Veneno sobre a grama - 11
A dor era imensa.
Wulfric achava que nunca havia sentido algo assim. Ele mal podia notar o corte em seu abdômen, ele era uma mera sombra diante da dor que o veneno da lâmia lhe trazia. Era como se ácido corresse por seu corpo ao invés de sangue. Ele podia sentir o veneno crepitando por suas veias como chamas, consumindo seus músculos e seus órgãos lentamente.
Aura correu em sua direção em sua forma humana e Wulfric esqueceu de seu sofrimento por um segundo, apenas o suficiente para sentir alívio em ver que a animorfa estava bem. Uma pontada de dor atingiu sua lateral quando ele tentou sorrir e o garoto curvou-se, deixando escapar um gemido angustiante.
A animorfa ajoelhou-se junto a ele, procurando freneticamente algo em sua bolsa de couro. Um tilintar de vidro soou quando Aura levantou uma pequena garrafa enrolhada.
– Beber – ela ordenou, já forçando aberta a mandíbula de Wulfric.
– O que é-- – o garoto tentou perguntar, mas Aura já enfiava quase metade da garrafa em sua boca, fazendo-o engasgar.
Wulfric engoliu o líquido sem ter na verdade outra escolha e surpreendeu-se ao sentir a dor em seu corpo começar a se aliviar após alguns segundos. Ela não sumiu por completo, apenas ficou ali distante, tomando conta de parte de sua atenção como um barulho irritante.
A dor regrediu o suficiente para que Wulfric pudesse se concentrar no sabor do líquido que acabara de beber, embora esperasse não tê-lo feito. A bebida tinha gosto de bile e uma textura oleosa que o garoto poderia jurar que nunca sairia de sua boca. Ele cuspiu uma bola densa e amarronzada de saliva antes de voltar-se para Aura:
– O que em nome de Neliel é isso?! – Ele fez uma careta ao sentir o sabor restante percorrer sua língua. – Tem gosto de fígado de cabra!
– Estômago – Aura corrigiu, como se fosse algo óbvio. – Óleo de Bezoar.
– Você anda por aí carregando um antídoto contra veneno de lâmia o tempo todo?
– Net. Antídoto não. – Ela procurou por palavras. – Contramenina.
Wulfric inclinou a cabeça, tentando encontrar sentido naquilo.
– Ah... Contramedida? – ele chutou.
Aura corou levemente.
– Sig. C-Contra-me-di-da – ela soletrou, aprendendo a nova palavra. – Deixar veneno lento.
– Espera... Só isso? Quanto tempo até o efeito passar?
– Até o desabrochar de um nenúfar-de-sangue em uma tarde de outono.
– O quê?
A animorfa balançou a cabeça, como se desapontada, e então disse:
– Dez minutos. Menos talvez.
– Perfeito... – Wulfric suspirou.
– Não. Ser muito ruim.
– Eu sei...
– Eu poder criar antídoto. Precisar veneno puro. – Aura apontou.
O jovem seguiu o dedo da elfa até Nagina que voltara a lutar contra Blitz. Seus olhos demoraram na garota por conta própria.
Menos de trinta dias junto da jovem haviam ensinado Wulfric algumas coisas sobre ela. Blitz era a garota mais cínica, fria, sarcástica e poderosa que ele já conhecera. O fato de que ele não conhecia muitas garotas vinha à tona quando ele pensava bem, mas ele preferia ignorar isso, por vários motivos.
Wulfric nunca admitiria para ela, mas ele não somente admirava Blitz como almejava ser como ela. A garota era forte e decidida, enquanto ele era fraco e hesitante. Desde a primeira vez que a vira lutar, uma sensação de admiração e inveja tomou conta dele.
Mas agora, no meio daquela luta contra Nagina, ele não podia evitar de vê-la como uma garota com limitações e fraquezas como todo mundo. E sua admiração, ao invés de desaparecer ao constatar isso, somente se solidificava ainda mais, porque apesar de tudo, ela ainda lutava.
E agora ela precisava de sua ajuda.
Mas o que podia fazer? Ele não conseguia se transformar em um animal grande o suficiente para defender alguém ou até a si mesmo. Um vira-latas não ajudaria ninguém naquela situação e transformar-se em um camundongo para lutar contra uma mulher-serpente seria tão inútil quanto irônico.
Ele encarou Aura, cogitando se ela podia fazer algo, mas logo mudou de ideia. Se fosse o caso, ela provavelmente já o teria feito. A elfa fora a única a ajudar Blitz afinal de contas.
As palavras de Nagina vieram à sua mente sem serem convidadas: "Analise seu oponente, ache suas fraquezas e use-as para esmagá-lo". A teoria era muito mais simples do que a prática. Quais seriam as fraquezas da lâmia? A criatura era extremamente rápida para uma faerie tão grande e extremamente inteligente. Era uma rainha, provavelmente uma estrategista acostumada com batalhas. Era confiante o suficiente para ameaçar todo o bosque mesmo encontrando-se em clara desvantagem numérica. E ainda pior, se não fosse por Blitz, muito provavelmente seria capaz de subjugar todos ali.
Wulfric teve de sorrir ao perceber que, de todos ali presente, a única ameaça para a Rainha de Naga era a pequena garota gótica mal-humorada com pouco mais de um metro e meio.
O jovem franziu o cenho, uma ideia cruzando seus pensamentos.
– Ela só reconhece Blitz como uma oponente – ele sussurrou.
– O quê? – Aura perguntou.
– Nagina. Ela nem sequer sabe que existimos. Para ela, a única pessoa capaz de derrotá-la é Blitz. Por isso você conseguiu surpreendê-la.
– Isso ser bom?
– Só se encontrarmos uma forma de contra-atacar.
Wulfric apoiou a mão no chão para se levantar e um leve formigamento percorreu todo o seu braço. O jovem encolheu-se ao encarar o cristal de koriandita caído no chão que acabara de tocar. Ele fitou seus arredores, percebendo que havia sido jogado próximo ao círculo mágico usado por Torithen para libertar Nagina. Um dos cristais estava logo ao seu lado e, aparentemente, depois de esvaziado, buscava absorver mana novamente.
Aquilo podia ser útil.
Ele tinha nas mãos uma forma de, no mínimo, enfraquecer Nagina. E se isso não fosse o suficiente...
Wulfric fitou o fim da clareira, onde metade de uma freixo encontrava-se caída ao chão, ao lado de uma cratera perfeitamente côncava escavada no solo.
Ele preferia não chegar a esse ponto, mas acreditava que seria muito otimismo de sua parte pensar que não precisaria usar deste trunfo.
Wulfric voltou-se para Aura, que agora retirava um rolo de ataduras de pano de sua bolsa.
– Qual o maior animal em que você consegue se transformar?
A animorfa inclinou a cabeça, confusa, mas respondeu:
– Coruja. Grande.
– O suficiente para carregar um desses? – Wulfric levantou o cristal em suas mãos.
Aura inclinou a cabeça para o outro lado.
– Sig. Por quê?
Wulfric levantou-se com dificuldades, a ferida em seu abdômen doendo mais que o resto do corpo agora. Bateu a poeira da roupa, mais por costume do que por necessidade, e disse:
– Eu tenho um plano – Depois suspirou profundamente. – Mas Blitz não vai gostar nada dele...
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