Veneno sobre a grama - 3
A poeira e o cascalho que delineavam o caminho pelo qual seguiam logo se transformaram em folhas secas sobre um chão úmido e os campos que antes os rodeavam se tornaram um corredor cercado de árvores.
A trilha logo se abriu em uma clareira, criada pela sombra de uma grande árvore plantada no coração da mata.
Blitz nunca havia visto uma árvore tão frondosa quanto aquela e suspeitava que a espécie era oriunda de Nympharum. As folhas em formato de diamante variavam suas cores de verde para vermelho e de vermelho para amarelo. Seu tronco não podia ser abraçado, mesmo se meia dúzia de pessoas dessem as mãos para isso. Mas o que realmente impressionava a garota eram as raízes que se fincavam ao chão. O tronco em si terminava a três metros do solo, de onde as raízes se esticavam até a terra como os dedos da mão aberta de um pequeno deus. Cada uma tinha o diâmetro de uma árvore comum e juntas sustentavam a árvore no ar. Aquilo lembrava Blitz de fotos que ela vira em revistas, figurando árvores nascidas em manguezais que lutavam para sobreviver em uma terra quase que completamente encharcada.
Aquela em questão havia sido aproveitada como morada para algum habitante do Bosque. Paredes de pedra e barro usavam as grossas raízes como pilastras e se erguiam do solo, formando uma rústica choupana logo abaixo da base do caule. Musgo e videiras cobriam as paredes e mudas de árvores brotavam do teto da morada. Uma chaminé feita de um tronco oco e seco cuspia fumaça ao lado do topo.
A figura que os aguardava pacientemente na frente da choupana tinha forma humanoide, mas lembrava mais uma planta do que uma pessoa. O spriggan possuía a pele da cor do tronco de um eucalipto, coberta em várias partes por uma casca grossa como a de um sobreiro. Suas pernas eram como troncos de pequenas árvores e seus pés se tornavam raízes mais próximos do solo. Seu torso parecia ter sido forte como uma aroeira-vermelha, mas agora curvava-se como uma árvore velha ao vento. Os braços, como galhos retorcidos, terminavam em mãos com dedos longos e finos como gravetos. Blitz demorou a perceber que o spriggan se apoiava em uma bengala de madeira, a forma rústica do objeto confundindo-se com o próprio corpo da criatura. Seu rosto tinha trejeitos humanos assim como os nós do tronco de uma árvore antiga formam uma face, se observados por tempo suficiente. Sua cabeça terminava em ramos finos como os de um arbusto seco e o único verde na criatura vinha de sua longa barba formada por inúmeros filetes de musgo.
Em um fino galho espetado de seu ombro, uma andorinha de penas castanhas descansava tranquilamente.
– Vocês vieram – o spriggan disse e sua voz soou como folhas num vendaval. – Fico feliz por isso. – Um sorriso amadeirado surgiu em seu rosto. – Conversemos lá dentro onde é mais confortável.
A criatura virou-se e pôs-se a caminhar até a escada rústica que levava à porta da choupana, sua bengala batendo ritmicamente no chão a cada instante. Blitz não deixou de reparar que pequenas raízes se arrebentavam do chão toda vez que o spriggan erguia um de seus estranhos pés, como se brotassem dali a cada passo dado.
O Senhor da Floresta olhou para a escada que o separava de seu destino e suspirou. Wulfric já se prontificava a ajudá-lo quando o spriggan casualmente comentou:
– Aura, querida, ajude-me com os degraus, sim?
A andorinha posta em seu ombro bateu suas pequenas asas uma vez, saltando da criatura e pousando no chão de terra fofa na forma de uma jovem elfa da floresta. Tinha a pele escura, os olhos claros, e longos cabelos castanhos presos em uma trança intrincada que tocava sua cintura. Vestia um colete de couro sobre uma túnica esverdeada, calças escuras e botas longas. Uma bolsa feita de pele de javali pendurava-se a tiracolo.
Blitz olhou para Wulfric e não soube dizer se a expressão de encanto do garoto devia-se à beleza selvagem da animorfa ou à sua transformação perfeita.
Sem proferir uma palavra, Aura ajudou o spriggan a subir os degraus de pedra que levavam à porta de madeira da choupana e ambos entraram.
Os jovens se entreolharam e os seguiram.
* * *
O interior da morada se parecia um pouco com o que Blitz imaginara.
As paredes de pedra e barro deste lado tinham uma aparência úmida e eram cobertas por limo. Uma mesa de pedra se encontrava no centro do cômodo único, rodeada por bancos feitos de troncos de árvores. Em um dos cantos, um fogão à lenha rústico feito de pedra e barro, crepitava discretamente. Blitz não viu nenhuma cama ou esteira, mas a poltrona composta por galhos e raízes em um dos cantos a fez cogitar se era ali que o spriggan dormia, ou se ele sequer dormia.
O que a garota não esperava encontrar era um acervo de quinquilharias que fazia o prédio de Zephir parecer organizado. Livros, pergaminhos e papéis se espalhavam por todos os lados. Ervas secas e raízes cortadas se dependuravam do teto e balançavam ao receber a brisa de uma janela formada por nada mais que um buraco na parede. Caveiras, ossos, dentes e garras de animais e outras criaturas eram guardadas em uma estante improvisada onde potes de barro também se equilibravam.
O próprio ar era mais fresco ali dentro e cheirava a terra molhada, o que ainda não impediu a garota de espirrar ao sentir o cheiro de toda aquela parafernália:
– Atchim! – Blitz ouviu pequenos arcos voltaicos estalarem no ar ao mesmo tempo em que seus cabelos se arrepiaram diante do espirro.
O spriggan permaneceu alheio à descarga elétrica, mas a expressão assustada de Aura lhe dizia que ela tinha visto o show de fogos que era um espirro de Blitz. Mesmo assim a animorfa continuou calada.
– Que a Mãe-Terra lhe abençoe, pequena – o spriggan disse ao se virar e sorrir.
Blitz fungou uma vez e limpou o nariz na manga do vestido, ganhando um olhar de repreensão de Wulfric por isso. Ela assentiu uma vez para o spriggan, não querendo discutir o fato de que não acreditava na divindade do Povo da Floresta e acrescentou:
– Me chame de Blitz.
– Claro, pequena – o spriggan concordou e a garota se perguntou se ele realmente a entendera.
– Eu me chamo Wulfric Hund – o garoto disse. – E o senhor?
– Eu não sei – a criatura respondeu. – Eu abandonei meu nome há muito tempo, meu jovem. Faz parte da tradição para se tornar um Senhor da Floresta.
– Certo...
– Aura, querida, você se importaria de nos preparar um pouco de chá, enquanto conversamos?
A elfa apenas assentiu e pôs-se a encher um bule de ferro esmaltado com a água de um jarro de cerâmica.
– Ela é muda por acaso? – Blitz perguntou.
– Blitz! – Wulfric ralhou.
– Não, minha pequena – o spriggan respondeu, não parecendo se importar com a pergunta indiscreta. – Mas Aura ainda está aprendendo a língua comum. Ela entende bem, mas não se sente confiante o suficiente para falar, a menos que seja algo importante.
– Hmm...
– Eu não pude deixar de notar – Wulfric começou a dizer –, que você possui muitos objetos humanos por aqui. – Ele acenou para o bule que Aura usava, para os potes de vidro sobre a mesa e para um carrinho de madeira perdido em meio à toda a bagunça.
– Ah, sim. Nós não somos supersticiosos como todos acreditam, só buscamos viver de uma forma mais simples que a maioria.
– Então eu provavelmente poderia ter usado minha vespa para chegar até aqui sem problemas – O garoto fez questão de olhar para Blitz ao dizer isso.
– Ah, não. Eu agradeço por você ter evitado fazê-lo. O som dos veículos humanos assusta meu povo, ainda mais algo tão barulhento quanto uma lambreta.
O sorriso convencido de Wulfric desapareceu e Blitz deu as costas para o garoto a fim de segurar uma gargalhada.
– Certo... – ele comentou.
– Agora sentem-se, por favor – O spriggan acenou para os bancos ao lado da mesa e seguiu a passos lentos para sua poltrona enraizada na parede. Sentou-se e seu corpo pareceu fundir-se com a madeira do móvel natural.
Wulfric sentou-se à mesa e Blitz o imitou, cruzando as pernas e já dizendo:
– Então, por que estamos aqui mesmo? Zephir não nos deu detalhes.
– Bem, acho que para que vocês entendam o meu pedido, vocês devem entender um pouco de nossa cultura.
– Na verdade não – a garota interveio. – Você pode ir direto ao ponto.
– Blitz! – Wulfric a censurou. E virando-se para o spriggan, acrescentou: – Por favor, leve o tempo que precisar.
Blitz revirou os olhos e cruzou os braços, impaciente.
Aura surgiu ao lado de Wulfric, servindo o chá fumegante em um pequeno copo de cerâmica rachado e logo se dirigiu para a garota.
– Vamos ver... Por onde começar... – o spriggan murmurou. – Hmm... Bem, eu estou morrendo.
Wulfric quase se engasgou com o chá e até Blitz ergueu as sobrancelhas, surpresa. A reação de Aura foi mais discreta, mas as gotas de chá que escorreram sobre a mesa denunciaram suas mãos trêmulas.
– Ora, não façam essas caras – o spriggan disse entre risos. – Esta é uma coisa que todos temos em comum. Mesmo os espíritos de Anima perecem depois de vagar por algumas décadas, ou alguns séculos.
– O senhor tem certeza disso? – Wulfric perguntou.
– Ah, sim. Tenho sim. Meus galhos já não são tão fortes quanto já foram um dia e eu nem me lembro qual foi a última vez que uma folha verde brotou de um deles. Minha seiva não corre como corria antes e, além disso... – Ele levantou um dos braços do descanso da poltrona e pequenas raízes que pelo visto brotaram naquele meio tempo se arrebentaram com o movimento. – O corpo de um Senhor da Floresta sabe quando chega a hora de retornar para a Mãe-Terra.
– Eu não acho que podemos ajudar com isso – Blitz comentou ao provar do chá.
– Ah, não, minha pequena. – A criatura sorriu. – Eu me sinto abençoado por voltar para os braços de minha criadora. Entretanto, eu não posso deixar este bosque desprotegido. É minha responsabilidade nomear um sucessor como o novo Senhor da Floresta e ensiná-lo seus deveres antes que eu possa descansar.
O sorriso plácido do spriggan se dissolveu diante das próprias palavras e a criatura pareceu envelhecer dois séculos diante deles. Suas mãos se fecharam com força uma sobre a outra e seus ombros caíram como folhas secas.
– Havia dois irmãos que residiam neste mesmo bosque. Os dois eram jovens elfos da floresta, como um dia eu também fui e como a tradição do nosso povo diz ser necessário para se tornar um Senhor da Floresta. Minhas esperanças de obter um sucessor repousavam sobre os ombros destes dois jovens.
"O mais velho se chamava Torithen e o mais novo, Nerethen. Foram trazidos de Kalinae para cá quando ainda pequenos, depois que seus pais pereceram para uma doença rara".
Blitz notou o uso do nome Kalinae para se referir a Nympharum. Pelo jeito, Wulfric não era o único a não apreciar a nomenclatura humana dada para algum elemento do reino das fadas.
O Senhor da Floresta continuou, alheio aos pensamentos da garota:
– Vieram de Arthon, se não me engano, uma cidade conhecida por gerar kalinis muito talentosos, por se encontrar construída sobre duas linhas Ley".
"E eles realmente eram habilidosos, cada um do seu jeito. Torithen devorava meus livros como se eles fossem fugir daqui a qualquer momento. Já Nerethen tinha um talento nato para magia da natureza. Podia curar uma flor caída ou brotar uma semente seca com um simples toque. Ele poderia tornar-se até mesmo um druida se assim desejasse".
"O dia em que eu escolhi Nerethen, o irmão mais novo, como meu sucessor, foi um dia difícil para Torithen. Ele era um ótimo rapaz, mas sua mente racional atrapalhava sua magia da natureza. Ele sabia toda a teoria, mas falhava na prática. O coração de Nerethen era bom e puro, e ele usava sua magia tão naturalmente quanto nós respiramos. Por isso eu o escolhi".
"Mas Torithen não gostou disso. Ele se via no direito de ser elegido por ser o mais velho. Eu expliquei que isso não interferia na minha escolha e lhe disse que ele não deveria desperdiçar seus talentos simplesmente por não poder se tornar um Senhor da Floresta. Ele poderia muito bem virar um erudito, estudar em uma grande Universidade de Kalinae e ajudar o bosque com seus conhecimentos".
"Eu tentei convencê-lo, mas foi em vão. Torithen fugiu daqui e, antes disso, jurou vingança contra todo o Bosque".
Blitz descruzou as pernas ao notar uma pausa na explicação do spriggan.
– Então nosso trabalho é proteger o Bosque dessa vingança desse tal elfo? Pensei que fosse algo mais complicado... – a garota disse, um pouco desapontada.
O spriggan encarou Aura e hesitou por um segundo antes de dizer:
– Não, pequena. Nós nunca acreditamos nas palavras rancorosas de Torithen. E... E foi por isso que não estávamos preparados quando elas se mostraram verdadeiras.
Blitz arqueou as sobrancelhas e Wulfric parou seu copo de chá a meio caminho da boca.
– Deixe-me lhes mostrar – o spriggan disse ao se levantar de sua poltrona de raízes.
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