- O Conto de Ano Novo -
PARTE UM
A luz suave do entardecer reluzia em tons dourados e sutilmente violetas, adentrando os corredores já reluzentes do palácio. No escritório de Kinmyuu, o aroma de café fresco preenchia o ambiente enquanto o Rei Supremo revisava os últimos relatórios holográficos do dia, antes de finalmente dar por encerrada toda aquela parte diplomática e burocrática um tanto tediosa de seu trabalho.
Após um longo espreguiçar, ele se recostou em sua grande e confortável cadeira de aspecto presidencial e apanhou a xícara fumegante do expresso recém saído da cafeteira, no balcão próximo a sua mesa.
— Lassie, liste meus compromissos para amanhã.
Disse em voz alta para a assistente I.A integrada aos sistemas do palácio, (Lógica Aprimorada para Serviços e Soluções de Inteligência Estendida - L.A.S.S.I.E) enquanto soprava levemente a xícara antes de bebericar sua terceira ou quarta dose só naquela tarde.
Uma voz neutra e ligeiramente metálica ecoou do sistema de som embutido nas paredes:
“Boa tarde, Sua Majestade. Segue a listagem de seus compromissos para amanhã:”
Um holograma translúcido emergiu diante de Kin como o layout de uma agenda, projetando horários e as descrições dos eventos. A voz continuou, acompanhada pela exibição visual:
08:00: Reunião com o Conselho Supremo para revisão de tratados inter-reinos para o próximo ano.
10:30: Audiência com o Ministro do Comércio de Cristábia sobre a ampliação das rotas de importação de gemas.
12:00: Conferência com os reis Mewgarth e Astormyuu de Technopia sobre os preparativos para o Festival da Convergência.
13:30: Almoço privado com a Rainha Suprema, Anmyuu.
15:00: Sessão de fotos para a revista The Regal, seguida da entrevista exclusiva para a edição especial de Ano Novo.
Kinmyuu parou de bebericar o café ao ouvir a última entrada, franzindo ligeiramente a testa. Ele abaixou a xícara e lançou um olhar intrigado para o holograma.
— Pausar listagem, Lassie. — Ele pediu, gesticulando com a mão na frente da agenda holográfica. — Me dê mais detalhes sobre o compromisso das 15.
A I.A respondeu prontamente.
“Sim, Majestade. A sessão de fotos e entrevista agendadas com a revista The Regal têm como objetivo principal apresentar uma faceta mais descontraída e sociável da realeza. A proposta editorial visa capturar e transmitir ao público a ideia de que, embora ocupem posições de imensa responsabilidade e seriedade, os membros da Coroa Suprema reconhecem e valorizam a relevância de momentos de lazer e celebração como uma parte indispensável do equilíbrio pessoal e social. Especificamente, o artigo demonstrará que mesmo o Rei Supremo pode se engajar em festividades e atividades recreativas, simbolizando que a realeza não está alheia às necessidades emocionais e culturais da nação. O destaque recairá sobre a importância das festividades de fim de ano como um período propício à conexão familiar e à celebração coletiva, posicionando Vossa Majestade como um líder acessível, equilibrado e consciente.”
A inteligência artificial encerrou com um leve brilho pulsante na interface holográfica:
“Deseja que eu forneça mais detalhes sobre a abordagem editorial ou a agenda específica do evento?”
— Sim, pode enviar a descrição… — Kin soltou um suspiro breve, apoiando os cotovelos na mesa enquanto esfregava as têmporas.
Assim como os extensos relatórios que analisava dia após dia, lidar com a mídia e a imprensa também nem sempre era a parte favorita de seu trabalho como rei, afinal, ele tendia a ser um pouco retraído quanto a esse tema.
Embora o Rei Supremo tivesse sido matéria da The Regal em diversas outras ocasiões, não se lembrava de quando exatamente ele teria concordado com uma entrevista de fim de ano, principalmente incluindo uma sessão de fotos.
Kin ergueu a cabeça e começou a ler na brilhante tela holográfica diante dele os detalhes do evento. Ele arregalou os olhos quando chegou a uma parte específica que descrevia como ele posaria para a capa da tal revista, e teve a certeza de que, definitivamente, ele não poderia ter concordado com aquilo. No entanto, sabia exatamente quem poderia tê-lo feito em seu lugar.
Decidido a confirmar suas suspeitas, ele atravessou os corredores do palácio rumo à arena-estúdio de Anmyuu. O espaço era cuidadosamente projetado, numa fusão fascinante entre a elegância do balé e a disciplina marcial. De um lado, barras longas e polidas ladeavam um enorme espelho que dominava uma parede inteira, refletindo o ambiente em suas nuances de luz natural filtrada por amplas janelas com cortinas esvoaçantes. O chão de madeira clara era impecável, marcado apenas por leves arranhões, testemunhas das sessões intensas que a rainha praticava ali.
Já do outro, haviam espadas e katanas em diferentes tamanhos cuidadosamente dispostas em suportes dourados, com suas lâminas brilhando à luz do entardecer que entrava pelas janelas, enquanto alvos circulares e manequins de treino alinhavam-se ao longo das paredes.
No centro amplo do estúdio, Anmy se movia como uma corrente de água em meio a uma tempestade. Vestia com um colant roxo de mangas longas que abraçava sua silhueta e uma saia translúcida de tule, com suas pernas protegidas por sapatilhas afiadas que faziam fusão entre balé e artes marciais, ela exalava uma aura de concentração absoluta. A cada passo, seus pés deslizavam ou golpeavam o chão com precisão, alternando entre piruetas leves e avanços calculados.
Em cada uma de suas mãos havia uma katana de cabo ornado, e ela as girava em arcos graciosos, fluindo com o ritmo de seus movimentos. Anmy inclinava o corpo em arabesques perfeitos, girando a lâmina em cortes horizontais precisos antes de girar em um fouetté que terminava em um estocada mortal contra um dos pobres manequins de treino. Seus olhos brilhavam de intensidade e satisfação ao acertá-lo, e seu controle era tão absoluto que tudo parecia mais uma dança hipnotizante do que um combate.
Kin parou à entrada, observando-a por um momento. Com um derretido suspiro apaixonado ele sorriu de canto, admirando tanto a habilidade quanto a beleza singular de sua rainha em ação, além de sua periculosidade que parecia atraí-lo ainda mais. Anmy definitivamente era uma fêmea fatal.
Após assistir mais um pouco em silêncio, forçando-se a sair de seu transe, ele bateu levemente na moldura da porta, chamando a atenção dela sem interromper a fluidez dos movimentos.
— Anmy, amor? — ele chamou suavemente, esperando-a terminar para que olhasse para ele.
Anmy finalizou a sequência com um giro elegante, a katana descrevendo um arco perfeito antes de ela repousá-la em seu suporte próximo. Voltando-se para Kin, um sorriso surgiu em seus lábios ao enxugar a testa com uma toalha leve.
— Oh, olá querido. Stalkeando sua própria esposa de novo? — Ela brincou, já que era costumeiro que por diversas vezes, Kin assistisse seus treinamentos em silêncio para não atrapalhá-la, entre um suspiro derretido e outro.
Kin suspirou teatralmente, cruzando os braços.
— Te observar sempre vai ser um deleite, mas dessa vez, não vim só por isso. Eu queria perguntar o que você sabe sobre uma coisinha que apareceu nos meus compromissos de amanhã… Sessão de fotos para The Regal, uma entrevista, e... — ele hesitou um pouco, erguendo uma sobrancelha. — Banheira de champagne?!
Anmy soltou uma risada melodiosa, inclinando a cabeça para o lado enquanto se apoiava casualmente na barra de balé.
— Ah, sim. Eu imaginei que essa seria sua reação, por isso não te disse nada antes, ou você poderia tentar cancelar.
Kin balançou a cabeça, fingindo indignação.
— Com toda certeza eu tentaria. Você sabe que eu não sou exatamente favorável desse tipo de coisa, Anmy… Quer dizer, sei que não posso fugir de entrevistas relacionadas aos interesses do reino, e até ok uma matéria querendo saber como nossa família pretende celebrar o final do ano, apesar disso soar meio que um tabloide de celebridades e eu não ser muito fã. Agora, uma foto minha segurando uma taça em uma banheira de champagne?! Isso é meio que… ostentação demais, não acha? Não é a cara de algo que eu faria… Deviam ter chamado o Rámewtep, afinal, ele é o faraó de Mesgyptian, e até as privadas são de ouro por lá. Esse tipo de coisa deve ser só mais um dia comum pra ele.
Anmy já esperava que Kin fosse buscar todo tipo de justificativa para escapar daquele artigo, e ela já estava preparada para rebatê-lo. Ela se aproximou, colocando a ponta dos dedos no queixo dele, um gesto que sempre o fazia amolecer um pouco.
— Eu sei, mozão. Mas olha só, a ideia por trás do artigo é mostrar que até o Rei Supremo sabe se divertir. Nossos súditos vão adorar isso. É época de festividades, descontração, e vai ser bom pra você se deixar levar um pouco. Mostrar que somos mais do que nossas coroas e responsabilidades.
— Mas amor, eu já me deixo levar. Você me conhece, sabe como eu sempre me divirto com você e as crianças.
Ele tentou justificar novamente.
— Pois é, mas só nós conhecemos esse seu lado, justamente porque somos sua família. Esse é exatamente o cerne da questão, querido. Todos te admiram, mas também querem te conhecer como pessoa. Você sempre diz que não gosta de toda essa formalidade, então esta é a oportunidade perfeita de mostrar sua versão mais descontraída.
— Mas eu já mostro pra outros além da nossa família…
Anmy cruzou os braços e o encarou com uma sobrancelha erguida e um olhar desafiador.
— Ah, é mesmo? Se você está falando de Myu-Shu, Rámewtep e Mewelsya, eles não contam.
— Por que não?— Kin perguntou parecendo ter sido pego de surpresa, enquanto gesticulava com os braços.
— Porque são seus melhores amigos do colégio, e a Elsy além de amiga foi sua namorada. Te conhecem tanto quanto eu, amor, então não tem mais o que “revelar” pra eles. Diferente do nosso povo.
Kin suspirou, percebendo que seu único argumento tinha ido por água abaixo.
— Tá você me pegou… Olha, eu não tenho nada contra me mostrar o mais acessível possível, pra não ficarem com aquela imagem de “aaah é o Rei Supremo, ele é um semideus, uau…!” — Kin disse com sarcasmo, fazendo uma voz meio esganiçada um tanto cômica — Mas toda essa matéria parece meio exagerada. Quer dizer, banheira de champagne? É tipo, tão… — Ele fez um gesto amplo com as mãos, indicando a extravagância implícita.
Anmy riu de novo, mais suavemente dessa vez, passando os braços ao redor do pescoço dele.
— Qual o problema? Você adora champagne.
— Também adoro café, mas você não me vê entrando numa banheira cheia de expresso…
Anmy cruzou os braços novamente e o encarou incrédula.
— Fala sério, amor. Essa é literalmente uma das suas maiores fantasias! A diferença é que você quer que eu também entre nela…
Pego pelas próprias palavras, Kin limpou a garganta, disfarçando o olhar e coçando atrás da nuca.
— Caham… T-tá, mas… Eu não tiraria uma foto disso e usaria como a capa de uma revista distribuída em altas tiragens pra todos os reinos do nosso mundo…
— Ah, isso é só um detalhe. Além do mais… — Ela voltou a abraçá-lo apoiando-se em seu pescoço, usando seu olhar sedutor — A The Regal vai me enviar um pôster emoldurado com a foto da capa, e eu vou adorar te ver numa banheira de champagne toda vez que eu entrar no meu closet. Porque é exatamente ali que eu vou pendurar, bem perto de… um tipo de roupa bem específica que eu só visto pra você…
Kinmyuu sentiu tensão atravessar seu corpo enquanto um arrepio delicioso lhe subia, como uma chama acabando de acender. O tom propositalmente sedutor e as implicações cuidadosamente colocadas de Anmyuu mexeram com ele de uma maneira que somente ela sabia muito bem fazer.
— Ah, é? — Ele inclinou a cabeça para o lado, o timbre da voz assumindo uma leve rouquidão, enquanto um brilho malicioso e interessado acendia em seus olhos. — Bem, quando você coloca dessa forma, me sinto um pouco mais inclinado a aceitar…
Anmyuu sorriu, mordendo de leve o canto do lábio, sabendo exatamente o efeito que tinha sobre ele.
— Eu sabia que esse seria um ótimo argumento pra convencê-lo.
Kin passou as mãos pela cintura dela, apertando-a levemente enquanto inclinava o rosto, aproximando-se só o suficiente para fazer o coração dela palpitar, brincando um pouco antes de ceder completamente à provocação. Ele também sabia jogar aquele jogo.
— Pois é, mas estou começando a achar que essa capa de revista não é tanto para o povo, mas pra algum tipo de coleção privada sua… — Ele arqueou uma sobrancelha com um olhar galanteador, enquanto aproximava os lábios bem próximos aos dela.
— Digamos que vai servir bem aos dois propósitos — ela respondeu, quase inocentemente, embora o olhar continuasse sendo tudo menos isso.
Kin riu baixinho, balançando a cabeça enquanto apertava mais seu corpo contra o dela, sobre a parede espelhada, propositalmente deixando-a sentir a excitação provocada por ela.
— Me seduzir para me convencer é um golpe muito baixo, sabia?
Ele perguntou, mantendo o olhar malicioso refletindo seu desejo. Anmyuu de fato poderia conseguir dele qualquer coisa que quisesse.
— É por uma boa causa... Você sempre diz que não quer viver preso só à sua imagem de Rei Supremo, e que às vezes gostaria que te vissem apenas como Kin. Então essa será sua chance, mozão. Além do mais — seu tom de voz se tornou mais macio e sugestivo, enquanto quase sussurrava — eu prometo que irei recompensá-lo por isso…
Kin sorriu com lascívia e agarrou Anmy com mais força pela cintura, fazendo com que ela se apoiasse sobre a barra de balé presa a parede.
— Hmm… Não sei… Acho que vou precisar de alguma garantia. Tipo uma rápida demonstração…
O rei então inclinou-se, aproximando seus lábios da delicada curva do pescoço de sua rainha. Ele começou a distribuir beijos quentes e lentos, deslizando da base do pescoço até o ombro exposto, onde fez uma pausa para mordiscar suavemente, arrancando dela um suspiro entrecortado.
Anmyuu deslizou as mãos sobre os ombros de Kin, agarrando o tecido da camisa enquanto se inclinava para dar mais espaço à investida dele.
— Tá, é justo… Mas você sabe que com você nunca é…rápido...
Ela murmurou, com a voz carregada de desejo e rendição, enquanto um sorriso de satisfação culpado se curvava em seus lábios.
Kinmyuu continuava a explorando com seus lábios, deixando sua marca em cada centímetro por onde passavam.
— E não é exatamente assim que você gosta?
Ele sussurrou, terminando com um sorriso provocador, enquanto seus dedos subiam pelas costas de Anmy, antes de por fim tomar seus lábios em um longo beijo.
Felizmente, antes de continuarem, ambos se lembraram de usar seus poderes psíquicos para trancar a porta do estúdio, dessa vez…
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