Veneno sobre a grama - 2

Wulfric chutou uma pedra do meio da estrada de terra, fazendo-a sumir em meio à grama alta. Ele tinha as mãos nos bolsos da jaqueta, os ombros caídos e uma expressão irritada no rosto que divertia Blitz.

– Eu me pergunto por que eu ainda tenho aquela moto – reclamou. – Parece que eu sempre preciso deixar ela em algum lugar e ir andando.

– São só dois quilômetros – Blitz comentou, escondendo o contentamento que sentia por trás de seu tom monótono. – E aquilo é uma lambreta.

– É uma vespa – o garoto corrigiu. – E por que não podíamos ir pelo menos até a entrada do Bosque com ela?

– Porque o Povo da Floresta não gosta muito de tecnologia humana e, aparentemente, o cliente tem sempre razão.

– Mas nós podíamos pelo menos ter chegado mais perto.

– Aqui já é território deles, então não.

Os jovens haviam viajado por meia hora antes de precisarem abandonar a lambreta em um posto de gasolina no meio da rodovia e seguir a pé.

Caminhavam agora por uma estrada de terra rodeada por amplos campos de grama verde e vistosa. Wulfric não parecia ter problemas em chutar a poeira do chão a cada passo dado, mas Blitz olhava para a terra fina que cobria suas botas pretas e suspirava sempre que pensava em limpá-las mais tarde.

O campo em si possuía mais vida do que Blitz já vira em um lugar só, provavelmente por ficar dentro do território das fadas.

Cervos pastavam tranquilamente no campo aberto, acompanhados de alguns carneiros e búfalos. Lebres saltitavam entre o mato alto e esquilos subiam e desciam das árvores esparsas para procurar comida. Blitz observou a andorinha que sobrevoava o pasto e uma jaguatirica que deitava-se sobre um galho de um arvoredo tortuoso e se perguntou se aqueles seriam simples animais selvagens ou seriam familiares ou ainda animorfos trabalhando como sentinelas para o Senhor da Floresta daquele local.

– Eu nem imaginava que nós aceitávamos trabalhos de faeries – Wulfric comentou quando Blitz já começava a aproveitar o silêncio que se formava.

A garota mordeu os lábios para esconder o largo sorriso que já surgia em seus lábios. A grande maioria dos habitantes de Linsel, fadas ou humanos, utilizavam o termo fada para se referir às raças de Nympharum. O fato de o rapaz usar o termo faerie para definir sua própria espécie confirmava algo que Blitz sempre suspeitara: o orgulho masculino era algo realmente frágil.

– É um preconceito estranho de se ter, quando você mesmo é uma fada.

Wulfric continuou olhando para frente, mas a garota notou um leve estreitar de seus olhos e obrigou-se a segurar uma risada.

– Não é preconceito – ele continuou, fingindo indiferença. – Mas eu achei que Zephir só aceitasse trabalho de humanos.

– Bem, você achou errado. Aceitamos praticamente qualquer trabalho, desde que nos paguem.

– Dinheiro, dinheiro, dinheiro...

Blitz estacou.

– Olha só, se você não precisa--

– É claro que que eu preciso de dinheiro, Blitz – o jovem a interrompeu. – Mas não é a única coisa que eu penso quando recebemos um caso.

– É... Tanto faz...

A jovem voltou a caminhar, mas parou ao notar que Wulfric não a seguia.

O garoto fitava o horizonte com expressão pensativa.

– Nós realmente estamos longe da cidade, não é? Dá pra ver o Véu daqui.

Blitz seguiu o olhar do rapaz através dos campos e das matas até onde uma parede de neblina parecia brotar do chão e se erguer até o céu, curvando-se sob ele como uma cúpula cinzenta do tamanho de um condado. Um clarão mais forte acima do horizonte leste era a única evidência de que o sol ainda existia e brilhava.

– Dá pra ver o véu de qualquer lugar da cidade – Blitz comentou. –Você só precisa olhar para cima.

– Você entendeu o que eu quis dizer. Eu estou falando da Fronteira.

– Estamos no limite de Linsel, então faz sentido. – Ela fitou o paredão de névoa e a curiosidade tomou conta dela por um instante. – Você... Você já esteve do outro lado.

Wulfric hesitou por mais tempo do que seria normal para aquela pergunta.

– Eu... nasci em Nympharum, mas cresci aqui. Já atravessei algumas vezes, mas nunca fui muito longe. Só queria ver uma cor no céu que não fosse cinza, sabe?

Blitz não sabia.

– E você não tem vontade de voltar? Ou pelo menos conhecer alguma cidade de lá?

Wulfric deu de ombros e essa foi sua única resposta.

– E você? Conhece Hominum?

A jovem negou com a cabeça.

– Por que não?

Ela não respondeu. Aquele assunto a deixava melancólica.

Deu de ombros.

– Não tem nada que você gostaria de ver?

Havia. Várias coisas.

Outras cidades, outras pessoas, o mar. Não o mero pedaço do mar que ela podia ver no litoral de Linsel, cercado por uma cortina cinza. Ela queria ver aquela imensidão de água que se estendia até o horizonte, como nos filmes. Mas principalmente, queria ver o céu azul. Queria ver o sol como o astro brilhante que realmente era e a lua em suas várias fases. E queria ver as estrelas. Incontáveis estrelas em um céu infinitamente negro.

Blitz deu as costas para Wulfric e voltou a andar.

– Vamos. – Sua voz soou um tom mais baixo. – Já estamos atrasados.

Wulfric não insistiu no assunto e a seguiu em direção ao grande bosque que os esperava no fim daquela estrada tortuosa.


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