Veneno sobre a grama - 12
Blitz desviou de mais um golpe de Nagina e saltou para evitar levar outra rasteira. A lâmia continuava atacando, rápida como sempre, mas a reação da garota estava retardada se comparada a antes.
Wulfric havia sido atingido, disso agora ela tinha certeza. Ela vira Aura lhe dando algo que esperava ser um antídoto e agora a animorfa o ajudava a atar a ferida na lateral do corpo.
Ela não admitiria nem para si mesma, mas temia pelo bem-estar do garoto.
Wulfric podia ser extremamente mole e incrivelmente ingênuo, mas era também um colega de trabalho suportável. Não falava muito e não se metia na vida de Blitz. Se ele morresse, que outro parceiro Zephir iria lhe arrumar? Um garoto bonitão e narcisista? Ou uma garota que usava somente rosa e pintava as unhas? A jovem estremeceu só de pensar nas duas possibilidades.
Blitz jogou-se para o lado, esquivando-se da ponta afiada da cauda de Nagina e sentiu a base do ferrão roçar em sua bochecha. Ela estava distraída demais.
A garota tentou concentrar-se na luta, mas seus olhos logo voltaram para Wulfric quando ela viu o animorfo caminhar em sua direção sozinho.
Nagina atacou e Blitz preparou-se para mais um chicotear quando notou o rosto da criatura a menos de meio metro do seu. O ataque com a cauda havia se tornado uma finta e a lâmia se aproximou o suficiente para conectar um soco com o estômago de Blitz.
– Para onde você está olhando, criança?! – Nagina gritou com um sorriso estampado no rosto.
O golpe pareceu carregar a força do coice de um puro-sangue e Blitz foi arremessada para trás como uma boneca de pano. O ar escapou de seus pulmões e uma ânsia de vômito surgiu logo em seguida. A dor veio depois.
Blitz rolou de mal jeito para absorver o impacto e lançou meia dúzia de rajadas elétricas à esmo, tentando afastar Nagina de sua forma indefesa.
A estratégia pareceu funcionar, pois quando a garota recuperou o raciocínio, a lâmia se encontrava quase no limite de seus ataques elétricos. A jovem ajoelhou-se e tentou recuperar o fôlego. Massageou a barriga dolorida e amaldiçoou Nagina em seus pensamentos. Aquilo iria deixar um hematoma feio em sua pele branca.
– Blitz! – Wulfric gritou e arremessou algo em sua direção. O objeto girou no ar rápido demais para ela identificar o que era.
A garota moveu-se muito mais por instinto do que por vontade. Estava cansada e ferida, mas tempo era algo que não tinha naquele momento. Saltou para trás, tentando igualar sua velocidade à da forma opaca atirada pelo jovem, e só então pôde distinguir o cristal de koriandita que voava em sua direção.
Blitz agarrou o cristal ainda no ar e uma sensação desconfortável de formigamento percorreu seu braço, surpreendendo a garota quase o bastante para fazê-la soltar o objeto pontiagudo.
Ela aterrissou, levantando poeira ao deslizar pela terra, e encarou o cristal em sua mão. Uma de suas sobrancelhas se arqueou, confusa.
O que diabos Wulfric esperava que ela fizesse com aquilo?
A resposta não era difícil de se deduzir. O cristal, como Trag lhe dissera, era praticamente uma bateria de mana, absorvendo a energia mágica de um ser que tivesse o azar de ser apunhalado por ele. Mesmo agora ela podia sentir mana saindo de seu corpo e atravessando a superfície lapidada do cristal para chegar em seu núcleo, deixando uma leve sensação de formigamento por onde passava em seu braço. Não era muito. Na verdade, era uma quantidade ridiculamente pequena. Ela não sabia o quanto o cristal conseguia armazenar, mas suspeitava que carregá-lo somente com o toque seria como encher um barril usando apenas gotas de orvalho. Não era à toa que fadas pareciam ter o costume de apunhalar outras fadas a fim de preenchê-lo com mana.
Koriandita, portanto, era uma arma e Blitz se perguntou se aquele era o plano de Wulfric. E, principalmente, se perguntou se o garoto havia pensado bem neste suposto plano. Apunhalar um oponente com aquele cristal não era uma má ideia, mas Blitz mal conseguia chegar perto de Nagina sem correr o risco de ser empalada e envenenada por sua cauda traiçoeira. Se ela fosse capaz de enfiar o cristal no peito daquela maldita lâmia, também seria capaz de encostar nela por tempo o suficiente para usar seu toque e descarregar eletricidade o suficiente para terminar aquela luta.
Nagina avançou em sua direção e Blitz xingou em voz baixa. Olhou para o cristal, ainda duvidosa quanto ao plano de Wulfric. Talvez aquilo funcionasse. Talvez usar o cristal mostrasse ser mais rápido do que usar seu toque. Talvez Nagina baixasse a guarda o suficiente para ela atingi-la com a koriandita. E talvez o inferno também congelasse.
Os olhos amarelos de pupilas verticais da lâmia seguiam suas mãos como se elas fossem armas mortais, prevendo cada movimento e o ângulo de cada raio que dali saía. Ela nunca...
Uma ideia cruzou a mente da garota. Blitz olhou de suas mãos para seus pés. Seus pés que Nagina sabia serem inúteis em se tratando de sua eletricidade. Aquilo era um tiro no escuro, sem dúvidas, mas era o melhor que tinha.
Blitz avançou em direção à Nagina. Ela não disparou nenhuma rajada. Não queria que a lâmia se afastasse ainda mais.
Ao se aproximar, a jovem atacou, estocando com o cristal da forma mais óbvia possível. Nagina desviou com facilidade exagerada e contra-atacou com suas garras. Blitz se abaixou e trouxe o cristal para cima, mirando no peito da lâmia.
– Isso é inútil, criança – a criatura sibilou ao desviar.
Blitz a ignorou e atacou novamente sem sucesso. Nagina girou o corpo, chicoteando na direção da garota com sua cauda. A jovem saltou em um arco lateral e abriu sua guarda ao aterrissar no solo gramado. Nagina avançou, garras afiadas prontas para perfurar sua presa e um sorriso de vitória já estampado no rosto.
Blitz não se preocupou em esconder suas mãos agora vazias.
Os olhos de Nagina se arregalaram e ela paralisou por um segundo.
– O quê?!
Blitz sorriu ao mesmo tempo que o pedaço de koriandita, que ela havia jogado para cima, caiu entre as duas. A lâmia seguiu o movimento do cristal com olhos confusos e a garota esperou até que ele estivesse na altura do peito da criatura.
Blitz girou o corpo, transmitindo o momento circular de sua cintura para seu pé em um chute poderoso. O calço de sua bota acertou o cristal e o dirigiu para o peito de Nagina.
A ponta vítrea encontrou resistência ao perfurar a pele grossa da lâmia e a criatura ameaçou atacar. Blitz encolheu o pé e chutou novamente, enterrando o cristal em seu peito. Nagina gritou e saltou para trás, se debatendo.
A cor do cristal foi de névoa acinzentada para um alvo puro, para depois acender-se como uma lâmpada branca. A absorção de mana era algo mais belo do que Blitz podia imaginar. Hipnotizante até. O suficiente para chamar sua atenção. O suficiente para fazê-la baixar a guarda.
Nagina girou em seu eixo e sua cauda transformou-se em um ciclone de escamas e músculos. Blitz percebeu a tempo o suficiente para desviar do ferrão, mas o restante da cauda a acertou com força, atirando-a ao chão.
A lâmia se aproximou da garota ainda atordoada.
– Sua pequena ratazana!
Nagina levantou Blitz pelos cabelos, uma onda de espasmos involuntários percorreu o corpo da jovem, paralisando-a por um instante. Ela já levantava a mão para tentar tocar a lâmia, quando sentiu algo roçar seu pescoço.
Blitz olhou para o ferrão de osso que tocava sua garganta e estremeceu levemente.
– Toque-me ou aponte um dedo sequer para mim, criança, e você sangrará até a morte antes que meu veneno possa fazer efeito.
Blitz rangeu os dentes e abaixou a mão devagar. Nagina continuou:
– Eu não sei se seu plano era sugar toda minha mana ou acertar meu coração, mas ambos seriam inúteis. – A lâmia agarrou o cristal fincado em seu peito e o puxou, deixando escapar um gemido de dor. Ela o jogou para o meio da floresta e um barulho quebradiço soou por entre a mata fechada, seguido por um som que Blitz mal podia descrever. – Um cristal apenas não é o suficiente para armazenar toda a minha mana. E quanto ao meu coração... – Ela sorriu. – Bem, ele não fica em meu peito.
A lâmia ergueu a garota mais um pouco, fazendo-a espernear de dor.
Blitz fechou os olhos e tentou se acalmar. Concentrou-se em sua mana, na esfera de energia que ela sempre visualizava ter em seu peito. Tentou transmitir tudo que tinha para sua cabeça, para cada fio de seus cabelos, para a mão de Nagina que a segurava com tanto descuido.
Era como tentar erguer um carro.
Ela sentiu seus cabelos se arrepiarem e um leve estalo solitário soou dali.
– O que você está tentando fazer, criança? Matar-me de cócegas? – Nagina disse e sorriu. – Eu pouparia minhas forças se fosse você. Não vai demorar muito agora.
A jovem parou de se contorcer e arregalou levemente os olhos. Outro sorriso sádico surgiu nos lábios da lâmia.
– Sim... É uma pena, mas eu mudei de ideia quanto a lhe aceitar em meu reino. Você é perigosa demais.
Blitz mordeu os lábios. Ela sentia-se ridícula. Paralisada. Impotente. E ela odiava sentir-se assim. Não tinha medo de morrer, mas odiava a ideia de perder para alguém, mesmo para uma oponente forte como Nagina.
A jovem olhou para seu lado, para Wulfric, se perguntando se ele faria algo idiota como tentar salvá-la, ou se ele começaria a chorar como uma garotinha quando Nagina lhe atravessasse o peito com a ponta de sua cauda.
Blitz encarou o rosto sereno de Wulfric e, mesmo naquela situação, não pôde evitar de franzir o cenho.
O garoto estava a pouco mais de dez metros de distância, observando tudo com uma calma desmedida, a mão na lateral do corpo onde havia sido ferido.
Ele estava paralisado? Podia aquilo ser consequência do veneno de Nagina? Ou simplesmente não se importava mais?
Então notou algo. Aura não estava ali. A garota olhou ao redor e não encontrou a animorfa em lugar algum. Seu instinto a levou a olhar para o círculo mágico desenhado no chão. Ela contou os cristais. Havia dois, onde antes havia quatro.
A compreensão a atingiu mais forte que o soco que levara da lâmia.
– Merda – Blitz disse ao deixar escapulir um sorriso maníaco. – Eu sou a maldita isca.
Os olhos da criatura perderam seu brilho confiante e ganharam um tom de confusão e surpresa.
– O quê? – ela perguntou ao mesmo tempo que uma grande coruja castanha surgiu às suas costas, um cristal branco e opaco seguro em suas garras.
A coruja se contorceu no ar e tomou a forma de Aura. A animorfa caiu sobre Nagina, as duas mãos segurando o cristal como um picador de gelo, e o enterrou com força nas costas da lâmia.
Nagina gritou e Blitz conseguiu se soltar quando a mão da lâmia afrouxou em seus cabelos. A garota caiu no chão e imediatamente saltou para trás, desviando de uma onda de ataques descontrolados da cauda da criatura.
A lâmia se debateu e gemeu quando o cristal brilhou mais forte, mais mana sendo absorvida pela peça lapidada. Ela levou as mãos às costas, tentando alcançar a koriandita, mas não teve sucesso.
Wulfric se aproximou de Blitz, observando com claro desconforto o desespero de Nagina.
– Você está bem? – ele perguntou sem tirar os olhos da lâmia.
– Eu é que te pergunto. Você parece estar morrendo.
Wulfric sorriu fracamente.
– Eu estou. Mas Aura disse que consegue criar um antídoto se tivermos uma amostra do veneno de Nagina.
– Hmm...
Blitz o encarou até que o rapaz olhasse para ela.
– Você me usou de isca – finalmente disse.
– Eu... Ah... – A voz do jovem soou arrastada. – É... Foi mal... Foi tudo em que consegui pensar e não dava pra te colocar a par do plano, porque se não Nagina podia ouvir e--
– Eu entendo. Mas não quer dizer que eu goste.
– Mas agora temos a vantagem. Temos uma forma de negociar com ela.
– Negociar?
Wulfric fitou o chão, envergonhado, antes de olhar para o limite da clareira.
Blitz seguiu seus olhos até o local onde Cenere se encontrava caída, uma cratera formada onde seu caule um dia existiu. E então o plano completo do garoto se formou em sua mente.
– Eu não esperava isso vindo de você – ela disse.
– Não... Não fale assim. Eu já estou me sentindo mal o suficiente. Como eu disse, foi a única forma de conseguir vantagem sobre ela para termos uma chance de negoci--
– Ela não vai desistir – Blitz o interrompeu e olhou para Nagina que ainda se debatia ao longe. – Ela não tem o que perder. Tentar reestabelecer seu reino é tudo que restou pra ela. Ela provavelmente prefere morrer a nos deixar vivos depois do que a fizemos passar.
– Nós temos que pelo menos tentar.
– É inútil, Wulfric.
– Eu...
– Não temos tempo pra conversas. Você não vai durar muito mais tempo. – A jovem deu um passo à frente.
– Blitz! Ela não é um espírito descontrolado de Anima. Ela é uma faerie. Ela pode sentir e pensar. Você não pode simplesmente matá-la.
A garota massageou a ponte de seu delicado nariz.
– Tá, tá! Só para de falar, ok? Não vai adiantar, mas se isso te deixar satisfeito, eu falo com aquela vadia.
Wulfric acenou com a cabeça num agradecimento silencioso e sentou-se no chão, ainda segurando seu flanco. Sua pele estava mais pálida que o normal e finas veias esverdeadas começavam a se espalhar por suas mãos e pescoço. Parecia que o garoto iria vomitar se até mesmo respirasse demais.
Blitz caminhou até Nagina, balançando a cabeça em descrença. Wulfric era gentil a ponto de ser irritante, mas a garota não conseguia odiá-lo por isso. Provavelmente porque ela sentia que ele estava sendo honesto.
Nagina parou de se contorcer quando viu Blitz se aproximar. A lâmia a encarou e a garota quase podia ver o ódio escorrendo em seus olhos. Mesmo assim falou:
– Meu parceiro ali é um idiota e acha que, apesar de tudo, você merece sobreviver. Eu acho que essa é uma ideia estúpida, mas ele não vai calar a boca se eu não te der a chance de fugir. – Blitz cruzou os braços. – Nós tivemos nossos... desentendimentos, mas você já descontou o suficiente no Bosque e em Wulfric e em mim. Atravesse o Véu, Nagina, e suma daqui. Tente recriar seu reino do outro lado ou em qualquer lugar, eu não me importo. Só não volte mais para minha cidade.
Uma risada maníaca escapuliu da boca da lâmia.
– Você realmente acha que eu vou simplesmente fugir depois de ser humilhada desta forma? Eu sou uma rainha! – Nagina gritou, espuma escorrendo pelos cantos de sua boca. – E eu vou matar todos vocês! Todos!
A lâmia abaixou seu centro de gravidade, o cristal brilhante ainda preso às suas costas curvadas, e então disparou na direção da garota com velocidade estupenda.
Blitz suspirou e girou o rosto apenas o suficiente para encarar Wulfric e dizer:
– Eu tentei. – Não havia condescendência em sua voz, ela estava sendo sincera.
Depois correu de encontro a Nagina.
A lâmia gritou ao estocar com a sua cauda. O golpe foi forte e veloz o suficiente para deslocar o ar em padrões circulares.
Blitz saltou. Simplesmente juntou todas as forças que tinha e saltou.
O ferrão de Nagina passou por baixo da garota e acertou o chão, formando uma nuvem de poeira e pedregulhos.
Blitz aterrissou sobre a cauda de Nagina e aproveitou a surpresa na expressão da lâmia para correr por toda a sua extensão. Ela a encarou ao se aproximar e acenou com a cabeça, como um esgrimista que reconhece um oponente à altura. A garota não sabia se a criatura a entenderia daquela forma, mas sentiu que era o que devia fazer.
Depois saltou ao mesmo tempo que as garras de Nagina buscaram sua carne.
Blitz girou o corpo por cima da lâmia e o tempo pareceu desacelerar por um segundo em sua mente. Ela pôde ver o cristal enterrado exatamente no centro das costas de Nagina e a crosta de sangue laranja que envolvia o ferimento sendo iluminada pelo brilho da koriandita carregada. Pôde ver também a face de Nagina e o momento exato que o entendimento se desdobrou em sua expressão.
Blitz sequer mirou. Aquela coisa era praticamente um para-raios a espera de uma tempestade. A garota apontou o dedo na direção de sua oponente e disparou uma centelha.
Eletricidade em um azul vivo percorreu o ar e seguiu seu caminho natural designado pelo Poder das Pontas até a koriandita.
O cristal recebeu a descarga, arcos voltaicos estalando através do ar. A koriandita começou a brilhar mais. E mais. E mais. O que se seguiu foi uma explosão de luz, quase inaudível. Energia pura criou uma esfera perfeita e branca que consumiu tudo à sua volta e então desapareceu, como se nunca houvesse existido.
Um segundo se passou e metade do corpo de Nagina foi ao chão.
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