Blitz - 3

Wulfric estacionou a lambreta do outro lado da rua onde o galpão se encontrava. Blitz desmontou, pendurando o capacete no retrovisor da vespa, e caminhou até a cerca de ferro na outra calçada, sendo seguida pelo rapaz.

A jovem olhou para o norte. Ela podia sentir o cheiro da maresia, portanto não estavam tão distantes do oceano. O galpão ficava à apenas alguns quilômetros do píer mais próximo e ela acreditava que o local fora usado para armazenar mercadorias até que fosse possível transportá-las ao seu destino. Agora o lugar caía aos pedaços.

A cerca da frente do terreno era um berço para o tétano, o pátio frontal tinha o chão coberto por rachaduras e, onde quer que houvesse um resquício de terra, havia também ervas daninhas.

O próprio galpão poderia ter sido condenado. As telhas de zinco enferrujadas estalavam com cada toque do vento e pichações cobriam cada centímetro das paredes gastas da construção. No centro, um grande portão de metal jazia semiaberto.

Wulfric cumprimentou aquela visão com um leve assobio.

– E eu pensava que a minha casa estava prestes a desabar...

– Você pensou o mesmo quando viu o prédio de Zephir? – Blitz perguntou.

– Você não?

Ela não respondeu, apenas atravessou a cerca por um buraco já existente no arame, sendo seguida logo depois pelo jovem.

– O que diabos aquelas pessoas estavam fazendo aqui? Esse lugar é deserto.

– Não sei – Blitz respondeu sem ânimo algum para teorias. – Talvez justamente por ser tão vazio. Deviam ser jovens procurando por um lugar para beber, se drogar ou... ficarem íntimos. – Ela olhou para o garoto.

Wulfric corou e Blitz segurou uma risada.

– Ahem! – ele pigarreou. – Não devíamos começar a... Sei lá... Procurar pistas?

– Lá dentro – Blitz disse ainda sorrindo, depois caminhou em direção ao portão.

O interior do galpão lembrava o exterior. Chão rachado, sujeira, ervas daninhas. A luz do fim da tarde entrava pelas janelas quebradas e por algumas claraboias no teto. Vigas de metal enferrujadas seguravam o telhado de zinco e as paredes de concreto. Caixas de madeira vazias se espalhavam pelo lugar e uma pilha de troncos de árvores era vagarosamente consumida por cupins. Um outro portão de metal, dessa vez completamente aberto, jazia nos fundos do galpão.

– Então... – Wulfric falou, sua voz ecoando pelo lugar. – O que procuramos?

– Pistas – Blitz respondeu esfregando o nariz irritado.

– Que tipo de pistas?

A garota suspirou. Ela não gostava da ideia de ter um parceiro e o fato de ele ser um novato tornava tudo pior.

– Cabelos, ou mais possivelmente, pelos. Pegadas. Sangue.

– Pegadas neste monte de concreto deve estar fora de cogitação.

– É possível. – E ela logo se lembrou: – Fique de olho em qualquer mana estranha também.

– Ah... Certo... – Wulfric murmurou sem convicção.

Blitz estreitou os olhos ao fitá-lo.

– Você consegue sentir mana, não é?

– Mais ou menos. – O jovem parecia envergonhado. – Eu consigo farejá-la. – Ele coçou o nariz.

Coloquem seus narizes para funcionar, foi o que Zephir dissera. Blitz começava a achar que aquilo não era algum tipo de expressão.

– Bem... – Ela sinalizou com a mão. – Vá em frente.

– Certo. – Wulfric caminhou em direção à pilha de troncos. – Só fique aí, tá bem?

– O quê? Você tem vergonha?

– Só... Me dê um pouco de privacidade, ok?

Blitz revirou os olhos, mas cedeu.

Wulfric desapareceu detrás do monte de madeira. A garota ouviu um som estranho e abafado antes de escutar algo como tecido caindo no chão. O som de garras batendo no concreto pôde ser ouvido e a camiseta listrada de Wulfric deslizou em sua direção.

– Mas o que...? – Blitz sussurrou sem entender.

Algo lutava para se livrar da peça de roupa. A garota se aproximou com cautela e puxou a camiseta.

Um cachorro de pelos pretos e ouriçados e olhos castanhos a encarou. Era pequeno e franzino. O espécime perfeito de um vira-latas.

– Wulfric...? – Blitz perguntou sem confiança alguma.

O animal, que mal alcançava o joelho da jovem, abanou o rabo arrepiado e latiu uma vez.

Blitz começou a gargalhar.

O cachorro não pareceu gostar da atitude da garota, mostrando os dentes num rosnado feroz e latindo sem parar. Depois voltou para detrás da pilha de madeira.

– Ah, merda... – Blitz disse ao limpar uma lágrima dos olhos. – Eu não consigo respirar.

– Pare de rir! – a voz de Wulfric veio de detrás dos troncos e logo sua cabeça apareceu. – Por que você está rindo?

– Eu só... – Blitz falou, ainda segurando o riso. – É só que... Eu pensei que você fosse se transformar em algo maior.

– Tipo um lobo?

– É. Ou pelo menos um cachorro de verdade. – Ela voltou a rir.

– Não é tão fácil assim, ok? Eu só tenho livros pra me ensinar. É isso ou nada. Ou você prefere farejar por conta própria?

Blitz segurou a respiração para cessar o riso e se recompôs.

– Tá bom, tá bom... – Ela levou as mãos às costas e forçou uma expressão indiferente.

Wulfric ameaçou voltar para trás dos troncos, mas a garota interveio:

– Suas roupas não deveriam se transformar também?

– Como eu disse, eu ainda estou aprendendo. Não é nada fácil incorporar objetos à minha magia.

– Entendi.

Wulfric se escondeu.

– E você não deveria conseguir falar, mesmo transformado?

Wulfric voltou.

– Mesma explicação. Animorfos se comunicam telepaticamente. Você tem ideia de quão difícil é enviar seus pensamentos para outra pessoa?

– Tá, tá, entendi. Ser um animorfo é mais complicado do que parece. Só acho estranho Zephir ter te contratado mesmo com tantas limitações...

– Ele se dispôs a me ensinar o que podia sobre mana. E ele tem livros bem raros naquele escritório caótico dele, alguns sobre minha espécie. – Sua voz ficou ainda mais irritada. – E você não é perfeita também, ok?

Blitz estacou, sua expressão divertida desaparecendo.

De onde viera aquilo? Zephir havia falado sobre ela para Wulfric? Seus cabelos se arrepiaram com este simples pensamento, mas ela forçou sua voz a se manter calma:

– O que você quer dizer com isso?

– Seu controle sobre sua eletricidade não é lá muito bom.

– O que Zephir te disse sobre mim? – Seu tom se tornou sério o suficiente para deixar Wulfric desconfortável.

– Ele só me contou sobre sua magia... Por quê?

– O que mais?

– Só isso.

– Como você sabe sobre isso então?

– Sobre...?

– Minha... falta de controle – Blitz disse entre dentes.

– Eu... Não... Não foi difícil de adivinhar. Aquele choque que eu tomei na frente do prédio... Não foi simples estática e eu não acho que foi de propósito também. E, bem... Seu cabelo... – Ele apontou para a cabeça da garota.

Blitz respirou um pouco mais aliviada, seu cabelo assentando-se aos poucos. Ela falou com mais calma:

– Certo.

Wulfric parecia curioso para querer saber mais sobre a magia de Blitz, mas não corajoso o suficiente para perguntar. O que era conveniente para a garota, pois ela não queria falar sobre o assunto.

– Vamos fazer um trato – ela disse. – Você não comenta sobre minhas falhas, eu não comento sobre as suas.

– Fechado – Wulfric estendeu a mão para a garota que apenas ergueu uma de suas sobrancelhas. – Ah... Certo...

Ele recolheu a mão e voltou a se esconder. Mais uma vez Blitz ouviu aquele estranho barulho abafado.

Um Wulfric menor e muito mais peludo saiu dali, pondo-se a farejar o lugar. Blitz pensou em procurar por pistas também, mas pegou-se entretida ao observar o animorfo farejando por todos os lados.

Em um certo momento, Wulfric parou mais próximo do fundo do galpão e soltou um latido solitário.

– Você achou algo? – Blitz indagou, tentando ignorar o quão estranha se sentia ao conversar com um cachorro.

Mais um latido.

– O que foi? Vai me dizer que vamos usar um latido para sim e dois para não?

Um único latido. Blitz suspirou.

– Vou tomar isso como um sim. – A garota caminhou até o cachorro e fitou o piso. – É... Com certeza eles foram mortos aqui.

O concreto do chão ainda estava tingido de vermelho onde os corpos haviam sido devorados. Blitz ainda podia sentir o cheiro acre de sangue e também uma estranha mana pairando no ar.

– Consegue farejar algo de útil?

O cão latiu uma vez e correu para trás de uma das vigas de ferro. Mais uma vez aquele som abafado pôde ser ouvido e a voz de Wulfric soou dali.

– O cheiro de sangue ainda está forte e tem algo mais... Eu não sei descrever... É como carne podre, pus e...

– Você não precisa descrever o cheiro – Blitz o interrompeu, já sentindo a bile lhe subir a garganta. – Só o que pode ser útil.

– Tem uma mana estranha espalhada por todo o galpão e eu acho que o cheiro vem daí. Ela está mais forte onde o corpo estava, mas tem uma trilha seguindo pelos fundos.

– Sério? – A garota ergueu as sobrancelhas.

– Sim. Você não consegue sentir?

Blitz deu de ombros.

– Só a mana que está aqui.

– Bem, a trilha não é muito forte. Você provavelmente ia precisar de um bom nariz para isso.

– Pode ser. – E acenou teatralmente para o portão dos fundos. – Mostre o caminho.

– Claro, mas...

– Mas...?

– Você vai ter de levar minhas roupas.

Blitz estreitou os olhos.

– O quê?

– Eu é que não consigo levar, não é?

– Você não consegue usar seu focinho, sei lá?

– Qual é, Blitz!

– Ok! – A garota ergueu as duas mãos em forma de rendição e caminhou até onde as roupas do jovem se espalhavam sobre o chão. – Mas eu não vou sequer encostar na sua cueca ou suas meias.

– Só junte tudo e recolha com a jaqueta.

Blitz obedeceu, ainda irritada por ter de se sujeitar àquilo.

– Ah, droga! – Wulfric exclamou. – Minha moto! Eu não posso deixar ela aqui.

– Pode sim. Ninguém vai querer roubar uma lambreta.

– É uma vespa e eu não vou abandonar ela.

– Vai sim. Temos que achar a coisa que fez isso o mais rápido possível. – A jovem cruzou os braços ainda segurando as roupas do garoto. – Não era você quem queria salvar pessoas?

Wulfric pareceu lutar por meio segundo com sua consciência até dizer descontente:

– Você está certa. Mas vamos depressa.

Ele se escondeu atrás da viga novamente e, um segundo depois, o mesmo cachorro preto de pelos arrepiados saiu de lá. Latiu uma vez e correu para o portão dos fundos.

– Me espere! – Blitz gritou ao correr também.

Ela parou logo abaixo do batente de metal na saída, quando algo chamou sua atenção. A três metros de altura, ferrugem cobria quase todo o umbral. No meio da cor escura, padrões prateados de metal mais novo brilhavam nitidamente. Em mais de um lugar, o batente havia sido atingido por algo resistente e afiado o suficiente para deixar profundos arranhões no metal antigo.

Blitz começou a pensar no que poderia ter causado aquilo quando um latido interrompeu suas teorias.

Através do portão, na cerca de metal que separava o terreno do galpão, havia outro buraco, ainda maior que o da entrada e do outro lado, Wulfric latia, impaciente.

A garota olhou uma última vez para cima, para os arranhões que lhe traziam um mal pressentimento. Depois correu para onde o cachorro a esperava, na entrada de uma floresta que fazia divisa com o galpão abandonado.

O sol já se punha por trás do Véu, colorindo toda a névoa que cobria o céu com um laranja claro e vivo. Mesmo assim, os jovens adentraram a floresta densa já coberta pela penumbra.


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