Blitz - 8

Wulfric empurrou a porta de madeira com cuidado e olhou pela abertura estreita. Blitz dormia tranquilamente, estirada na cama do quarto do terceiro andar.

Quando fora contratado, o rapaz achou que o prédio condenado servia apenas para conter o escritório de Zephir e que por isso tinha uma higiene tão questionável. Ficou surpreso ao descobrir agora que alguns dos quartos eram limpos e que existia até mesmo uma cozinha funcional no térreo do edifício.

Zephir havia lhe dito que ele tinha a liberdade para usar qualquer recurso no prédio e que a única regra era a de retirar os sapatos antes de entrar em qualquer cômodo cujo chão não fosse praticamente todo feito de poeira.

O garoto dissera para Laryssa que não queria retirar os sapatos e por isso não iria entrar no quarto. Mas a verdade era ainda mais simples: sempre que olhava para a mão esquerda enfaixada de Blitz, uma onda de culpa e remorso percorria todo o seu corpo.

A garota rolou na cama ao resmungar algo e puxar o cobertor sobre o corpo esbelto. Ela havia sido tratada e, depois de comer impressionantes quatro tigelas de mingau de aveia, caíra no sono. Passos soaram sobre o chão de madeira e Laryssa veio ao seu encontro.

A mulher já não podia ser chamada de jovem e tão pouco de velha. Tinha um rosto marcado, mais por rugas de expressão do que pelo tempo, e ainda conservava uma beleza selvagem. Cabelos pretos e encaracolados, pele oliva e um sorriso aconchegante.

Laryssa tocou a testa de Blitz, verificando sua temperatura e, ao ver Wulfric, sorriu. O jovem devolveu um sorriso sem graça e fechou a porta.

Tomou cuidado para não tropeçar nas sapatilhas da médica ou no coturno da garota ao caminhar para o escritório de Zephir.

Bateu na porta.

– Entre – a voz do homem soou abafada através da madeira.

Wulfric obedeceu, tirando o par de tênis antes disso. Caminhou até a mesa do homem e colocou as mãos nos bolsos para esperá-lo acabar de ler um documento qualquer.

– Sim? – Zephir perguntou, retirando seus óculos de leitura.

– Ela dormiu – Wulfric comentou.

– Bom. – E, ao ver a expressão preocupada do jovem, acrescentou: – Não se preocupe, ela vai ficar bem. Laryssa é uma médica excelente e uma curandeira excepcional. O melhor de dois mundos. – Sorriu.

Wulfric não devolveu o sorriso.

– Ela perdeu o dedo mesmo assim.

O sorriso de Zephir desapareceu.

– Ferimentos causados por um wendigo... não devem ser subestimados. A ganância dos espíritos que o formaram é tão grande que é capaz de corroer a carne com um mero toque. A cicatrização já é trabalhosa o suficiente, mas um membro decepado... – A expressão do homem ficou mais suave. – Eu tenho certeza que Laryssa fez tudo o que pôde.

– Eu não estou duvidando dela – Wulfric apressou-se em dizer, com medo de ter se expressado mal. – Eu vi como ela curou Natália. Ela vai ficar com uma cicatriz bem grande, mas vai conseguir andar como antes.

Zephir ergueu as sobrancelhas.

– Natália?

– A garota que Blitz salvou.

– Ah, sim. Claro.

A expressão de Wulfric se endureceu por um segundo, mas ele se manteve em silêncio. O jovem não entendia como Zephir e Blitz podiam se comportar de maneira tão alheia às outras pessoas. Eles não eram humanos? Não deveriam se preocupar com seus semelhantes? Como podiam ser tão frios?

– Se isso é tudo – Zephir voltou a falar, interrompendo seus pensamentos –, você pode se retirar. Vá descansar um pouco.

O homem voltou os olhos para os papéis em sua mesa e demorou meio minuto para perceber que Wulfric não havia saído.

– Mais alguma coisa?

– Por que você me contratou? – Wulfric fez a pergunta que o corroía desde a luta contra o wendigo.

Zephir pareceu confuso.

– Você precisava de um trabalho e--

– Não – o garoto interrompeu. – Não isso. Você me mandou vigiá-la, mas... Qual o motivo? Blitz é a elemental mais poderosa que eu já vi. Durante a luta, ela atirava raios como se não fosse nada demais e o jeito com que ela se movia... E no final ela fritou aquela coisa por completo. Eu pude sentir o cheiro de carne queimada de onde eu estava.

– É mesmo? – Zephir finalmente demonstrou alguma reação. – Blitz vomitou?

– O quê?! Não!

– Hmm... É um progresso...

– Do que--

– Ignore isso. Continue.

Wulfric hesitou, mas obedeceu.

– Tem outra coisa. Quando ela estava caída, eu farejei sua mana. Eu não gosto de fazer isso sem permissão, mas eu tinha que saber se ela estava bem.

– E?

– Se seu corpo aguentasse, ela ainda devia ter o suficiente para mais dois disparos! Da mesma magnitude! Ela pode ter um corpinho pequeno, mas tem mana para três pessoas!

Zephir não pareceu surpreso, apenas cruzou as mãos em frente ao rosto e perguntou:

– Onde você quer chegar?

– Ela não precisa da minha ajuda! Na verdade, se eu não estivesse lá, ela provavelmente não teria sido tão cautelosa e teria acabado com o wendigo logo no início. Ela não teria se machucado.

– Você não sabe disso. Ela poderia estar morta pela mesma razão.

– Mas...

– Wulfric, eu não te contratei para ajudá-la a lutar. Nós dois sabemos que essa não é sua especialidade.

Wulfric abaixou os olhos ao ouvir a verdade cruel nas palavras do homem.

– Eu te contratei para colocar um pouco de juízo na cabeça dura daquela garota e para vigiá-la para mim. O que me preocupa não são os monstros que ela enfrenta lá fora. São os que estão dentro dela.

Aquilo pegou o jovem de surpresa.

– Como assim?

– Eu não quero ser rude, mas isso não lhe diz respeito. E de qualquer jeito, não seria o meu papel lhe contar. – Zephir se recostou na cadeira, que rangeu com o movimento. – Fique com ela, Wulfric. E continue relatando a mim tudo que vir. – Uma pausa. – Mais alguma coisa?

Wulfric cogitou perguntar sobre as queimaduras na mão da garota, mas suspeitava que a resposta já lhe havia sido dada naquela mesma conversa. Aquilo também não lhe dizia respeito.

– Não – respondeu. – Era só isso.

– Muito bem. Vá para casa. Descanse. Eu lhe manterei atualizado quanto ao estado de Blitz, não se preocupe.

Wulfric concordou com a cabeça e saiu do escritório, batendo a porta atrás de si. Calçou novamente seus tênis e fitou a porta do quarto onde Blitz dormia. Havia tanto que o rapaz não sabia sobre ela. Ou sobre Zephir, ou mesmo sobre o trabalho que ele aceitara. Ninguém ali parecia gostar de falar muito sobre si, ou sobre qualquer outro assunto, e esses segredos o deixavam um pouco inseguro.

Wulfric olhou para o chão e riu de si mesmo. Quão hipócrita ele podia ser? Todo mundo tinha segredos, isso era uma regra. Ele não era uma exceção.

O rapaz parou na frente do quarto onde Blitz dormia e sentiu uma onda de remorso percorrer seu corpo. Sua forma humana não mais lhe parecia adequada. Ele era um rato. Um delator e um covarde. Deixara a garota se machucar e ainda alimentava Zephir com informações sobre ela. Mesmo que o homem lhe dissesse que aquilo era para o bem da jovem, Wulfric não conseguia se sentir melhor.

Mas não foi só isso que sentiu. Havia algo mais, escondido no fundo de se seu âmago. Uma pequena fagulha de felicidade que acendia sempre que lembrava do momento que Blitz o salvara. Ele não se sentia feliz pela garota ter se machucado, é claro, mas por ela fazer isso em parte por ele, um mero estranho. Eles estavam conectados agora e Wulfric confiaria sua vida à Blitz. E, mais que isso, pretendia pagar o favor. Não se preocupou muito quanto a isso. Acreditava que teria muitas chances de quitar a dívida. Eles agora eram parceiros afinal de contas.

Wulfric saiu do prédio abandonado de Zephir e sorriu ao ver sua vespa estacionada ali perto. Estava cansado e tudo que queria era ir para casa e dormir. Montou na moto ao mesmo tempo que colocava o capacete e puxava os óculos sobre o rosto. Deu a partida e finalmente acelerou, cruzando as ruas sob o céu noturno sem estrelas da Cidade da Neblina.


Fim


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Espero que tenha gostado da história. Este foi apenas um dos contos que compõe uma série bem maior que ainda está por vir. Você pode me seguir para não perder os próximos.  E não se esqueça de votar e deixar um comentário com sua opinião. Todo feedback é bem-vindo.

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