o Véu. O lado de cá era apenas uma continuação.
Ousasse ele correr por mais algumas léguas, provavelmente encontraria coisas novas e surpreendentes, como as cidades dos elfos e as fortalezas dos anões.
Mesmo assim, olhou para cima, para algo que sempre seria diferente de Linsel. Para o céu extremamente azul pintado de nuvens brancas e fofas. Bebeu daquela visão e poderia ter continuado por horas até se fartar. Mas não havia tempo para isso.
Ele pôs-se a farejar.
Não foi difícil encontrar o rastro novamente. Wulfric achara que o Véu poderia interferir no odor, mas a hipótese provou-se falsa para sua sorte.
O cheiro da mana que ele acreditava ser de Torithen também se manteve. Wulfric o farejou, subindo uma colina gramada no processo. Ele olhou logo em frente.
Não havia nada ali além de campos extensos e verdes, salpicados por bosques aqui e ali. A pradaria se estendia até o horizonte e, segundo Aura, continuava além dela.
A animorfa pousou no galho de uma pequena planta silvestre repleta de flores iridescentes que Wulfric nunca havia visto.
"Era disso que eu estava falando", a voz da elfa soou em sua mente. "Não há nada à frente, além de léguas a fio de campinas entremeadas por colinas e vales. A cidade mais próxima é Vartes e ela fica de seis a sete dias por montaria daqui. Torithen não teria coragem de ir para lá. Eu o conheço e ele é um covarde".
A aspereza na voz mental de Aura ao mencionar o elfo surpreendeu tanto Wulfric que ele quase não notara o fato de que a animorfa acabara de liberar uma torrente de palavras bem articuladas e desprovidas de sotaque.
A elfa olhou para o sopé da colina antes de lhe comunicar:
"Torithen desceu a colina para poder usá-la como cobertura e depois seguiu para o norte. Depois de quase meia hora de caminhada ele virou para oeste, voltando para Linsel".
Wulfric não sabia se Aura esperava uma resposta na forma de palavras, mas tudo que pôde fazer foi acenar da melhor forma que conseguiu com sua cabeça canina. Depois disparou colina abaixo, seguindo o cheiro que se comportava exatamente como a animorfa havia lhe dito.
Sua teoria inicial parecia se confirmar a cada passo dado: a informação dada por Aura desde o começo era confiável e aquilo não passava de uma perda de tempo. Mesmo assim continuou.
* * *
Blitz deslocou o peso de seu corpo para a perna esquerda e ajustou a jaqueta de Wulfric que se pendurava de seu braço junto às outras roupas do jovem.
Meia hora se passara e nem sinal dos dois animorfos. Willow voltara a se fundir com sua árvore hospedeira depois de dez minutos de espera. Já o spriggan esperava junto de Blitz, apoiado em sua bengala e de olhos fechados, fazendo-a se perguntar se o velho Senhor da Floresta caíra no sono.
Uma andorinha sobrevoou a copa das árvores mais próximas e, segundos depois, um cachorro de pelos pretos ouriçados saltou sobre um arbusto baixo.
Blitz caminhou até uma árvore grossa o suficiente para esconder o corpo magro e pálido de um garoto de dezoito anos e jogou as roupas que segurava ali atrás, sem cerimônia alguma.
O pequeno vira-latas escondeu-se atrás da árvore e, minutos depois, um Wulfric de cabelos e vestes desarrumados surgiu dali.
– Aura estava certa, como eu já imaginava – o rapaz fez questão de pronunciar as últimas palavras da forma mais condescendente possível. – Há somente um descampado por centenas de quilômetros após o Véu. O cheiro desviou depois de uns duzentos metros, seguindo para o norte por mais ou menos uns três quilômetros e voltou para Linsel. Depois de atravessar o Véu, eu perdi o rastro por completo. Nada de cheiro de mana ou do próprio Torithen. Alguma coisa estava interferindo com meu nariz. Aura acha que ele pode ter usado algum tipo de magia da natureza combinada com alguma planta para mascarar seu odor por tempo o suficiente para fugir de algum animorfo ou familiar que o perseguisse.
– Ele não deveria ser um inútil em se tratando de magia? – Blitz perguntou.
– Aura disse que ele nasceu com pouca mana e tende a pensar demais na hora de realizar qualquer feitiço, mas eu não diria que ele é um inútil.
A garota pensou em perguntar por que ele teria usado esse feitiço só depois de atravessar novamente o Véu, mas a resposta não era tão difícil de se teorizar: ele se preocupou em fugir primeiro e cobrir seu rastro depois que se sentiu seguro.
– Então ele voltou para Linsel... – Blitz comentou. – Bem, pelo menos ele está em nossa jurisdição, de certa forma. – Virou-se para o spriggan. – Você o quer vivo ou morto?
A expressão de surpresa no rosto de Wulfric só foi superada pelo terror nos olhos do spriggan.
– O quê?! Pela Mãe-Terra, não, minha pequena! Nós não queremos machucá-lo! Nós queremos que você o ache e o traga para cá. Ele está sozinho, com raiva e confuso. Nós queremos ajudá-lo.
Blitz encarou o spriggan como se ele tivesse acabado de dizer que gostaria de punir Torithen com uma tarde regada à chá e biscoitos. Apenas um olhar desapontado e um leve balançar de cabeça por parte de Aura a convenceu de que ela não era a única a achar aquela situação algo absurdo.
– Você... pretende perdoá-lo depois disso tudo? – ela apontou para os corpos ressecados das árvores na clareira.
– Ele será punido, mas... Sim, no final, sim.
– Ele matou uma dezena de dríades. Talvez mais.
– E eu estou certo de que ele se arrepende disso.
Blitz balançou a cabeça, um sorriso irritado nos lábios.
– Você acredita demais nas pessoas, velhote.
– Com todo o respeito, pequena, mas você deveria tentar também.
A garota mordeu a língua para não despejar os palavrões que passaram por sua cabeça.
– Você quem sabe.
– Então vocês vão aceitar o trabalho? – o spriggan perguntou esperançoso.
Wulfric respondeu de imediato:
– Sim--
– Depende – a garota o interrompeu. – Precisamos falar sobre o nosso pagamento.
– Blitz...
– O que foi? Eles não parecem ter uma moeda corrente aqui e eu não vou aceitar ser paga em sementes ou casca de árvore.
– Blitz!
– Não se preocupe – o spriggan disse, não parecendo se ofender. – Tenho certeza que podemos chegar a um acordo.
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